por Laura Macedo

José Barbosa da Silva
(1888-1930), conhecido pelo apelido de Sinhô, é uma unanimidade quanto se trata de apontar o mais popular compositor de samba das primeiras décadas do século XX.

Filho de dona Graciliana e seu Ernesto - pintor e decorador de paredes, amante do “choro” e dos flautistas famosos da época, Joaquim Callado e Patápio Silva -, nutria o sonho do filho tornar-se , a exemplo dos citados, um grande flautista, mas Sinhô preferiu mesmo o piano e o violão, revelando, também, a vocação para levar a vida na flauta.

Frequentador assíduo dos principais redutos musicais da época – Festa da Penha, as sessões de capoeira, as batucadas da Praça Onze, as casas das tias baianas, inclusive tia Ciata -, foi gradativamente formatando seu estilo peculiar de criar melodias.

Qualquer acontecimento/incidente do cotidiano da cidade do Rio de Janeiro era motivo para um registro sonoro, feito graças à sua aptidão inata para a música que, gradativamente, foi se aprimorando via contatos com o maestro Eduardo Souto (diretor de gravação da Casa Edison) e com um dos seus melhores amigos, o violonista, pianista e professor renomado Augusto Vasseur. Quando faleceu, já escrevia suas composições, mas costumeiramente recorria ao grande amigo nos casos de dúvidas.

Propenso a brigas em virtude do seu temperamento forte e emotivo, envolveu-se em várias polêmicas musicais com Donga, Hilário Jovino, Pixinguinha e seu irmão China, e Heitor dos Prazeres. É desta época sua histórica frase: Samba é como passarinho. É de quem pegar”. Felizmente as brigas de Sinhô acabavam em samba.

Mesmo com as polêmicas envolvendo plágios, Sinhô não se descuidou de puxar “brasa pra sua sardinha”, ou seja, foi um dos pioneiros a se preocupar em assegurar seus direitos autorais. Usava um carimbo nas partituras e uma assinatura personalizada nos discos.

Amigos de ricos e pobres, frequentava tanto o salão da Kananga do Japão como as casas mais ilustres que o acolhiam. Até os Reis da Bélgica (Alfredo e Elizabeth) demonstraram simpatia por suas composições, quando da sua passagem pelo Brasil.

Teve amigos devotados e entusiastas, a exemplo de José do Patrocínio (conhecido como o boêmio Zé do Pato), Luiz Peixoto, Villa Lobos, Manuel Bandeira, Mário Reis, Augusto Vasseur e Álvaro Moreira, sem nunca ter abandonado as rodas da malandragem.


Foi o amigo José do Patrocínio o autor da ideia de fazer uma festa para coroar Sinhô o Rei do Samba. Tal festa não chegou a acontecer, mas a vaidade do compositor se apossou do título e a partir daí ele sempre se apresentou como se de fato ostentasse aquela fictícia coroa.

Sua vaidade se estimulava inclusive pela propaganda de suas composições, que, inspiradas ou não por ele, inflavam seu ego. Observem como ele realmente assumiu o posto de Rei do Samba.

Partitura de Sinhô editada pela Casa Carlos Wehrs, famosa loja de instrumentos musicais no Centro do Rio. O título e a denominação de “samba maioral” falam por si.




“Quem fala de mim tem paixão”[samba maioral] (Sinhô) # Pedro Celestino e American Jazz Band, de Silvio de Souza. Disco Odeon (123027 [lado indefinido]). Dezembro/1925 / Julho/ 1927.



 

Inúmeros episódios envolvendo sua vaidade foram relatados pelos amigos. Como é inviável a publicação de todos, selecionamos os contados pelo cronista do Jornal do Brasil, João Guimarães, mais conhecido por “Vagalume”, e pelo músico, radialista e escritor Almirante.




