Torquato Pereira de Araújo Neto
* 09/11/1944 – Teresina (PI)
+ 10/11/1972 - Rio de Janeiro (RJ)

 

Poeta / Letrista / Ator / Cineasta / Jornalista.

 

 

O meu nome é Torquato
O do meu pai é HELI
O da minha mãe SALOMÉ
E o resto ainda vem por aí

 

(Primeiro poema de Torquato Neto, feito aos 9 anos de idade, em Teresina, 1953 - dedicado aos pais).

 

 

 

Na minha infância, os nomes do poema acima, Torquato / Heli / Salomé, eram corriqueiramente citados lá em casa pelos meus pais e, especialmente, por meu irmão Ademir, que era coleguinha de infância do Torquato. Ambos tinham praticamente a mesma idade, sendo Torquato um ano mais novo.

 

 

Eram vizinhos porta com porta (como se diz aqui no nordeste), na Rua São João, parceiros nos estudos (sentavam lado a lado) e nas brincadeiras de rua. Mas a convivência durou pouco, já que nosso pai, funcionário do Banco do Brasil, foi transferido para a cidade de Campina Grande (PB), e Torquato embarcava para estudar na Bahia. À época eu tinha apenas dois anos; portanto não sou personagem desta história, mas de tanto ouvir, principalmente, minha mãe Aracy contar passagens desta época, ela ficou registrada na minha memória afetiva.

 

 

Alertada pela amiga Edna Nascimento da proximidade do aniversário de 67 anos de nascimento de Torquato Neto, presto minha singela homenagem a este artista que tanto contribuiu para as artes brasileiras. Nela pinçarei alguns dados biográficos/artísticos, dando ênfase à veia musical.

 

 

 

 

Torquato Neto com os pais: Dona Salomé e Dr. Heli.

 

 

No início da década de 1960, Teresina era pequena diante das pretensões da sua mãe, Salomé, que almejava a carreira de diplomata para o filho

 

 

No primeiro voo, aterrissou na Bahia para estudar no Colégio dos Maristas e lá conheceu Gilberto Gil.

 

 

Torquato nas escadarias do Colégio dos Maristas, Salvador (BA).

 

 

Passava a maior parte das aulas rabiscando poemas. Não demorou já estava colaborando com o jornalzinho da escola. Eclodia dentro de si uma das suas grandes paixões – o cinema -, passando a assistir e ler tudo relacionado à sétima arte.

 

 

O ponto de convergência das atividades culturais era o Centro de Cultura Popular da UNE (União Nacional dos Estudantes), e foi lá que conheceu, também, Caetano Veloso, Duda Machado, Gal Costa, Capinam, Maria Bethânia e outros.

 

 

“A gente era vidrado em cinema. Falava-se nisso de manhã, de tarde, de noite. Nessa época Glauber Rocha, era por volta de 60, começou na Bahia o movimento cinema novo (...)”. (Torquato em entrevista ao jornalista Menezes y Morais).

 

 

Dois anos depois (1962), o segundo voo, rumo à Cidade Maravilhosa. Lá termina o científico e, por dois anos, cursa jornalismo na Faculdade de Filosofia da Universidade do Brasil.

 

 

Ainda no Rio de Janeiro foi apresentado a Edu Lobo, pelo cineasta Rui Guerra, engendrando de imediato uma parceria musical que, apesar de curta, foi marcante para ambos.

 

 

 

 

Edu Lobo fala da parceria.

 

“Trabalhamos durante três meses, foi quando fizemos ‘Veleiro’, ‘Lua Nova’ e ‘Pra dizer adeus’, que considero uma das minhas três melhores músicas, ainda que só três anos depois fossem estourar”.

 

 

Lua nova” (Torquato Neto / Edu Lobo) # Edu Lobo. [Tive que substituir o vídeo anterior, com o próprio Edu Lobo interpretando ao vivo, por esse abaixo cuja edição não acho boa].

