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Se a bola fosse um planeta
Onde arremessaria?!
Sei que nada sei
Por isso um chute socrático daria

Se reside sabedoria
Em observar a própria ignorância
Acho que nada faria, 
Ou melhor, de taquinho
Passaria ao que mais se arrebatasse

O corajoso atacante que vá ao ataque
Minha bola é a ponta do lápis
Portanto, lanço a pelota pro craque
Se a bola fosse um planeta
Onde arremessaria?!

Alexandre Brito 
ao Dr. Sócrates

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Crônica Socrática 04/12/2011.
 

Sempre admirei o futebol do Dr. Sócrates. sua elegância, sua visão de jogo (e de mundo), sua inteligência fisiológico-filosófico-futebolística. 

Pois estava eu em Sampa, no saudoso bar "Vou Vivendo", do Eduardo Gudin, na Pedroso de Morais, no lançamento do Lp da Nana Caymmi, quando momentos antes de começar o show, um zum-zum-zum, um burburinho, um alvoroço, um olha lá... Era a chegada do ilustre jogador não mais do Corinthians ou da Fiorentina mas do Flamengo, Sócrates.

Ele, convocado à Seleção que disputaria a Copa do Mundo de 1986, desfilava com toda a altivez do seu futebol. sabe-se lá porque razão surgem os poemas, mas naquele exato momento um pensamento me acometeu... "Se a bola fosse um planeta onde arremessaria?" 

Estávamos ainda sob o impacto da tragédia da morte do Tancredo e da posse do Sarney. A nossa moeda mudara de cruzeiro para cruzado. O Congresso Nacional Constituinte iniciava os trabalhos que redesenhariam o País com a Constituição Cidadã de 1988. O mundo atingia o seu ápice nuclear com 70.481 ogivas. O reator de Chernobyl explodia liberando 400 vezes mais radiação do que a bomba atômica de Hiroshima. E a Turma do Balão Mágico se dissolvia e viria ao ar pela primeira vez o Xou da Xuxa. 

Agarrei um guardanapo e me impus à tarefa de desenvolver aquela ideia: "se a bola fosse um planeta, onde a arremessarias?". Palavra após palavra, uma finta aqui, um drible ali, uma filosofada acolá, o poema foi ganhando forma. Ao fim e ao cabo, retomo à questão axial e a cobra morde o rabo. 

Fiquei com os garranchos. Reproduzi noutro papel o poema feito de chofre. Criei coragem. Terminei meu chope, levantei-me, percorri aquele espaço invulgar decorado pelo Elifas Andreato zigue-zagueando entre mesas e cadeiras, desvencilhando-me dum e doutro garçon, e num lance discreto porém habilidoso, passei a pelota pro craque... "Se bola fosse um planeta, onde arremessaria?"

O show da Nana teve início com participação especial dos irmãos Danilo e Dori Caymmi. Um espetáculo! Ainda tive a satisfação de, à distância, observar o Dr. das chuteiras e dos gramados por uma ou duas vezes a reler seu guardanapo rabiscado. 

Por sorte houve tempo de incluir o poema no meu livro Visagens, publicado pela Editora Arte Pau Brasil-SP, e lançado em junho na Bienal do Livro deste mesmo ano.

Meu compadre, poeta, jornalista e ativista cultural Fred Maia, não me deixa mentir sozinho. É testemunha ocular deste episódio aparentemente sem significado especial, relevante apenas pela 
oportuna homenagem do poema de ontem, e de hoje.

No dia em que nos despedimos do grande Sócrates, divido com os amigos essa passagem.

Alexandre Brito

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