Um conto: Muito mais de onze fraturas



A desgraça do goleiro Barbosa, que tomou o gol que tirou do Brasil a conquista do título, no mundial de 1950, contra o Uruguai, realizado no Maracanã, me inspirou, faz tempo, este conto.
Não entendo nada de futebol, mas me fascina o lado humano de seus personagens.



Pra ele doía muito mais que fratura. Meu amigão, colega do grupo escolar. Saudade das peladas, eu era lateral direito, ele goleiro.Parecia um gato, o camarada! Mudou pra São Paulo, trabalhava numa firma lavando vidro e lá mesmo, jogando na fábrica, foi contratado pelo Ypiranga, por volta de 1940. Ele era do 1921, o senhor faz as contas, tinha 19 anos.
No 1943, o Barbosa já era dos melhores goleiros paulistas, daí o Domingos da Guia indicou ele pro Vasco em 44, em 45 já estava no escrete brasileiro. Mas naquele 16 de julho de 50, contra o Uruguai...

Os olhos do velho amigo, de 84 anos, se apertam.

“Conta seu Mané”. (Eu tinha viajado a Campinas para entrevistar o amigo do goleiro para um jornal do interior do Rio.)

Tá aqui, vou ler no livro o que ele mesmo contou:

O Ghiggia avançou, eu vislumbrei o centro da área com três carrascos babando, à espera da bola. O Bigode vem atrás do Ghiggia, Juvenal tenta fazer a cobertura, mas na entrada da área só tem eles, ninguém da defesa, se ele centra não tem como pegar, é gol na certa, fico esperando Ghiggia centrar, dou um passo à frente, porque ele com certeza vai fazer a mesma jogada do primeiro gol, ele sente que eu estou fora, embora viesse de cabeça baixa como touro miúra, mete o peito do pé na bola e ainda toco nela, crente e que foi para escanteio, afinal foi um chute mascado, bateu no gramado, subiu e desceu, eu dou um passo lateral e salto para a esquerda com todo o impulso que... quando senti o estádio em silêncio total tomei coragem, olhei para trás e vi a bola de couro marrom lá dentro..."

Ele me dizia, moço, que o silêncio acompanhava ele a vida inteira. Aqueles 200 mil torcedores calados. Que parecia a eternidade, e quando morresse não ia sentir diferença... Barbosa era um lorde. Parece que chorava pra dentro. Jamais esqueceu de uma senhora que parou ele na rua e disse pra filha:” É esse aí que traiu o Brasil” .

Mas o negrão não podia se emocionar. Dizia que queria ficar vivo, e que o sentimento mal conduzido acaba com uma pessoa. Pois então ele não carregou por 50 anos aquele silêncio? E não foi chamado no Maracanã, quando trocaram as balizas e deram pra ele, pra fazer churrasco daquelas traves onde ele se desgraçou?
Jogou até 62, quando sofreu uma lesão na virilha pelo Bonsucesso, estádio do Campo Grande. Não eram os 200 mil do Maracanã, mas uns 600, em silêncio. Aquele silêncio profundo, mas dessa vez diferente, ele contou.

“Mané, mesmo com aquela baita dor eu fiquei feliz, porque era uma coisa de respeito, de sentimento mesmo, coisa da alma”.

“Não chora, seu Mané, a vida é assim”, digo. ”E depois?”

Bom, muita falta de dinheiro. Morreu esquecido, na Cidade Ocian, no dia 7 de julho de 2000. Fui me despedir. Sabe moço, naquele tempo ninguém usava luva. E goleiro machuca muito as mãos. Ele já tinha me contado uma vez: onze fraturas. As mãos dele, quebradinhas, cruzadas sobre o peito. Eu chorei muito, não sou como ele que chorava pra dentro, sou um manteiga derretida.

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Comentário de Valter Padgurschi em 1 abril 2009 às 0:41
Elizabeth! Compartilho com vc esse sentimeto. Lembro que há algum tempo, vi uma matéria com o Barbosa, lá na cidade Ocian, em que ele lamentava essa perseguição babaca, até por conta de um possível preconceito racial, o que não duvido. Essa frase da senhora para a filha: " Foi esse aí que traiu o Brasil" foi citada por ele na matéria. Agora, o que esses babacas de torcedores preconceituosos se esquecem foi o oba-oba que a "elite dirigente" do futebol fez com a seleção às vesperas do jogo achando que estava no "papo" aquele jogo. É só pesquisar os jornais da época. Tiraram o fóco dos jogadores e deu no que deu. E a culpa foi do Barbosa? Me poupem cretinos. O pior é que até hoje o esquema se repete.
Abçs
Comentário de elizabeth em 1 abril 2009 às 0:57
Valter, eu pesquisei para fazer esse conto, pois como disse acima, nada entendo de futebol. Ele morreu no ano 2000, naquela cidade. Literatura a gente pode pegar um pouco da realdiade e inventar também, mas as informações, aí, são verdadeiras.
Comentário de luzete em 1 abril 2009 às 1:54
pois é, do que é feita a alma humana mesmo?
lindo beth. triste. muito triste.
Comentário de elizabeth em 1 abril 2009 às 2:00
então luzete, e acabo de ver no blog do Nassif um cara dizenod que o Zagalo impediu o pobre Barbosa de encontrar o tal Tafarell, e o tal Tafarell ficou aliviado, apesar de bom cristão, p´ra não pegar o azar.
do que é feita a alma humana...
Comentário de Anésio da Costa em 1 abril 2009 às 2:29
Muito lindo, me emocionei muito. É uma pena que grande parte das pessoas não dê importancia a textos cheios de sensibilidade como esse que você escreveu. Com certeza o mundo seria melhor.
Comentário de elizabeth em 1 abril 2009 às 2:39
Anésio, obrigada. Somos escribas, eu como tantos, e muitas vezes, mais do que você imagina, encontramos ressonância. Outro dia um garoto, que ama a poesia, entrou no meu outro blog, atrás do Maiakovski. Em São João Del Rey, ano passado, ouvi uma estudante do primeiro ano de Letras dizer que não imagina a vida dela sem literatura. Tem salvação.
Comentário de Jeff Picanço em 1 abril 2009 às 2:57
eu sempre meemociono com a historia de Barbosa.
Comentário de Jeff Picanço em 1 abril 2009 às 3:01
(agora o texto certo)

