A partir da defesa feita pelo Nassif da importância do argumento na defesa das idéias, no evento organizado ontem pela Agência Carta Maior sobre mídia, e observando a nossa forma peculiar de debater, pergunto cá aos meus botões se a forma como o embate de idéias se dá em terras tupiniquins diz mais a nosso respeito do que o conteúdo terçado em nossas tertúlias tropicais.

Meus velhos botões respondem que tal inquietação não é de toda provida de fundamento, e lembram o grande Norberto Bobbio, que argumentava a favor da indissociabilidade entre estilo e conteúdo. Afinal, bem ou mal, o estilo é o homem.

Instigado por essas ponderações, lembrei-me de outro pensador respeitável, Amartya Sen, que na tentativa de explicar a dinâmica indiana, foi achar as respostas na longa tradição argumentativa do seu país.

Para o economista indiano, laureado com o prêmio Nobel, em seu livro The Argumentative Indian, o sucesso e os desafios de seu país podem ser explicados a partir da tradição do debate público e do pluralismo intelectual presentes historicamente na cultura indiana.

A afirmação da identidade através do debate intelectual com o outro - com aquele que é diferente -, o contraditório como mecanismo para se avançar na compreensão do complexo, a qualificação advinda da força do argumento, mais do que um simples ritual de retórica discursiva, constituem elementos crucias de exercício da tolerância e do reconhecimento da riqueza da pluralidade. Afinal, o debate argumentativo só pode ocorrer entre os que embora não sejam iguais, estejam dispostos a reconhecer o valor do que lhes é distinto, a ponto de estabelecer o debate baseado na argumentação e não na eliminação.

Não é fácil entender a Índia, com suas muitas e diferentes tradições, com seus costumes amplamente divergentes, com suas convicções vastamente diferenciadas, com seu verdadeiro festim de pontos de vista. Amartya Sen recorre à história e à cultura do seu país para sugerir que esse entendimento passa pela compreensão da sua longa e rica tradição argumentativa. E mais do que isso, deposita nessa tradição suas melhores esperanças para o futuro da Índia. Enfim, há varias maneiras de ser desigual.

Meus botões ponderam que há maneiras distintas de ver a desigualdade indiana; inclusive algumas não tão generosas quanto a do velho Amartya. Porém, sugerem que deixemos o velho pensador indiano com suas esperanças e nos concentremos sobre a nossa tradição argumentativa e a esperança que podemos nela depositar.

Diante da inusitada questão, confesso não encontrar a resposta adequada. Afinal, penso no dialogo franco entre os jesuítas e os índios; entre os senhores e os escravos; entre os fazendeiros e os imigrantes que chegavam para trabalhar na lavoura paulista; entre Capitu e Bentinho; entre Riobaldo e Diadorim; entre o capitão Nascimento e os seus achacados. Enfim, penso no dialogo entre os nossos desiguais e chego à conclusão de que o pensador indiano tem razão: existem várias maneiras de ser desigual.

Face a essa constatação, não tenho muito a dizer aos meus botões, a não ser que tão importante quanto o quê se discute é o como se discute. Nesse campo, confesso que minhas esperanças são modestas, já que a nossa tradição argumentativa é limitada e o nosso apreço pela pluralidade só existe como discurso retórico.

No entanto, experiências como esse portal podem ter o efeito pedagógico da descoberta do bom debate e de seu papel crucial no avanço da idéias e da nossa compreensão sobre o Brasil e seus desafios.

Enfim, há muito o quê se fazer e eu espero que nós consigamos fazê-lo juntos.

No mais, vocês podem me perguntar, usando nossa proverbial objetividade, o que isto tudo tem a ver com a discussão sobre energia. Deixo-lhes a resposta dada pelos meus velhos botões:

Tudo, meus amigos, tudo...

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Comentário de Leo em 1 maio 2009 às 16:20
Olá Ronaldo

Gostei de seu texto. Queria lhe perguntar: quando você diz "Norberto Bobbio, que argumentava a favor da indissociabilidade entre estilo e conteúdo"

- você se lembra onde ele diz isso? Gostaria de me aprofundar no assunto.

Abraços,

Leo
Comentário de Ronaldo Bicalho em 1 maio 2009 às 18:37
Prezado Leo,

Eu não tenho certeza, mas acho que foi em uma passagem do livro O tempo da memória. Contudo, folheando o livro agora eu não a encontrei. Embora tenha achado uma passagem que tem a ver com o tema aqui discutido:

Não basta conversar para empreender um diálogo. Nem sempre aqules que falam uns com os outros falam de fato entre si: cada um fala consigo mesmo ou para a platéia que o escuta. Dois monólogos não fazem um diálogo.

Como à época não anotei, e a minha memória vai ficando mais fraca com a idade, não posso ajudá-lo de forma mai objetiva.

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