TEATRO DE REVISTA (verbete) # Dicionário do Teatro Brasileiro - Temas, Formas e Conceitos

"Audácia" da revista de princípio do século: Quadro "Pernas" de Penas de Pavão (revista de Marques Porto, Afonso de Carvalho e Sá Pereira). Pernas adivinhadas sob as meias grossas.





Hora de estudar. No verbete anterior, REVISTA-DE-ANO, foi explicado o surgimento do gênero revista no Brasil, suas características, estrutura e principais representantes. O novo verbete define a segunda fase, conhecida como TEATRO DE REVISTA, cujo período áureo se deu nos anos 20 e 30 do século passado.
Cafu




TEATRO DE REVISTA
Espetáculo ligeiro, misto de prosa e verso, música e dança que passa em revista, por meio de inúmeros quadros, fatos sempre inspirados na atualidade, utilizando jocosas caricaturas, com o objetivo de oferecer crítica e alegre diversão ao público. O terreno revisteiro é o domínio dos costumes, da moda, dos prazeres e, principalmente, da atualidade.
Algumas características lhe são típicas e quase sempre presentes, em suas várias épocas e nos diferentes países que conquistou: a sucessão de cenas e quadros bem distintos; a atualidade; o espetacular; a intenção cômico-satírica; a malícia; o duplo sentido; a rapidez e o ritmo. Esta última é talvez uma das mais importantes características da revista: o ritmo vertiginoso é condição básica do texto e da encenação, indispensável ao seu sucesso.
No início, as revistas brasileiras seguiam o modelo francês e eram em três atos. Entre 1920 e 1930, começaram a surgir revistas de dois atos, cujo melhor exemplo é a revista Pé de Anjo (1920, Cardozo de Menezes e Carlos Bettencourt).
Obrigatoriamente, cada um de seus atos termina em apoteose e o intervalo precisa ser curto para não atrapalhar o ritmo. O texto, geralmente, é resultado da participação de vários autores, e a música não necessita ser especialmente composta para cada espetáculo, havendo regularmente, uma alternância de melodias novas e antigos êxitos populares.
Embora ligada a todos esses gêneros, por pertencer, ao mesmo tempo, à categoria de teatro popular e de teatro musicado, a revista tem uma fórmula resolutória quase matemática que não deve ser alterada. A partir desta fórmula resolutória, o êxito da revista depende tanto dos autores, quanto do encenador e dos atores, porque na revista cabe tudo, pode-se tecer tudo, sem que se mude a sua arquitetura.
A trajetória do Teatro de Revista no Brasil mostra-nos um dos quadros mais expressivos de nossa vida teatral. A Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, foi o local em que se apresentaram as maiores companhias de Teatro de Revista no Brasil. Um dos papéis mais importantes da Revista Brasileira foi o de divulgar a música popular Brasileira. O subgênero revisteiro genuinamente brasileiro é a Revista Carnavalesca, cujo apogeu se deu nos anos 1920 e 30. Revistas como Pé de Anjo e Olelelê Olalá são emblemáticas desse período. Luiz Peixoto e Carlos Bettencourt formaram a dupla de autores mais importantes dessas décadas em que teatro e música eram uma só entidade. Ari Barroso, Sinhô, Assis Valente e Noel Rosa são alguns dos grandes nomes que compuseram músicas para o Teatro de Revista.
A revista, no Brasil, teve várias fases. Do início como revista-de-ano até os grandes shows produzidos por Walter Pinto, fundou-se uma tradição popular calcada nos grandes cômicos, nas belas vedetes e no teatro espetacular. Após a década de 1950, com a idéia equivocada de que Teatro de Revista era espetáculo apenas de virar páginas e que pouca ou nenhuma regra precisaria ser respeitada, muitos produtores se lançaram nas montagens marginais, mal acabadas, desprovidas de quaisquer cuidados, terminando por levar o público ao esquecimento. (Neyde Veneziano)


Paiva, S. C. - Viva o Rebolado! - Vida e Morte do Teatro de Revista Brasileiro. Rio de Janeiro, Nova Fronteira. 1991.

Ruiz, R. - O Teatro de Revista no Brasil, das Origens à Primeira Guerra Mundial. Rio de Janeiro, MEC/INACEN. 1988.

Veneziano, N. - Não adianta Chorar: Teatro de Revista Brasileiro...Ôba! Campinas, Ed. Da Unicamp. 1996




Verbete REVISTA (TEATRO DE) - Dicionário do Teatro Brasileiro - Temas, formas e conceitos. Coordenação:J. Guinsburg, João Roberto Faria e Mariangela Alves de Lima. Ed. Perspectiva/ SESC-SP, 2006.