 

 

 

 

 

 “Pra dizer adeus” (Torquato Neto / Edu Lobo) # Edu Lobo (violão e voz) / Cristovão Bastos (piano), Jorge Helder (contrabaixo), baterista não identificado.

 

 

 

 

 

Além de Edu Lobo, Torquato Neto compôs com grandes nomes da música brasileira, como: Gilberto Gil, Caetano Veloso, Carlos Pinto, Jards Macalé, Geraldo Vandré, Roberto Menescal, Luiz Melodia, Machado Jr., João Bosco, Geraldo Brito, Feliciano Bezerra, Renato Piau e Edvaldo Nascimento. Muitos artistas, até hoje, musicam seus poemas.

 

 

Louvação” (Torquato Neto / Gilberto Gil) # Gilberto Gil.

 

 

 

 

Me caso com você” (Torquato Neto / Edvaldo Nascimento) # Edvaldo Nascimento.

 

Minha Senhora” (Torquato Neto / Gilberto Gil) # Gal Costa.

 

 

 

 

 

 

Mamãe coragem” (Torquato Neto / Caetano Veloso) # Nara Leão.

 

 


  

 

 

Começar pelo recomeço” (Torquato Neto / Luiz Melodia) # Luiz Melodia.

 

 

 

 

 

 

Caetano Veloso (sentado). Da esquerda para direita: Corisco do Pandeiro / Torquato Neto / Gilberto Gil / J.Fernandes e Adylson Godoy.

 

 

 

Citando alguns dos muitos intérpretes torquatianos: Nelson Gonçalves, Ângela Maria, Elizeth Cardoso, Elis Regina, Gal Costa, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Edu Lobo, Jair Rodrigues, Lena Rios (Barradinha), Jards Macalé, Ana Miranda, Nana Caymmi, Cláudia Simone, Laurenice França, Olívia Hime, Rubens Lima, Machado Jr., Fátima Lima, Silizinho, Geraldo Brito, Feliciano Bezerra, Roraima, Edvaldo Nascimento e os Titãs.

 

 

O terceiro voo, sob a influência do parceiro Edu Lobo, foi para São Paulo, o que ocorreu em 1966. Nessa época, Gilberto Gil morava em Sampa, no bairro de Cidade Vargas, extremo sul da cidade, tendo o hábito e, acredito eu, o prazer de hospedar os amigos, a exemplo de Torquato Neto, Capinam, Geraldo Vandré e Rui Guerra. O certo é que a casa de Gil foi batizada de “Pensão dos Baianos”.

 

 

 

 

 Torquato, Caetano e Capinam

 

Um ano depois, em 1967, Torquato Neto decide casar-se com a baiana Ana Maria dos Santos e Silva. Três anos depois nascia seu único filho Thiago, atualmente piloto da aviação civil.

 

 

 

 Gilberto Gil, Ana Maria e Torquato.

 

 

 

Ronaldo Bôscoli relata a cerimônia:

 

 

“Torquato casou numa igreja linda e antiga. Lembro-me que cheguei cedo demais. O casamento foi tão careta que a noiva – como manda o figurino – chegou mesmo. (...) Por pouco o casamento não vira uma grande festa tropicalista. (...) O padre estava nervoso: ia celebrar o casamento de Torquato Neto, o mais ativo letrista do chamado grupo baiano, e tinha medo de que, na Hora H, começassem a aparecer violões no altar” (...).

 

 

 

O quarto voo de Torquato Neto aconteceu um ano após seu casamento (1968), e até 1969 percorreu a Europa e os Estados Unidos por conta de uma bolsa de estudos com que fora contemplado, para escrever sobre “As influências africanas na música popular brasileira”.

 

 

O casal, acompanhado pelo artista e amigo Hélio Oiticica, embarcou uma semana antes do famigerado Ato Institucional nº 5.

