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Naomar de Almeida Filho


UNIVERSIDADE NOVA: O MODELO DA UFBA

O ano de 2008 marcou a história da nossa Universidade Federal da Bahia. Após intensa disputa, superando obstáculos e resistências de conservadores de toda ordem, os Conselhos Superiores, de modo quase unânime, aprovaram o marco regulatório de implantação do REUNI na UFBA. Esse fato coroa uma profunda revisão de estrutura e funcionamento da instituição, iniciada em 2004, em dois eixos – inclusão social e reestruturação curricular – implantados em duas fases.

Na fase 1, ainda sem ter idéia clara da viabilidade política da proposta nem dos seus desdobramentos posteriores, lutamos para abrir as portas da instituição aos dela excluídos por décadas de elitismo e alienação. Para tanto, implantamos um Programa de Ações Afirmativas que serviu de modelo para o projeto de lei que hoje tramita, em fase conclusiva, no Congresso Nacional.

O sucesso do programa, que inclui um regime de cotas para alunos de escola pública, com recorte étnico-racial, permitiu mudar o perfil do alunado da UFBA. Há cinco anos, 70 % dos estudantes da UFBA tinham concluído o ensino médio em escolas particulares; hoje, mais da metade são provenientes de escolas públicas. Em 2004, filhos de famílias com renda média acima de 20 salários mínimos tinham 5,5 vezes mais chances de entrar na UFBA que jovens de famílias abaixo de 1 salário; em 2009, esta razão de chances caiu para 1,8! Contrariando os agourentos, não houve queda da qualidade do ensino: cotistas alcançam desempenho equivalente aos não-cotistas; nem aumento de evasão: cotistas têm menores taxas de jubilamento e de reprovação por faltas.

Dessa forma, por um lado, recuperamos algo da missão social da universidade. Por outro lado, assumimos enorme desafio: como efetivamente renovar a instituição educadora de modo a não nos tornarmos meros cooptadores de segmentos sociais antes marginalizados? Esse desafio levou-nos a prosseguir e aprofundar a transformação numa segunda etapa de reconstrução institucional.

Na fase 2, além da consolidação do Programa de Ações Afirmativas, a partir de 2008, a UFBA amplia significativamente o número de vagas e passa a oferecer uma nova opção de formação universitária de graduação com base num regime de módulos e ciclos.

O primeiro ciclo compreende uma modalidade nova de graduação, denominada Bacharelado Interdisciplinar, em Artes, Humanidades, Saúde e Ciência & Tecnologia. O segundo ciclo inclui cursos de formação profissional, aproveitando a formação específica do primeiro ciclo. O terceiro ciclo complementa a formação acadêmica e profissional com mestrados e doutorados integrados.

Os Bacharelados Interdisciplinares agregam formação geral humanística, científica e artística ao aprofundamento num dado campo do saber, promovendo o desenvolvimento intelectual e a autonomia requeridos pela educação permanente, essencial à inserção do estudante universitário num mundo de alta complexidade e em constante mudança. A reestruturação do ensino de graduação em curso também provê fundamentos conceituais e metodológicos para a formação profissional em cursos convencionais que adotem o bacharelado interdisciplinar como primeiro ciclo.

Com base nesses dois eixos e etapas, o projeto REUNI/UFBA foi talvez o mais ambicioso dentre os aprovados pelo MEC. Em 2012, nossa meta é matricular quase 38.000 alunos de graduação e mais de 5.000 de mestrado e doutorado. Isso significa um crescimento de 94% em cinco anos. Mas começamos bem: em 2008, aumentamos a oferta de vagas no vestibular como nunca: de 4.200 para quase 7.000 vagas de graduação. Isso significa um incremento de 67%. Em 2009, serão quase 8.000 vagas, 1.500 nos novos bacharelados.

Para abrigar os estudantes ingressos nos Bacharelados Interdisciplinares foi criada uma nova unidade acadêmica, o Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos – IHAC. A estrutura curricular e administrativa do IHAC Milton Santos articula modalidades de ensino interdisciplinar a atividades de extensão e pesquisa, na intenção de ultrapassar as conservadoras e clássicas separações entre campos disciplinares de conhecimento, integrando ensino de graduação e de pós-graduação.

