UM ANTIGO GÊNERO DE POESIA POPULAR PRESENTE NA ILHA GRANDE

Por Sandor Buys 

A cultura popular é como seixos rolados no rio. Músicas, versos, danças, modos artesanais de fazer, contos e histórias que correm de boca em boca através das gerações e vão se transformando. Palavras, gestos e sons rolados no tempo, pedras preciosas que vão se lapidando pela ação dos que ouvem e repetem. Infelizmente nos dias de hoje, muitas vezes os elementos da cultura popular, ou folclore como muitos preferem, passam despercebidos e são pouco valorizados. Pode ser surpreendente para a maior parte das pessoas, incluindo os tantos turistas que freqüentam o litoral sul do Estado do Rio de Janeiro em busca das praias, mas a riqueza cultural da Ilha Grande é muito vasta, embora esteja sendo rapidamente extinta sob os olhos de todos e, aparentemente, sem grande reação.

Em Janeiro do ano de 2001, tive a oportunidade de registrar em um pequeno gravador de fita cassete uma entrevista com certa moradora da Ilha Grande muito especial, que me revelou várias histórias, músicas e versos da cultura popular local. Seu nome incomum – Diamante – nos remete de imediato a preciosidade do seu baú de lembranças guardadas. Filha mais nova de uma família com ascendência grega de sobrenome Cocotós, nasceu na Praia do Abraãozinho, lá pela década de 1930 ou 1940, não pude apurar ao certo. Quando a entrevistei, ela morava na Vila do Abraão junto à irmã Sofia e ao meio-irmão José Americano, pescador conhecido como Ieié. Seu outro irmão, chamado Constantino, ganhou fama local como tocador de acordeon que animava festas populares.

Diamante, por certos problemas de saúde, nunca saíra da Ilha Grande até sua velhice, quando foi transferida para uma casa de repouso em Angra dos Reis. Conversando com ela, tive a impressão de que, por estes problemas de saúde, não pode viver ativamente muitas das coisas de que gostaria ao longo de sua vida, tendo sido contemplativa na infância e juventude. Talvez por este fato que ela tenha guardado na memória, e revivido em palavras, tanto do que observou no dia-a-dia das ruas, nas festas religiosas, folias de reis e carnavais.

Contarei aqui algumas das histórias que registrei da Diamante, começando por transcrever um poema em forma de ABC. Esta forma poética popular é amplamente difundida no Brasil, consistindo, em linhas gerais, de um conjunto de estrofes baseadas na seqüência de letras do alfabeto. Grandes estudiosos da cultura popular brasileira, como Sílvio Romero e Luiz da Câmara Cascudo, trataram desta forma poética, que é muito antiga, já encontrada em diversos países da Europa desde o século IV, e trazida pelos portugueses às nossas terras. Normalmente os versos são heptassílabos e organizados em quadras e na maioria dos ABCs encontrados no Brasil o til é incluído como sendo uma letra. Isto acontece porque as cartilhas usadas antigamente na alfabetização costumavam incluir o til no final. Os singelos versos de amor trazidos pela Diamante em suas lembranças de outra época aportaram aqui com esperança de serem lidos e repetidos pelos leitores e, quem sabe, trarão um sopro de inspiração para novos versos e um pouco mais de reconhecimento e valorização para cultura popular caiçara.

O A quer dizer amor

Amores mesmo é que diz

Por causa de amor deixei

No mundo de ser feliz

 

O B quer dizer bem

Tu bens sabes compreender

Por tua causa deixei

Quem me podia valer

 

O C quer dizer carinho

Tu não sabes carinhar

Se tu fosses carinhoso

Talvez soubesse pagar

 

O D quer dizer desprezo

Desprezado eu sou por ti

Não faz mal, entrego a Deus

Tudo quanto eu padeci

 

O E quer dizer ingrato

Ingrato eu poço te chamá

Um ingrato como tu

Que nesse mundo não há

 

O F quer dizer firme

Achei o teu coração

Achei todo desprezado

E cheio de ingratidão

 

O G quer dizer gosto

Gosto eu podia ter

Nunca quis, sempre esperei

Pelo seu bom proceder

 

O H quer dizer homem

De muito mau pensamento

Eu mesmo fui a culpada

De escutar seu juramento

 

O I quer dizer infância

Que nela brilhava as flô

Não faz mal eu sou criança,

Tenho Deus por defensô

 

O J que dizer jardim

Que tendes com tantas flores

Eu queria ser jardineiro

Do jardim de seus amores

 

O K quer dizer quilo

Que na balança eu botei

Para pesar suas culpas

Peso nenhum encontrei

 

O L quer dizer lágrima

Que tenho tantas assim

Que tuas lágrimas causou

Infeliz sorte prá mim

 

O M que dizer muitas

Falsidade e ingratidão

Foi tudo quanto encontrei

Dentro do teu coração

 

O N quer dizer nunca

Eu pensei que tu fugias

Dessa paga traidora

De quem tanto te querias

 

O O que dizer olho

De chorar tanto me arde

Somente por encontrar

No teu peito a falsidade

 

O P quer dizer peso

Que tendes tantos assim

Que tuas penas causou

Infeliz sorte prá mim

 

O Q que dizer quero

Saber se sim ou se não

Uma das duas espero

Do teu falso coração

 

O R quer dizer raiva

Tendes tantas assim

A sua raiva causou

Infeliz sorte prá mim

 

O S quer dizer sinto

Uma dor que me consome

Por que tu fostes ingrata

E não dissestes o teu nome

 

O T quer dizer tenho

Uma dor que me consome

Por que tu fostes ingrata

E não dissestes o teu nome

 

O U quer dizer uma

Duas não há de chegar

Eu ando só esperando

Para contigo me encontrar

 

O V diz que vão se acabando

As letras desse ABC

Eu só quero que não acabe

Esse nosso bem querer

 

O X diz choro dia e noite

Sem haver consolação

Somente por estar pensando

Nessa sua ingratidão

 

Pissilone é letra rara

Prá numa carta empregar

No entanto eu emprego

Prá minha alma consolar

 

O Z é a letra final

Que termina essa missiva

Cheia de fina saudade

Com minha alma sempre viva

 

O til é letra pequena

Podia ficar de lado

Eu também sou pequenino

Por me ver tão judiado

 

Publicado originalmente no jornal O Eco, Angra dos Reis (Ilha Grande), RJ, página 26, em 01 maio de 2013 

 

 

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