Rosana Lanzelotte interpreta Ernesto Nazareth

ATUALIZAÇÃO - 23/09/09



A cravista Rosana Lanzelotte está à frente do projeto que disponibiliza, pela primeira vez, a totalidade das obras de Ernesto Nazareth - recuperadas, revistas e editadas - e lança o CD com 15 peças do compositor - inclusive duas inéditas.

Concertos em São Paulo (27/9), Rio de Janeiro (29/9) e Belo Horizonte (11/11) marcam o lançamento.



As partituras das 218 peças estarão disponíveis no site Ernesto Nazareth. Rosana promove também Oficinas Virtuais – à distância - com estudantes e músicos de todo o país.

Ernesto Nazareth, gênio da música brasileira (1863-1934, Rio de Janeiro), costuma ser lembrado por algumas de suas criações mais famosas – em especial, Odeon, Apanhei-te Cavaquinho e Brejeiro. Mas sua obra ultrapassa em muito essas poucas referências e tem uma diversidade insuspeitada. A cravista Rosana Lanzelotte, dentro do Projeto Natura Musical, faz em setembro o lançamento do site www.ernestonazareth.com.br e do CD Nazareth - selo Biscoito Fino - em que registra 15 peças do compositor – incluindo as inéditas Encantador e Furinga, e outras jóias raras do repertório nazarethiano, como Fidalga e Elegantíssima. O site dará, pela primeira vez, acesso à totalidade da obra do compositor: 218 peças de sua autoria, revistas e editoradas.

O CD Nazareth conta com as participações do percussionista Caito Marcondes e do violonista Luis Leite. “Selecionei, na obra de Ernesto Nazareth as peças que mais se adaptam ao cravo”, diz Rosana. O próprio Nazareth estipulava em algumas de suas obras ‘aqui o acompanhamento deve se assemelhar ao violão’ ou ‘ao cavaquinho’ - instrumentos de cordas pinçadas, como o cravo, que lhes confere uma característica rítmica, além da harmônica. “Passeamos por timbres variados, começando pelo cravo e chegando ao pianoforte – de sonoridade mais próxima ao piano de Nazareth do que um grade piano moderno de concerto. A paleta é enriquecida pela percussão inventiva de Caito e pelo violão de Luis”.

“Uma única faixa não foi composta por Nazareth - o Lundu de autor anônimo anotado pelos naturalistas Spix e Martius durante viagem pelo Brasil entre 1817 e 1820. A intenção foi registrar um dos primeiros gêneros tipicamente brasileiros, que Nazareth aproveitou em suas primeiras polcas-lundu, como a Cuyubinha, que também gravamos”, revela a cravista.


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Os artistas

Rosana Lanzelotte
Sempre empenhada em projetos inovadores, Rosana registrou em CDs obras raras de Bach, Haydn e Neukomm, sonatas inéditas do português Avondano, e obras brasileiras do séc. XX. A carreira de solista levou-a a importantes salas de concerto, como o Wigmore Hall (Londres), Sala Gaveau (Paris), Otto Braun Saal (Berlim) e Fundação Gulbenkian (Lisboa). Foi agraciada com o Golfinho de Ouro e com a comenda francesa Chevalier des Arts et des Lettres.

Caito Marcondes
Com 35 anos de carreira, o multinstrumentista, compositor e arranjador vem se destacando por trabalhos para orquestra, balé, cinema, gravações e shows com grandes nomes da música brasileira e internacional. Tem feito constantes turnês pela Europa com seu trabalho solo e com grupos que executam a sua música na Bélgica, Itália, Alemanha e Holanda.

Luis Leite
Dedica-se a diferentes estilos, como jazz, música brasileira, clássica e contemporânea. Graduou-se com mérito na Universität für Musik Wien e obteve o primeiro lugar em importantes concursos internacionais de violão, como "Ivor Mairants" (Londres) e "John Duarte" (Rust). Desde então tem se apresentado como solista em diversos países e com grandes nomes do jazz internacional. Atualmente é professor da Universidade Federal de Juiz de Fora.


Escorregando


Atrevidinha



Fontes:
Biscoito Fino
Página de Rosana no YouTube
Site Ernesto Nazareth


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ATUALIZAÇÃO - 23/09/09

Uma das coisas mais legais no Portal é o carinho que recebemos de alguns amigos que aqui conhecemos. O Gilberto Cruvinel me mandou um recado dizendo que leu a reportagem sobre a Rosana Lanzelotte no Globo de ontem e lembrou-se de mim. Teve o trabalho de digitar a matéria do jornal para que eu pudesse atualizar o post. Atenções e amizades assim não têm preço!
Beijo, Gilberto!


Cravo brejeiro

Rosana Lanzelotte relê a música de Ernesto Nazareth pelas teclas do ancestral do piano

Publicada em 22/09/2009 - O Globo

João Máximo


(Foto: Rosana, Caíto e Luís Leite)

RIO - Ernesto Nazareth em som de cravo? Com acompanhamento de percussão? E com um violão para suprir as baixarias - as notas mais graves, no jargão musical - que o cravo não tem? Exatamente. Esta é a proposta da cravista Rosana Lanzelotte em seu sexto CD, dedicado a reafirmar a beleza de um instrumento que praticamente caiu em desuso em fins do século XIX, e cujo elenco de novos cultores ela se orgulha de integrar. O projeto não é exatamente inédito, nem tão transgressor como pode parecer. Em seu CD "O cravo brasileiro" (1998), ela já incluíra quatro composições de Nazareth, perfeitamente adaptadas ao instrumento.

