Com a opereta "Ramom e Maraó", encenada por bonecos, o poeta Zé Tatit se sai bem ao abraçar uma tarefa espinhosa: colocar letra em composições instrumentais eruditas.

"Entre as heresias que sempre pontuaram a história da música, uma das mais atrevidas talvez seja colocar letras em composições instrumentais eruditas que, de tão consagradas, carregam a fama de 'irretocáveis'. Pois o poeta, dramaturgo e artista plástico paulistano Zé Tatit acaba de cometer a ousadia. Fez um punhado de canções para melodias célebres criadas pelo compositor romântico Robert Schumann (1810-1856): o Arabeske, opus 18, e as 13 peças para piano que formam as Kinderszenen (Cenas da Infância), opus 15. O músico alemão as escreveu buscando expressar reminiscências dos seus tempos de criança. Agora, Tatit lança mão delas para conceber a opereta infanto-juvenil Ramom e Maraó, que a dupla Palavra Cantada — queridíssima de meninos e meninas — estreou no mês passado e volta a encenar nos dias 20 e 21 de dezembro em São Paulo.

Um dos integrantes da dupla, aliás, é irmão de Zé, o cantor e instrumentista Paulo Tatit. O outro é Sandra Peres. Ambos abraçaram o desafio de montar Ramom e Maraó em parceria com cinco manipuladores de bonecos do grupo mineiro Giramundo, dois narradores e um coro de sete vozes. Baseado no enredo de grandes óperas, como Tristão e Isolda, de Richard Wagner, o espetáculo narra a história da primeira paixão vivida pelas duas crianças protagonistas, cujos nomes contêm anagramas da palavra 'amor'.

Na foto abaixo os bonecos que fazem as vezes de Ramom e Maraó, protagonistas da opereta. Integrantes do grupo de teatro Giramundo os manipulam.





A opereta começou a nascer por força de um incômodo que perseguia Zé Tatit toda vez que ele teimava em pintar ao som das Kinderszenen ou do Arabeske. Nessas ocasiões, o artista sentia que suas mãos não lhe obedeciam. A pintura simplesmente cessava, acuada por um mar de palavras que lhe inundavam a mente. Para quem cultiva o hábito de trabalhar ouvindo música clássica, aquilo se transformou num tormento. 'Sempre pensei que não se deve colocar letra em composições eruditas, a não ser nas líricas. Entretanto, quase que involuntariamente, minha cabeça divagava e insistia em associar frases às melodias de Schumann', diz Tatit. Quando escutou a gravação de Cenas da Infância com Nelson Freire ao piano, o poe­ta resolveu finalmente ceder ao impulso de tecer canções baseadas nas obras do alemão. Revelou seus planos a Paulo, com quem costuma trabalhar como letrista, e pediu que ele transpusesse as peças pianísticas para o violão. Não conseguiu convencê-lo. 'O Paulo nem ligou', recorda. 'Ele não vislumbrava o mesmo que eu naquelas peças.' Tatit decidiu, então, compor sozinho. Trocou São Paulo por Recife e, em três dias de isolamento, criou os personagens e redigiu as letras das 18 canções de Ramom e Maraó.

A rapidez do processo o surpreendeu. Ele, que havia demorado 20 anos para completar um de seus livros de poesia (ainda inédito), conseguiu finalizar a opereta inteira em menos de uma semana. 'Experimentei um momento único, de grande inspiração e volúpia. Enquanto escrevia as letras, ia percebendo que as melodias dessas peças de Schumann exibem oscilações rítmicas que combinam perfeitamente com um roteiro dramático.' Tatit criou ainda o logotipo da opereta — corações que se interpenetram, como símbolos 'do amor dentro do amor, do masculino e do feminino, das histórias de encontro e de separação', explica. É dele também a autoria do vídeo que complementa o cenário do espetáculo.

Depois de assistir à montagem, fica impossível retornar ao universo de Schumann sem aludir ao enredo de Ramom e Maraó. Há um casamento perfeito entre as melodias do compositor alemão e as letras de Tatit, simples e contemporâneas, salpicadas de gírias educadas. Com uma ou outra concessão aos arranjos originais (na opereta, há muita percussão e a transposição de parte das melodias para o violão), o poeta e seus parceiros montaram um espetáculo de bonecos tão atraente quanto inusitado, depois de apenas 50 dias de ensaio. 'Deu um trabalhão', reitera Tatit. 'Mas ver as crianças assoviando Schumann é a melhor recompensa que poderia ter.'"

Fonte: Texto de Paula Nadal, extraído da Revista BRAVO, dezembro de 2008.

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