Uma mulher cresce no Brasil


Analistas creditam a ascensão de Dilma em parte à economia acelerada e à expansão da ajuda para famílias de baixa renda
Analistas creditam a ascensão de Dilma em parte à economia acelerada e à expansão da ajuda para famílias de baixa renda


A América Latina não é estranha a líderes do sexo feminino, mas são poucas que podem se equiparar com a trajetória política radical de Dilma Rousseff, ex-líder guerrilheira marxista de 62 anos de idade que pode ser a primeira presidente do sexo feminino no Brasil.


Seria um momento suficientemente histórico se Rousseff, economista que se divorciou duas vezes, tornar-se presidente do Brasil –vencendo as eleições no domingo (3) em primeiro turno ou no segundo. Mas além disso, governaria um país com a oitava economia do mundo, o mais rico da América Latina.


O Brasil sempre foi um parque de diversão exótico, cuja política costuma envolver corrupção, violência e revolta. Mas atualmente é um ator na arena mundial; uma potência global.


Até um ano atrás, Rousseff, ex-ministra da Casa Civil do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, trabalhava na maior parte por trás das cenas, uma servidora eficiente e respeitada pela maioria, na sombra do presidente universalmente popular conhecido como Lula. Proibido por lei de concorrer a um terceiro mandato, Lula escolheu Rousseff, lançou sua aura em torno dela e se tornou o seu mais apaixonado cabo eleitoral.


Desvalorizada no mundo da política eleitoral brasileiro dominado pelos homens, Rousseff começou devagar no ano passado, em grande parte porque estava se tratando de um linfoma. Ela entrou com força total na campanha na primavera e ultrapassou seu principal oponente, o ex-governador de São Paulo José Serra, que perdeu para Lula na disputa presidencial em 2002. Rousseff teve uma campanha tranquila até o início do mês, quando a mídia divulgou denúncias que a família de uma ex-assistente, Erenice Guerra, que a sucedeu como ministra da Casa Civil, estava aceitando suborno para ajudar as empresas a fecharem contratos com o governo. Rousseff não foi mencionada nas acusações; desde então, ela cambaleou nas pesquisas, mas ainda está na dianteira.


Se sua campanha tem algum tema, é sua lealdade às políticas de Lula. “Orgulho-me de estar associada ao governo do presidente Lula, porque demonstramos que a distribuição de renda era uma condição necessária para tornar o Brasil independente e alcançar a estabilidade”, disse ela na semana passada durante um debate transmitido pela televisão em Brasília. Ela enfatizou que o Brasil –que tem, entre outras coisas, novos campos de petróleo descobertos na costa- não precisa mais de assistência de fora para cumprir suas obrigações externas.


A vitória faria Rousseff ingressar na galeria de líderes do sexo feminino na América Latina que, na maior parte –como suas contrapartes na Europa Ocidental e nos EUA- vem de famílias relativamente privilegiadas e educadas (diferentemente de Lula, que saiu da pobreza). Entre as latino-americanas de sucesso está Michelle Bachelet, 59, a primeira mulher presidente do Chile, mãe solteira de três filhos e pediatra, que sobreviveu à tortura na prisão, exílio e o regime de Pinochet para atingir a presidência em 2006. Ela permaneceu no cargo até março deste ano.


Bachelet voltou às manchetes recentemente com o anúncio que ia chefiar a nova agência da Organização das Nações Unidas chamada ONU Mulheres. “As mulheres são quase invisíveis em alguns lugares”, disse Bachelet na ONU na última quinta-feira. “São cidadãs de segunda classe. São vistas como pessoas sem direitos. Isso é uma vergonha para a humanidade”.


Enquanto Bachelet quebra as barreiras para as mulheres, Cristina Fernandez de Kirchner, 57, presidente da Argentina e mulher do ex-presidente Nestor Kirchner, batalhou por direitos gays, apoiando com sucesso o casamento de mesmo sexo. Cristina, peronista como o marido, pode parecer meio errática, usando políticas econômicas não ortodoxas, levantando o nariz para o Fundo Monetário Internacional e com poucos laços financeiros com o resto do mundo. Mas a economia argentina está prosperando, seu índice de aprovação está subindo, e ela pode vencer um segundo mandato no próximo ano.


