Servio Tulio em entrevista exclusiva para o Portal

ATUALIZADO


Tudo começou quando Zé da China postou em sua página o vídeo Ascensão e Queda de Mahagonny. Composta por Kurt Weill e Bertolt Brecht, a ópera Aufstieg und Fall der Stadt Mahagonny, repleta de sátiras politicas e sociais, estreou em Leipzig em 1930 e no ano seguinte foi apresentada em Berlim. O vídeo me fez lembrar Servio Tulio, músico, cantor, compositor e radialista, que eu conhecera virtualmente nos primórdios dos blogs através da querida Esther.

Pouco tempo depois, o amigo Theo oferece a Luzete um vídeo de David Bowie cantando Alabama Song e comenta sobre a parceria Brecht/Weill. Servio Tulio não saía da minha cabeça. Combinamos, então, eu e Theo, que faríamos um post sobre o músico. Esther mostrou o caminho das pedras e escrevi para o Servio, que prontamente respondeu e nos concedeu uma entrevista exclusiva para o Portal Luis Nassif.

Artista sensível, inteligente e bem humorado, Servio Tulio revelou ainda sua extrema simpatia e magnanimidade quando disse no e-mail: "Tem coisas que eu não sei se soube muito bem responder, mas eu tentei explicar... Também tenho muitas dúvidas e estou querendo aprender!"




por Helô e Theo

Como você chegou a esse universo musical?
Aí tenho que começar do começo. Apesar de não ter nascido em uma família de músicos, ouvia-se muita música na minha casa. Minha avó era pianista amadora, adorava tocar Nazareth, Chiquinha Gonzaga, Anacleto, enfim, todo este repertório de música de salão do início do século XX que marcou muito minha infância. Por causa de minha avó, quase todos os filhos e netos tiveram aulas de teoria musical e piano durante a infância e adolescência. E “Ai” deles se não tivessem! A gente tinha porque tinha que aprender a olhar para uma partitura e ler música de qualquer maneira. Para minha avó, isso era tão importante como falar português. E eu, com 7 anos não fugi à regra.

Lembro-me que minha casa era como uma enorme vitrola, meus pais ouviam muita música. Desde pequeno fui acostumado à sonoridade dos clássicos, do jazz, da MPB e de grandes musicais feitos para o cinema e o teatro. Eu já tinha um contato com a música vocal alemã desde a fase juvenil devido às óperas de Wagner e Mozart e aos Lieder de Schubert e outros, que minha mãe gostava muito. E também por causa dos discos de Marlene Dietrich que meu pai costumava escutar. Mas o meu primeiro choque com este repertório acabei tendo por conta própria, quando aos 15 anos ouvi pela primeira vez a Ópera dos Três Vinténs de Kurt Weill e Bertolt Brecht. Não me recordo porque comprei o disco mesmo sem saber do que se tratava. Lembro-me que era um álbum duplo lançado no Brasil pela Breno Rossi, e que de alguma forma tive uma vontade maluca de comprar e ouvir só de olhar para a capa. Era uma gravação feita ainda nos anos 50, uma produção da esposa de Weill, Lotte Lenja, que também cantava no disco.

Quando ouvi, mesmo não entendendo nada o que estava sendo cantado, fui invadido por um assombro e um sentimento de felicidade enorme e ouvia aquilo o dia inteiro até decorar, e de tanto ouvir até conseguia cantar no banheiro. Tudo errado, é claro, mas cantava. Parecia que eu tinha reencontrado um tesouro, algo precioso que eu tinha perdido e procurava tanto. Minha mãe disse que era maluquice de reencarnação. Rimos muito. Comecei a colecionar a partir de então, tudo o que tinha a ver com este universo: livros, discos, partituras. Isso muito antes mesmo de resolver me tornar um cantor. Esse foi meu primeiro contato.


Por que você, brasileiro, escolheu o repertório do cabaré alemão?
Como eu disse antes, eu não escolhi. Não tive escolha. Me invadiu como um caso esquisito de possessão. A princípio foi algo que me senti quase obrigado a fazer, que me dava um prazer incrível, não sei explicar bem porque. Só segui meus instintos e os caminhos do prazer e da satisfação pessoal. Mas foi preciso que quase duas décadas se passassem para eu ter coragem de encarar este repertório profissionalmente como cantor. Eu sabia que era um universo muito particular, muito especial, cheio de signos próprios os quais eu precisava decifrar. Apesar de sempre ter cantado canções em diversas línguas em outros trabalhos, mesmo sem conhecer os idiomas, entendi que neste caso não dava para ser assim. Foi aí que pensei, agora vai ou racha, e caí de cabeça no estudo da língua alemã.


