SEPARAÇÃO DE UM JUIZ E SUA MULHER ADVOGADA ...

 

 

SEPARAÇÃO DE UM JUIZ

E SUA MULHER ADVOGADA

 

Separação de um Juiz e sua mulher Advogada

 

Por Rafael Berthold,
advogado (OAB-RS nº 62.120)

 
Desajeitado, o magistrado Dr. Juílson tentava equilibrar em suas as mãos, a cuia, a térmica, um pacotinho de biscoitos, e uma pasta de documentos. 

Com toda esta tralha, dirigir-se-ia para seu gabinete, mas ao dar meia volta deparou-se com sua esposa, a advogada Dra. Themis, que já o observava há sabe-se lá quantos minutos. O susto foi tal que cuia, erva e documentos foram ao chão. O juiz franziu o cenho e estava pronto para praguejar, quando observou que a testa da mulher era ainda mais franzida que a sua.

Por se tratarem de dois juristas experientes, não é estranho que o diálogo litigioso que se instaurava obedecesse aos mais altos padrões de erudição processual.

– Juílson! Eu não agüento mais essa sua "inércia". Eu estou carente, "carente de ação", entende?

– "Carente de ação"? Ora, você sabe muito bem que, para sair da "inércia", o Juízo precisa ser provocado e você não me provoca, há anos. Já eu dificilmente inicio um "processo" sem que haja "contestação".

– Claro, você preferia que o "processo" corresse à "revelia". Mas não adianta, tem que haver o exame das "preliminares", antes de entrar no "mérito". E mais, com você o rito é sempre "sumaríssimo", isso quando a "lide" não fica pendente... Daí é que a "execução" fica frustrada.

– Calma aí, agora você está "apelando". Eu já disse que não quero acordar o "apenso", no quarto ao lado. Já é muito difícil colocá-lo para dormir. Quanto ao rito "sumaríssimo", é que eu prezo a "economia processual" e detesto a morosidade. Além disso, às vezes até uma "cautelar" pode ser satisfativa.

– Sim, mas pra isso é preciso que se usem alguns "recursos especiais". Teus recursos são sempre "desertos", por absoluta "ausência de preparo".

– Ah, mas quando eu tento manejar o "recurso extraordinário "você sempre nega seguimento. Fala dos meus "recursos" mas impugna todas as minhas tentativas de "novação processual"
Isso quando não "mbarga a execução"

Mas existia um fundo de verdade nos argumentos da Dra. Themis. E o Dr. Juílson só se recusava a aceitar a culpa exclusiva pela crise do relacionamento. Por isso, complementou:

– Acho que o "edido procede, em parte" pois pelo que vejo existem culpas concorrentes.  Já que ambos somos "sucumbentes"vamos nos dar por reciprocamente quitados e compor amigavelmente o "litígio"

Não posso. Agora existem "terceiros interessados". E já houve a "preclusão consumativa".

- Meu Deus! Mas de minha parte não havia sequer "suspeição!"

– Sim. Há muito que sua cognição não é exauriente. Aliás, nossa relação está extinta. Só vim pegar o "apenso" em carga e fazer remessa para a casa da minha mãe.


E ao ver a mulher bater a porta atrás de si, Dr. Juílson fica tentando compreender tudo o que havia acontecido. Após deliberar por alguns minutos, chegou a uma triste conclusão:

– E eu é que vou ter que "pagar as custas" ...

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