 

 

 

 Torquato Neto e Hélio Oiticica. Whitechapel Gallery. Londres, 1969.

 

 

No retorno ao Brasil, a relação com os baianos fica, digamos, estremecida, e ele vem a Teresina objetivando “recrutar” alguns artistas/amigos da terra visando à formação de um grupo de trabalho no Rio de Janeiro. Não logrou muito progresso na empreitada e, no retorno ao Rio, alia-se a Waly Salomão, Vinícius Cantuária e Luís Moreno e elege como nova intérprete a cantora piauiense Lena Rios, a Barradinha.

 

 

 

 Torquato Neto e a cantora, compositora e jornalista Lena Rios (Barradinha).

 

 

Sem essa aranha” (Torquato Neto / Carlos Galvão) # Lena Rios.

 

 

 

 

 

 

 

Torquato, porém, não consegue esquecer os baianos, e sua paixão pelo cinema sempre estava a aflorar.

 

 

 

 

 

O cinema exerce um fascínio terrível sobre o poeta: "As letras dele são, na realidade, roteiros cinematográficos", afirma o jornalista, escritor e filólogo Paulo José Cunha, primo de Torquato (foto acima).

 

 

Foram vários os filmes, em Teresina, no Rio e em Salvador, entre 1961 (roteiro de "Barravento") e junho de 1972 ("O faroesteiro da cidade verde ou só matando").

 

 

Torquato Neto e os poetas Capinam e Augusto e Campos (da sua geração) e Oswald de Andrade (1890-1954), cuja poesia seria precursora de dois movimentos que marcariam a cultura brasileira na década de 1960: o Concretismo e o Tropicalismo.

 

 

 

Torquato integrou equipes de shows musicais marcantes acontecidos no país.

 

 

- Com Capinanm e Caetano, roteirizou "Pois é", de Maria Bethânia, em 1966.

 

- De janeiro a maio de 1967, participou de "Ensaio Geral", na TV Excelsior (o time: Radamés Gnattali, Tamba Trio, Gil, Caetano, Sérgio Ricardo, Tuca, Sidney Miller, Época de Ouro, Jacob do Bandolim, Ismael Silva, Cyro Monteiro).

 

- Em julho de 1967, roteirizou, para a TV Record, ao lado de Caetano, o "Frente Única - Noite da Música Popular Brasileira”.

 

 

 

Torquato Neto ao longo da sua breve vida foi um ser da práxis (no sentido marxista), daí seu engajamento e luta nas questões de cunho social.

 

 

 

Torquato, Gilberto Gil e Nana Caymmi na Passeata dos 100 Mil.

 

 

 

 

 

 

 

Torquato Neto / Rio de Janeiro / Agosto de 1972.

 

 

O destino do último voo do nosso poeta – Torquato Neto -, infelizmente, não foi Teresina, Salvador, São Paulo, Europa, Estados Unidos ou outro lugar qualquer no planeta Terra. Esse voo foi o mais profundo, e totalmente solitário..., um mergulho infinito nas entranhas de seu “ser”, deixando órfãos o núcleo familiar e artístico (incluindo os fãs).

 

 

 

 

 

Cogito” (Torquato Neto / Machado Jr.) # Machado Jr.

 

Áudio indisponível no momento!

 Torquato Neto, em sua curta viagem pelo planeta Terra, atuou, praticamente, em todas as frentes da cultura brasileira com coragem, inventividade, ousadia e sensibilidade. Seu legado está fincado no coração do povo brasileiro e, em especial, do povo piauiense.

 

 

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FONTES:

Livro:

- Torquato Neto ou a carne seca é servida, de Kenard Kruel. – Teresina: Ed. Zodíaco, 2008.
- Dicionário Houaiss Ilustrado (da) Música Popular Brasileira. Supervisão geral; Ricardo Cravo Albin. - Rio de Laneiro: Paracatu, 2006.
- Coleção MPB Compositores. - Rio de Janeiro: Editora Globo, 1997.