Seu sotaque nos parece perfeito! Precisou estudar muito alemão para isto?
Bondade de vocês! Hehehe. Não, eu não considero a minha pronúncia em alemão perfeita. Sou brasileiro, ora bolas, e quando falo ou canto em um idioma que não é o meu, cometo vários deslizes de vez em quando. Mas não fico aflito, a partir do momento que tenho plena consciência de que sou um brasileiro cantando em alemão. Sei que nunca cantarei uma canção alemã como um alemão. Mas também não é esse o meu objetivo. E acho muito natural que isso aconteça com qualquer pessoa que fale ou cante em um idioma estrangeiro. Não me importo muito com essa coisa de sotaque, até porque é estranho se alguém pensa que deve se livrar disso completamente. Nem pensar. Se eu procurasse fazer isso insistentemente, acho que seria uma postura meio neurótica da minha parte, talvez me causasse um certo grau de frustração e o prazer iria embora rapidinho. Mas se somos profissionais, temos que ser estudiosos, cuidadosos e procurar acertar e fazer o melhor sempre. Concentro-me muito, procuro articular, pronunciar bem as palavras, respeitar a pontuação e não errar na gramática, enfim, me comunicar com o público da melhor maneira possível. Isso já me ajuda muito. O grande lance é entender as intenções, entrar na música, nas entrelinhas, no caráter de cada poema, cada canção, cada personagem proposto pelos autores.

Talvez por ser músico, sempre tive muita facilidade para aprender idiomas. Minha mãe era professora de português e literatura, falava inglês, francês, latim. Ela vivia pegando no meu pé me corrigindo dia após dia sempre que eu escrevia ou falava algo errado mesmo em português. Acho que este também foi um dos motivos pelo qual sempre fui muito atento às sonoridades e à maneira de cada pessoa falar, articular. Quanto a estudar alemão, eu não somente precisei, como ainda preciso continuar estudando muito e sempre. É um idioma fascinante. É a língua de Goethe, Schiller.... E eu adoro.


Como montou sua parceria com Glauco Baptista?
Nos anos 90, eu já tinha ouvido falar muito do Glauco como professor e músico com quem todo mundo queria estudar, mas que era muito difícil, pois era muito disputado pelos alunos. Mas eu não o conhecia pessoalmente. Eu era doido para ter aulas particulares de harmonia com ele, mas eu não tinha grana para pagar, era tudo muito contadinho. Nesta época eu era integrante do grupo Anonimus, que se dedicava exclusivamente ao repertório de música da renascença, onde eu também trabalhava com a cantora e professora Sônia Leal Wegenast. Ela e o Glauco eram amigos, e ambos professores da Escola de Música Villa-Lobos. Foi no início do ano 2000 que eu tomei coragem e resolvi começar a procurar um pianista que pudesse abraçar junto comigo o repertório de canções de cabaret. Isso era difícil, pois este repertório, apesar de ter um apelo bem popular, não é em sua totalidade de simples execução. Por muitas vezes exige que o pianista tenha uma formação acadêmica bem sólida. Então era um problema, pois os pianistas de música popular encontravam várias dificuldades técnicas, enquanto os acadêmicos, não se interessavam pelo assunto, pois consideravam este repertório algo “menor”.

Um belo dia mostrei meu trabalho de pesquisa para a Sônia, que ficou impressionada e acabou me apresentando ao Glauco que me ouviu cantar e nem pensou duas vezes, topou na hora e acabou se apaixonando pelo assunto. E assim, em 2001 apresentamos nosso primeiro recital no Teatro da UFF e depois em vários concertos didáticos na Escola Villa-Lobos. Foi assim que tudo começou.

