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Sebastião Vianna - Músico e Maestro

Revendo o meu pai e o meu espelho


Marcus Viana,
Violonista e Compositor

Falar da passagem de Sebastião Viana é reconhecer a perda do nosso último elo com a musicalidade dos anos 30 e 40. Ele transitava com igual facilidade pelos universos da música popular e erudita, conseguindo ser, ao mesmo tempo, professor de música de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, e assistente e revisor das obras de Heitor Villa-Lobos, o maior nome da música erudita brasileira; mestre geral das bandas de músicas de Minas Gerais e diretor do conservatório de música da UFMG; maestro das grandes temporadas líricas e compositor de tangos, boleros e canções.

Fica o legado, além de um dos maiores maestros, de um grande mestre da flauta que tem uma discografia registrada na fase final de sua vida – já que na época em que era atuante como maestro não existiam ainda recursos de gravação disponíveis.

A história de Sebastião Viana se confunde com a história musical brasileira deste século.

Sua carreira sempre foi dividida entre a universidade e a carreira militar, onde acumulava as funções de maestro e oficial. Fundou na Polícia Militar de Minas Gerais a maior orquestra sinfônica militar da América do Sul (e a maior do Brasil no início dos anos 60), criando uma escola de formação musical que viria a exportar músicos das Minas Gerais para integrar as primeiras fileiras das orquestras de RJ e SP.

Como diretor da Escola de Música de Universidade Federal de Minas Gerais, promoveu uma verdadeira revolução na estrutura de ensino, quebrando os rígidos moldes do antigo Conservatório e trazendo o ensino da música de Minas Gerais para a era moderna.

Atuante até os seus últimos dias, gravou aos 92 anos um CD com as obras para flauta de Joaquim Callado, professor da célebre Chiquinha Gonzaga. Sua técnica como flautista, então, pouco tinha perdido para a da juventude, que o levara, com apenas 18 anos, a ser mestre de uma das maiores bandas de música do estado.

Ele deixa três CDs para a posteridade. Tudo foi um sonho, trazendo as composições de sua mocidade, como tangos, boleros, chorinhos, valsas e samba-canções, numa linda exposição do que foi a música popular brasileira nos anos 30 e 40, todo composto, arranjado e interpretado pelo artista.

Em Mestres Brasileiros vol. 5 - Pattápio Silva, Sebastião Vianna interpreta, aos 88 anos, pérolas do compositor Pattapio Silva, mantendo-se fiel às gravações originais. Mestres Brasileiros vol. 6 – Joaquim Callado é seu último álbum, Vianna, aos 92 anos, interpreta na flauta as principais obras do compositor Joaquim Callado.

Passou a infância entre uma flautinha de bambu e os afazeres do sítio em que morava com a família, como por exemplo entregar leite na cidade e vender ovos e verdura.

Teve um mestre inusitado naquela vila dos confins: Hostílio Soares, grande músico, violinista e compositor, que, além da divina arte, ensinou aos filhos do "Seu" Tito yoga, noções de teosofia (o estudo de religiões comparadas), filosofia e ginástica. Ou seja, um mestre nos antigos padrões helênicos de antiguidade.

Essa iniciação iria mudar definitivamente o destino de Sebastião, que junto à "orquestra familiar", migraria para estudar em Belo Horizonte. Eram vários os músicos da família nessa época: Maria tocava violoncelo, Pipi e Zezé, o violino, Walter, o trombone, e Dico (como era conhecido), a flauta.

Enquanto cursa o conservatório, toca flauta na banda da Polícia Militar. Pelo talento precoce, é elevado ao posto de regente e mestre da banda.

Em Juiz de Fora, já formado, continua mestre de banda, leciona e ainda cria uma jazz-band – sucesso na cidade e na região.

Muda-se então para o Rio, onde cursa canto orfeônico e seus múltiplos talentos o fazem acordeonista dos melhores, pianista, regente, compositor, arranjador e é claro, um virtuose na flauta. De sofisticadas casas noturnas como o Night and Day até o Municipal, Sebastião Viana toca de Bach a Noel. O rei do baião Luiz Gonzaga o contrata como professor e, logo a seguir, propõe uma parceria, abismado com seu virtuosismo no acordeon.

Mas a figura de Villa-Lobos é mais forte e precisa urgentemente dos talentos de Sebastião, que se torna o revisor das partituras do mestre e seu assistente pessoal.

