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Samba da Minha Terra Deixa a Gente Mole

Comemorando meu primeiro aniversário aqui no Portal, trago um pouco da riqueza musical de Juiz de Fora. Terra de poetas e escritores consagrados, como Murilo Mendes, Pedro Nava, Rubem Fonseca e de artistas como Carlos Bracher e Arlindo Daibert, a cidade também se orgulha de seus grandes talentos musicais. Alguns, como Geraldo Pereira, Sinval Silva (responsável por sucessos de Carmen Miranda), Sebastião Cirino e Alfredinho Flautim (que tocaram com Pixinguinha e Donga), se mudaram para o Rio de Janeiro em busca de oportunidades profissionais. Outros, como Mamão (Armando Aguiar), Ernani Ciuffo, Nelson Silva e Ministrinho, aqui permaneceram colaborando para a formação da identidade cultural de Juiz de Fora.

No post de hoje, o grande sambista Geraldo Pereira.



Geraldo (Teodoro) Pereira - Sambista e Compositor
(Juiz de Fora, 23/04/1918 - Rio de Janeiro, 05/05/1955)

Ainda muito jovem, com 12 anos de idade, Geraldo mudou-se para o Rio indo morar próximo ao Morro da Mangueira com o irmão mais velho, a quem ajudava. Aos 18 anos tirou sua carteira de motorista e foi trabalhar na companhia de Limpeza Urbana. Nas folgas, enfiava-se nos bares de Mangueira, juntamente com os sambistas locais. Paralelamente ao trabalho de motorista, compôs sambas que retratavam basicamente o cotidiano das favelas e a vida no morro. Inovador da MPB, foi um dos precursores do samba sincopado, uma 'batida' que influenciaria a bossa nova anos mais tarde. Não por acaso, nos anos 60, João Gilberto gravou "Bolinha de Papel".


Bolinha de Papel | João Gilberto



E é o próprio João Gilberto, no livro "Um Certo Geraldo Pereira", quem fala: "Eu era ainda do conjunto Garotos da Lua, nem pensava em cantar sozinho, quando um dia ele me convidou para sentar com ele num bar daqueles na rua da Lapa. Enquanto a gente tava tomando umas coisas no bar, passaram uns sujeitos e me estranharam, ficaram olhando da porta. E ele: "Que é que vocês tão olhando? Isso aqui (era eu) é gente minha!" Os caras foram embora. O samba dele era leve e cheio de divisões rítmicas, isso sempre me chamou atenção. Ele não tinha consciência disso, mas foi um inovador na música popular brasileira na década de 1940." (pp. 26)


É bem provável que todos conheçam os versos de Falsa Baiana, música gravada por Ciro Monteiro, de quem Geraldo se tornara grande amigo, e depois por João Gilberto e Gal Costa.

Falsa Baiana | Ciro Monteiro


Baiana que entra no samba e só fica parada
Não samba, não dança, não bole nem nada
Não sabe deixar a mocidade louca
Baiana é aquela que entra no samba de qualquer maneira
Que mexe, remexe, dá nó nas cadeiras
Deixando a moçada com água na boca


Mas acredito que muita gente ainda não saiba que este e outros grandes sucessos da nossa música são de autoria de Geraldo Pereira. Ouçam também a famosa Sem Compromisso (em parceria com Nelson Trigueiro), gravada por Chico Buarque em 1990.

Sem Compromisso | Chico e Tom



Em "Ministério da Economia", uma parceria com Arnaldo Passos, Geraldo registra a esperança popular despertada pela eleição de Getúlio Vargas.

Ministério da Economia | Monarco

Seu Presidente
Sua Excelência mostrou que é de fato
Agora tudo vai ficar barato
Agora o pobre já pode comer
Seu Presidente,
Pois era isso que o povo queria
O Ministério da Economia
Parece que vai resolver
Seu Presidente
Graças a Deus não vou comer mais gato
Carne de vaca no açougue é mato
Com meu amor eu já posso viver
Eu vou buscar a minha nega pra morar comigo
Porque já vi que não há mais perigo
Ela de fome já não vai morrer
A vida estava tão difícil
Que eu mandei a minha nega bacana
Meter os peitos na cozinha da madame
Em Copacabana
Agora vou buscar a nega
Porque gosto dela pra cachorro
Os gatos é que vão dar gargalhada de alegria lá no morro



Em 1952, Geraldo grava o samba "Escurinha", de sua autoria e Arnaldo Passos. A música, apesar de suas qualidades, não obteve a atenção devida da gravadora, mas fez relativo sucesso no carnaval daquele ano. A composição, anos mais tarde redescoberta por Zizi Possi, é um primor da excelência de Geraldo Pereira, com letra e música casando-se em perfeita harmonia.