Mackie Messer - Servio Tulio e Glauco Batista


Fale um pouco do seu trabalho na rádio MEC
Pois é, minha outra profissão é Radialista. Amo Rádio! Sou produtor e programador radiofônico desde 1985, quando comecei a desvendar o universo do rádio em um convênio entre a UFF e a Rádio Fluminense AM. Minha mestra nesta época era a jornalista, poetisa e escritora Esther Lúcio Bittencourt, com quem aprendi bastante sobre a magia deste veículo de comunicação tão fascinante. Depois fui contratado pela Rádio Jornal do Brasil, onde tive um outro grande mestre: Luís Carlos Saroldi. Tive muita sorte e agradeço sempre os ensinamentos destes dois grandes profissionais. Depois fui contratado para fazer produção e programação musical na Rádio Opus 90, dedicada inteiramente ao repertório de concerto, ou seja, à música clássica, onde trabalhei com outro grande mestre, o jornalista Antônio Hernandes. Fui convidado por Heloísa Fischer e Regina Sales para trabalhar como produtor e programador da Rádio MEC FM no ano de 1997. À pedido do saudoso Artur da Távola, fui coordenador da Ràdio FM por alguns anos, mas como não gostava muito da parte burocrática com a qual as chefias precisam lidar, resolvi que queria mesmo é voltar a me dedicar exclusivamente à produção e programação. Hoje em dia na MEC FM, sou responsável por toda a confecção das planilhas musicais, cerca de 20 horas de programação diária de clássicos. Além disso, produzo dois programas autorais: um deles é o “MÚSICA DE INVENÇÃO”, realizado em parceria com o coordenador atual da FM, o também músico e radialista e grande amigo Marcelo Brissac. O outro programa chama-se “CAFÉ CONCERTO”, uma produção que se dedica exclusivamente ao universo da chamada “Música Ligeira”, incluindo música de salão, canções de cabaret, revistas musicais, filmes, operetas, enfim, este universo do entretenimento. Mais detalhes sobre estas produções podem ser encontrados no site da emissora http://www.radiomec.com.br


Temos a informação de que alguns cabaretiers fugiram da Alemanha para o Brasil?
Quais foram eles?

É claro que muitos músicos, compositores, cantores passaram por aqui no nosso Brasil Varonil. Eu não tenho informações precisas sobre todos ou o que realmente aconteceu. Ouvi muitos “causos” que pessoas me contam aqui e ali, mas nada que eu possa assinar embaixo com “verdade-verdadeira-oficial”. Por causa da minha dedicação a este trabalho, acabei fazendo amizade com alguns descendentes de compositores como a Melodie, filha do Friedrich Hollaender, a Elizabeth, filha do Werner Richard Heymann e a Ingrid Kreuder, viúva do Peter Kreuder. Sei de muita coisa, mas só conheço mais seguramente a história do Peter Kreuder, cujas canções fizeram um grande sucesso na Alemanha tanto na época da República de Weimar quanto na década de 30. Artistas importantes como Marlene Dietrich, Josephine Baker, Rudolph Schock, Comedian Harmonists, enfim, todos interpretaram suas músicas. Dietrich e Baker estiveram aqui no Brasil. No final ano de 2004, Ingrid Kreuder, a viúva do Peter veio ao Brasil me visitar por ocasião do recital de 100 anos, no que cantei só canções dele. Ela ficou aqui comigo durante duas semanas, e contou-me muitas coisas interessantíssimas em tardes deliciosas tomando muitos chops em Copa. Algumas histórias publicáveis, outras nem tanto... hehehe

Mas o fato é que Peter esteve aqui por duas vezes. É importante sabermos que no final do ano de 1947, ele foi convidado para dirigir musicalmente emissoras de rádio de São Paulo, Rio de Janeiro e Buenos Aires. Trabalhou como maestro e arranjador aqui na nossa Rádio Nacional. Em 1948, apresentou no Theatro Municipal do Rio de Janeiro a premiére de seu poema sinfônico intitulado “Um Vienense em Nova York”. Gostou tanto do Brasil que sua primeira sinfonia para grande Orquestra chama-se “SINFONIA BRASILEIRA” (Sinfonia número 1, em Dó Maior – Die Brasilianische).


Como influenciaram a música brasileira? O teatro de revista tem sua influência direta?
“Trovão-Tesão” na minha cabeça! Nossa! Essa pergunta é ao mesmo tempo a mais fácil e a mais difícil de responder. Outro dia eu estava ouvindo uma opereta da dupla inglesa Gilbert & Sullivan chamada “O Mikado”. Levei um susto ao ouvir a abertura e me deparar com a melodia do famoso “Co-co-co-co-co-co-ró O Galo tem saudade da Galinha Carijó”. Aí eu pensei... Ah... Olha só como o Lalá era danado! Heheheh!