O MINUTO DE BARBOSA
Aquilo foi pouco tempo, menos de um minuto Gighia passou por Bigode no meio do campo e veio vindo. Uns dizem que Bigode ficou acovardado. Outros lembram ainda do tapa que Bigode levara há pouco de Obdulio Varela e não reagira, o cúmulo da covardia diante da pátria de chuteiras. Gighia avança, Fontana o acompanha de longe, voltando de costas, sem dar combate. Barbosa começa a pular nervoso, de sobreaviso - saio ou não saio? Milhões de olhos o acompanham, os músculos se retesam, os olhos não perdem um lance da aproximação de Gighia, que avança.
De todos os lados os olhos ansiosos estavam pregados naquela cena que se desenrolava veloz, Gighia já está entrando na grande área conduzindo a bola de cabeça baixa como um búfalo furioso, toda perseguição parecia inútil. O Maracanã, com mais de sessenta milhões de pessoas, assistia mudo Aparício Varela entrando na área. Tempos modernos, agora não eram trinta e três, mas somente onze. Capazes de anular toda a República, como um dia abalaram o Império. Gighia chega mais perto e desfere o chute. Barbosa tem pouco tempo. Prepara-se nervoso, retesa os músculos e salta. A bola escorrega entre seus dedos e sai pra escanteio. O Maracanã respira aliviado.
Éramos os melhores do mundo. Aquele dia os milhões de pessoas que lotavam o Maracanã não viram Barbosa cabisbaixo buscar a bola no fundo das redes, nem viram os pulos de alegria que Gighia dava com o jogo virado, a festa celeste. Não houve lágrimas entre a torcida, nem choros convulsivos dentro e fora do gramado. E, principalmente, não houve Obdulio Varela levantando a taça como o Gumercindo Saraiva que finalmente amarrava seus cavalos no centro do Rio.
Se Barbosa não tivesse espalmado aquele chute, viveria uma vida de caras viradas, de palavras rudes, de recriminação e o esquecimento. Teria que viver explicando que não fora frango, que não havia caveira de burro enterrada debaixo de sua meta. Não, a bola enfiada por Gighia não passara por entre seus dedos com o resto de sua vida. O minuto que começara com o drible e a arrancada havia terminado.
Ghigia não marcara o gol, e agora o Maracanã agradecido aplaudiu os artilheiros. Encerrado o jogo, cartolas invadiriam o gramado, felizes. Afinal, agora eles seriam consagrados como responsáveis pela conquista, desde as goleadas contra Suécia e Espanha até àquele suado empate com o Uruguai, dentro do Maracanã lotado. Os cartolas todos foram eleitos deputados federais.
Canções foram compostas para louvar os artilheiros, seus salários foram melhorados. Um filme foi rodado com os gols da partida, mostrando as cenas de júbilo e entusiasmo da torcida com seu primeiro campeonato do mundo de futebol. Passado nos cinemas de todo o País, mostrou aos meninos a glória de vestir o uniforme branco da seleção brasileira.
Depois de ter com a ponta dos dedos espalmado o chute venenoso de Ghigia, segregado àquela estranha profissão de hunos, sempre pisando onde não nascia grama, Barbosa continuaria em silêncio sua sina de buscar bolas no fundo do gol.
Comentário de elizabeth em 1 abril 2009 às 4:04
Jeff, que lindo texto!
Todo, especialmente o final
"Depois de ter com a ponta dos dedos espalmado o chute venenoso de Ghigia, segregado àquela estranha profissão de hunos, sempre pisando onde não nascia grama, Barbosa continuaria em silêncio sua sina de buscar bolas no fundo do gol."

É de emocionar mesmo, o Barbosa. A historia dele é a de tantos, anônimos, em silêncio,por aí, pelo mundão, em todas as atividades, equilibristas. Me disse um amigo que eu, como ele, temos um fraco não pelos fracassados, mas pelos heróis do fracasso. Talvez seja isso.
Um abraço
Comentário de elizabeth em 1 abril 2009 às 4:04
E mais: fracassado é o mundo que trata esses seres de brio como tais.

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