Resumindo o que relatou Almirante: Numa festa particular em Botafogo uma jovem, entusiasmada com a performance de Sinhô ao piano, pediu que ele executasse a partitura de “Élégie”, do compositor erudito Jules Massenet. Como Sinhô, nessa época, era incapaz de ler uma nota sequer, teria se livrado da tarefa respondendo à jovem que não tocaria a peça porque não se dava com o autor.

Sinhô era assíduo freqüentador da casa do escritor e amigo Álvaro Moreira, onde fez contatos com pessoas influentes, entre políticos, artistas, jornalistas e intelectuais.

E foi para o amigo Álvaro Moreira que compôs, em homenagem à sua esposa, um samba carregado de lirismo.

“Amar a uma só mulher(Sinhô) # Francisco Alves. Disco Odeon (10119-A) / Matriz (1496), 1928.



 

O titulo da composição acima não se aplicava ao nosso Sinhô do samba, que, em se tratando de mulheres, tinha uma lábia afiada. Tanto que iniciou a carreira artista na seara do amor aos dezesseis anos, casando-se com Henriqueta Ferreira, com quem teve três filhos. Outras mulheres integraram sua vida amorosa, umas, de forma passageira, outras demoradamente, a exemplo de Cecília, pianista da Casa Beethoven, Carmen, mundana de rara beleza, e Nair Moreira, sua última companheira.

Certa vez, sentindo-se traído por um amigo, ficou arrasado. Chegou a pensar em soluções radicais, mas elas, felizmente, converteram-se numa canção, que ele sempre ouvia de olhos marejados.

“Sabiá” (Sinhô) # Mário Reis. Disco Odeon (10257-A) / Matriz (1935). Lançamento (outubro/1928).

Vale registrar que o fator emotivo não estava presente apenas nas suas composições, mas também nas pequenas ocorrências do cotidiano.

Houve uma época em que Sinhô pouco conviveu com seu pai, provavelmente para evitar os sermões do velho pintor. Certo dia, passando por uma rua, percebeu um operário trepado numa escada pintando a fachada de uma casa. “Sinhô aproximou-se disfarçadamente para não ser visto. E, comovidíssimo, olhos rasos, fica debaixo da escada, enquanto o pai assobiava um dos seus sambas mais populares”. (Edigar de Alencar).

Certa noite, num cabaré da rua dos Arcos, com vários companheiros, entre os quais Villa-Lobos e Luiz Peixoto, Sinhô, apaixonado por uma das mulheres do ambiente, se surpreende ao vê-la com outro. Não conseguindo disfarçar a mágoa exclama: - “Essa mulher que adoro, na companhia de outro!!” E unindo a frase à ação, espanta os companheiros ao levantar bruscamente. Dirige-se ao piano e ainda com maior sentimento executa uma das suas composições, talvez dedicada à criatura volúvel. Era a canção “Jura” - seu maior clássico -, gravada originalmente por Mário Reis, seu aluno de violão, grande amigo e o cantor que melhor entendeu o espírito de sua obra.

“Jura (Sinhô) # Mário Reis e Orquestra Pan American. Disco Odeon (10278-A), 1928.



 

Na sua discografia a voz masculina reina. Há apenas quatro registros de vozes femininas: Aracy Cortes, Carmen Miranda, Iolanda Osório e Ita Cayuby. Há também o registro da voz de Rosa Negra, porém em duo com Francisco Alves.


Carmen Miranda gravou, no ano de sua morte, duas músicas de Sinhô. Uma delas foi “Buruncuntum”, onde Sinhô se esconde sob o pseudônimo de J. Curangy (ou Pirangi) e a outra, “Feitiço Gorado”, não citada por seu biógrafo, mas que, segundo Tinhorão, não chegou a ser lançada por se notar um defeito na cera quando da fabricação do disco em abril de 1931”.


“Buruncuntum, (Sinhô) # Carmen Miranda. Disco RCA Victor (33.259-B), 1930.


 



Em busca de um público qualificado na escala social, Sinhô chegou a construir relações nunca antes sonhadas por um sambista.