Foto e legenda: do livro O Teatro de Revista no Brasil das origens à primeira guerra mundial - Roberto Ruiz e Tânia Brandão - Ministério da Cultura & Instituto Nacional de Artes Cênicas -1988

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Comentário de Marise em 19 setembro 2009 às 18:40
Que maravilha. Cada dia aprendo mais com esta garimpeira. Valeu muito, cafu.
Beijo
Comentário de Cafu em 22 setembro 2009 às 13:14
O que vale é ter um coração de estudante curioso e vibrante. Assim como o seu Marise!
Beijos.
Comentário de Helô em 25 setembro 2009 às 2:08
Hummmm, faltou a turma do dicionário citar o nosso querido Tio Agostinho, Cafu.
Tem horas que é difícil acreditar que não haja um filmezinho sequer sobre alguma revista. Morro de vontade de ver como era. Ah! E em conversa recente com mamãe, ela me disse que quando a família morou em Barra do Piraí vovó e vovô iam ao Teatro de Revista no Rio. Isso foi na segunda metade da década de 30. Olha que legal!
Beijos e vamos em frente com os verbetes, porque eles são muito importantes.
Adorei as meias grossas. Lembrei-me da nossa querida Briebinha :)
Comentário de Cafu em 6 outubro 2009 às 15:43


Augusto de Freitas Lopes Gonçalves

Diferente disso foi a proposta de Augusto de Freitas Lopes Gonçalves de escrever o Dicionário Histórico e Literário do Teatro no Brasil. Aos nossos olhos pós-modernos parece um ato de insanidade alguém querer escrever sozinho um dicionário previsto para ter 15 volumes e discorrer sobre " a vida teatral no Brasil, desde as primeiras manifestações literárias e artísticas nacionais, chegando a cadastrar em verbetes tudo, ou quase tudo, que foi representado de peças estrangeiras, de todos os gêneros, mencionando as companhias, autores, diretores, atores, partituras musicais, técnicos, onde foram apresentadas." Ou seja, tudo e todas as coisas. Impossível.
Passadas várias décadas, após muitos estudos acadêmicos, pesquisas e experiência acumulada por profissionais da área - seja na elaboração de dicionários de língua portuguesa, seja de temas específico como, por exemplo, o Dicionário Cravo Alvim da Música Popular Brasileira - sabemos que os dicionários são fruto do trabalho de uma vasta equipe, altamente profissionalisada, que aplica ao seu fazer metodologias e conhecimentos ciêntíficos. Não é um vôo solitário, nem amador.
Longe de mim desmerecer o valoroso trabalho de Augusto de Freitas Lopes Gonçalves. Ele foi um profundo conhecedor do teatro brasileiro e alguém dedicado de corpo e alma à memória teatral do Brasil. Roberto Ruiz cita-o como um dos poucos "arquivos confiáveis e corretos". Sequer quero mostrar como a grandiosidade e falta de foco do projeto contribuiu para a sua inviabilização. Um parêntese: o autor morreu em 1968, deixou o dicionário inacabado e sua viúva e legatária da obra "valeu-se do auxílio, na revisão de Doutor Roberval Pompílio Nogueira Cardozo, engenheiro agrônomo, especialista em sociologia rural e estudioso de artes plásticas, de Taiguara Fleury de Amorim, e dos pacientes serviços datilográficos de Maria de Jesus Alves, que até contribuiu com seus conhecimentos paleográficos para decifrar as fichas manuscritas com palavras difíceis de ser lidas por estarem com caligrafia apressada de quem tem muito a informar. Além desse penoso trabalho de por em devida ordem os verbetes, seria impossível fazer-se uma revisão perfeita e uma atualização, porque teria toda uma equipe que percorrer os mesmos caminhos do autor, desde o princípio, o que levaria mais vinte anos, e assim sucessivamente." (As citações entre aspas fazem parte da Notas da Editora Cátedra ao primeiro volume da obra).
O que eu quero dizer é que parece que a Editora Cátedra há muito não existe. A publicação do Dicionário só chegou ao 4º volume. Não sei se Dona Lúcia de Araújo Lopes Gonçalves ainda é viva e aonde foi parar o trabalho de 20 anos de Augusto de Freitas Lopes Gonçalves. Mas queria muito saber.
A pergunta que não quer calar: não é o caso da FUNARTE tentar ir atrás do tesouro perdido e com os meios modernos disponíveis rever este material e publicá-lo?
Sonhos!
Comentário de Cafu em 6 outubro 2009 às 16:10
Eita, Helô.
Meus dedos hoje estão pura trapalhada. Faltou o primeiro parágrafo do comentário anterior. Eu dizia que o objetivo do Dicionário do Teatro Brasileiro era a reflexão sobre "formas, temas e conceitos" do universo cênico no geral. Por isso a não referência ao tio Agostinho e outros craques da revista. Corrigindo o nonsense, portanto.
Beijos.
Comentário de Marília Feijó Bressane em 15 novembro 2009 às 18:37
Parabéns, aprendi bastante aqui.
Onde conseguir imagens filmadas das Revistas das décadas de 40, 50, 60?
abraços
Marília
Comentário de Cafu em 19 novembro 2009 às 17:39
Marília,
Infelizmente, parece que não tem. Se você descobrir alguma preciosidade, por favor, volte correndo pra nos avisar. Estamos empenhados em resgatar as memórias, imagens e histórias do teatro de revista.
Beijos e volte sempre.
Comentário de Cafu em 24 novembro 2009 às 14:12
Aqui o registro do lançamento do livro "De pernas pro ar: O teatro de revista em São Paulo", de Neyde Veveziano, autora do verbete acima e grande estudiosa do teatro de revista no Brasil.

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