Escurinha | Zizi Possi
Zizi Possi - Escurinha

Escurinha tu tens que ser minha de qualquer maneira
Te dou meu boteco te dou meu barraco
Que eu tenho no morro de Mangueira
Comigo não há embaraço
Vem que eu te faço meu amor
A rainha da escola de samba
Que o teu nego é diretor
Quatro paredes de barro telhado de zinco
Assoalho no chão só tu escurinha
É quem está faltando no meu barracão
Deixa disso bobinha só nessa vidinha levando a pior
Vem comigo eu te levo pro samba
Te ensino a ser bamba te faço a maior
Escurinha vem cá!








Muitas de suas composições foram regravadas após sua morte. Nos anos 60, João Gilberto regravou Bolinha de Papel. Em 1971, Paulinho da Viola regravou Você Está Sumindo. Em 80, foi lançado o disco Wilson, Geraldo e Noel, no qual João Nogueira interpreta composições de Geraldo Pereira, Noel Rosa e Wilson Batista.





Os últimos anos de vida de Geraldo Pereira foram bastante tumultuados, estando o compositor sempre às voltas com problemas e bebedeiras, brigas e confusões. A história de sua morte é controvertida. Dizem que aconteceu logo depois de uma briga com o lendário "Madame Satã" em um restaurante da Lapa. Satã teria acertado um soco no rosto de Geraldo que, bêbado, perde o equilíbrio e cai na calçada. Com a queda, bate com a cabeça no meio-fio ficando desacordado. Levado para o Hospital dos Servidores, morreu dois dias depois, aos 37 anos de idade, de "hemorragia intestinal reincidente".

Em músicas e letras, Geraldo Pereira criou um estilo próprio, inconfundível, que lhe valeu a posteridade.

"Apanhe uma dose de calango mineiro tocado pela sanfona de oito baixos de Mané Araújo, dose igual de intuição e dom de nascença e uma mão cheia de sons graves batucados no surdo de uma escola de samba antiga. Deixe isso fermentando na cabeça de um garoto curioso e criador, agitando vez por outra o caldo ao ritmo dos quadris de uma mulata sambando na Unidos da Mangueira. Depois transfira a infusão para o recipiente de um salão de baile e deixe o líquido aquecendo ao fogo dos metais e cordas determinantes, adicionando sempre gotas de suor de pares entrelaçados dançando. Uma dose média de malandragem pode melhorar o gosto. Quando sentir a força criadora fervendo em notas e poesia, adicione umas colheres de infidelidade ou abandono, umas gramas de ciúme ou de suspeição e uns pedaços de 'pau quebrando' firme e forte nos bares da Lapa e Engenho de Dentro. Sirva tudo em bandejas de samba, ao som de um violão capenga, em copos grandes de alegria e observação. Você estará servido de um 'bate-bate' de samba sincopado com gosto de Geraldo Pereira!"
Página 138 do livro "Um Certo Geraldo Pereira".


***********************

Fontes

Agenda do Samba e Choro
MPB Cifrantiga
Brazilian Music - Samba, Bossa Nova, Brazilian-jazz

Livro - Um Certo Geraldo Pereira
Alice Duarte Silva e Campos, Dulcinéia Nunes Gomes, Francisco Duarte Silva e Nelson Matos (Nelson Sargento). Rio de Janeiro, FUNARTE/INM/Divisão de Música Popular, 1983.