Em suas incursões políticas, tanto alfinetou quanto bajulou. Com Arthur Bernardes, que governou o país em estado de sítio, a alfinetada foi através da marcha carnavalesca “Fala baixo”, cujo título denuncia a censura policial da época. Nos versos, as invocações de uma “rolinha” complicaram a vida de Sinhô (rolinha era o apelido injurioso dado a Arthur Bernardes pelos jornais do Rio). Em razão disso, foi perseguido, tendo que sumir por uns tempos.


“Fala baixo (Sinhô) #Banda da Fábrica Popular. Disco Popular (1022/Lado único). Lançamento (1919/1921).



 

Em compensação, puxou o saco do candidato Júlio Prestes em “Eu ouço falar (Seu Julinho)”, com direito a lançamento festivo no Teatro Municipal de São Paulo, quando Sinhô misturou-se à intelectualidade paulista pós-Semana de Arte Moderna de 1922, onde pontificavam Oswald de Andrade e Tarsila do Amaral.


“Eu ouço falar (Seu Julinho)”, com Francisco Alves. Disco Odeon (10441-A), 1929.


 



O prestígio e a popularidade das composições de Sinhô deixaram sua marca na produção do Teatro de Revista nos anos de 1919 a 1930.

Há divergências quanto ao número de revistas em que Sinhô, em vida, teve participação através de suas composições. José Ramos Tinhorão apresenta 42 revistas. Já seu biógrafo, Edigar de Alencar, registra 38 peças.

Controvérsias à parte, o certo é que Sinhô acabou consolidando na Praça Tiradentes, reduto dos teatros, sua fama de divulgador do samba urbano e fixador de estilos, os quais se perpetuaram no samba carioca.

Comprovem o dito acima conferindo algumas revistas de sucesso que contaram com as composições de Sinhô.


REVISTA: “A Bahia é boa terra, de Cândido de Castro e Luis Rocha, estreou dia 8 de fevereiro de 1919, no Teatro São Pedro, com título e música de Sinhô.

“Quem são eles? [A Bahia é boa terra] (Sinhô) #  Bahiano. Disco Odeon (121445-A), 1918/1921.



 

Primeira composição editada e gravada de Sinhô, cujo título era um empréstimo do grande samba “Quem são eles?”, dedicado a um bloco homônimo, ligado ao Clube dos Fenianos, que fora êxito no carnaval de 1918 e com o qual Sinhô ingressara vitorioso no carnaval do Rio. (Na verdade ao terminar o samba denominou-o “A Bahia é boa terra”). A música acabou sendo interpretada como uma provocação, pelos adversários de Sinhô.

Capa de “Quem são eles? (A Bahia é boa terra)”, primeira produção de Sinhô, editada, ainda, com o nome José Silva. Grande sucesso no carnaval de 1918. (Arquivos Almirante – Museu da Imagem e do Som).




REVISTA: “O pé de anjo, de Carlos Bittencourt e Cardoso de Menezes, estreou dia 28 de fevereiro de 1920 (segundo Edigar de Alencar; já Salvyano Cavalcanti de Paiva indica 28 de abril) no Teatro São José e posteriormente no Teatro Lírico, musicada pelos maestros Bernardino Vivas e Bento Mossurunga. Com apoio da crítica e do público atinge e supera 400 apresentações seguidas.

Essa revista foi um marco no sentido de firmar a integração entre o teatro de revista e a música popular brasileira.

Na época, as pessoas de pés grandes eram ironicamente chamadas de “pé de anjo”. No caso do título com o qual Sinhô batizou a marcha a ironia tinha endereço certo: os irmãos China e Pixinguinha.

A primeira gravação, apenas instrumental, foi realizada pelo selo de duração efêmera - Disco Popular -, sendo, por sinal, o primeiro registro desse novo selo.


“O pé de anjo (Sinhô) # Banda do Fala Meu Louro. Disco Popular (1000), 1919.



 




Foi, ainda, a primeira música gravada pelo jovem de 21 anos, Francisco Alves, dando início à sua promissora carreira.


