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Sensibilidade à flor da tela
 
por Fernando Soares Campos
 
Depois de longa caminhada, pai e filho juntaram-se a um movimento reivindicatório na grande cidade. O deslocamento da multidão em passeata, do local de concentração até o ginásio onde ocorreria um encontro de trabalhadores rurais, fazia parte da estratégia dos organizadores do movimento e tinha o propósito de chamar a atenção da imprensa; era uma tentativa de informar a população urbana sobre os seus problemas no campo.
 
Atendendo às exigências legais, os líderes do movimento haviam solicitado apoio das autoridades para acompanhar a multidão desde a concentração até o ginásio municipal. O comando da Polícia determinou que os seus efetivos se pusessem em guarda, acompanhando o cortejo. Entretanto os militares foram orientados para reagir a qualquer manifestação "agressiva" por parte dos participantes do evento.
 
Quando a passeata atravessava uma das mais movimentadas avenidas da metrópole, os motoristas dos carros parados no sinal ( farol, sinaleira ou semáforo, que já abrira e fechara diversas vezes enquanto os trabalhadores passavam), impacientes, buzinavam com insistência e gritavam protestando contra a perda de seus preciosos minutos de espera.
 
No meio da multidão pai e filho conversavam:
 
Filho I: ― Pai, já que a gente tá aqui hoje e eu num vou trabalhar na carvoaria, então, depois que terminar as fala, vamo andar um pouco pela cidade?
 
Pai I: ― Depende da hora que terminar, fio.
 
Filho I: ― Pai, o homem que falou lá no acampamento disse uma palavra que eu num entendi.
 
Pai I: ― Qual?
 
Filho I: ― Excrusão. O que quer dizer isso pai?
 
Pai I: ― Pelo que eu entendi, fio, é quando a gente num pode disfrutá de quase nada, enquanto outras pessoas têm direito a tudo. E até mais um pouco.
 
Filho I: ― Ah! então, quer dizer que aquelas pessoas naqueles carro bonito num sofre de excrusão, né?
 
Pai I: ― Acho que é isso mesmo, fio.
 
Filho I: ― Pai, quando eu crescer, eu vou poder comprar um carro daqueles?
 
Pai I: ― Se você continuar na carvoaria, nem vai crescer, fio. Mas, se nóis conseguir um pedaço de terra boa e trabalhar, aí, até pra escola você vai. Então, pode até pensar em comprar um carro daqueles.
 
Subitamente, uns elementos infiltrados no movimento sacaram os pedregulhos que traziam em sacolas e, aos gritos de "abaixo a burguesia!", atiraram contra os carros parados no sinal. Imediatamente o comandante das tropas autorizou a repressão. Foram lançadas as primeiras bombas de gás contra os trabalhadores. Criou-se o tumulto. Correria, pessoas pisoteadas, gritos, protestos, resistência; os líderes ainda tentaram apaziguar os ânimos. Os policiais conseguiram dominar alguns manifestantes e baixaram o cacete. Os lojistas fecharam seus estabelecimentos, mas não evitaram que algumas vitrines fossem destruídas. Tiros, quebra-quebra, prisões.
 
* * *
 
À noite, em casa, Pai II e Filho II, que estavam num dos carros parados no sinal, assistem ao telejornal das oito. As cenas, editadas, são de uma verdadeira batalha urbana. A família assiste a tudo em silêncio. De repente o filho grita entusiasmado:
 
Filho II: ― Olha lá, pai! Você viu?!
 
A cena muda rapidamente.
 
Pai II: ― O quê, filho?!
 
Filho II: ― Você não viu, pai?!
 
Pai II: ― Não sei do que você está falando, filho! Você está se referindo ao espancamento dos baderneiros que foram presos?
 
Filho II: ― Não, pai! Ah! pena que você não viu! Você viu, mãe?!
 
Mãe: ― Claro que vi! Vi aquele moleque chorando porque o baderneiro do pai estava sangrando...
 
Filho II: ― Não, mãe, não é nada disso...
 
Irmãzinha: ― Eu vi.
 
Pai II: ― Vocês viram o quê?!
 
Filho II: ― Pai, o que estava em cima da faixa de pedestre, pai, era o nosso carro! O nosso carro saiu na tevê!
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