SARAU LITERÁRIO OU FUTEBOLISTICO?

A gente se reuniu lá no salão dos cabelereiros sãopaulinos, amigos nossos, bem ao lado do bar do Alaor, onde sempre nos juntamos para prosear. Somos os “véinhos aposentados”. Segundo um de nós, o Valdez, somos os “desocupados”. Dali do salão, fomos para o bar, inclusive os dois profissionais da tesoura que não se encaixavam na categoria de “véinhos”. A nossa intenção era conversar sobre poesia e teatro. Seria então, um “sarau literário”.

        Viu que foi um sarau literário. Como falar somente de poesia e teatro seiscentista, logo após a 34ª rodada do brasileirão? Eramos todos torcedores, pô! Tudo ia bem, mas eis porém senão quando, o Ademar, palmeirense sofrido declamou: Antes de amar, eu dizia:

Para cortar na raiz,

Esta constante agonia,

Preciso amar algum dia.

Amando serei feliz.

Amei! Desventura minha.

Quiz curar-me, piorei!

Aos tormentos que já tinha,

Novos tormentos juntei..

        Logo em seguida, sem esperar que aplaudissimos, acrescentou: será que Menotti Del Pichia era palmeirense? Daí, né? O Diocésio, atleticano recalcado, adepto daquela teoria da conspiração que diz que a CBF está de conluio para beneficiar o Fluminense, declamou:

Mas que fazer então?

Buscar um protetor poderoso, um Patrão?

Ser como a hera que enlaça o carvalho robusto,

Lambe-lhe a cortiça e sobe então sem custo?

Usar, para atingir o cimo desejado,

De astúca em vez de força?

         E olhando de soslaio para mim, foi dizendo: será quem que era tricolor, o Rostand ou o Cirano?

Eu então respondi: pô! só falta agora, chegar um vascaino com crise de identidade, tentando atrair para suas hostes aquele célebre vate de Stratford, perguntando: Ser ou não ser? Eis a questão.

Acaso é mais nobre à cerviz,

Curvar aos golpes da ultrajosa fortuna?

Ou já lutando, extenso mar vencer

De acerbos males.

         Ou será que algum flamenguista vai começar a pensar que está sendo injustiçado e perseguido pelo infortúnio, usando aquela uma do condoreiro baiano? Deus ó Deus, onde estás que não respondes?

Em que mundo, em que astro tu te escondes

Embuçado nos céus?

Há dois mil anos te mandei meu grito

Que embalde atravessou o infinito.

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