“O pé de anjo (Sinhô) # Francisco Alves e Grupo dos Africanos. Disco Popular (1008), 1911/1921.


 

REVISTA: “Papagaio Louro”, dos Irmãos Quintiliano, estreou dia 27 de julho de 1920, no Teatro São José, na qual reapareceria o samba de Sinhô “Fala meu Louro”, grande sucesso no carnaval e cantado por todo o país, conhecido também pelo nomes: “A Bahia não dá mais côco”, “Quem é bom já nasce feito” e “Papagaio Louro”


“Fala meu Louro” (Sinhô) # Francisco Alves e Grupo dos Africanos. Disco Popular (1009), 1921.

Sinhô, sambista antenado, faz uma sátira à derrota de Rui Barbosa na eleição presidencial de 1919, em que obteve menos da metade dos votos de Epitácio Pessoa. O certo é que o respeitável gramático e polígrafo Rui, sempre falante, recolheu-se a um mutismo prolongado e o povão cantou aos quatros cantos a sátira de Sinhô.




REVISTA: “A Favela vai abaixo”, de Máximo de Albuquerque e Nilson de Abreu, estreou dia 1º de setembro de 1927 com título e música de Sinhô e dos maestros Pedro de Sá Pereira e Júlio Cristóbal.

A revista satirizava o plano do urbanista francês Alfred Agache, que viera ao país a convite do prefeito do Rio, Prado Júnior, o qual previa a demolição de barracões, construídos no alto do Morro da Previdência, então conhecido por Morro da Favela.

Os moradores em pânico protestaram e Sinhô, visando à defesa dos mesmos, compôs o belíssimo samba “A Favela vai abaixo”.

“Eu escrevi esse samba aos muitos que há por aí dizendo mal da favela, que eu tanto adoro. Ela vai abaixo e eu lhe dou o meu adeus, deixo gravada a minha saudade e a minha gratidão àquela escola que eu tirei o curso da malandragem”. (Sinhô).


“A Favela vai abaixo (Sinhô) # Francisco Alves. Disco Odeon (10096-A), 1928.



 

Conta-se que até com ministro de Estado ele falou, pedindo para interceder junto ao prefeito. O ministro, conhecedor da sua fama de bom sambista, lhe disse para oficializar o pedido através de um samba. Foi aí que Sinhô cantou “A Favela vai abaixo” no ouvido do tal ministro que, emocionado, prometeu interferir. O fato concreto é que o Morro da Favela permaneceu.





Em julho de 1928, estrearam duas REVISTAS com uma mesma música de Sinhô – “Que vale a nota sem o carinho da mulher” – e com a mesma temática: a fracassada política monetária do governo e o não lançamento do badalado “Cruzeiro”.


“Que vale a nota sem o carinho da mulher (Sinhô) # Mário Reis. Disco Odeon (10224-A), 1928.



 


A primeira, intitulada “Eu quero é nota, de Nelson de Abreu, Luís Iglésias e Geysa Bôscoli, estreando dia 2 de julho, no Teatro Carlos Gomes, com músicas de Paraguaçu e Sinhô.

A segunda, batizada de “Cadê as notas?”, de Luiz Peixoto e Marques Porto, que estreou três dias após a primeira (5 de julho) no Teatro Recreio, com músicas de Assis Pacheco, Mário Silva, Bernardino Vivas e Sinhô.

Quanto à primeira, os críticos da época apontaram como único destaque especial o samba de Sinhô, “Que vale a nota sem o carinho da mulher”, que Otília Amorim e Jardel cantavam e dançavam repetidas vezes.

Já a segunda agradou em cheio ao público e aos críticos especializados. “O samba de Sinhô cantado deliciosamente por Vicente Celestino, e a réplica de Olímpio (Mesquitinha) é êxito absoluto” (Mário Nunes, prestigiado crítico teatral).


