CAÍA A TARDE FEITO UM VIADUTO

A frase acima, que dá título a este relato, é o início da música “O Bêbado e a Equilibrista”, do cantor, compositor e violonista João Bosco, numa metafórica alusão ao desabamento do elevado da Avenida Paulo de Frontin, ocorrido em 1971. As grandes metrópoles estão sempre sujeitas a tragédias de grandes proporções e o Rio de Janeiro, como não poderia deixar de ser, também se inclui nesse contexto. Entre as maiores catástrofes desta cidade, poderiam ser citadas: o incêndio, no Leme, do hotel e boate Vogue, em 1955 (5 mortos), o desastre ferroviário da estação de Anchieta, quando um trem de passageiros se chocou com um trem cargueiro, causando engavetamento de vagões, em 1952 (90 mortos) e as terríveis enchentes de 1966 e 1967, com deslizamento de terra e pedras nos morros, causando desmoronamento e soterramento de barracos e prédios (250 mortos), além do citado desabamento do elevado, que resultou no esmagamento de carros e de um ônibus da linha Usina/Leblon (48 mortos). Naquela manhã cinzenta de sábado, os cariocas foram surpreendidos com esse trágico acontecimento. Por incrível que pareça eu tinha passado pelo local do acidente (Avenida Paulo de Frontin, esquina com a Rua Haddock Lobo), cerca de uma hora antes do desabamento, pois estava indo para o centro da cidade, no meu fusquinha 65, jamais imaginando o que logo viria a acontecer. Voltando da cidade, com o carro já no viaduto dos Marinheiros e descendo para pegar a entrada para a Tijuca, ouvi um impressionante estrondo e descortinei uma imensa nuvem de poeira que se elevava para o céu. O viaduto, naquele cruzamento, tinha se partido ao meio, formando um “V” e as partes laterais, sem apoio, desabaram sobre os veículos ali parados. Estacionei na Rua Barão de Ubá e fui verificar o que tinha acontecido, ficando, então, impressionado com a confusão, correria, poeira, gritos, sirenes e cenário de dor e desespero, sem falar na movimentação intensa, in loco, da polícia, do corpo de bombeiros e das inúmeras ambulâncias. Tudo aconteceu quando um caminhão-betoneira, levando seis toneladas de concreto, passava pelo que seria um ponto nevrálgico da obra, naquele cruzamento, e que acabou sendo a gota d’água para a queda do elevado. O inquérito instaurado para apurar os culpados arrastou-se por muitos anos, não se chegando a nenhuma conclusão se foi erro de cálculo ou de construção. Assim, mais uma vez a impunidade triunfou e o tempo se encarregou de fazer a tragédia cair no esquecimento.
Confesso que fiquei com a estranha sensação de ter escapado, por força do destino, daquela trágica ocorrência, pois eu tinha passado, momentos antes, por baixo daquele viaduto, ou seja, eu estive no lugar fatídico, mas não estava na hora fatal. Após a reconstrução do viaduto e a sua liberação para o tráfego, creio que pairou, por muito tempo, uma espécie de síndrome na cabeça das pessoas, pois sempre dava um certo friozinho na espinha quando a gente passava ali por baixo.

By Jonas

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Comentário de Oscar Peixoto em 30 julho 2009 às 20:11
Jonas, que eu me lembre, o calculista da obra foi o poeta, dramaturgo e engenheiro calculista Joaquim Cardozo. Pernambucano, era considerado grande matemático e inovador em cálculo estrutural. Era o calculista predileto do Oscar Niemeyer. Por todos os seus reconhecidos méritos, houve enorme celeuma durante a apuração das causas do desabamento. Parece-me que nada ficou esclarecido. Eis aí uma foto da tragédia.

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