Sylvia Telles, primeira musa da bossa nova

A história da música brasileira continua devendo a Sylvia Telles o devido reconhecimento pelo papel que desempenhou na renovação do canto popular feminino no país. Suas contemporâneas Maysa e Dolores Duran, embora tenham inovado estililísticamente a interpretação, o fizeram dentro dos limites de gêneros musicais consagrados, destacadamente o samba-canção.

Embora deste também tenha partido, Sylvia institui uma modernidade a partir de elementos formadores da nova canção brasileira (ainda na fase anterior à bossa nova), da qual o Tom Jobim em início de carreira é a grande referência, ao lado de Tito Madi, Garoto, Antonio Maria, a já citada Dolores, entre outros nomes.

Não obstante associada ao desenvolvimento da bossa nova, Sylvia não parte da matriz joaogilbertiana, ao contrário da maioria das cantoras que a sucederam e com ela competiram nos anos 60. É essa característica que essencialmente a difere, em termos estilísticos, de uma Nara Leão, por exemplo, e o que a torna uma cantora única no panorama da música brasileira. Ela protagoniza, como uma espécie de elo, a transição da pré-bossa nova para os desdobramentos tardios do movimento, na vertente internacionalizada e jazzística (que se diversifica tanto da corrente nacionalista e politicamente participante de nomes como Carlos Lyra, Edu Lobo, Sergio Ricardo e Geraldo Vandré quanto da que desaguaria no samba-jazz de Elis Regina e cia.).

Esquecimento e memória
Sua morte precoce aos 32 anos, em 1966, em decorrência de um acidente de automóvel, num momento de consagração definitiva da bossa nova no exterior (no ano seguinte seria lançado o álbum reunindo Frank Sinatra e Tom Jobim), interrompe, ao mesmo tempo, sua evolução artística e uma promissora carreira internacional, fazendo com que, num país de memória curta como o Brasil, sua figura permanecesse por longo tempo sob uma nuvem de esquecimento.

Uma artista do quilate de Sylvia Telles teria cinco ou seis livros a ela dedicados, bem pesquisados e escritos por jornalistas de renome, se nascesse em um país que realmente valoriza a cultura e seus artistas. Tendo nascido num país que, ao contrário das democracias ocidentais, não se caracteriza pelo culto à memória e à cultura literária, não tem um livro sequer a ela dedicado, só algumas poucas páginas, com informações que se contradizem, dispersas em livros sobre a bossa nova e em minúsculos fascículos recentemente editados por ocasião do 50º. aniversário do movimento, o que torna extremamente difícil compor, hoje, um retrato fiel e à altura da artista e de sua trajetória.

Família artística
Filha de mãe francesa e pai brasileiro, Sylvia nasce em 1934, no Rio de Janeiro, num lar de classe média alta, onde se cultuam as artes, especialmente a música. Sobrinha do maestro e pianista Ernani Braga é, como única mulher entre os quatro filhos de Maria Amélia e Paulo Telles, o “xodó” do pai, que fora estudante de música na juventude e volta e meia a puxa pela mão e a leva ao Teatro Municipal do Rio para assistir às audições dos concertos e das óperas, gênero que venera.

Silvinha, como muitos a chamariam vida afora, na intimidade ou publicamente, tem a típica educação reservada às “moças de boa famíla” da época, no seu caso a disciplina rígida, doutrina católica e formação trílingue (que viria a ser de grande utilidade no seu futuro profissional) do Sacré Coeur de Marie, acrescida das aulas de dança, canto e interpretação do Teatro Duse.

As reuniões do que viria a ser conhecido como “o pessoal da bossa nova” se dão inicialmente na casa de seus pais, na rua Farani, em Botafogo, antes de serem transferidas para o famoso apartamento de Copacabana pertencente ao dr. Jairo Leão, pai de Nara. Assistente de um palhaço num programa infantil da incipiente TV brasileira, Sylvia, ainda adolescente, começa a se destacar como cantora nesses saraus informais regados a guaraná (pois "seu" Paulo vetava álcool), ao lado do irmão, o músico e futuro compositor Mário Telles.

Amigos e amores
Dentucinha, com um lindo par de olhos verdes e lábios grossos, era dona de uma beleza suave, que encanta os marmanjos de plantão e os músicos de sua geração em particular, que a elegem primeira musa da bossa nova.