Outra capa sugestiva, a de “Que Vale a Nota sem o Carinho da Mulher”. Mereceu várias gravações, entre as quais a 1ª de Mário Reis, ainda designado Mário Meireles Reis. (Arquivos Almirante – Museu da Imagem e do Som)


REVISTA: “Seminua, de Paulo Magalhães, estreou dia 6 de setembro de 1928, no Teatro Fênix, com músicas de Serafim Rada e Sinhô.

Com um pequeno mas respeitado cast, formado pela bailarina internacional e também responsável pela Companhia – Norka Rouskaya –, Aracy Cortes, Henrique Chaves, Grijó Sobrinho, entre outros, e as músicas maravilhosas de Sinhô, foi a fórmula encontrada para que revista fosse bastante aceita e aplaudida.




Uma dessas músicas é o samba: 

“Deus nos livre dos castigos das mulheres (Sinhô/Nelly Chaves) # Mário Reis. Discos Odeon (10257-B), 1928.



 


A atriz Luísa Fonseca realizou uma excelente interpretação do samba “Gosto que me enrosco”, atribuído a Sinhô mas contestado por Heitor dos Prazeres. Essa música também constava na revista “Cachorro quente”, de Antônio Quintiliano, com músicas de Júlio Cristóbal, Sá Pereira e Sinhô – que tinha o hábito de alugar o mesmo samba para empresas rivais.


“Gosto que me enrosco (Sinhô) # Mário Reis. Disco Odeon (10278-B), 1928.



 

Uma curiosidade desse samba é que ele contraria o espírito machista, dominante nas letras da época.





O samba “Gosto que me enrosco” surgiu pela primeira vez com o título “Cassino Maxixe”, fazendo parte da peça “Sorte grande”, encenada no Teatro Cassino. Com letra de Bastos Tigre, foi gravada em 1927 por Francisco Alves, mas não obteve êxito. No ano seguinte (1928) Sinhô relançaria a música com novo título e nova letra.


“Cassino Maxixe" (
Sinhô/Bastos Tigre) # Francisco Alves. Odeon (123272-B), 1927.



 




REVISTA: “Microlândia, de Marques Porto, Luiz Peixoto e Afonso Carvalho, estreou dia 28 de setembro de 1928 no Teatro Fênix e depois no Palace-Théatre, com músicas de Antônio Rada e Sinhô.





O grande sucesso da revista é atribuído ao excelente libreto, à canção “Ça c’est Paris”, vinda da Europa e, principalmente, ao samba “Jura”, de Sinhô, trisado todas as noites por Aracy Cortes. O sucesso de “Jura” repetiu-se em outras revistas, a exemplo de “Miss Brasil” e “Palácio das Águas”.


“Jura (Sinhô) #
Aracy Cortes e Simon Nacional Orquestra.  Disco Parlophon (12868-A), 1928.


 




Segundo Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello, o jornalista Jota Efegê (João Ferreira Gomes), que assistiu à estréia de “Jura” no teatro, relembrou o fato em interessante artigo publicado em “O Jornal”, muitos anos depois.

Conta Efefê que a platéia exigiu a repetição do número várias vezes, tendo Sinhô subido ao palco, onde, abraçado a Aracy, recebeu do público verdadeira consagração.

Outro detalhe pitoresco foi a maneira como o espanhol Antônio Rada, maestro do espetáculo, conduzia a orquestra, dançando e fazendo vibrar uma espécie de chocalho, comunicando aos músicos seu allegro molto vivo”.


Do universo das cerca de 40 revistas onde as composições de Sinhô marcaram presença, as apresentadas acima não atingem 20% da sua totalidade, ou seja, é, realmente, um universo vastíssimo. Cremos, porém, que as revistas citadas transmitem a dimensão da sua obra dentro e fora do teatro de revista.

Seu biógrafo – Edigar de Alencar - considera uma injustiça a falta de alusão ao nome de Sinhô nos compêndios que abordam a trajetória do teatro brasileiro, mas considera que tal omissão não tira o brilho do festejado compositor popular no teatro musicado brasileiro”.