- Era tão complicado tirar som do cravo que aprender a tocá-lo virou um desafio - conta Rosana ao lembrar os primeiros contatos com as teclas.

Pianista de formação clássica, outros fatores explicam a troca de um instrumento por outro. Por exemplo: graças ao cravo ela passou a conhecer melhor e acabou se apaixonando pela música europeia do século XVIII, quando o instrumento era ouvido nos salões da aristocracia. Portanto, em ambientes fechados, restritos. No último quarto daquele século, quando a burguesia começou a ouvir música em teatros, o piano entrou em cena com o maior alcance de sua sonoridade. Outros instrumentos, inclusive os violinos, tiveram que ser adaptados a uma realidade que já não se confinava aos salões.

"Uma espécie de violão com teclas"

Rosana vai até o cravo e explica suas sutilezas técnicas: são 180 teclas, cada qual ligada a uma unha por um saltador. A unha, pino de afinação, funciona como uma cravelha de um violão, uma para cada corda. Portanto, 180 também.

- Aos leigos, costumo mesmo dizer que o cravo é uma espécie de violão com teclado - acrescenta Rosana.

Ao traçar a história do instrumento, desde quando deu lugar ao pianoforte, Rosana revela-se não só conhecedora, mas uma entusiasta. Cita o inglês Arnold Dolmetsch e, principalmente, a polonesa Wanda Landowska como os responsáveis pela revalorização do cravo na virada do século XIX para o XX. A partir deles, compositores europeus perceberam que o cravo podia soar moderno e começaram a escrever para ele. Rosana observa que, o que Landowska fez pelo cravo no mundo, Roberto de Regina fez no Brasil, como compositor intérprete e fabricante.

- Envolvida com o mistério do cravo, acabei abandonando o piano - diz Rosana - Não conheço músico que toque bem os dois instrumentos.

Nascida em família de músicos amadores, descendente de José Saldanha da Gama (compositor da época do Império, sobre o qual ela pouco sabe), a cravista dedicou-se por muito tempo a duas atividades aparentemente distintas, mas, na verdade, aparentadas: música e informática. Nesta última, doutorou-se na França, para só aos 27 anos começar a gravar e a dar concertos.

- O primeiro disco solo é de 1989, não comercial, e um recital ao vivo. Seguiram-se o dedicado a obras de Bach (1995); o citado "O cravo brasileiro"; "Le sette ultime parole del nostro redentore in Croce", de Haydn (2002); "Sonatas portuguesas", de Pedro Antonio Avondano (2005); e o de composições de Sigismond Neukomm (2008), hoje concorrendo a prêmios.

- Neukomm foi o criador da música de câmara no Brasil - informa Rosana.

Tendo vivido no Rio entre 1816 e 1821, o músico austríaco impôs-se como o primeiro a usar gêneros e ritmos populares brasileiros em peças clássicas. Pesquisou os nossos compositores da época, passou para a pauta criações do violeiro Joaquim Manuel e editou-as na Europa. "O amor brasileiro", uma das faixas do CD sobre Neukomm, é inspirado num lundu do século XIX.

Por esse caminho, Rosana chegou a Nazareth. Na verdade, já havia tocado composições suas durante a Copa da Cultura em 2006, em Berlim. Antes, convidada pelo saxofonista Mauro Senise a tocar com ele, experimentou a sensação de levar Pixinguinha para o cravo. Gostou e convenceu-se de que era possível combinar os dois universos musicais.

Percussão e violão reforçam o clima

O percussionista Caíto Marcondes já estivera ao seu lado em Berlim. Rosana o define como instrumentista refinado, cuja variedade tímbrica complementa bem o cravo. No novo CD sobre Nazareth, isso é facilmente percebido, assim como o violão de Luís Leite, que completa o trio.

- Tomemos três exemplos de faixas do discos: em "Batuque", não mudei uma nota sequer, pois é composição já percussiva; em "Apanhei-te Cavaquinho", segui a orientação do compositor, segundo a qual o piano devia soar como um cavaquinho; e em "Tenebroso", o violão reforça os baixos que, no cravo, têm de ser obtidos segurando as teclas e não só tocando-as, como no piano.

Valiosas ajudas, Rosana teve ao trabalhar no projeto. Uma delas, de Brasília, de onde o musicólogo Alexandre Dias serviu-a com partituras de Nazareth. As edições que existem, a maior parte da Casa Arthur Napoleão, ou são poucas ou estão erradas. O trabalho adicional de Rosana é disponibilizá-las, certas, na internet.

- É o primeiro passo de um projeto ainda mais ambicioso.

