Setor elétrico brasileiro: mais reservatórios ou critérios mais coerentes?

Por Roberto Pereira d´Araujo, do Blog Infopetro

O Setor Elétrico Brasileiro está passando por significativas mudanças. Apesar da nossa matriz energética bastante renovável e limpa em comparação a de outros países, não estaremos livres de críticas. Entre elas, uma censura a ser enfrentada é a aversão às usinas hidroelétricas com grandes reservatórios de acumulação. Muitas vezes, a principal oposição nem está concentrada nos efeitos ambientais, muito embora eles existam. A resistência está mais conectada à realidade regional, geralmente carente de políticas e investimentos públicos, que “cede” sua natureza e seus recursos naturais para produzir uma energia que é um elemento essencial de outra região, industrializada e urbana, que nada tem a ver com a área atingida pelo reservatório.

A visão mercantilista de que usinas hidroelétricas são meras fábricas de kWh que concorrem com outras fontes energéticas, tais como eólicas ou térmicas, é um grande equívoco. Elas são muito mais do que o sistema eletromecânico que transforma a energia potencial da água em energia. Concebidas como partes de um amplo projeto regional, poderiam transformar positivamente a realidade da área afetada. Alguns avanços têm sido alcançados pelos novos projetos, mas eles ainda são originários de um só ministério, o de Minas e Energia. Dada a dimensão da intervenção, todo o governo poderia estar envolvido[1].

Mas, o que significa a não construção de reservatórios para uma economia dependente de energia confiável? Um país que passou por um racionamento que ostenta o troféu de ser o maior do planeta sem guerras ou desastres naturais, deveria estar preocupado. Os reservatórios acumulam água nos períodos “úmidos” para usá-la nos períodos “secos” e, crescentemente, estamos assistindo a uma diminuição dessa capacidade de acumulação em relação à carga que as hidroelétricas têm que suprir. Na década de 80, tínhamos um confortável índice de reserva, pois, a capacidade chegava ao equivalente a dois anos de consumo. Hoje, esse índice comparativo não chega a seis meses e, até 2015 chegaremos a menos de 5 meses[2].

Mesmo assim, não há sistema no mundo que disponha uma reserva equivalente a mais de 200 TWh, como temos hoje. O problema é que a demanda por energia quase triplicou nesse período. Seria inviável manter qualquer índice de conforto comparável ao de trinta anos atrás. Mas, não é apenas a aversão aos reservatórios que preocupa. O modo como o sistema tem-se expandido e operado é, no mínimo, curioso.

O Gráfico 1 mostra a recente diminuição da capacidade de reserva em relação à carga. Como se vê, teríamos uma reserva máxima equivalente a um pouco mais de 5 meses de consumo. Apesar de sermos predominantemente hidroelétricos, o consumo também é atendido por térmicas. Portanto, se, da carga total descontamos toda a geração não hidráulica, teremos esse mesmo índice, mas relacionado apenas à carga sob responsabilidade das hidráulicas[3]. O gráfico 2 mostra a mesma curva do gráfico 1 em preto e a segunda em azul.

Para um sistema que tem se expandido com um recorde de térmicas, é surpreendente que as duas curvas mostrem um paralelismo. Isso significa que o uso dessa geração não hidráulica não aliviou o crescente uso da reserva, pois nesse caso, o declínio da segunda curva seria mais atenuado, mostrando uma preservação da reserva.

Gráfico 1: Armazenagem máxima comparada a carga mensal

Gráfico 2: Armazenagem Max/carga total (em preto) e armazenagem Max...

Outra estranha condição pode ser vista em simples dados da década de 80 e atuais. Na segunda metade da década de 80, quando o nosso sistema já tinha interligação significativa, a capacidade instalada do SIN era de 86% de hidráulicas e 14% de térmicas. Com essa configuração, as hidráulicas geravam 92% da energia, com as térmicas ficando com 8%. Numa análise simples, mas reveladora, isso significa que os 14% de MW térmicos “receberam” 6% de geração das hidráulicas como substituição.

Hoje, temos uma capacidade instalada 73% hidráulica e 27% térmica. Portanto, não pareceria que a responsabilidade das hidráulicas diminuiu bastante? Mas, se olharmos o dado energético, vemos que esses 27% de MWs térmicos geram apenas 16% dos MWhs. Ou seja, hoje, depois de um racionamento recorde, diminuição da capacidade de regularização e aperto no critério de garantia[4], por incrível que pareça, as hidráulicas “transferem” às térmicas 11% como substituição e não 6%. Isso quer dizer que, ao contrário do que se poderia esperar, pesa sobre o bloco hidráulico uma ainda maior responsabilidade sobre a garantia da que existia na década de 80. (...) O texto continua no Blog Infopetro.

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