Seu currículo amoroso, aparentemente mais seleto do que extenso, inclui, além do primeiro marido - o exímio violonista Candinho, com quem teria uma filha, a futura cantora Cláudia Telles -, nada menos do que João Gilberto (em duetos infelizmente restritos aos beijos, abraços y otras cositas más, sem deixar para a eternidade nenhuma gravação a dois), além de seu segundo marido, o, nessa ordem, músico, ex de Carmem Miranda, produtor musical, narrador dos filmes de Walt Disney e dono da mítica gravadora Elenco, Aloysio de Oliveira - que viria, para o bem ou para o mal, a ser decisivo na carreira de Sylvia.

Muito querida pelos amigos, foi íntima de Tito Madi, Claudette Soares e Edu Lobo. Um dos episódios curiosos que ajudam a entender o porquê de ser tão cultivada por seus contemporâneos é descrito por Caetano Veloso em seu livro Verdade Tropical: ainda desconhecido (era apenas um irmão de Maria Bethânia, que “estourara” no show Opinião cantando Carcará), o baiano sai de ônibus, de Salvador, para tentar a vida no Rio. Ao descer na rodoviária da Cidade Maravilhosa, encontra à sua espera, para sua surpresa “a adorável Sylvia Telles, segurando um cachorro no colo”. No mesmo dia, ela o levaria à casa de Edu Lobo, onde ele começaria a travar as primeiras amizades musicais no Rio.

Espírito inovador
Desde o início de sua carreira, Sylvia demonstra grande capacidade intuitiva, colaborando para a afirmação da bossa nova (tendo tomado parte daquele que é considerado o primeiro show em que tal denominação foi aplicada ao movimento, no Grupo Universitário, RJ, em agosto de 1958) e para a divulgação do então jovem talento de Tom Jobim perante o público, como reconhece o próprio site oficial do “Maestro Soberano” .

Ainda antes da explosão da bossa nova, no final de 1958, com o lançamento de Chega de Saudade (Tom Jobim/Vinicius de Moraes) na voz (e no violão)de João Gilberto, Sylvia já havia gravado um disco em que se destaca o repertório jobiniano - o LP Carícia (1957), no qual canta 4 composições de Tom (que arranja e rege a orquestra em duas faixas). Mais significativo, gravaria, após o LP Sylvia (1958), o primeiro álbum inteiramente dedicado à obra do maestro, Amor de Gente Moça - Músicas de Antonio Carlos Jobim (1959). Os três álbuns incluem canções hoje clássicas, como, respectivamente, Chove lá fora (Tito Madi), Estrada do Sol (Tom Jobim/Dolores Duran) e Dindi (Tom Jobim/Aloysio de Oliveira).

A modernidade do canto de Sylvia Telles vem de uma emissão precisa, justa, com legati curtos - “sem os derrames vocais de Dolores Duran ou Maysa”, na definição irônica de Ruy Castro -, características às quais deve-se somar uma inventiva (porém utilizada de forma extremamente econômica) capacidade de divisão rítmica, que se torna mais evidente em seus discos dos anos 60, de produção pretensa ou efetivamente internacional.

Internacionalização da carreira
Assim como Maysa e Dolores Duran, Sylvia Telles cantava em inglês e francês e obteve reconhecimento fora do Brasil. Mas, comparativamente, suas gravações internacionais denotam um estilo mais moderno do que o de suas contemporâneas, com forte apelo jazzístico em que se evidencia a influência da bossa nova e sua evolução. Em Amor de Gente Moça, destaca-se a versão em francês de Por Causa de Você. Intitulada Gardez moi pour toujours [Guarde-me para sempre, em tradução literal], a faixa (que, como a maioria das músicas aqui citadas, você pode escutar aqui), é provavelmente a melhor interpretação em francês de uma canção de Tom Jobim (em parceria com Dolores Duran) e sem dúvida uma das melhores da carreira de Sylvia Telles.