Exibições: 608

Comentário de Marise em 14 julho 2009 às 20:11
Comentário de Helô em 14 julho 2009 às 20:31
Que gravação ótima!!! Surpresa pra mim.
E com um dos meus ídolos, Paulinho da Viola.
Salve garimpeira dos pampas!
Beijos e obrigada, Marise.
Comentário de Laura Macedo em 14 julho 2009 às 22:00
Helô,
Homenagear os artistas da sua terra foi uma excelente ideia para comemorar seu 1º aninho no Portal.
Parabéns pelos ótimos trabalhos publicados ao longo desse período. Sem sombra de dúvidas eles contribuíram de forma significativa para a "construção do conhecimento", que é o lema do nosso Portal.
Outro aspecto que merece registro é a sua disponibilidade para atender os inúmeros pedidos de "help" dos amigos. Perdi a conta das vezes que você me ajudou, principalmente na parte operacional do Portal, como editar as "Tags"...
Um super beijo da sua amiga de sempre.
Comentário de Cafu em 14 julho 2009 às 22:13



Parabéns! Longa vida para um dos blogs mais divertidos, informativos, criativos e camaradas do Portal!
Ficou uma beleza a homenagem ao Geraldo Pereira... E eu pensava que ele fosse baiano.:(
É um "falso baiano", mas um verdadeiro sambista. :)
VIVA HELÔ! VIVA JUIZ DE FORA E SEUS TALENTOSOS ARTISTAS!
Beijos. Salve a Marise, também.
Comentário de Helô em 14 julho 2009 às 23:08
Marise, Laura e Cafu, minhas amigas queridas
Foi um ano de muito aprendizado, muito afeto, alegrias, desabafos e amizades sinceras. Obrigada pela troca constante de carinho e de conhecimento.

Laurinha
Já estava mais do que na hora de começar a homenagear meus conterrâneos. Embora não tenha nascido em Juiz de Fora, aqui estou desde os 17 anos, então considero a cidade como se fosse minha terra. Outros talentos virão, pode esperar. Observar o quanto você é estudiosa e cuidadosa na elaboração de seus posts, só me fez melhorar. Muitos beijos!

Cafu
O título da música de Geraldo Pereira não se aplica a você, baiana autêntica, que já provou entrar no samba de qualquer maneira! Até de vedete, hhaha. Mas Geraldo é mesmo de Juiz de Fora, tá? Estou até pensando em provocar o "chefe" dizendo a ele que a Bossa Nova foi criada através de um músico nascido aqui, kkkkkkkk. Ele me manda embora :)))))
Divertido o meu blog? Divertida é a nossa troca de comentários, hahaha.
Mil coisas, mil beijos! O bolo está uma delícia.
Comentário de Cafu em 15 julho 2009 às 0:19
:-OOOOOOOOOOOOOOOOOH! Você não nasceu em Juiz de Fora, sua falsa carioca da clara?
Onde então?
Comentário de Helô em 15 julho 2009 às 0:25
Simone
Que prazer receber sua visita e ainda ganho mimos de grande valor. Você tem razão, grande parte dos cariocas é constituída de gente do nosso imenso Brasil, inclusive de Juiz de Fora, haha. E Bezerra da Silva também não é do Rio, mas de Recife.
Sabe que eu quase coloquei uma música interpretada pela Christina? Agora coloco em sua homenagem. É do CD Evocação V, Geraldo Pereira.
Beijos e obrigada.

Pode Ser | Christina Buarque de Holanda
Comentário de luzete em 15 julho 2009 às 0:31
Ah, tu não és de juiz de fora. falsa mineira danada. então tu só és exibida, é?
também quero ser mineira, só prá dizer que nasci na terra do milton nascimento, êê!
um ano de blog? só? imaginava mais. beijo.
Comentário de Helô em 15 julho 2009 às 0:50
Eu sou do subúrbio. Vivo voando! hahaha
Beijos, Luz e Cafu.
Comentário de Gregório Macedo em 15 julho 2009 às 1:08
Helô,
PARABÉNS PELO ANIVERSÁRIO E SEMPRE MAIS E MAIS ENERGIA POSITIVA!
Localizei uma entrevista de Madame Satã feita por O Pasquim em meados dos anos 70. É alentada, mas não há alusão ao grande Geraldo Pereira. Laurinha acabou de me mostrar o Almanaque do Samba, de André Diniz, que confirma os fatos que você relatou no final de seu excelente post.
Transcrevi comentário seu a meu post 'O retorno triunfal do salão do Piauí' em meu blog pessoal http://domacedo.blogspot.com/. A propósito, há várias fotos lá, ecos do salão. Caso possível dê uma olhada, ok?
Beijos, e uma vez mais parabéns.

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