No Peru, Keiko Fujimori, 35, filha do ex-presidente Alberto Fujimori, defende a estrutura capitalista que reforçou a economia do Peru. Apesar do pai dela estar na prisão, uma pesquisa feita em setembro mostrou que Keiko está na frente dos três oponentes potenciais –todos homens- para as eleições presidenciais da próxima primavera.


A política econômica pragmática do Brasil, que Rousseff fomentou nos quase 10 anos de governo Lula, ajudou a empurrá-la para a presidência. Ela disse que o Brasil pode continuar crescendo a uma taxa de 7% ao ano, que ela vai criar milhões de empregos, melhorar a infra-estrutura e usar a nova riqueza do Brasil para promover políticas de bem estar social e políticas de mercado.


Esse discurso capitalista parece distante dos dias que o nome de guerra de Rousseff era Stella, e ela usava armas e comandava camaradas. Por seu papel na resistência armada à ditadura militar nos anos 60 e 70, ela passou três anos na prisão, onde foi repetidamente torturada.


Rousseff foi criada em uma família de classe média alta em Belo Horizonte, no Estado de Minas Gerais. Seu pai, Pedro Rousseff, que morreu em 1962, nasceu na Bulgária como Petar Russev; sua mãe, Dilma Jane Silva, era filha de fazendeiros. A jovem Dilma frequentou internatos católicos, estudou piano e francês. Mas sua vida estruturada mudou quando foi para uma escola pública e descobriu o movimento subterrâneo. Era 1965 e ela tinha 17 anos.


Em poucos anos, entrou para a guerrilha, casou-se, impôs-se sobre os homens, divorciou-se, casou-se novamente e deu à luz a uma filha, sua única (desde então, se divorciou do segundo marido).


Fora da prisão, ela deixou a guerrilha e foi para a faculdade. Quando a democracia foi restaurada nos anos 80, ela tinha diploma de economia e se tornou secretária de energia do Rio Grande do Sul. Quando Lula foi eleito presidente, ela se tornou sua secretária de energia e depois, chefe da Casa Civil.


Analistas creditam sua ascensão em parte à economia acelerada e à expansão da ajuda para famílias de baixa renda. Mas mais do que qualquer outro fator (inclusive o de ser mulher), Rousseff deve seu sucesso a Lula, que disse: “Ela não vai apenas preservar meu legado, mas aperfeiçoá-lo e fazer muito mais.”


Tradução: Deborah Weinberg



De: http://noticias.uol.com.br/midiaglobal/herald/2010/09/29/uma-mulher...


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September 28, 2010
NYTimes.com
By LUISITA LOPEZ TORREGROSA


A Woman Rises in Brazil


NEW YORK — Latin America is no stranger to female leaders, but not many can match the radical political trajectory of Dilma Rousseff, the 62-year-old onetime Marxist guerrilla leader who stands to become Brazil’s first female president.


For Ms. Rousseff, a twice-divorced economist, to become Brazil’s president — either by winning outright in elections on Sunday, or in a later runoff — would be historic enough. What’s more, she would rule a country with the eighth-largest economy in the world, the wealthiest in Latin America.


Brazil has always been an exotic playground whose politics regularly feature corruption, violence and upheaval. But it is now a player in the world arena. It is a global power.


Up until a year or so ago, Ms. Rousseff, the former chief of staff of President Luiz Inácio Lula da Silva, had worked mostly behind the scenes, by most accounts an effective and respected civil servant in the shadow of the popular president universally known as Lula. Forbidden by law to run for a third term, Mr. da Silva tapped Ms. Rousseff, cast his aura around her and became her loudest and most passionate cheerleader.


Underrated in the mostly male world of Brazil’s electoral politics, Ms. Rousseff took off slowly last year, mostly because she was undergoing treatment for lymphoma. She went on the campaign trail in full force in the spring and moved past her main opponent, the ex-governor of São Paulo, José Serra, who lost to Mr. da Silva in the race for president in 2002.


