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UMA BELA HISTÓRIA DE AMOR AO PRÓXIMO...PENA QUE INVERÍDICA!

Há tempos circula pela internet uma mensagem - que se por um lado transmite forte carga emocional de solidariedade e amor ao próximo, por outro é pura fantasia - sem nenhuma vinculação com a vida real. A história, bonita e bem arquitetada, na linha do exemplo moral de autoajuda, atribui ao tenor Plácido Domingo uma ação benemerente em relação à doença de seu colega o tenor José Carreras. Ainda segundo a tal mensagem, Domingo e Carreras teriam sido inimigos figadais por questões políticas, em virtude do primeiro ser madrilenho e o segundo catalão. Mas, continua a bela ficção, Plácido Domingo, sensibilizado com a leucemia de Carreras, teria patrocinado uma pretensa fundação (Fundação Hermosa) de combate à insidiosa doença, possibilitando que Carreras fizesse o tratamento que o curou. Tudo em nome da arte: “o mundo não poderia perder uma voz como essa”, teria dito Plácido, em entrevista, para justificar sua benemerência.

Nada disso, entretanto, foi verdade. Como na Internet uma notícia, verdadeira ou falsa, cresce como uma bola de neve, a história chegou a um ponto em que Carreras, através de sua Fundação de combate à leucemia (esta, sim, criada por ele após sua convalescença), viu-se obrigado a divulgar uma nota esclarecendo o assunto, em 27 de junho de 2005:


“Em virtude de informações publicadas em diversas páginas da web referindo-se ao suposto financiamento por parte da Fundação Hermosa e do Sr. Plácido Domingo ao Sr. José Carreras para seu tratamento contra a leucemia, a Fundação Internacional José Carreras para a luta contra a leucemia e o Sr. José Carreras se vêem obrigados a desmentir todas essas informações, negando, em particular, que exista ou haja existido qualquer vínculo entre a pretensa Fundação Hermosa e o Sr. José Carreras, o qual desconhece a existência desta última. Com efeito, o Sr. José Carreras não recebeu, em nenhum caso, ajuda econômica ou de qualquer outra índole por parte da referida fundação nem do Sr. Plácido Domingo, assim como de nenhum terceiro. Ainda, o Sr. José Carreras tem especial interesse em desmentir que exista ou haja existido inimizade entre ele e o Sr. Plácido Domingo. À luz do exposto, o Sr. José Carreras iniciou as oportunas ações legais em defesa de seus interesses e, concretamente, em defesa de seu direito à honra. O Sr. José Carreras tem o firme propósito de atuar legalmente contra qualquer pessoa física ou jurídica que difunda informações não comprovadas e incertas sobre sua pessoa.”


"Uma voz doce, clara e quente de tenor lírico e uma elegante presença no palco." Assim a "Enciclopédia de Ópera do 'Metropolitan Opera House'" se refere ao cantor catalão José Carreras.



De origem humilde, filho de um policial de trânsito, e o mais novo de três irmãos, José Carreras nasceu em Barcelona (Josep é a grafia de seu nome em catalão), no dia 5 de Dezembro de 1946, em Sants, um distrito industrial de Barcelona. Em 1951 sua família emigrou para a Argentina, em busca de uma vida melhor. Entretanto, com um ano ele retornou para Sants, onde passou o resto de sua infância e adolescência. Mostrou desde cedo talento para a música, particularmente para o canto, que foi intensificado aos seis anos de idade, quando viu Mario Lanza em O Grande Caruso.


Aos oito anos, ele se apresentou pela primeira vez em público, cantando "La Donna è Mobile", na Rádio Nacional Espanhola, acompanhado por Magda Prunera, com quem iniciou seus estudos de música. No dia 3 de Janeiro de 1958, aos 11 anos de idade, fez seu début em uma grande casa de ópera de Barcelona, o Grande Teatro do Liceu, cantando o papel de El Trujiman em El Retablo de Maese Pedro, de Manuel de Falla.

Na juventude, continuou a estudar música no Conservatório Superior de Música do Liceu e tendo aulas particulares, primeiro com Francisco Puig e depois com Juan Ruax, quem Carreras descreve como seu "pai artístico".


Em 1970, neste mesmo teatro, aconteceu a sua estreia como profissional, ao lado de Montserrat Caballé, na ópera Norma de Bellini.


Em 1971, ganhou o "Concurso de Vozes Verdianas", em Parma, na Itália, o que lhe abriu caminho para uma ascensão vertiginosa que logo o colocou entre os melhores tenores do mundo. Sua bela voz o levou aos mais importantes festivais e teatros de óperas do mundo, como Scala de Milão em 1975, Metropolitan Opera House em 1974, Gran Teatro Del Liceo; Ópera de São Francisco em 1973, Ópera Estatal de Viena em 1974, Royal Ópera House, Covent Garden em 1974, Ópera de Munique, Salzburg, Aix en Provence, Edinburgh, Arena de Verona e outros. Aos 28 anos, ele já havia cantado 24 diferentes papéis de óperas na Europa e na América do Norte e realizado uma gravação exclusiva com a Philips, que resultou em gravações de outras óperas de Giuseppe Verdi, como Il Corsaro, I Due Foscari, La Battaglia di Legnano, Un Giorno di Regno e Stiffelio.