O primeiro dos quatro discos produzidos por Aloysio de Oliveira, Made in U.S.A., gravado em 1961 com o pianista Milt Jackson e o violonista e ídolo dos bossanovistas Barney Kessel, é o álbum que melhor explora tais potencialidades, com Sylvia cantando como nunca versões primorosas de Sábado em Copacabana (Dorival Caymmi/Jorge Guinle), Canção que morre no ar (Carlos Lyra) e, sobretudo, Manhã sem adeus (Luiz Bonfá/Tom Jobim). Muitos - inclusive o autor deste texto - consideram esse o melhor disco de sua carreira, apresentando uma intérprete internacional de alto nível, acompanhada por virtuoses do jazz e em sua melhor forma. O texto introdutório de Aloysio de Oliveira e os dados do disco podem ser acessados aqui

Chega a ser surpreendente que o álbum, embora tenha recebido reconhecimento crítico e propiciado uma longa turnê internacional, não fez com que Sylvia atingisse o tipo de sucesso nos EUA que, mais ou menos no mesmo período, faria de Astrud Gilberto uma estrela. Uma das possíveis razões para isso é que seu inglês, embora fluente e excelente para um não-nativo, não era impecável como o de Astrud, que fora professora do idioma e o utilizava, desde a infância, para se comunicar com o pai alemão (o público norteamericano costumava ser extremamente exigente nesse quesito, a não ser que se tratasse de cantoras como Marlene Dietrich, Edith Piaf ou Carmen Miranda -, que incorporam o sotaque como um elemento de sua persona artística). A própria Sylvia Telles faz menção, com humor, a suas dificuldades idiomáticas gravando Pardon My English, faixa de seu último álbum, It Might as Well Be Spring (1967), um tanto prejudicado pelos suntuosos arranjos orquestrais que parecem indicar um certo esgotamento do modelo de produção voltado ao mercado internacional desenhado para ela por Aloysio de Oliveira.

Interrompida em pleno voo
Analisada numa perspectiva histórica, a trajetória de SylviaTelles aponta momentos superlativos (o começo, os primeiros álbuns produzidos por Aloysio) e, como já dito, o esgotamento de um modelo de internacionalização que começava a soar não apenas algo postiço, mas desnecessário. O projeto que Sylvia acalentava de gravar em breve um disco no Brasil, bem como a série de participações em shows e discos de artistas brasileiros, soam indicativos de uma mudança na carreira, permitindo interrogar de que forma uma intérprete do quilate de Sylvia Telles interferiria no cenário efervescente da música brasileira do final dos anos 60.

Infelizmente, por uma dessas artimanhas do destino, trata-se de uma trajetória truncada em pleno voo. Mas que merece ser conhecida, reconhecida e cultuada.

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Comentário de Helô em 1 agosto 2009 às 19:02
Que bela lembrança, Mauricio. Sylvia merece mesmo ser lembrada por sua grande contribuição à música brasileira.
Se me permite, um brinde ao seu valioso post:

Rio - Sylvia Telles
(Menescal e Bôscoli) - Faixa nº 4 do LP "Rio, Capital de Bossa Nova" (1965)
Comentário de Hugo Albuquerque em 2 agosto 2009 às 2:46
Grande Maurício! Espanta-me a cultura do amigo, cinema, política, música...Pois é, confesso que eu não conhecia Sylvia, mas você apresentou ela de uma maneira muito bacana.

abraços
Comentário de Mauricio Caleiro em 2 agosto 2009 às 18:31
Obrigado, Hugo. Um abraço!

Helô, adorei o brinde: tim-tim!
Comentário de 300 Discos em 3 agosto 2009 às 23:09
Acho que cabe lembrar a fase pré-bossa da Sylvia Telles. Apesar dela ser cultuada por suas interpretações da década de 60, tem interpretações da década de 50 que são lindas, mas vão para o lado "Dolores Duran / Maísa" que o Ruy Castro ignora ... Veja, por exemplo, Nesse mesmo lugar, do disco Silvia, de 1958:
08 - Neste mesmo lugar.mp3
Comentário de Mauricio Caleiro em 4 agosto 2009 às 1:51
É verdade, 300 Discos. Não foi minha intenção enfatizar a Sylvia pós-bossa nova, tanto que friso que ela também partiu do samba-canção, como a bela interpretação de Neste mesmo lugar que você gentilmente nos disponibilizou demonstra. Um abraço.

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