Aí depois ouvi uma peça instrumental escrita pelo Pixinguinha chamada “Marreco quer água” e a reconheci na hora. Era o mesmo ritmo e melodia de “Halli! Hallo!”, uma canção alemã da época dos cabarets.

Tenho certeza que minha resposta vai ficar completamente maluca, pois há muito o que se falar sobre esse assunto, e certamente não caberá aqui, a não ser que façamos uma matéria especial só sobre isso. É fascinante este tópico que aborda as origens das coisas. Mas isso dá uma aflição que vira enciclopédia! E não podemos tratar este assunto com leviandade ufanista.... Hehehe....

Então vamos apenas pensar que no começo do século XX, a música de salão brasileira tinha influência direta da européia, principalmente da francesa, da portuguesa e da vienense. Isso fica muito claro em Ernesto Nazareth, só para citarmos um exemplo. Se formos para os Estados Unidos, pensaremos em Scott Joplin, ou em locais como o Tin Pan Alley em Nova York, onde os novos compositores tentavam vender suas criações para as estrelas de vaudeville do momento. Mas cada nação, cada cultura, foi fazendo seus próprios reajustes de acordo com sua identidade nacional. Se falamos de Teatro de Revista, de variedades, falamos de Vaudeville e espetáculos do gênero. Os Vaudevilles eram apresentados tanto em grandes teatros populares quanto nos cabarets, que não eram tão populares assim. Tinha uma grande diferença. As pessoas hoje costumam confundir o ambiente dos Cabarets propriamente dito com as grandes casas noturnas de entretenimento. Digamos que, os grandes espetáculos de vaudeville eram apresentados ao proletariado, puro entretenimento, enquanto os artistas de cabaret, ao fazerem este tipo de espetáculo em seus “cabarets literários”, prezavam mais pela crítica social e política, do que apenas mero entretenimento. Eles confrontavam o público. Não era obrigação entreter ou agradar. Eram espécies de cronistas sócio-políticos, e muitas vezes bastante vigiados ou severamente censurados. Os grandes Teatros de Revista, eram entretenimento para o público, que ia lá em busca de frivolidades, mulheres nuas, fuga da realidade, mais mulheres nuas e prazer. O Cabaret não. Embora não descartasse o fato de que era um local de entretenimento, o Cabaret era “Feio”, era “marginal”. E é exatamente a beleza estonteante desta “feiúra” que fascinava e instigava um outro tipo de público. Os cabaretiers destes locais específicos como o “Chat Noir” na França, o “Überbrettl”, a segunda versão do “Schall und Rauch” e outros manifestos e estabelecimentos do gênero em Berlim ou Paris, reuniam um bando de intelectuais de todas as áreas de atuação artística como Thomas Mann, Erik Satie, Paul Verlaine, Arnold Schoenberg, Kurt Tucholsky, Bertolt Brecht, Hanns Eisler, Billy Wilder, uma lista interminável. Na Espanha tivemos por exemplo o cabaret “Os 4 Gatos”, onde Picasso fez sua primeira exposição. Só aí temos uma boa idéia do que os cabarets representavam.

Sei que não respondi à sua pergunta. Até porque esta também é uma questão que me intriga e aflige. E já que esta entrevista estará na internet, é muito importante a participação dos leitores que se interessam pelo assunto e queiram debater. Ela também é uma questão importante para mim. Mas é que eu precisava falar disso para encurtar o assunto. E para encurtar o assunto: Se pensarmos em como isto se refletiu no Brasil, precisamos pensar em locais ou ambientes similares. Não iguais, porém similares. Em termos de música e poema, penso que talvez seja melhor procurarmos por personalidades como Pixinguinha, Bastos Tigre, Noel Rosa, Assis Valente, Alvarenga e Ranchinho, Lamartine Babo, enfim, temos que trilhar por estes caminhos para que os links sejam atados. Eu mesmo confesso que ainda me encontro um pouco vagando.... estou trabalhando e pesquisando bastante para ficar seguro e encontrar este elo. Assim que conseguir, a meta é fazer um cd ou show só com músicas de autores brasileiros deste período.

E só para relaxar, brincando um pouco, musicalmente falando também, a marchinha de carnaval não está muito distante de muitas canções ou letras do cabaret alemão. Um grande exemplo disso é uma canção dos anos 20, do compositor Otto Stransky chamada “Viajo com minha Klara para o Sahara”. Temos um vídeo no You Tube:


Bom, a verdade é que a melhor maneira de obtermos estas respostas, é lendo, buscando, ouvindo. Ouvindo as gravações, lendo os textos, entrando em contato uns com os outros, fazendo pesquisas, trocando idéias. Se abrimos bem os ouvidos, não é difícil chegarmos a uma conclusão de como tudo isso se refletiu por aqui e vice-versa.