Último retrato de Sinhô (1929). Dedicatória a seu amigo Fileto Moura, enviada de São Paulo. (Reprodução da revista Phono-Arte. Arquivos Almirante – Museu da Imagem e do Som).

Há exatos oitenta anos, dia 04 de agosto de 1930, Sinhô estava em pleno apogeu da sua carreira, cercado de popularidade e prestígio, quando a tuberculose, que o acometia desde meados dos anos 20, resolveu quitar, fulminantemente, as contas com ele nesse dia, a bordo de uma barca em que viajava da Ilha do Governador (onde então residia) para a Praça Quinze. Num dos seus bolsos foi encontrado o rascunho do seu último samba, “O homem da injeção”. Era mais uma crônica do cotidiano da cidade que tanto amava.

Seu velório foi descrito por Manuel Bandeira como uma espécie de festa formada por vários tipos que compunham a sociedade carioca. Ele era o traço mais expressivo ligando os poetas, os artistas, a sociedade fina e culta às camadas da ralé urbana”.



Prospecção da obra de Sinhô no panorama musical brasileiro



- Em 1952, Mário Reis foi o primeiro a resgatar o mestre, dedicando-lhe um álbum de 78 rotações.



- Em 1968, é lançada a seleção Odeon de Francisco Alves interpretando Sinhô. São gravações de época, recolhidas de diversos discos de Chico Viola nos anos 20.

- Em 1978 surge a série “Grandes Autores, grandes intérpretes – autor Sinhô, intérprete Ana Maria Brandão, produzido por Marcus Vinicius, com arranjos e regências dele e de Jorge Kászas para a Marcus Pereira (editada pela Copacabana).

- Em 1986, a cantora Marlene interpretou suas músicas no show “Praça Onze dos Bambas”, produzido por Ricardo Cravo Albin.




-Projeto Almirante da Funarte, em 1988, lança a coletânea “Nosso Sinhô do Samba”, dividido entre sete gravações originais de Francisco Alves e sete de Mário Reis.

- Outra compilação elucidativa saiu em três CDs pelo selo Revivendo, já nos anos 90, com 68 faixas pescadas entre 1927 e 1931.




O Grupo Lira Carioca, dos cantores Clara Sandroni e Marcos Sacramento e mais Fernado Sandroni, Clarinha Teixeira, Jurandir Meirelles, Sérgio Magalhães, Adilson Lopes e Paulinho Dias, de 1999 a 2002 dedicou nada menos do que três volumes à obra do compositor sob o título “É sim Sinhô”.

- Em 2003, várias de suas composições foram interpretadas pelo cantor Clodo Ferreira, piauiense radicado em Brasília, em show realizado no Clube do Choro, de Brasília.

- Em 2005, foi homenageado, novamente, pelo cantor Clodo Ferreira no CD "Clodo Ferreira interpreta Sinhô", um disco independente com arranjos que reproduziram o estilo da época em que viveu o "Rei do Samba". Logo em seguida, Clodo gravou um clipe para divulgar o trabalho.


“Professor de Violão, de Sinhô, na interpretação do piauiense Clodo Ferreira, acompanhado pelos violões de Alencar 7 Cordas e João Ferreira (filho de Clodo) e pelo bandolim de Dudu Maia.





- No Rio de Janeiro, em junho próximo passado, esteve em cartaz o espetáculo “No Piano da Patroa”, revivendo a história de Sinhô, em homenagem às oito décadas da morte do artista, e de outros personagens da época.

Foto de divulgação do espetáculo, tirada no metrô do Rio de Janeiro (28/06/10), quando do 1º Encontro da equipe de pesquisadores do Teatro de Revista do Portal Luis Nassif.



- O Projeto “A Música na Linha do Tempo foi contemplado com Prêmio Funarte 2010 para ocupação do espaço da sala Cássia Eller, do Complexo Cultural Funarte de julho a novembro de 2010, em Brasília – DF. Coube a Clodo Ferreira a estreia musical do Projeto, dia 16 de julho de 2010, com um show onde interpretou as principais composições de Sinhô.

