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Sondra Radvanovsky é "Tosca" no Rio de janeiro

                                    "Ecola!"

Sondra Radvanovsky
 
"Tosca", de Giacomo Puccini, em cartaz no Teatro Municipal do Rio de Janeiro
Tosca ................ Sondra Radvanovsky 
Cavaradossi .... Thiago Arancam
Scarpia ............ Juan Pons
Orquestra e Coro do Theatro Municipal, regência de Silvio Virgas.

 

Enfim o público carioca se reencontrou com uma grande estrela da ópera mundial. A "Tosca" que Sondra Radvanovsky cantou no Rio, no último dia 11, foi digna do grande palco e da já longa história do Municipal.
Antes dela, por aqui passaram Claudia Muzio, Maria Callas, Renata Tebaldi e Magda Olivero no mesmo papel, para citar apenas estas artistas tão queridas pelos amantes de ópera. 
Pois, Sondra pode, sem favor, entrar para essa lista. Soprano dramático legítimo, voz bonita, de grande extensão e igual em toda a tessitura, amparada por sólida formação técnica. Uma voz que vinha rareando na cena lírica. 
A seu lado, nos papéis principais, estiveram o baritono espanhol Juan Pons e o tenor brasileiro Thiago Arankam. Pons é bem conhecido do público e confirmou o que dele se esperava. Cantor experiente, com voz segura e ainda em forma, apesar dos longos anos de estrada. Ele e Sondra foram os responsáveis pelos grandes momentos da ópera, sobretudo no dificílimo segundo ato, que exige muito cênica e vocalmente dos cantores. 
Numa ópera onde é comum ver barítonos rugindo ferozes em cena e sopranos respondendo aos rugidos com gritos no lugar de notas musicais, Sondra Radvanovsky e Juan Pons optaram pelo canto, sem prejuízo do necessário realismo de muitas cenas em que até a declamação simples é aceitável. Foram, sem dúvida, os grandes nomes da tarde-noite de domingo. Sondra brilhou intensamente no "Vissi D'Arte" e concedeu  à platéia carioca um raríssimo e generoso bis da célebre ária. É que aqui, abaixo da linha do equador, o público é realmente mais caloroso. A grande artista deve ter se sensibilizado com a empolgação e o carinho da platéia  e dos balcões. Se a memória não me trái, o último bis dessa ária foi concedido por Magda Olivero, em memorável "Tosca" de 1964. Obrigado, Sondra.
O tenor Thiago Arankam poderia ter somado seu nome aos dos seus colegas protagonistas, mas pareceu ainda pouco maduro para o papel. Cenicamente teve presença apagada, quase displicente. Vocalmente não transmitiu segurança. As indecisões e fragilidades de sua voz ficaram evidentes logo no "Recondita armonia". Puccini deu ao tenor uma ária logo depois de sua entrada em cena, mas foi generoso na partitura, que é confortável para vozez líricas como a de Arankam. Mas o jovem tenor acabou tropeçando no agudo final na ária. Foi discreto nos duetos com Sondra, no primeiro e no terceiro atos. Seu "E lucevan le stelle", mesmo carente de expressão dramática, agradou ao público, que foi generoso nos aplausos. Arankam tem voz agradável, mas pequena, e o fraseado é pobre ou pouco criativo. É um tenor cuja voz parece ter vocação para o gosto popular. Ele deve ficar atento a isso. Mas tem as vantagens da juventude e de ter muito caminho pela frente. Se for um artista sério, estudioso e aplicado vai progredir. Talvez, no futuro ele nos dê o Cavaradossi que ficou devendo ao Rio.
Decepcionantes mesmo foram a orquestra, o regente e a "concepção cenográfica" dessa Tosca. Essa não é ópera para principiantes.  Já nos primeiros acordes o que se ouviu foi um som anêmico, sem garra, conduzido por batuta frágil, quando a partitura de Puccini exige tensão e som vigoroso para anunciar o drama que vai se desenrolar. A orquestra sob o comando de Silvio Viegas rendeu bem pouco. Não deu sustentação aos solistas, sobretudo no primeiro ato. Viegas deixou a impressão de não ter experiência suficiente na direção de óperas, ainda mais tendo que comandar cantores do porte de Juan Pons e Sondra Radvanovsky. No segundo ato houve um pequeno progresso, desfeito no ato seguinte pela falta de inspiração e sonoridade frouxa  na introdução, quando a orquestra executa o tema da conhecida ária "E lucevan le stelle". Grandes cantores precisam de grandes regentes e boa orquestra.
A orquestra do Theatro Municipal precisa melhorar muito, e pode começar resolvendo os graves problemas de afinação que apresentou. É inadmissível que músicos profissionais desafinem tanto! Notáveis as fragilidades das cordas e dos metais. Mas cabe a pergunta: terão estudado e ensaiado o suficiente? Suspeito que não.
Já a "concepção cenográfica" de Carla Camurati é feia, de muito mau gosto, pouco funcional e recheada de equívocos e erros técnicos. A "Tosca" é uma das poucas óperas que possuem locações reais, todas indicadas  no texto, e que qualquer turista pode visitar em Roma -ou qualquer internauta pode ver nas pesquisas de imagem da web. A saber: a Igreja Sant'Andrea Della Valle no primeiro ato; o Palazzo Farnese no segundo; e o Castel Sant'Angelo no terceiro ato. As possibilidades criativas que essas locações oferecem ou podem inspirar dispensam invencionices inúteis que nada acrescentam. A "concepção cenográfica" de Camurati na verdade não passou de uma grande colagem, que copiou idéias e elementos de outras montagens, inclusive do que nada tem a ver com ópera. Diretora da casa, Carla Camurati poderia ter convocado outro profissional. Não faltam no Brasil diretores qualificados, talvez bem mais do que ela..
Bom elenco de apoio e boas participações do Coro do Theatro Municipal e do Coro Infantil  da UFRJ.
Mas, ao fim, a música de Puccini e as qualidades da dupla Sondra-Juan Pons prevaleceram frente as deficiências da montagem e da atuação da orquestra, e o espetáculo agradou ao público que lotou o Theatro Municipal.
Henrique Marques Porto
Sondra Radvanovsky- Vissi d'Arte

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Comentário de julio campos em 20 setembro 2011 às 20:14
Não estive presente ao esprtaculo por motivo de doença em familia, porém ao ouvir esta soprano iquei maravilhado com sua voz. obrigado
Comentário de Henrique Marques Porto em 20 setembro 2011 às 23:45

Julio,

Vídeos enganam muito, nós sabemos. Mas Sondra confirmou ao vivo a voz sensacional que tem. Nos agudos a voz alcançou um volume extraordinário, que preencheu cada espaço do teatro. A sonoridade é limpa, ampla e de belo timbre. Nos duetos com Thiago Arankam ela reduziu visivelmente o volume da voz ou nem se ouviria o jovem tenor.

Vamos torcer para que ela volte ao Rio.

abraço

Henrique Marques Porto

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