Ms. Rousseff had a mostly smooth ride until earlier this month, when local media reported allegations that the family of a former aide, Erenice Guerra, who succeeded her as chief of staff, was taking bribes to procure government contracts for businesses. Ms. Rousseff was not mentioned in the allegations; she has since wobbled somewhat in the polls but is still widely predicted to best Mr. Serra.


If she has a theme, it is her allegiance to Mr. da Silva’s policies. “I’m proud to be associated with the government of President Lula because we showed that distribution of income was a necessary condition to make Brazil independent and achieve stability,” she said last week during a televised debate in Brasilia. She emphasized that Brazil — sitting among other things on new oil fields discovered off its coast — no longer needed foreign assistance to meet external obligations.


Victory would place Ms. Rousseff in a gallery of female leaders in Latin America, most of them — like their counterparts in Western Europe or the United States — offspring of relatively privileged and educated families (unlike Lula himself, who rose from poverty to pinnacle). Among these successful Latin American ladies is Michelle Bachelet, 59, the first female president of Chile, single mother of three and pediatrician, who survived prison torture, exile and the Pinochet regime to win the presidency in 2006. She served through March of this year.


She made headlines in recent days with the announcement that she would head a new United Nations agency called U.N. Women. “Women are almost invisible in some places,” Ms. Bachelet said at the United Nations last Thursday. “They are second-class citizens. They are seen as people without rights. It is a shame for humanity.”


While Ms. Bachelet broke down barriers for women, Cristina Fernández de Kirchner, 57, president of Argentina and wife of former President Néstor Kirchner, has battled for gay rights, successfully supporting same-sex marriage. Ms. Fernández, a Peronista like her husband, can seem somewhat erratic, plying unorthodox economic policies, thumbing her nose at world lenders like the International Monetary Fund and having few financial ties to the world. But Argentina’s economy is booming, her approval ratings are improving and she may win a second term next year.


In Peru, Keiko Fujimori, the 35-year-old daughter of former President Alberto Fujimori, supports the capitalist-oriented framework that has bolstered Peru’s economy. Although her father is in jail, a poll taken in late September showed Ms. Fujimori leading three potential opponents — all men — in the presidential election set for next spring.


The pragmatic economic policy of Brazil, which Ms. Rousseff has stoked in nearly 10 years in the da Silva administration, has helped vault her toward the presidency. She has said that Brazil can keep growing at a 7 percent annual rate, that she will create millions of jobs, improve infrastructure and use Brazil’s new wealth to support social-welfare plans and market-friendly policies.


Such capitalist talk seems far from the days when Ms. Rousseff’s nom de guerre was Stella, and she handled weapons and commanded male comrades. For her role in the armed underground resistance to the military dictatorship of the 1960s and ‘70s, she served three years in prison, where she was repeatedly tortured.


Ms. Rousseff grew up in an upper middle class household in Belo Horizonte, in the state of Minas Gerais. Her father, Pedro Rousseff, who died in 1962, was born Petar Russev in Bulgaria; her mother, Dilma Jane Silva, was the daughter of ranchers. Young Dilma attended Catholic boarding schools, studied piano and French. But her structured life changed when she went to public school and discovered the underground movement. It was 1965, and she was 17.


In a few years, she joined the underground, got married, imposed herself among men, divorced her husband, married another and gave birth to a daughter, her only child (she has since divorced her second husband).


Out of prison, she left the underground and went to college. When democracy was restored in the mid-1980s, she had an economics degree and soon became energy secretary in Rio Grande do Sul. When Mr. da Silva was elected president she became his energy secretary, and later, chief of staff.


Analysts credit her surge in part to Brazil’s high-paced economy and expanded aid for low-income families. But more than any other factor (including the female one), Ms. Rousseff owes her success to Mr. da Silva, who has said, “She won’t only carry on my legacy but perfect it and do much more.”


URL: http://www.nytimes.com/2010/09/29/world/americas/29iht-letter.html?...

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