O meu tio Antonio Batista Dantas, carinhosamente chamado por nós, eu e meu irmão Amarílio, seus únicos sobrinhos, de “Titonho”, era sem nenhuma dúvida uma pessoa agraciada por Deus com um miolo de fazer inveja a muita gente de anel no dedo, na condição de um semi-analfabeto, que aprendeu apenas a ler e fazer contas.

Nascido e criado na Corujinha, município de Nova Palmeira (PB), quando ainda era uma simples vila do município de Picuí (PB), longe de tudo, se viu estimulado a aprender sem professor, depois que foi alfabetizado em Parelhas (RN), juntamente com meu pai, morando de favor na casa de um tio. Por sinal, muitos anos após, acabaram brigando por questões de terras e quando o tio faleceu, ele fez a seguinte proposta: - Se tio Augusto aparecer pra mim e disser qual será o bicho do dia, perdôo ele e o velho topou a parada. Um belo dia quando estava deitado, viu o tio flutuando ali perto do teto e pronunciando a palavra “peixe”. Então ele botou mais uma habilidade para funcionar, que era a de “decifrador de sonhos” e, como não existe “peixe” no jogo do bicho, foi no “jacaré”, que é bicho d’água e acertou na mosca.

Inicialmente aprendeu os ofícios de pedreiro e carpinteiro, adquiriu um torno mecânico movido a feijão, onde fazia pequenas peças e objetos, até agulhas de máquina de costura e botões usados em roupas, fabricava prensas de casas de farinha, abrindo roscas na madeira, como funileiro produzia utensílios de zinco, cortava o cabelo da molecada, isso tudo nas horas de folga, já que se dedicava a atividade rural criando umas vaquinhas, cujo leite utilizava para fabricar queijos e ajudar no sustento da família, assim como cultivando um pequeno roçado com a mesma finalidade.

Lá pelas tantas passou a utilizar energia eólica, a partir de um cata-vento acoplado a um dínamo de carro, que carregava uma bateria e funcionava um rádio que o meu avô comprou, o único da região, além de iluminar a sala, onde a galera se reunia para ouvir músicas, missas, terços e até curtir a Copa do Mundo de 1958.

O carro existente naquela parte do município era um caminhão, que fazia a feira de Picuí no sábado e a de Pedra Lavrada no domingo. Não me perguntem como aprendeu, mas ele é quem fazia a manutenção do veículo, inclusive reparo do motor, levando as peças para retificar em Campina e efetuando a montagem a domicílio, um luxo que nem hoje existe, mesmo sem saber dirigir o bicho. Depois acabou adquirindo esse veículo e, como era um amante da velocidade, mais arrojado que o próprio Nigel Mansell, acabou passando os pés pelas mãos e dando uma capotada, onde, por pura sorte, só um “passageiro” morreu.

Fazia injeções, tanto no músculo como na veia e outros procedimentos da área de saúde, nas pessoas daquela localidade, assim como receitava os próprios remédios, na maioria antibióticos pesados como a famosa e temida “benzetacil” que, graças à inexistência de um CRM ou COREM naquela época, quando um médico vinha na cidade de quinze em quinze dias, muitos "pacientes" prolongaram sua existência e, se alguém bateu as botas, pelo menos não reclamou.

Certa vez chegou para uma celebridade lá de Picuí e disse que se quisesse saberia quantas voltas o pneu de sua bicicleta daria no trajeto do sítio até a cidade. O sujeito deu uma sonora gargalhada e disse – Só se você for empurrando a bicicleta e contando as voltas. Então ele falou - É muito fácil: basta você circular o pneu com um cordão, medir o comprimento e depois dividir a distância por essa medida que terá o número de voltas. Realmente é fácil para quem estudou matemática e não para quem ficou nas contas.

A única coisa que não conseguiu aprender, apesar da insistência, foi a tocar sanfona, pois tinha os dedos muito grossos e quando acionava uma tecla, as vizinhas desciam juntas em sinal de solidariedade.

Titonho era um “artista” e deve ta dando nó em pingo d’água lá pelo Céu.

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