Diante das câmeras, a maioria dos apresentadores de telejornal vira um produto que precisa vender uma imagem de paladino da moral e dos bons costumes. Muitos confundem estúdio com delegacia e fazem uma cara de “xerifes da nação”. Tudo é uma vergonha menos eles.

Por Ana Helena Tavares

Afinal de contas quem é Boris Casoy? Não costumo ver a Band, praticamente não consigo mais ver televisão, mas é espantoso ver como um pequeno erro de áudio desmascara um jornalista. A ética não está em agirmos como pensamos somente quando estamos diante de um grande público. Ao contrário, ela está principalmente em agirmos como pensamos quando estamos sozinhos.

Diante das câmeras, a maioria dos apresentadores de telejornal vira um produto que precisa vender uma imagem de paladino da moral e dos bons costumes. Muitos confundem estúdio com delegacia e fazem uma cara de “xerifes da nação”. Tudo é uma vergonha menos eles. Resta saber o que é uma vergonha num mundo de tantas.

Nada justifica a falta de vergonha na cara. Mas que cara? Se é verdade que, em nome de linhas editoriais e até mesmo de padrões estéticos e comportamentais (de parcela da sociedade que dá IBOPE aos “xerifes”, pois sente-se amparada por eles), diante das câmeras, nenhum jornalista pode agir como pensa, parece-me translúcido o fato de que a declaração de Casoy sobre os garis demonstra o que ele verdadeiramente é. Dito isso, parece-me que ela é totalmente passível de processo por crime de intolerância de classes.

Boris Casoy falou quando pensava estar “às escondidas”, mas, em nome do pior dos tipos de corporativismo, há quem o defenda publicamente. Com os argumentos que eles têm apresentado, eu se fizesse parte da direção da Band começaria a ficar verdadeiramente preocupada com a dimensão do caso. Demitiria todos. A Band, porém, provavelmente os manterá lá, pois pensa igual a eles. E, nós brasileiros que pensamos diferente, temos nas mãos o controle remoto e uma chance única de repararmos, ao menos um pouco, o erro que é colocar uma classe fundamental como a dos garis à margem da sociedade.

Um dos artigos do abandonado Código de ética dos Jornalistas diz que “O jornalista não pode usar o jornalismo para incitar a violência, a intolerância, o arbítrio e o crime.” Não é o que pensa Barbara Gancia que assinou hoje (08/01/2010) artigo na Folha de S. Paulo (local ideal para tal espetáculo) tentando defender o colega de emissora. No entanto, enganou-se absurdamente ao tentar confirmar as palavras de Casoy, de que os lixeiros são “o mais baixo na escala de trabalho”. Quem lê o artigo conclui que, para ela, isso se confirma porque, por exemplo, não há médicos entre eles.

Eu gostaria muito de entender o que é uma “escala do trabalho” para a tão afinada dupla de jornalistas. Partindo do artigo dela, em que, sem conseguir explicar onde está a piada, ela garante que “dois lixeiros desejando dinheiro para o novo ano é mesmo motivo de riso” (coisa que ela certamente não ousaria falar se eles ganhassem o que de fato o suor deles vale), então, conclui-se que estão no topo os que ganham mais. Ora, vejamos... Ronaldo “Fenômeno” está então no topo da escala do trabalho? Pensemos com cuidado de quem o mundo depende mais: dos jogadores de futebol ou dos lixeiros?

Ah, mas esperem, talvez “estar no topo da escala do trabalho” seja ter um diploma de médico. Ainda que fosse, como jornalista bem-informada, ela deveria estar ciente da quantidade de lixeiros com curso superior. Não possuo números, mas dou minha cara a tapa como existem médicos. Seria bonito, inclusive, se ao “lembrar” que “não há médicos entre os garis”, Barbara lembrasse também que o próprio Casoy não tem diploma de curso superior algum. Com a experiência adquirida que ele tem, isso não desqualifica nem a ele nem aos garis. O que desqualifica é o preconceito e nisso Barbara se superou, posto que tentou dar à declaração dele uma inacreditável sustentação.

Fico imaginando a felicidade, a sinceridade – e, mais do que isso, a provável ingenuidade – com que aqueles dois lixeiros fizeram aqueles votos de boas festas e não tenho como deixar de imaginar a decepção deles. Fico imaginando o que muitos âncoras televisivos devem ter comentado por detrás das câmeras sobre os recentes encontros de Lula com catadores de lixo e não tenho como deixar de imaginar que, perto do que ocorre diariamente nos bastidores da grande imprensa, o que Boris disse foi apenas uma gota num mar de lama.

Mas é melhor que eu fique só imaginando... Há coisas que não se publica onde crianças possam ler.

Ana Helena Tavares é escritora e poeta eternamente aprendiz. Jornalista por paixão e futura jornalista com diploma, é colunista da "Revista Médio Paraíba" e editora/administradora do blog "Quem tem medo do Lula?".

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Comentário de Dulce Leão em 9 janeiro 2010 às 14:37
Ana Helena

Saudações,

O seu texto é impecável. Claro e preciso.

Só gostaria de acrescentar que, no Rio de Janeiro, os GARÍS são CONCURSADOS.

Nas filas quilométricas, no momento da inscrição, sempre são encontradas pessoas com NÍVEL SUPERIOR. O que derruba o último argumento de Bárbara Gancia.

Temos um símbolo, na cidade do Rio de Janeiro, o garí RENATO SORRISO. Você o encontrará no "youtube".

Concordo integralmente com você: Também demitiria todos.

O caso Bóris Casoy é caso de polícia.

Um abraço,

Dulce Leão
Comentário de Ana Helena Tavares em 9 janeiro 2010 às 15:10
Saudações, Dulce! Obrigada pelo comentário! Muito pertinente a sua lembrança quanto ao fato de os garis serem concursados. Quanto ao Renato Sorriso, eu moro no Rio e já tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente em uma ocasião que fui assistir ao desfile das escolas de samba na Sapucaí.
Grande abraço,
Ana Helena
Comentário de Ana Helena Tavares em 9 janeiro 2010 às 19:17
Minha mãe também é professora. Taí uma boa pergunta. Cartas para a redação do Jornal da Band.
Comentário de Dulce Leão em 15 janeiro 2010 às 11:45
Ana Helena...

Transferí o meu comentário para seu artigo, no Observatório. ;)

Abraços,

Dulce.

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