Teresa Berganza dá aula de canto a jovens brasileiros

AE - Agencia Estado

SÃO PAULO - "Ela já chegou?" Na tarde de sexta, a jovem soprano de 20 anos não esconde a ansiedade. "Você vai cantar para ela?", pergunta uma colega. "Não, mas, meu, é a Teresa Berganza, vim pelo menos para assistir..." Uma pausa e as mãos vão de encontro à cabeça. "Ai, esqueci a câmera, você trouxe? Tira uma foto minha com ela?" Alguém desce correndo a escadaria do teatro. "A Berganza chegou." Os olhares se voltam para a porta por um instante, ou uma eternidade, antes que surja a imagem daquela senhora diminuta. Brinca com um bebê que acompanha a mãe na plateia, olha em volta. "Boa tarde, boa tarde", diz, em um português bem ensaiado. Os alunos se aprumam nas cadeiras enquanto ela sobe ao palco. Senta-se ao lado do piano, sacode os braços, arruma o cabelo. "Podemos começar?"

Há poucos cantores que nas últimas décadas podem reivindicar para si o posto de intérprete definitivo de determinada obra. A meio-soprano espanhola Teresa Berganza (1935) faz parte desse grupo seleto - e com um dos grandes papéis do repertório, a cigana Carmen na ópera de Bizet. Cantou em todos os principais teatros, gravou com os grandes maestros de seu tempo. Desde a semana passada, está em São Paulo, dando master classes a jovens cantores brasileiros que, hoje, fazem no Teatro São Pedro um recital em homenagem a ela.

O primeiro a subir ao palco é o barítono Randal Oliveira, interpretando uma ária de As Bodas de Fígaro, de Mozart. Ela corrige as ênfases, interpreta junto, desce para a plateia para checar a projeção da voz. Depois é a vez do tenor Marco Antônio Jordão, com ária da ópera O Elixir do Amor. "E a intenção? Você está falando em morrer de amor, acredite nisso!" Ela cantarola a passagem e de repente soa pelo teatro aquela voz, o timbre inconfundível, a intensidade a que nos acostumamos em suas gravações.

Após a aula, ela explica se dá para ensinar em tão pouco tempo de aulas. "Os jovens estão cada vez menos preparados musicalmente. Preocupam-se apenas com a voz e esquecem o que estão cantando. Sim, a técnica é fundamental, mas tento fazer com que entendam que não é suficiente. Eu prefiro trabalhar com uma voz não tão bonita, mas de personalidade do que com uma voz bonita, mas sem conteúdo."

A carreira de Berganza começou no fim dos anos 50, quando cantou ao lado de Maria Callas. Uma grande influência? "Sim, mas não a primeira. Ouvia, ainda adolescente, no rádio, Victoria de Los Angeles. Tive por ela sempre muita admiração, pela qualidade da voz e pela rigidez na escolha precisa de repertório. Mas nunca a imitei. Cada voz é uma voz. E é responsabilidade do cantor e de seus professores saber escolher o melhor caminho. Há tantos papéis bonitos pelas quais sou apaixonada. Mas minha voz dizia que não. E eu obedecia."

Que balanço faz da carreira? "O fato é que eu precisaria de 180 anos para cantar tudo o que queria, mas as óperas que cantei foram muito especiais para mim." Ela se despede e, na descida do palco, completa. "Sabe, no fundo acho que tive sempre muita sorte", diz, e vai em direção à porta cantarolando um trecho da Carmen.

(As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.)

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Comentário de elizabeth em 30 novembro 2009 às 20:05
Hoje à noite, no Teatro São Pedro, na rua Barra Funda 171,(SP) vai haver homenagem a ela.
Comentário de Oscar Peixoto em 30 novembro 2009 às 21:04
Ela merece, Elizabeth. Foi um dos maiores mezzos que conheci. Você precisava ouvi-la cantando zarzuelas, era naravilhosa.
Abraços
Comentário de Helô em 30 novembro 2009 às 22:01
Repetindo o comentário que acabei de deixar no Trivial:
Que coisa bonita, Oscar. Tão bom saber que uma pequena parcela da nossa juventude se interessa pelo canto lírico. E a Berganza, além desse gesto tão lindo, canta magnificamente a Habanera, uma das mais belas e famosas árias da história da ópera.

E aqui acrescento:
Carmen foi uma das primeiras óperas que assisti até o final e teve um significado especial para mim. No papel principal, Maria Ewing.
Beijos, Óscar :)

Comentário de elizabeth em 30 novembro 2009 às 22:04
Adorei o video, e adoro a Carmen também.
Comentário de Helô em 4 dezembro 2009 às 17:36
Óscar
Acabei de ver um post sobre a Berganza no blog Harmonia, no JB.
Beijos.

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