Um antigo chefe seu na época das bandas se torna comandante geral da Polícia Militar mineira e decide criar uma orquestra sinfônica militar nos moldes de EUA, Japão e Alemanha. A oferta de um posto como capitão e um salário de regente atraíram Sebastião, que então retorna a Minas Gerais. A orquestra se tornaria a quarta sinfônica militar da época, a única latino-americana. Na década de 60, seria a maior do Brasil e "exportaria" grandes músicos para as grandes orquestras do país, notadamente no Rio de Janeiro.

Como em tão pouco tempo Sebastião Viana conseguiu essa façanha? Criando uma escola de formação musical entre os militares e seus familiares: aos que tinham pendor para a música era oferecido um curso com uma carga horária de oito horas diárias com antigos professores europeus que tinham vindo para o Brasil no fim da 2ª guerra Mundial e estavam à deriva no país. Em apenas um ano os rapazes estreavam a 1ª sinfonia de Beethoven!

Seu talento como professor o levou de catedrático em flauta a diretor do conservatório mineiro de música. Como diretor do conservatório, rompeu a rigidez da escola, erguendo uma estrutura moderna e dinâmica, conectada à universidade federal do estado.

Como maestro à frente das inúmeras orquestras do estado animou as temporadas líricas de Belo Horizonte de então, tornando-a centro de cultura operística e sinfônica.

Aos 84 anos, gravaria seu primeiro CD – Tudo foi um sonho, revelando o compositor e muitas das pérolas de sua juventude, em repertório composto por sambas, tangos, canções, chorinhos e serenatas. Mostra também o cantor que foi além de flautista. Parte deste trabalho tornou-se a base da trilha sonora da minissérie Aquarela do Brasil, exibida pela Rede Globo, em 2000.

Sebastião Vianna morreu aos 93 anos, sem doenças, sem dor, como a última nota de uma sinfonia se apaga no ar. Deixou quatro filhos, três deles músicos. Eu sou um deles.

JB - Domingo, 10 de Maio de 2009

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Sebastião Vianna faleceu no dia 18 de abril de 2009, em Belo Horizonte.
Seu filho, Marcus Viana, criador da banda Sagrado Coração da Terra, é autor de trilhas sonoras de novelas de grande sucesso, como Pantanal e O Clone.

Os CD's


Pattapio Silva - Sebastião Vianna
Patapio Silva foi, em sua breve carreira, considerado o maior virtuoso da flauta brasileira. Como compositor deixou pérolas como "Primeiro Amor", "Margarida", "Sonho", etc... todas reunidas neste disco. O maestro e flautista Sebastião Vianna, aos 88 anos interpreta essas obras mantendo-se fiel às gravações originais do compositor para a Casa Edison (Odeon).



*Zinha, com Andréia Ernest na flauta

1 Zinha (polca)
2 Sonho (romance fantasia)
3 Amor perdido (valsa)
4 Evocação (romance elegíaco)
5 Margarida (mazurka)
6 Serata d'amores (romanza)
7 Oriental
8 Joanita (valsa)
9 Polka
10 Idyllio
11 Voluvel (valsa)
12 Primeiro amor (valsa)



Joaquim Callado - Sebastião Vianna
Joaquim Callado é o sexto volume da série “Mestres Brasileiros”. Ele foi um dos pioneiros da música brasileira e, a seu tempo, o maior flautista do Brasil. Além de virtuose, excelente compositor, professor e incentivador da grande Chiquinha Gonzaga. Esse CD reúne suas principais obras. Gravado pelo grande maestro Sebastião Vianna no alto de seus 91 anos de idade, traduzindo a técnica e a versatilidade do compositor.



*Flor Amorosa, com Leonardo Miranda na flauta

1 Flor amorosa
2 Como é bom saber
3 Salomé
4 Querida por todos
5 Saudosa (polca de serenata)
6 Linguagem do coração
7 Pensa só que você viverá
8 Iman
9 Cruzes minha prima
10 Marocas
11 Valsa
12 Melancólica
13 Lundu característico

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Fontes
Jornal do Brasil
Sonhos e Sons (Marcus Viana)
Foto - Oficina de Mídia/Divulgação
*As músicas Zinha e Flor Amorosa foram copiadas do post Dia Nacional do Choro, da amiga Laura Macedo.