Na década de 1980, Carreras não se limitou ao repertório erudito, gravando também zarzuelas, musicais e operetas. Fez duas gravações completas de músicais: West Side Story (1985) e South Pacific (1986) - ao lado de Kiri Te Kanawa. Em 1987 gravou a Misa Criolla para a Philips, sendo regido pelo próprio compositor: Ariel Ramirez.


Em julho de 1987, durante a gravação do filme La Bohème em Paris, ele descobre que sofre de leucemia e tinha apenas 10% de chances de sobreviver, o diagnóstico fez com que cancelasse todos os seus compromissos. Entretanto, curou-se após um árduo tratamento de quimioterapia, radioterapia e um transplante de medula óssea, no Centro de Pesquisas de Câncer Fred Hutchinson em Seattle. Após sua recuperação, voltou gradualmente às óperas e concertos, embarcando em uma turnê de concerto em 1988 e 1989 e cantando Medea com Montserrat Caballé e na première de Cristóbal Colón, de Balada, em 1989.


Na década de 1990 ele continuou se apresentando em óperas como Carmen, Fedora, Samson et Dalila (1990), Stiffelio (1993) e Sly de Wolf-Ferrari (1998). Sua última performance operística foi em Tóquio, em 12 de Julho de 2002, reprisando Sly, enquanto sua última ópera no Liceu foi Samson et Dalila, em Março de 2001.


Em 1990 apresentou-se ao lado de Luciano Pavarotti e Plácido Domingo, marcando a primeira aparição dos Três Tenores, arrecadando dinheiro para a fundação de Carreras.


Hoje, Carreras além de se apresentar em concertos e recitais nos melhores teatros de ópera do mundo, trabalha intensamente pela Fundação realizando apresentações beneficentes, visitando hospitais que tratam de doentes de leucemia, levando, além do apoio científico, muita esperança aos doentes.



Em 1971, Carreras casou-se com Mercedes Péres, eles tiveram um filho: Albert (1972) e uma filha: Julia (1978). Divorciaram-se em 1992. Em 2006, Carreras casou-se com Jutta Jäger, ex-aeromoça austríaca, com quem mantinha um antigo romance oculto.


O sobrinho de Carreras, David Giménez Carreras, é o maestro e diretor da Orquestra Sinfônica de Vallès.



Concerto no Liceu de Barcelona em 2008





Jose Carreras "Nessun dorma" Turandot (Viena, 1983)



José Carreras sings "This Nearly Was Mine" - South Pacific (gravação em 1986)




Aranjuez con tu amor


GRANADA - London 1986


Ave Maria (Gounod) - 1980


Ave Maria (Mascagni) - Roma/2000


"Il lamento di Federico" from L'arlesiana (Cilea) - 1984

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Comentário de luzete em 17 agosto 2010 às 21:20
oscar, eu estava certa que esta história era verdadeira!
eu fui uma das vítimas do spam!
mas adorei o texto e os vídeos. tão bom, quando se tem tudo assim arrumadinho e ainda com as observações que você adiciona.
valeu, como sempre.
Comentário de Gilberto Cruvinel em 17 agosto 2010 às 22:33
Oi Oscar,

Eu tenho que repetir a Luzete. Eu dava essa história como coisa certa. Só não me lembro se foi na internet que li, mas acho que sim.

Agora, seu post está muito bom. A Ave Maria de Mascagni, belíssima. Você sabe me dizer quem é o regente?

Abraço
Gilberto
Comentário de Oscar Peixoto em 17 agosto 2010 às 23:39
Pois é, amigos, uma pena que não tenha sido verdade. Vale notar que durante todos esses anos, mesmo depois do desmentido oficial (2005), Placido Domingo permaneceu quietinho, usufruindo as honras do nobre gesto. Pelo menos, não descobri nenhum desmentido por parte dele.
Quanto ao regente, Gilberto, trata-se exatamente do sobrinho do Carreras a quem me referi no último parágrafo do texto: David Giménez Carreras, Diretor da Orquestra Sinfônica de Vallès.
Abraços
Comentário de Sérgio Troncoso em 18 agosto 2010 às 0:22
Tambem recebi o spam Oscar. De qualquer forma, sempre achei Carreras a melhor voz dos tres tenores (Luciano Pavarotti, Plácido Domingo, José Carreras), digamos mais "populares", do nosso tempo.
Como sempre uma postagem com classe!
Enquanto escrevo já escutei duas músicas, as outras vão à seguir. Abração.
Comentário de Simone-Rosa Tupinambá em 18 agosto 2010 às 3:10
Oscar,

Não recebi esse spam, portanto desconhecia a versão.
Encantei-me com a história de vida do Carreras. Um catalão não nega seu valor.
Ouvir Granada mais uma vez é um prazer enorme.

Muito grata.

Um grande abraço.

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