O Musica Brasilis, como foi batizado o tal projeto mais ambicioso, propõe-se a fazer o mesmo que Pinchas Zukerman fez na Julliard School, de Nova York: videoconferências à distância, com aulas de música de uma costa à outra dos Estados Unidos. Rosana pretende criar no Brasil uma série de oficinas via internet, de modo que um estudante de violoncelo, por exemplo, não precise vir de Recife para estudar no Rio. O projeto é aberto e abrangente, e pode começar estabelecendo relação entre o AfroReggae de Vigário Geral e o Olodum de Salvador.

Exibições: 271

Comentário de Marise em 22 setembro 2009 às 20:49
Helô que maravilha. Este CD vale ouro. Parabéns por mais uma garimpagem ótima, como todas que fazes.
Beijos
Comentário de Sérgio Troncoso em 22 setembro 2009 às 21:14
Que coisa hein mestra! Voce é uma referência cultural inesgotável. E eu vou me aproveitando, e conhecendo, e viajando... Abração.
Comentário de Helô em 22 setembro 2009 às 21:52
Marise, Sérgio e Dirce
Além de gostar de música, gosto de pessoas criativas e a Rosana, artista brasileira das mais talentosas, inovou nesse projeto interpretando no cravo Ernesto Nazareth.
Obrigada a vocês, queridos amigos.
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 22 setembro 2009 às 22:47
Helô,
Nossas anteninhas arrasam!
Recebi, da Biscoito Fino, a divulgação desse CD e pensei logo em fazer um post, mas como estava providenciando outros, não fiz. Mas você fez e bem feito como sempre.
Parabéns, minha amiga!
Beijos.

Helô, o Henrique está a perguntar: "Cadê as meninas?" (Cafu e Helô).
Beijos.
Comentário de Helô em 22 setembro 2009 às 23:31
Laurinha
Sei que você também recebe os e-mails da Biscoito Fino e pensei mesmo que fosse fazer o post. Hoje, O Globo publicou matéria com a Rosana, mas no sistema online só havia um resumo, então desisti de trazer para cá.
Ah! Dias atrás fiquei de olho no disco do Dilermando lá no Loronix. Anteninhas sempre ligadas! :))
Beijos.
Já escrevi para o Henrique.
Comentário de Helô em 23 setembro 2009 às 23:35
Alô, pessoal!
Fiz uma atualização no post.
Beijos a todos.
Comentário de Jose Arlindo em 26 setembro 2009 às 22:56
Oi Helô,
como sempre, você e suas pérolas raras. Eu recebi do BF a oferta do pré-lançamento e até já encomendei o meu. Agora, é esperar o lançamento aqui em BH. Bjs.
Comentário de Caito Marcondes em 28 setembro 2009 às 18:35
oi helo, agradeço muito o seu interesse no nosso trabalho sobre nazareth. pena que apenas agora estou ciente do seu comentario, pois senão a teria convidado para o lançamento de ontem no auditorio ibirapuera, que foi maravilhoso.
bem, agora faço parte do portal do primo, estaremos em contato permanente.
beijos
caito
Comentário de BLOG DAS IGUARIAS - em 23 outubro 2009 às 1:18
Oi Helô!
Parabens em primeiro lugar , pois a Rosana é o máximo. Ela esteve no programa Sem Censura, com a Leda Nagle, por esses dias, e foi linda a entrevista , assim como esse Post que Vc adicionou com maestria. A entrevistada, Rosana , inclluiu em seus comentários, até o final da vida de Nazareth. Me dá saudades do meu curso de música. Começo à incluir as músicas e vídeos à/p da semana que vem. Bjs
Obs.: Não esqueça: dê sua opinião, se possível, sobre o que tenho add ao Blog.
Comentário de Servio Tulio em 23 outubro 2009 às 23:00
Oi Helô! Eu adorei esta matéria com a Rosana. Eu já tenho este disco, que realmente está uma maravilha. E achei muito legal a idéia dela fazer o Nazareth com o cravo. Encontrei a Rosana lá no pátio da Rádio MEC, e estava conversando sobre isso com ela. Nazareth é contemporâneo do americano Scott Joplin, "O Rei do Ragtime", e o curioso é que muita gente toca as músicas do Joplin com cravo lá fora também. Entre os instrumentos de teclado nos quais a música de ragtime era executada com elegância e irreverência, podemos encontrar algumas diferentes modalidades:
o grande-piano, que é o mais comum e conhecido entre nós, o piano Honky-Tonk, que é a famosa pianola com um som mais metálico, que nos remete aos “saloons” dos filmes de faroeste; o Pianoforte, utilizadíssimo por compositores do período Clássico, e finalmente, o Cravo.
No caso do cravo, uma curiosidade:
E que este instrumento permite, de acordo com sua mecânica, que as cordas sejam abafadas, imitando de modo bem parecido, na visão dos compositores da época, o som do popular banjo. Eles eram conseguidos na época a preços bem módicos, alguns até mesmo abandonados por algumas famílias mais abastadas que por algum motivo o consideravam fora de moda ou em desuso. Por essas e outras, achei muito legal essa abordagem do Nazaret com o Cravo. E o disco está maravilhoso mesmo! Abraço

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