Universidade busca biocombustível de algas

DAYANA AQUINO
Da Redação - ADV

O uso de macroalgas para a produção de etanol está cada vez mais próximo da viabilidade tecnológica e financeira. Pesquisadores da UFRJ descobriram o potencial da espécie para a produção do combustível, em uma metodologia inédita.

A descoberta foi acidental. De acordo com a pesquisadora do Instituto de Microbiologia Professor Paulo de Góes (IMPPG) da UFRJ, Maria Isabel Lébil, as pesquisas iniciaram para suprir um gargalo no cultivo de bactérias. Ao tentar obter a substância das algas, foi verificada a possibilidade de chegar ao etanol.

O processo envolve a secagem das algas, que em seguida são trituradas e passam por um processo de hidrólise. Após esse processo, acontece a fermentação e a destilação do material. As algas utilizadas no projeto são do gênero Gracilária, Kappaphycus e Hypnea.

Um os principais obstáculos foi identificar a levedura que fermentasse o extrato com a devida eficiência. Embora tenha sido alcançado, as pesquisas ainda procuram uma levedura que amplie o potencial da produção, tornando assim o processo mais financeiramente viável.

Todo o procedimento foi feito em laboratório, falta agora conseguir financiamento para ampliar a escala e iniciar a produção em um projeto piloto, segundo o coordenador do Proalga, professor Maulori Cabral.

O estudo foi motivo de pedido de patente nacional em novembro de 2007 e também do depósito internacional no PCT (Tratado de Cooperação em Matéria de Patentes, na sigla em inglês), por meio da Agência UFRJ de Inovação. Com a medida, a tecnologia fica protegida em outros países, com royalties para a UFRJ.

O projeto envolve diferentes departamentos de pesquisa da universidade, tais como Instituto de Química (IQ), o Núcleo de Pesquisas em Produtos Naturais (NPPN), a Escola de Química (EQ) e SAGE-COPPE.

Tecnologia

A produção de álcool por meio das macroalgas é considerada a terceira geração do álcool. A primeira é o combustível obtido a partir da dos tradicionais processos do milho e da cana-de-açúcar; a segunda geração compreende o etanol de matérias-primas que contenham lignocelulose e a terceira, das algas, explica o professor Nei Pereira, integrante do ProAlga.

De acordo com Maulori, no plantio da alga Kappaphycus alvarezii obtêm-se de 100 a 300 toneladas de massa seca por hectare/ano. Isso possibilita a produção de álcool sem se necessitar de terra, adubo ou irrigação. A título de exemplo, no Estado de São Paulo a colheita de cana-de-açúcar por hectare/ano fornece 12 toneladas de sacarose, o que permite a geração de 6,08 toneladas de álcool.

Apesar do grande potencial, o Brasil Brasil produz apenas 2% de sua demanda anual por algas, diz Lébil. A ampliação da produção agregaria valor a toda cadeia, seja por meio de tanques ou no mar, em consórcio com criação de peixes, por exemplo.

Ganhos

Além do ganho ambiental pela produção de energético renovável, as algas marinhas pode contribuir com a limpeza da atmosfera de outras formas. De acordo com o Maulori, as algas marinhas, por sua vez, produzem muito mais oxigênio do que utilizam na respiração, sendo responsáveis por 90% da produção de O2 do planeta.

“Ao contrário do que muitos pensam, a floresta amazônica não é o ‘pulmão do mundo’, já que grande parte do oxigênio que ela produz na fotossíntese é depois consumida na respiração, efetuada pela própria cobertura vegetal”, esclarece o professor.

A vantagem ambiental também pode converter-se em vantagem econômica com a comercialização de créditos de carbono, agregando valor ao processo. Por outro lado, além de gerar energia, elas também são a matéria-prima para espessantes e gelificantes utilizados nas indústrias alimentícia, farmacêutica e cosmética. A carragenana e o agar-agar são dois exemplos.

Questionamentos sobre a segurança alimentar, comuns aos críticos dos biocombustíveis, estão totalmente afastados da produção de etanol a partir das algas. As mesmas não necessitam de irrigação, atraem peixes, despoluem as águas. Se for associada à produção de camarão, a capacidade de cultivo é três vezes maior. Os resíduos também podem ser usados como fertilizantes e alimentos, com alto potencial nutritivo.

Esse mesmo potencial para utilização na indústria alimentícia, farmacêutica e cosmética após o processamento para a produção de etanol leva Maulori a crer que as algas podem ser a nova menina dos olhos do agrobusiness nacional, por conta da multiplicidade de aplicações.

Mas se as pesquisas apontam propostas promissoras de uso da espécie, ainda deve ser feita muita coisa em pesquisa. O processo de secagem ainda é bastante artesanal e é necessário um maior incentivo no cultivo de algas.





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