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Nossos especialistas em educação, ao descobrirem “a compreensão na leitura”, insuflaram seus acólitos a formarem um coro uníssono e um consenso final.[1] Antes deles, com toda certeza, grassava a ignorância. A solução dos problemas do mundo pedagógico se pôs ansiosamente a esperar por eles. Para tanto, se debruçam em teorias exóticas, muitas vezes já em declínio em suas origens, desprezando aspectos cruciais das experiências praticadas nas salas de aula e se empenham na implantação de modelos, nos quais, professor e aluno são relegados à condição de executores de um processo, cuja “concepção, planejamento, coordenação e controle ficam a cargo de especialistas, supostamente habilitados, neutros, objetivos, imparciais”. [2]  Praveen Gupta,[3] ao identificar tipos de líderes, esqueceu-se de acrescentar um terceiro: aquele que converte a inovação em enigma, que somente ele é capaz de desvendar. Guido A. Palomba [4] demonstra que instintos podem sofrer sérias deformações. “O pior resultado desta deformação é o déspota prepotente, vaidoso, que procura satisfazer sua vaidade para sublimar a própria inferioridade intelectual”.

Parece não haver jamais uma séria reflexão sobre a relação entre estudos realizados nas universidades e o trabalho nas salas de aula,[5] porquanto para Sonia T.S. Penin,[6]a aproximação da educação com o saber científico sempre representou um desconforto, dado que ele nunca esgotou ou equacionou devidamente os fenômenos educacionais e do ensino”. Segundo Eunice Durhan,[7] uma das causas da “má formação” do professor é a mentalidade da universidade, que supervaloriza a teoria e menospreza a prática. “Segundo essa corrente acadêmica em vigor, o trabalho concreto em sala de aula é inferior a reflexões supostamente mais nobres”. Conforme Jorge M. Neto,[8] a noção de a universidade poder transferir conhecimentos e inovações, incorporados diretamente pela educação básica, há muito está superada. “Os professores e gestores escolares se formam continuamente em serviço e a eles compete produzir as inovações e melhorias em sintonia com a comunidade escolar. À universidade compete colaborar como parceira nesse processo”.

Na verdade, há um completo desconhecimento sobre o trabalho do professor, dentro da sala de aula e, sobretudo, sua maneira pessoal de ensinar, independentemente do uso de manuais. Essa atuação tem origem em intrincados relacionamentos socioculturais e pedagógicos e numa fecunda tradição, ignorada ou completamente desconsiderada, como simples produto de conhecimento empírico.[9] O desenvolvimento de qualquer atividade não está nos instrumentos em si mesmos, mas no modo como são utilizados e no significado que adquirem nos vários relacionamentos, vivenciados na escola. Segundo F. Smith,[10]são os professores que conseguem fazer com que as crianças encontrem um sentido para o ensino que recebem”. O desafio para a formação de alfabetizadores, escreve Sonia Kramer,[11] “se coloca na concretização de uma reflexão sistemática, considerando, simultaneamente, as contribuições dos estudos teóricos e a prática concreta, real, dos professores”.

Quem pretender rever a história da educação, em São Paulo, irá constatar que, no antigo ensino primário, os alunos da primeira série recebiam o primeiro livro de leitura, em abril ou maio.[12] Isto é, já estavam prontos para continuar e desenvolver o processo de alfabetização, iniciado nas cartilhas.[13] Como imposição do processo de ensino, havia reprovações e os repetentes se recuperavam no ano seguinte,[14] nas chamadas classes de recuperação.

Apesar de tudo, a sala de aula ainda permanece contida entre quatro paredes, com o quadro negro, o livro e, sobretudo a figura insubstituível do professor. Na Finlândia,[15] há tecnologia nas escolas, mas os professores não a usam. As crianças têm mais acesso à tecnologia, em casa, do que na escola.  “A educação não é baseada em tecnologia, mas sim em professores”.

Na verdade, de nada valem as máquinas imaginadas pela tecnologia se seu acesso depende, fundamentalmente, da existência de certas habilidades, em particular, habilidades básicas, como ler, escrever e contar...

Além disso, permanecem as dificuldades no trato de alunos que exigem do professor, sobretudo, uma experiência deveras específica, haurida na sala de aula, que ninguém pode oferecer, porque (parafraseando o poeta) os professores trabalham na casa do futuro, cujo limiar nenhum especialista conseguirá transpor, nem mesmo, em seus sonhos!

 



[1] Lembrei-me de Nelson Rodrigues, para quem “toda unanimidade é burra”.

[2] SAVIANI, D. Escola e Democracia, Cortez, 1989.

[3] Entrevista no iG  São Paulo, em 31/03/2010 07.33

[4] PALOMBA, G.A. in Suplemento Cultural da revista APM.

[5] Haja vista, os cursos de especialização a distância, lançados pelo governador, em parceria com universidades, em 29/03/2010.

 [6] PENIN, S.T.S. A Aula: Espaço de Conhecimentos, Lugar de Cultura, Papirus, 1996.

[7] Entrevista publicada no Jornal da Ciência, em 28/11/ 2008.

[8] NETO, J.M. “As trapalhadas da Secretaria do Ensino Superior”, Folha de São Paulo, 18/04/2007.

[9] Ao ler trabalhos teóricos sobre ensino, Lourenço Filho lembrava: “pesquisas para se chegar ao óbvio”.

[10] SMITH, F. Leitura Significativa, Artmed, 1999.

[11] KRAMER, S. Alfabetização, Leitura e Escrita, Papéis e Cópias, 1995.

[12] Isto se repetia tanto nos Grupos Escolares, como nas Escolas Isoladas rurais.             

[13] A presença de analfabetos funcionais reside na falha desta continuidade, nas séries subseqüentes do Ensino Fundamental.

[14] Monitoramento de Educação para Todos, da UNESCO, 2009, aponta o Brasil com o índice de repetência média de 18,7% para o Ensino Fundamental.

[15] Artigo de Marina Morena Costa, no iG, em 13/05/2010.

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Tags: -, =, Prática, Teoria, educação, ensino, especialistas

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