As canções de cabaré feitas por Weill e Brecht estão na categoria de ópera ou opereta?
Aliás, qual a diferença entre as duas?

O encontro de Weill e Brecht foi uma bênção para o universo musical. Mas se existe alguém nesta dupla que realmente pertenceu ao universo do cabaret, foi Brecht. Ele chegava nos cabarets com seu violão e se apresentava, tocando e declamando seus poemas. Eu tenho inclusive partituras escritas pelo próprio Brecht desta época. Já Kurt Weill veio de uma formação acadêmica, foi aluno de Busoni, escreveu Sinfonias, concerto, quartetos de cordas, enfim, era um compositor extremamente dedicado à chamada “música séria”. Até que ele e seus contemporâneos como Paul Hindemith, Ernst Krenek, Stefan Wolpe e Hanns Eisler passaram então a assimilar o ritmo do jazz, o ruído da indústria, aquela novidade tecnológica toda dos anos 20. Mas a transformação derradeira de seu estilo foi acelerada por dois encontros cruciais: um com uma atriz de cabaret que seria sua esposa e melhor intérprete, Lotte Lenja, e com Bertolt Brecht. Tanto o envolvimento profissional com Brecht e amoroso (e também profissional) com Lenja teve início em 1924. Nada mais natural que sua música tendesse para este lado. Embora ele tenha vivido também neste ambiente, no meu entendimento, Weill nunca foi um compositor de música de cabaret, embora suas canções sejam reconhecidas por muitos desta forma. O que ele fez, foi se utilizar dos textos de Brecht e da estética da música popular de então, aliadas ao seu próprio estilo de composição, em prol de um projeto muito sólido e pertinente de crítica social e política. Uma arma poderosíssima, diga-se de passagem. Desta forma, não temos que nos preocupar em classificar o trabalho da dupla em categorias como ópera ou opereta. Costumo pensar que é “Música para o Teatro”. E o mais interessante é que cada canção de cada uma destas peças, angariaram vida própria. Elas podem ser apresentadas em grupo, ou como miniaturas avulsas normalmente ao público até os dias de hoje, seja em teatros, casas de ópera, salas de concerto, bares, cabarets, clubes noturnos e até mesmo em shows de rock, e o recado está sempre perfeitamente dado. Não é o máximo?


Como você compreende a atualidade das canções de Brecht, que despontam num momento da modernidade com um forte componente de crítica político-social?
Aí eu não gostaria de falar tão somente das canções com poemas de Brecht, e sim de toda uma gama de compositores e poetas, principalmente aqueles que foram tão ativos e significativos durante o período entreguerras, naquele ambiente da República de Weimar. É impressionante como até hoje as letras de Brecht, Friedrich Hollaender, Kurt Tucholsky, Marcellus Schiffer, Beda, Hanns Fritz Beckmann, Rudolf Nelson e tantos outros são tão atuais! Algumas dos textos parecem ter sido escritos hoje mesmo de manhã!

Muitos jovens costumam assistir a nossos recitais, e sempre fazemos questão de projetar em um telão simultaneamente as legendas com as traduções em português que eu faço. Eles ficam impressionados com os textos e sempre exclamam: “Nossa! Parece que foi hoje que alguém escreveu isso...”. O que me faz pensar que nossos problemas e manias continuam os mesmos....heheheh


Pode falar um pouco da beleza dos songs de Weill.
Por conta disso, quais as canções que você destacaria?

Como eu disse antes, o Kurt Weill, a meu ver, foi um compositor sério que soube muito bem ser mais sério ainda deixando de ser tão sério. Gosto muito da fase alemã dele, embora não descarte momentos super-felizes em suas investidas nos musicais para a Broadway.

Eu não destacaria apenas algumas canções. É importante que se ouça tudo. E aí falo de obras como “A Ópera dos 3 Vinténs”, “Ascenção e queda da cidade de Mahagonny”, “Os sete pecados mortais” e “Happy End”.

Ao Servio, nosso agradecimento pela excelente entrevista!