- Agora um relato pessoal da contemporaneidade da obra de Sinhô: no finalzinho de 2009 participamos de uma festa de casamento e, para surpresa nossa, enquanto dançávamos a orquestra executou a famosa canção de Sinhô – “Jura”. Eu “juro” para vocês que quem estava sentado não resistiu e caiu no samba.

Todas essas prospecções citadas acima só corroboram a tese da perenidade da popular e lírica obra de Sinhô, mesmo passados 80 anos de sua partida.

Caricatura de Sinhô (Elifas Andreato)

Que o samba é o ritmo emblemático do Brasil ninguém duvida, assim como que foi ouvindo as músicas de Sinhô que o Brasil aprendeu a gostar de samba.


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BIBLIOGRAFIA

- ALENCAR, Edigar de. Nosso Sinhô do Samba. – Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1968.

- CAIDEIRA, Jorge. A construção do samba / Noel Rosa, de costas para o mar. – São Paulo: Mameluco, 2007.

- DINIZ, André. Almanaque do Samba: a história do samba, o que ouvir, o que ler, onde curtir. – Rio de Janeiro: Jorge Zhar Ed., 2006.

- FRANCESHI, Humberto Moraes. A Casa Edison e seu Tempo. – Rio de Janeiro: Sarapui, 2002.

- HISTÓRIA DO SAMBA. – Rio de Janeiro: Globo, 1977-1978. Quinzenal, 40 fasc., 41 CDs.

- MELLO, Zuza H. de & SEVERIANO, Jairo. A canção no tempo: 85 anos de músicas brasileiras, 1901-1957. – São Paulo: Ed. 34, 1977. (Coleção Ouvido Musical).

- PAIVA, Salviano Cavalcanti de. Viva o Rebolado: vida e morte do teatro de revista brasileiro. – Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1991.

- RUIZ, Roberto. Aracy Cortes: Linda Flor. – Rio de Janeiro: Funarte/INM/Divisão de Música Popular, 1984. (Col. MPB, 12).

- SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira: das origens à modernidade. – São Paulo: Ed. 34, 2008.

- SINHÔ. Nova História da Música Popular Brasileira. – São Paulo: Abril Cultural, 1975.

- SOUZA, Tárik de. Tem mais samba: das raízes à eletrônica. – São Paulo: Ed. 34, 2003.


SITES

- Chifrantiga
- Daniella Thompson on Brazil
- ICCA (Instituto Cultural Cravo Albin)
- IMS (Instituto Moreira Salles)
- Toque Musical

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Comentário de lucianohortencio em 7 fevereiro 2014 às 7:41

Parabéns pelo maravilhoso Post. Receba um abraço matutino e fraterno do luciano.

Comentário de Laura Macedo em 7 fevereiro 2014 às 15:10

Amigo Luciano,

Em maio de 2010 aconteceu no Rio de Janeiro o Sarau dos 10 mil participantes do PLN (Portal Luis Nassif), ocasião que a equipe do Teatro de Revista (eu, Cafu, Helô e Henrique) nos encontramos pela primeira vez, ao vivo e a cores, depois de interagirmos durante um ano via e-mails. Foi um encontro iluminado o qual relatamos num post. Caso você tenha interesse, veja aqui

Este post nasceu no momento em que saímos (eu, Cafu e Henrique) para uma noitada na Lapa, no Centro Cultural Carioca. Lá o Grupo Sururu na Roda, entre vários pérolas, tocou "Jura", do Sinhô. Aí a minha querida amiga Cafu me fez "jurar" que eu faria um post em homenagem ao nosso Sinhô do Samba. E como jura pra mim é sagrada, saiu este post.

Você deixo-me super feliz em registrar sua presença aqui no nosso espaço do Teatro de Revista. Valeu, mesmo, meu grande amigo Luciano.

Grande abraço.

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