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São seis anos de existência, e, poderíamos dizer, o twitter é uma das mais recentes e mais usadas ferramentas de expressão da linguagem humana, da fala, da fabulação, esse fenômeno da cultura que não se sabe direito como teve início.

Fala, essa relação entre língua e palato, sílabas entre dentes, e, solitário, o céu da boca, emprestando-se como microfone do pensar, fala, fabulação, falácia.

Estórias contadas diante da fogueira, à noite, a têia das palavras sendo uma espécie de cobertor para abafar o medo do vazio, do inexplicável, a chama de uma vela recriando a vaguidão e a leveza de que se tece a poesia.

Gestos recriando cenas, desenhos na terra esquadrinhando o mundo da criação. Cavernas pintadas, ecos de estórias contadas sob o cume da noite.

Livro aberto, romance descortinando de par em par mundos tão imprevistos, universos paralelos tão distintos, a língua a rumorejar nas quilhas do tempo.

E veio o jornal, esta outra maneira de fabulação dos fatos, e veio a fotografia, o cinema, a tv, enredando-nos em suas teias, olhar focado, histórias e estórias contadas, fala, fabulação, parlatório, parlamento, até que o mundo convergiu para a tela do computador, do celular e nos vimos engolfados pela nova onda das redes sociais.

Mundos conectados, cérebros falando entre si, intersi, intrasi, há uma espécie de grito tão vasto, tão monumental, explodindo em todos os poros do planeta, que não se sabe direito quem fala, o que fala, porque fala, quando fala, pra quem fala, com quem fala.  

Aqui e ali, escuta-se uma palavra, entrevê-se uma cena, salpica-se de atenção um pequeno tom desse universo falante, faz-se um pequeno clique de silêncio, para de novo recrudescer o vozear, a falação, o incrível retumbar do parlatório em ação, colmeia as vezes poética, outras vezes patética, polissemia de tons, cores, imagens, avatares, cosmogenia invulgar dessa nova vaga cultural.

Mais de duzentos milhões de cérebros conectados, toneladas de palavras desaguadas pelo fluxo elétrico dos bits,o twitter, essa poderosa máquina de dispensar pensamento, fala, palavra, lamento parlamentar, acertiva poética, link, hipertexto tentando guiar os incautos na vã tarefa de encontrar um lugar, uma interlocução, um naco de atenção na incessante colmeia.

Aturdida, penso no poeta Manuel de Barros, quando inventou o verbo “desver”. Preparo mais 140 caracteres inúteis. “Desver”, desfalar, acomodar língua e palato numa quilha de silêncio, vibrato incomum do nada, onde não haja palavras.

Desconectar, cerrar a prodigiosa catadupa cibernética, reaprender a escuta do fragor do vento, polinizando a terra.

Este post foi publicado originalmente na minha coluna impressa do Jornal A União, quarta-feira, 26 de setembro de 2012

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Tags: #estórias, #hipertexto, #história, #linguagem, #twitter

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