**************

Mais alguns vídeos


Alabama Song



Der Matrosen Song (aus Happy End)



Lili Marleen


**************

Servio Tulio na web

MySpace
Cantor e compositor. Atualmente, atua em 4 diferentes trabalhos musicais. As bandas eletrônicas Saara Saara e a Orquestra Ektoplasma, trabalhando com sintetizadores e instrumentos elétricos; piano-voz no projeto canções de Cabaret com o pianista Glauco Baptista (Alemão, Francês, Inglês, e canções de cabaret/revistas brasileiras e americanas), e Música Antiga do século XVI. Servio trabalha também como produtor na Rádio RADIO MEC FM 98,9 no Rio de Janeiro. Clássicos, jazz e música alternativa.


Rádio Mec
Programa Café Concerto
Os programas vão ao ar todas as sextas, às 10 da noite e na semana seguinte inteira cada edição fica no podcast. Para quem quiser ouvir no rádio, a frequência é 98.9 FM.


Página do YouTube
Vídeos de shows e ensaios.

************

ATUALIZAÇÃO - 23/10/09

O CD Cabaret, de Servio Tulio e Glauco Baptista, pode ser adquirido aqui
A linda capa é de Sonia Madruga.

Exibições: 436

Comentário de Marise em 22 outubro 2009 às 20:02
Helô nem sei o que dizer.É tudo tão lindo, tão perfeito. Além da grande garimpeira, agora aparece a entrevistadora nota dez. Este post está proporcionando, ao menos para mim, algo indescretível.Conhecer o que não conhecia e aprender a ouvir estas maravilhas. Então o máximo:terminando com Lili Marleen, que eu sempre adorei. Que aula, que prazer proporcionado por este cantor e o pianista.
Obrigado, amiga, por nos proporcionar estes momentos brilhantes. É mágica pura. Isso vale ouro.
Beijão
Comentário de Cafu em 22 outubro 2009 às 20:52
Assino embaixo do comentário da Marise. A entrevista ficou demais! Rica em informações, instrutiva, leve e profunda.
Eu também não conhecia o Servio Túlio e fiquei encantada com a prosa, o bom humor, o canto, as canções e a dedicação ao projeto. Palmas! Que tal se apresentar em Brasília qualquer dia desses, heim Túlio?
Parabéns também à Helô e ao Theo por esse belo trabalho. Valeu.
Beijos para os quatro e muito sucesso e reconhecimento para o Servio Tulio e o Glauco Batista. Tintim!
Comentário de Liu Sai Yam em 22 outubro 2009 às 21:16
Pois é, Helô,

O humanismo alemão sendo destroçado pelo chauvinismo e depois indo fincar estacas em outras paragens, mas sempre revolucionário e criativo. Do teatro de revista ao cinema à literatura às artes plásticas, nada conseguiu segurar o espírito de quem soube produzir Goethe, Thomas Mann, Beethoven, Bertold Brecht.

O delinquente sumiu, aposentou o bico, mas estaria comovido com sua lembrança, porque tudo se move, apesar dos pesares, como diz Servio, é preciso entrelaçar tudo, de Kurt Weil a Pixinguina, de Brecht a Noel, de Mack the Knife ao malandro caindo de podre, mas se movendo, sempre, teimosamente querendo mostrar sinais de vida.
Não sei a que virá tudo isso, mas é contraveneno com efeitos colaterais. A inquietação de um lied, um samba-canção, um batuque e a confluência de sonoridades a nos unir pelos pés e pelos corações, momentos de entrega ao prazer e à paixão que valem por todos os maus momentos desta vida.
A loura sabida sempre apontando caminhos de saida, diria o Zé.
Tudo vale, e qualquer maneira de amor valerá.
Salve nós todos.
Comentário de Servio Tulio em 23 outubro 2009 às 6:53
Obrigado amigos! Marise! Obrigado pelo presente! Tentei retribuir lá na sua página mas não consegui, pois minha internet está muito ruim! Estamos felizes aqui pois conseguimos fechar um projeto chamado KABARETT BERLIN para o ano 2010 e que a Helô vai dar todos os detalhes em primeira mão! Abração para todos!
Comentário de Marise em 23 outubro 2009 às 10:39
Comentário de Marise em 23 outubro 2009 às 10:41
Comentário de Marise em 23 outubro 2009 às 10:44
Comentário de Marise em 23 outubro 2009 às 10:46
Comentário de Marise em 23 outubro 2009 às 10:47
Comentário de Marise em 23 outubro 2009 às 10:50

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço