Dizem que no Brasil quem morre vira Santo, não importa os males que alguém tenha cometido. Não é meu propósito pintar uma imagem de Orestes Quércia que pareça melhor do que a realidade; conheço e condeno veementente seus inúmeros e graves erros. Apenas me atenho a momentos que testemunhei pessoalmente, quase todos antes de 1986 aproximadamente, quando afastei-me totalmente deste importante político brasileiro, agora falecido.

Conheci Quércia no primeiro dia de sua propaganda pela TV, na campanha que o elegeria senador, em 1974. Ele, o então senador Franco Montoro e Ulysses Guimarães visitaram Taubaté, onde eu, com recém-completados 18 anos, havia sido eleito secretário do Diretório Municipal do MDB. Por ser "foca" na Rádio Difusora local, fui escalado para apresentar o comício na frente da Companhia Taubaté Industrial, a histórica tecelagem CTI. 

Depois do ato público, debaixo de chuva, mas com grande assistência, pois os operários queriam ouvir Montoro, o "Senador dos Trabalhadores", fomos para um clube local, cujo presidente era vereador do partido, onde assistimos aos primeiros comerciais da campanha, aqueles em que Quércia descia de uma kombi e era cercado por crianças. Era apresentado como um jovem prefeito de muita experiência, homem do interior, como nós. Disputava contra o ex-tudo Carvalho Pinto, e vencer seria uma "zebra" - como se dizia na época. 

Quércia venceu espetacularmente, naquele pleito que o jornalista Sebastião Nery descreveu em "16 vitórias que abalaram o Brasil": não havia eleição para governadores (que eram nomeados pela ditadura) e o MDB derrotou a Arena de cabo a rabo, colocando no Senado nomes como Marcos Freire (PE), Itamar Franco(MG), Paulo Brossard (RS), Saturnino Braga (RJ), e outros que produziram extraordinário fortalecimento da oposição legal e da clandestina que se abrigava no partido. 

 

Passamos a ter dois senadores por São Paulo, Montoro e Quércia. O primeiro, respeitadíssimo e brilhante, representava a ala mais conservadora, por suas origens na Democracia Cristã e acabou cercado pelos mais "adesistas" do MDB, como Roberto Cardoso Alves, Samir Achôa, e outros deputados, prefeitos e vereadores desta tendência. 

Quércia, por ser mais jovem (eleito com 36 anos, quando a idade mínima para o Senado é de 35), foi logo cercado pela esquerda e pela Juventude do MDB, da qual eu tornei-me dirigente em minha cidade e membro da direção estadual (como Roque Citadini, Alfredo Espíndola de Mello, Davi Quadros e outros). 

Neste período, posso testemunhar que o Orestes (como o chamávamos os mais próximos), teve papel importantíssimo no acolhimento às esquerdas do MDB - certamente Alberto Goldman pode afirmá-lo com muito mais autoridade. Alguns dirão que foi por oportunismo, mas o fato é que o apoio firme de Quércia, seus pronunciamentos e projetos progressistas, e até sua atitude pessoal de enfrentamento da ditadura, abria espaços nos quais a esquerda ia-se firmando dentro da grande frente que era o MDB e na sociedade. 

Ninguém pode, devido aos escândalos posteriores dos quais foi acusado, esquecer-se de que o senador Quércia esteve presente quando São Bernardo do Campo foi praticamente sitiada pelo exército, nas grandes greves de 78 a 80. Seu carro chegou a receber uma bomba de gás lacrimogêneo (creio que nele estavam também o sindicalista Alemão e o Audálio Dantas, então deputado federal). 

 

Havia a disputa entre os grupos de "montoristas" e "quercistas" pelo controle do Diretório Estadual, tanto no MDB como, depois de 1979, do PMDB. As esquerdas e a Juventude sempre aliaram-se a Quércia. Na Convenção que escolheu o candidato a governador para o pleito de 1982, no Anhembi, a briga foi feia, quase houve empate, e o Goldman e outros intermediários de esquerda conseguiram pacificar o partido na chapa Montoro-governador/Quércia-vice. Nenhum dos dois venceria sòzinho, apesar da ânsia dos paulistas em eleger seu governador pela primeira vêz desde 1962. O desejo de votar estava represado, e iria explodir de uma forma ou outra. Mas, unidas suas duas grandes alas, o PMDB era invencível, como foi. 

 

Vice-governador, Quércia continuou fazendo o trabalho a que mais se dedicou enquanto senador: fundar diretórios pelo interior, cativar delegados à Convenção Estadual. Novamente dirão que fez isso por oportunismo, carreirismo. Mas eu pergunto: o que há de ilegítimo num político construir suas bases de apoio, dentro de seu partido? Burro é o político que se fecha num grupo restrito, e acha que apenas sua notoriedade lhe trará votos e prestígio (numa palavra: poder, obetivo de todo profissional político) - taí o Serra que não me deixa mentir...

Em todos esse período, especialmente nos momentos eleitorais mas também fora deles, viajei com Quércia (assim como com Montoro, Ulysses, Fernando Henrique) por cidades do Vale do Paraíba e outras, além de encontros pontuais na capital. E registro um momento para mim histórico:

Maluf venceu a eleição para governador em 1977, envolvido na briga do general Frota contra Geisel (este queria Laudo natel para voltar ao governo de SP, Maluf incendiou as urnas na Convenção da Arena, foi um rolo...). E anunciava que mudaria a capital do Estado para alguma região do interior, o que proporcionou intensa especulação imobiliária, por gente ligada ou que se dizia ligada a Maluf. Só que para mudar a capital, Maluf precisaria da aprovação da Assembléia Legislativa, onde o MDB já alcançara maioria - não confiável, mais maioria. E havia a lei da fidelidade partidária, pela qual o deputado que desobedecesse uma decisão do respectivo Diretório, perderia o mandato. 

Antes de tomar posse, Maluf mandou emissários a todos os delegados estaduais do MDB, prometendo-lhes simplesmente "tudo" o que quisessem, para que votassem contra qualquer decisão do Diretório que enquadrasse a bancada estadual a votar contra o futuro projeto de mudança. "Quer estudar seus filhos na Europa?", "Quer um carro novo?", "Quer uma casa na praia?" - não havia limites. Boa parte dos 45 membros do Diretório Estadual era formada por ex-prefeitos, ex-vereadores, gente simples do interior, que facilmente poderia ser seduzida por tais ofertas, até porque pertencia ao MDB mas não tinha maior compromisso ideológico. Às vezes, em cidades pequenas e médias, o cidadão optava entre MDB e Arena por razões até familiares, por disputas de grupos políticos locais, e não por qualquer ideologia. Se um líder entrava na Arena, o outro entrava no MDB - eram as únicas opções legais.

 

O presidente do Diretório Estadual era Natal Gale (herdeiro de Quércia na Prefeitura de Campinas e totalmente obediente ao líder). Convocou uma reunião do Diretório estadual, na antiga sede, que ficava no 13o andar da Câmara Muncipal de São Paulo, onde o elevador não alcança, é preciso subir as escadas a partir do 12o. 

Eu estava lá, ao lado do senador Quércia, que todos sabem, era um homem alto e espadaúdo. Pois ele postou-se naquela escada, com um papel nas mãos, uma declaração de voto contra qualquer projeto que chegasse à Assembléia propondo a mudança da capital. Cada um que subia (e Quércia conhecia a todos, por nome, nome da esposa, profissão, etc) era gentilmente agarrado pelo braço e convidado a assinara declaração de voto. Quando chegamos aos 23, maioria, suspiramos aliviados, e o Natal Gale pode abrir a reunião.

Antes de qualquer debate, Quércia levantou-se e anunciou que estava entregando ao presidente Gale a declaração de voto da maioria dos membros do Diretório, pelo que a reunião podia ser encerrada, a decisão estava tomada: o MDB "fechava questão" contra a mudança da capital. Seus deputados estaduais estavam proibidos de apreciar e muito menos aprovar tal projeto, sob pena de perderem o mandato.

Foi brilhante! Evitou-se uma das maiores maracutaias que o Brasil veria (e pagaria), talvez maior que a Paulipetro. 

Relembro este episódio, e poderia lembrar vários outros, para que o perfil de Orestes Quércia não seja apenas execrado, pelos muitos males que cometeu. Nenhum político acumularia 114 ou 117 milhões de reais agindo honestamente - e ele mesmo afirmou que quebrou o Estado para eleger aquela nulidade do Fleury (mesmo que fosse um gênio...). 

Jamais visitei Quércia (meu amigo Orestes) em Palácio, nem lhe pedi nada, como aconselhavam certos amigos sabedores de nossa ligação. Nunca fui íntimo dele, mas sim companheiro de base na mesma luta contra a ditadura. 

Eu me sentiria muito mal se não ressaltasse esses momentos que, se não foram o predominante na sua carreira, foram importantes para os setores progressistas de São Paulo. Lembrem-se que ele teve Fernando Morais como secretário da Cultura, e muitos outros assessores de esquerda. Também teve por alguns meses o latifundiário Ary kara na Secretaria de Assuntos Fundiários... Enfim, Quércia foi um político de várias facetas, como todos. 

Ainda com raiva dele por ter apoiado Serra (o PSDB foi fundado por peemedebistas revoltados com a corrupção de Quércia, mas agora o aceitaram normalmente - mas também o PT foi criado para derrotar os Sarneys da vida...), confesso que fiquei triste ao saber de sua morte. 

E, correndo o risco das vaias, presto-lhe uma homenagem pelos momentos em sua vida em que peitou os generais (poucos o fizeram), enfrentou Maluf, deu atenção às bases de esquerda e à Juventude, e defendeu teses como o Municipalismo. 

 

ADICIONO AQUI O BELO REGISTRO DO JORNALISTA SEBASTIÃO NERY SOBRE ALGUNS EPISÓDIOS ENVOLVENDO QUÉRCIA NO INÍCIO DE SUA CARREIRA POLÍTICA E EMPRESARIAL. 

NÃO APROVO NADA DO QUE QUÉRCIA FEZ DEPOIS QUE FOI GOVERNADOR DE SÃO PAULO, MAS MEU SENTIMENTO PESSOAL NÃO ME LEVA A REESCREVER A HISTÓRIA. 

ÉRAMOS TÃO POUCOS OS "AUTÊNTICOS" DO MDB DE DO COMEÇO DO PMDB, QUE NÃO É JUSTO HISTORICAMENTE APAGAR OS ATOS DE UM DOS MAIS CORAJOSOS DE NÓS. NAQUELA FASE, QUÉRCIA FOI IMPORTANTE PARA A LUTA DEMOCRÁTICA, E NEGAR ISSO AGORA É FALSIFICAR OS FATOS DE UMA ÉPOCA MARCANTE.

SUGIRO A TODOS QUE VISITEM O SITE DO GRANDE JORNALISTA SEBASTIÃO NERY QUE, MAIS DO QUE UM REPÓRTER, FOI TESTEMUNHA DA HISTÓRIA, VÍTIMA TAMBÉM DA DITADURA.

 

O MENINO DE


PEDREGULHO (1)

 

         RECIFE – Ele chegou jovem, alto, narigudo, pisando forte. Com nome e documentos falsos, eu vivia clandestino, cassado e assustado em São Paulo, em 1965, depois que saí da prisão militar na Bahia, e escrevia coisas eventuais no que ainda restava da “Última Hora”, dirigida pelo generoso e solidário Josimar Moreira, que tinha conhecido em Salvador com Frei Carlos Josafá, diretor do “Brasil Urgente”, um bravo jornal da esquerda católica paulista.

         Naquela tarde, Josimar me disse que estava esperando “um italiano de sete fôlegos” de Campinas, jornalista, radialista, empresário, vereador, “um determinado”. Orestes Quércia entrou com pressa, conversou um pouco, falando rápido com Josimar sobre a “Última Hora” em Campinas e foi embora com seu nariz grande e seus passos largos.

                                      QUERCIA 

Só ouvi falar dele novamente nas eleições de 1966, eu já absolvido pelo Superior Tribunal Militar, trabalhando no Rio, na TV Globo, e ele se elegendo deputado estadual pelo MDB. Uma biografia a jato.  

Menino pobre de um distrito de Pedregulho, no extremo norte de São Paulo (nasceu em 18 de agosto de 1938), começou a trabalhar cedo, antes dos dez anos, na mercearia do pai, e, aos 17 anos, em 1955, foi estudar em Campinas para ser professor primário. Não foi professor. Vice-presidente do grêmio da Escola Normal, virou jornalista, repórter do“Diário do Povo”.

Em 1957, com 19 anos, fundou com o irmão Vicente sua primeira empresa, os armazéns “Irmãos Quércia”, logo dois na cidade. E começou sua vida de empresário e a ganhar dinheiro.         Quando fez 21 anos, em 1959,, saiu candidato a vereador pelo PTB. Perdeu.

                            VEREADOR

Estudou Direito na Universidade Católica, foi orador e diretor do jornal do Centro Acadêmico, fundou com colegas a Universidade de Cultura Popular, foi locutor das rádios “Cultura” e “Brasil”, trabalhou no “Jornal de Campinas” e na sucursal da “Última Hora”, presidiu a Associação Campinense de Imprensa e formou-se em 1963.

         Em 1963, elege-se vereador pelo PL: 512 votos, o menos votado e o mais jovem. Vem o golpe militar de 1964 e ele mobiliza trabalhadores e jovens na crítica e na resistência democrática ao governo Castelo Branco.

                                        DEPUTADO

Como advogado trabalhista, atuava nos sindicatos. Em 1966, ajuda a fundar o MDB e elege-se deputado estadual (14.800) votos, um dos mais votados, numa dobradinha com Ulysses Guimarães. Na Assembléia, torna-se uma voz diferente, atuante, com denúncias e protestos, defendendo a anistia, exigindo liberdade sindical e o fim dos decretos-lei.

         Em 1967, já empresário de sucesso, abre a primeira empresa imobiliária (“Selenita Ltda”) e compra a fazenda “N. S. Aparecida”, de leite, café e laranja, lá em sua terra, Pedregulho.

                              PREFEITO

E resolve ser prefeito de Campinas. Começa a guerra. Até então, jornalista, advogado, empresário, vereador, deputado, incomodava menos. Agora, não. Campinas era a segunda cidade de São Paulo, sempre governada pela UDN dos quatrocentões ou pelo PSP de Ademar de Barros.

         Como é que aquele forasteiro, saído lá da Alta Mogiana, na fronteira de Minas, ousava querer dirigir a cidade da UDN, ainda mais pelo MDB, em plena ditadura, no auge da crise, em novembro de 1968, um mês antes do AI-5? Os três maiores ex-partidos paulistas juntaram-se na Arena contra ele, usando a legenda e as duas sublegendas para esmagar o MDB. Quércia saiu pelo MDB também com dois outros em sublegendas. O slogan era:

         “Um empresário de sucesso na prefeitura de Campinas”.

         Teve sozinho 43.500 votos. Os outros cinco, 43 mil. A eleição de 68 foi um massacre nacional contra o MDB. Em São Paulo, a Arena elegeu 427 prefeitos, o MDB apenas 63, mas ganhou Campinas, o segundo maior colégio eleitoral do Estado, tornada símbolo da resistência nacional.

                                               O “CRP”

         No Rio, tínhamos o nosso “Clube dos Repórteres Políticos”. Uma vez por semana, toda quinta-feira, convidávamos um ministro, governador, prefeito de capital, presidente de partido, líder de bancada, sempre gente de expressão nacional, para almoçar conosco (pagávamos o almoço deles).

Desde 1965, nunca mais o tinha visto. Prefeito do interior não estava nas normas do clube. Mas era a maior cidade do país com prefeito eleito (os das capitais eram nomeados), e surpreendentemente pelo MDB.

         Deu uma entrevista excelente, corajosa, de visão política. O AI-5, a repressão, a tortura e os assassinatos devastavam qualquer esperança. O MDB ainda engatinhava, a oposição em São Paulo era frágil.

                                      LIDER

Quércia defendeu a resistência política para construir uma oposição nacional capaz de lutar para conquistar a democracia. Previa a inevitável exaustão do regime e a possibilidade de avanço do MDB (que veio em 1974). A partir dali, com a repercussão que tiveram suas declarações, tornou-se um líder nacional do MDB.

         Elegeu sucessor o diretor do Serviço de Águas, Lauro Gonçalves, com mais de 80% dos votos. Jornais paulistas começaram a combatê-lo.

Sabiam que o “italiano de sete fôlegos” não ia parar ali.

         www.sebastiaonery.com.br

 

 


O MENINO DE PEDREGULHO    (fim)

                                  

         RECIFE - Em 1973 fui a Campinas lançar meu “Folclore Político – 1”. Era o horror do governo Médici. Os cassados como eu, ainda cheio de processos por subversão, e resistindo todo dia na “Tribuna da Imprensa”, éramos evitados. Quércia já tinha deixado a prefeitura, mas fez, em um clube, uma bela festa, com mais de mil pessoas. No almoço com um grupo de jornalistas,  rabiscava o guardanapo do restaurante e dizia:

         “Vou ser o senador de São Paulo em 1974. Vou sacudir o Estado de ponta a ponta. Não adianta dizer que o MDB é pequeno. Vamos fazê-lo grande. Dos 570 municípios, só temos diretórios em 220. Vamos criar em todos. Temos um ano. Chegarei à convenção imbatível”.

                                               GEISEL

Chegou. Disputou com Lino de Matos, presidente do diretório estadual, e Freitas Nobre, vice-líder na Câmara, e teve mais de 80% da convenção. E não abandonava suas empresas, sobretudo as imobiliárias.

         A Arena era tão poderosa e auto-suficiente que no começo não deu bola para aquela candidatura provinciana, de um ex-prefeito do interior, de partido miúdo, que tinha apenas um senador, Franco Montoro, e um punhadinho de deputados federais, estaduais e prefeitos.

         O presidente Geisel havia assumido em 15 de março de 1974 e logo escolheu governador o ex-ministro Paulo Egídio (só tomaria posse em 15 de março de 75), para comandar,com o governador Laudo Natel,as eleições de novembro, com a tarefa de darem uma vitória arrasadora à Arena.

                                     CARVALHO PINTO

E lançaram para o Senado o professor Carvalho Pinto, udenista símbolo, um barão quatrocentão da mais fina aristocracia paulista, secretário da Fazenda de Jânio Quadros na Prefeitura e no Estado, governador eleito por Jânio e ministro da Fazenda nos estertores do governo de João Goulart. A primeira pesquisa, de abril, foi um tornado:

- Carvalho Pinto 75%, Quércia 7%.

         Eu estava correndo o país e vendo a campanha, preparando meu livro “As 16 Derrotas que Abalaram o Brasil”. Em São Paulo, vi Quércia de cidade em cidade, distrito em distrito, com pequena e entusiasta equipe, pregando o fim do AI-5, a volta da democracia, voto direto para prefeito das capitais, governador e presidente, liberdade sindical, anistia, uma Assembléia Nacional Constituinte. Tudo que a ditadura não queria ouvir.

                                      ARENA

Parecia a batalha impossível de um frágil exército de brancaleone. A Arena de Geisel, Laudo Natel e Paulo Egídio ameaçava. Quércia chegava a algumas cidades sem ninguém para recebê-lo, nem que fosse para um cafezinho. Muitas vezes nem podia falar, porque a pressão era tal que o comércio ficava com medo e fechava as portas.

         Um Ubirajara, Ourinhos, sentiu medo no ar, na poeira das ruas. Sentado à porta da farmácia, um líder local nem sequer se levantou ou estendeu a mão para o cumprimentar:

         - “Quércia? Já ouvi falar. Aqui o senhor não tem vez, nem o MDB”.

         Até o padre, assustado, só o recebeu no fundo da casa paroquial. Ganhou a eleição em Ubirajara, em Ourinhos, na região toda.

                                    CGI            

Em setembro, com a campanha gratuita nas rádios e televisões, começou a virada, disparando nas pesquisas. Os militares se apavoraram. No dia 5 de novembro, Quércia descia do palanque de um comício na Penha, quando foi procurado por um delegado da Polícia Federal, que lhe entregou uma intimação da CGI, Comissão Geral de Investigação.

Era o atrabiliário tribunal de perseguição política da ditadura, um brutal instrumento de ameaça e chantagem. Era uma intimidação, uma chantagem. Foi lá. Queriam saber de onde vinham  suas empresas:

- “As perguntas se referiam à suposta falta de cobertura financeira para algumas operações empresariais do acusado. Depois de respondê-las, juntando documentos e relatos da aquisição de seus bens, Quércia julgou que o caso estava encerrado” (Folha de S.Paulo, 29.5.77).

                            SENADOR

Não estava. “No SNI (Serviço Nacional e Informações), informava-se que a investigação da CGI contra Quércia foi iniciada em 1974 com base no seu Imposto de Renda, antes que se elegesse senador. Segundo um general que viu o processo,  era para impedir que Quércia fosse eleito, para o governo não ter que cassá-lo depois” (Jornal do Brasil, 28.6.86).

No dia 13 de novembro, Petrônio Portela, presidente da Arena, estava em Teresina, quando recebeu um telegrama de S. Paulo:

- ”Eleição perdida. Quércia 5 a 1 na capital – Paulo Egydio”.

Quércia teve 4.630.182 votos. Carvalho Pinto, 1.600.000.

                            RUBENS PAIVA

No Senado, Quércia exigiu a apuração da morte do deputado Rubens Paiva, preso pela Aeronáutica no Rio no dia 20 de janeiro de 71 e assassinado nos porões do DOI-CODI. Pediu a revogação do AI-5, o habeas-corpus, a anistia, eleições diretas e combatia a politica econômica do governo. Foram de Quércia o primeiro projeto propondo o seguro desemprego e o primeiro convocando uma Constituinte e eleições diretas.  

Em 1982, vice de Montoro governador.Em 1986, governador. Derrotou Maluf, Antonio Ermírio e Suplicy, com 5.578.795 votos.

        Morreu meu amigo Quércia.Um bravo que desafiou a ditadura militar.   

             www.sebastiaonery.com.br


 


 

 

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Comentário de Ariston Álvares Cardoso em 25 dezembro 2010 às 20:07

Em toda história política brasileira, homens mesmo honestos com H, só uma meia dúzia, hoje todos mortos, não que o Ulisses Guimarães e Janio Quadros tenham estado entre eles, mas o JK SIM, o último da lista.

Comentário de CLAUDIO DOS SANTOS em 25 dezembro 2010 às 20:17
Quercia o Lucifer te aguarda......depois da transiçao?
Comentário de Marco Antônio Nogueira em 25 dezembro 2010 às 21:08

 

ARISTON,

 

Falas de JK, entre os

honestos. Mas, e aquela

mansão, próxima à 

Itaipu, que ele ganhou

de uma empreiteira?

 

Comentário de Antonio Barbosa Filho em 25 dezembro 2010 às 21:11

Ariston, pelo que eu sei, o Ulysses deixou um sítio e dois apartamentos, e certamente alguma poupança, depois de 50 anos de vida política. Não boto a mão no fogo por ninguém, mas conheci vários políticos que honraram seu papel. Freitas Nobre, por exemplo.

Almino Afonso e Audálio Dantas, que estão vivos e atuantes. Luíza Erundina, que surpreende a todos os corruptos ao obter 214 mil votos sem comprar nenhum! (A única prefeita de SP condenada pelo Tribunal de Contas! Nem Maluf, nem Pitta, nem nenhum desses caras procurados pela Interpol jamais foram condenados em SP, só a Luíza, não é uma piada?)

Dá prá ser político e ser honesto, sim senhor. Até porque eles criaram tantas vantagens que ninguém precisa roubar prá cumprir a tarefa que o povão lhe deu, pô! Quem ganha 26 mil reais, mais 80 prá gastar por mês com funcionários, não precisa roubar. A não ser que seja um Serra na vida.

Comentário de Luís Otávio em 26 dezembro 2010 às 15:05

Caro Ariston, bom dia,

 

Não considero atenuantes à Quercia os momentos em que teria "peitado" generais,  Maluf; dado atenção às bases de esquerda e "defendido" teses como o Municipalismo. Muito pelo contrário, esses momentos são agravantes, posto que após conhecido o seu desempenho como governador de São Paulo, a todos parece que foram apenas aparições sistematicamente planejadas com vistas à obtenção do poder político.

 

Infelizmente (para os funcionários e cofres do governo paulista), após encastelado no poder, revelou sua verdadeira face, qual seja, a de um carcamano que deixou à mingua os servidores estaduais, quebrou o Banespa, entregou a VASP nas mãos de um Wagner Canhedo e promoveu à dezenas de negociatas que quase fez São Paulo ruir.

 

Após isso, nunca mais se elegeu prá nada, MAS, ao morrer possuia quase R$ 150 milhões (isso somente o que foi declarado oficialmente).

 

Já foi tarde e do povo não leva saudades!!!

Comentário de Ariston Álvares Cardoso em 26 dezembro 2010 às 15:36

Prezados companheiros, quando ouso expressar meus sentimentos sobre as pessoas o faço de forma vinculada ao que sei de concreto sobre essas pessoas e quanto aos políticos, óbvio que não os conheço de forma alguma e como todos os brasileiros, procuro me informar através da mídia, não esta de hoje mas a que era feita por profissionais que mereciam crédito da opinião pública isso nas décadas de 40 a 70 e quanto ao JK já ouvi outros comentários sobre o que informa o amigo Marco Antonio, porém nada de concreto sobre o assunto, sei que ele JK foi um cidadão extremamente atencioso com os humildes a partir de seus Guardas pessoais do Palácio que recebiam dele uma atenção toda especial como que de cidadão para cidadão comum e eu tive a honra de servi-lo por isso  tenho-o na lembrança  como um presidente que o Brasil não mais terá outro igual, daí  minha grande admiração  pelo mesmo. O certo é que se o Brasil teve políticos sérios e honestos, isso ficou para trás, os Governantes do último meio século já nasceram podres e não se pode fixar um índice de exceções, infelizmente.

Comentário de Marco Antônio Nogueira em 26 dezembro 2010 às 16:00

 

Caro

ARISTON CARDOSO,

 

Com todo o respeito à

sua opinião, permita-me

deixar a minha:

Numa análise mais profunda

de tudo o que aconteceu

nestes 08 anos de Governo

LULA, é fácil chegarmos à

conclusão de que nosso

mecânico, retirante nordestino,

deixou JK, e mesmo Getúlio,

"comendo poeira". Some-se tudo

o que o "apedeuta" fez, refez,

e projetou para o futuro da

NAÇÃO e perceberemos que

LULA é realmente o melhor

Presidente de nossa História.

 

Abraço,

 

Marco Nogueira

Comentário de Nilva de Souza em 11 janeiro 2011 às 22:07

Antonio, tardiamente, escrevo para dizer que fiz comentários semelhantes aos seus com relação ao Quércia. Meu marido era do Partidão e tenho dois irmãos que eram do MDB, depois PMDB, e as considerações deles sobre o Quércia iam na mesma direção das suas. Inclusive a data do afastamento do quercismo.

Inté!

Nilva

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