Blog / Site:

- Torquato Neto, o cara que não andava sendo feliz por aí, por Dodó Macedo.

CD:

- Torquato Neto – Todo dia é dia D, 2002.
- Torquato Neto 60 Anos: Só quero saber o que pode dar certo, 2004.

 

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Após 38 anos da morte de Torquato Neto, seu primo George Mendes recebeu o "Baú do Torquato", com poemas e fotos inéditas e tudo aquilo que o poeta guardava com zelo.

 

 

 

 

Recomendo a leitura das 621 páginas escritas pelo escritor Kenard Kruel, em “Torquato Neto ou a carne seca é servida”.

 

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Exibições: 2459

Comentário de Gregório Macedo em 9 novembro 2011 às 15:00

Que beleza, querida. Finalmente, bela homenagem ao grande Torquato Neto.

Servir(-se) bem d(a) carne seca, eis a questão, como diria o Kenard.

Beijos.

Comentário de Laura Macedo em 9 novembro 2011 às 20:35

Valeu, fofinho :))

Confesso que eu estava precisando deste mergulho na obra do Torquato Neto. Foram alguns dias "agarradinha" com ele, mas ontem fiquei, realmente, DE (dedicação exclusica), mas conseguimos terminar.

Beijos infinitos.

Comentário de kenard kruel em 13 novembro 2011 às 20:04

comadre laurinha, que bela maneira de escrever. de tanto tentar, um dia, quem sabe, chego lá. fiquei encantado com o começo, quando fala da ligação de seu irmão com torquato neto. e da lembrança de sua mãe de torquato neto. esse menino danado de 67 anos de idade. a terceira edição do torquato neto ou a carne seca é servida, revisada pelo compadre gregório macedo, o nosso dodó de coração e alma, está para ser lançado. antes ele pediu para revisar a revisão. assim, qualquer dia bato à porta para filar a bóia e dar a ele a boneca do livro para ele brincar - let's play that. lembranças à isabela sempre bela. não se deixem de mim. com fé esperança e amor, beijos kenardianos.

Comentário de Laura Macedo em 13 novembro 2011 às 20:30

Compadre Kenard,

Fico feliz por você ter gostado do "nosso trabalho". Digo "nosso" porque foi todo baseado no seu livro. Que bom que a 3ª edição vem por aí. E o Dodó já está esperando para brincar com a boneca. Só permito a brincadeira com esse tipo de boneca :-)))))

Estamos lhe esperando, sempre.

Beijos.

Comentário de luzete em 19 abril 2012 às 2:01

sem dúvida,

uma pesquisa dos fatos fundamentais da vida de alguém tão fundamental.

valeu, laurinha

e prá quem ama torquato, um prato cheio da deliciosa carne seca.

Comentário de Laura Macedo em 19 abril 2012 às 2:19

Luzete,

Quando sair a 3ª edição do livro "Torquato Neto ou a carne seca é servida", do nosso amigo e compadre Kenard, lhe enviarei um exemplar.

Beijos.

Comentário de Laura Macedo em 9 novembro 2014 às 0:04

Torquato Neto - 70 Anos

Reportagens Especiais da TV Clube em homenagem aos 70 Anos de Torquato Neto

Comentário de Laura Macedo em 14 dezembro 2015 às 20:49

Uma Entrevista preciosa com Torquato Neto (Luis Nassif/GGN)

O Programa Memória Popular Brasileira, de Wanderley Cunha, na Cultura FM, é uma preciosidade.

No programa de hoje, divulgou uma entrevista inédita com o poeta Torquato Neto, divulgando-a em um programa especialíssimo sobre ele, o mais precoce e desconhecido dos artistas do tropicalismo.

Comentário de Laura Macedo em 8 novembro 2016 às 20:46

Entrevista inédita revela a voz do poeta Torquato Neto (Jornal Meio Norte).

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