Exibições: 535

Comentário de Cafu em 12 maio 2009 às 18:40
CapriShow, Dona Helô !!! Ficou maravilhosa essa homenagem. Vou em busca desses preciosos tesouros que você indicou. Lindo demais!
Estou com flauta nos ouvidos. Ontem escutei um tempão o Altamiro Carrilho...
Beijos.
Comentário de Helô em 12 maio 2009 às 18:50
Descobri por acaso, Cafu.
Linda Flor ainda está rendendo. Sabe o que eu estava pesquisando? Henrique Vogeler :)
No site do Marcus Viana, Sonhos e Sons, tem a coleção completa de "Mestres Brasileiros". Além dos dois que estão aí, tem Chiquinha Gonzaga, Ernesto Nazareth, Alberto Nepomuceno e acho que mais um que não me lembro agora. É mole? :))
Beijos.
Comentário de Laura Macedo em 12 maio 2009 às 21:59
Helô,
Quando vi a foto desse post lembrei, na hora, de uma matéria que foi publicada no Jornal Meio Norte, aqui de Teresina, no final de março, antes do falecimento dele.
O título: "Aos 92 anos, Sebastião Vianna grava o 'Pai dos Chorões'. O maestro também executa peças como 'Lunlu Característico', que exige alta virtuosidade, primeiro neste gênero musical apresentado num concerto, em 1873".
A matéria, de cara, me chamou atenção quando li, em letras enornes: "Pai dos Chorões", já que essa é a área da música que mais tenho pesquisado.
Li a matéria completa e fiquei fascinada com o Sebastião Vianna, que não conhecia. Recortei o jornal e pensei: vou pesquisar mais sobre o artista e quem sabe no futuro escreva algo sobre ele.
Que maravilha Helô, deparar-me com esse seu trabalho tão bem feito, como bem disse a nossa amiga Cafu.
Outra maravilha é a nossa sintonia em temas musicais, não é mesmo?
Quanto a "conta" é melhor nem mexer, porque vou sair no prejuízo,já que devo mais do que tenho à receber :)))))))))))))
Beijos.
Comentário de Helô em 12 maio 2009 às 22:43
Laura
Quando encontrei os CD's, pensei logo em você! Sabia que tinha ouvido falar nos nomes daqueles compositores, mas confesso que não conhecia o Sebastião Vianna. Fiquei emocionada com a história contada pelo filho, um músico de primeira que compõe coisas tão lindas. E tudo aconteceu de repente, como disse aí embaixo à nossa amiga Cafu. E ainda tem gente que não curte Internet! Ai, ai...
Obrigada pelas informações adicionais, que sempre enriquecem o post, e pelas músicas "afanadas" na sua página, haha. Mas quando conseguir as originais elas virão para cá (e nem pense que vou tirar as suas :)))
Beijos.
Comentário de Henrique Marques Porto em 13 maio 2009 às 20:30
Helô,
Você está certa. A internet é a forma mais segura e democrática de contar a história da nossa cultura e preservar a memória e a obra dos nossos artistas. Sebastião Vianna é um que merecia um blog ou site, em forma de Museu Virtual, reunindo sua história e tudo o que produziu ao longo da vida. Ia se transformar rapidamente em fonte de informações para pesquisadores, professores, estudantes e interessados em música.
abraço
Henrique Marques Porto
Comentário de luzete em 13 maio 2009 às 21:49
Dizer o quê?
brigada. dinovo.
este Brasil é um sonho. tem cada brasileiro! cada brasileira!
e umas meninas teimosas... que cavocam, cavocam, e acham!
Comentário de Helô em 14 maio 2009 às 18:30
Henrique
O que eu conheci de gente ligada à música em quase um ano de comunidade não dá pra mensurar! Em muitas ocasiões, encontrei algo interessante procurando outra coisa completamente diferente. Sobre Sebastião Vianna, você está coberto de razão. Seria uma ótima fonte de pesquisas. Mas a gente sabe que isso depende de um enorme esforço e empenho de poucos, na maioria das vezes sem o menor incentivo.
Beijos.

Luzete
Duvido que haja país mais rico que o Brasil, musicalmente. É muita gente boa, talentosa, e, além de tudo, esforçada. Valeu, Luz.
Beijos.
Comentário de Tovar Nogueira Fonseca em 1 agosto 2009 às 15:36
Olá Helô,

Conheci seu Blog somente hoje, pelo post "Os Blogs do Portal" e como de costume você sempre tem algo de interessante prá falar.

Vi somente hoje, portanto, a notícia sobre o falecimento do Sebastião Vianna, que é da minha cidade natal, Visconde do Rio Branco. O Marcus já fala da trajetória dele a partir de Juiz de Fora, mas em VRB também temos um grande carinho pelo Maestro, que organizou a primeira banda de música de lá (VRB tem pelo menos três, quase que centenárias).

Já tive a felicidade de tocar com o Marcus (veleidades juvenis, rssrs) e ele é de um talento ímpar, como o pai.

Um abraço e parabéns pelo aniversário do Blog.

Tovar

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