A pós-graduação, concebida como lócus de produção de conhecimento e inovação que permite a formação avançada de sujeitos, tanto do ponto de vista científico-tecnológico como nas artes e humanidades, tem a responsabilidade de auxiliar e promover a qualificação dos demais níveis, etapas e modalidades da educação, inclusive extra-universitária.

O projeto REUNI/UFBA, em curso, inclui a criação de novos programas de pós-graduação, reunindo condições científicas e intelectuais para a sustentabilidade do modelo curricular proposto para o ensino de graduação. Nesse nível de ensino, a UFBA já é uma das universidades brasileiras de maior crescimento na oferta de vagas e cursos, com aumento de 103% de matrículas de mestrado e 213% em doutorado. Em 2006, tínhamos 17 doutorados; em 2009, alcançamos 39 cursos, com quase 1.500 matrículas de doutorado. Hoje, contamos com 63 programas de pós-graduação, sendo que mais da metade deles obtiveram conceitos iguais ou superiores a 4 na avaliação da CAPES, e cinco desses programas obtiveram conceito 6, classificação reservada a cursos de excelência internacional.

Estamos prontos para entrar na fase 3, crucial para garantir sustentabilidade à renovação institucional. Esta fase implica internacionalizar nossas atividades e programas, num sentido peculiar, mantendo e reforçando o objetivo de tornar a instituição universitária um efetivo vetor de transformação social. Não basta crescer como universidade territorialmente acessível, socialmente inclusiva e pedagogicamente renovada. A maneira mais respeitosa de trazer a universidade para perto do povo é fazendo muito bem o que ela de fato sabe fazer. A universidade socialmente engajada, para fazê-lo de modo eficiente, tem de ser uma universidade academicamente competente. Sua missão social não é incompatível com a excelência acadêmica. É preciso expandir e aprofundar, incluir e qualificar, interiorizar e internacionalizar.

Por isso, nossa proposta de reforma curricular, que ficou conhecida como Universidade Nova, por seu caráter interdisciplinar, flexível, diversificado e abrangente, tem como meta compatibilizar o ensino da UFBA com sistemas já adotados em países de longa tradição universitária. As transformações do nosso modelo possibilitam mobilidade acadêmica e internacionalização, e contemplam indicações da Agenda da Educação para o Século XXI, celebrada na Conferência Mundial sobre o Ensino Superior da UNESCO de 1998, recentemente ratificadas na última Conferência sobre o tema, realizada este mês em Paris. Prosseguimos convencidos de que a universidade pública brasileira em muito contribuirá para um projeto de nação quando demonstrar sua competência acadêmica, maturidade intelectual e responsabilidade política, podendo então internacionalizar-se com soberania.

Naomar de Almeida Filho, 57, PhD em Epidemiologia, Pesquisador I-A do CNPq, Reitor da Universidade Federal da Bahia, autor, com Boaventura de Sousa Santos, de A Universidade do Século XXI: Para uma Universidade Nova (Coimbra: Almedina, 2009). E-mail: reitor@ufba.br

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Comentário de Carlos Alberto Cândido em 22 julho 2009 às 15:41
A maior ajuda que a universidade pública brasileira pode dar à educação do país, especialmente às etapas de ensino anteriores, que são mais importantes do que ela, é adotar gradativamente a inclusão de alunos provenientes de escolas públicas, de forma que num prazo, digamos, de dez anos, seu corpo discente seja composto exclusivamente por ex-alunos do ensino médio público. Dessa forma, exercerá pressão sobre o ensino médio e este sobre o fundamental (que deve adotar o mesmo modelo), que levará à melhoria do ensino público em geral e ao aumento dos investimentos estatais necessários para isso.
Comentário de Carlos Alberto Cândido em 22 julho 2009 às 15:44
O modelo dos bacharelados interdisciplinares da UFBa pode servir para uma nova formação de profissionais do jornalismo, que está sendo exigida a partir da abolição do diploma pelo STF.
Comentário de Túlio Carvalho em 26 julho 2009 às 22:19
realmente muito bonito. seria bom ouvir outros docentes da ufba, para um outro lado.

teria que ver qual foi o aumento nas turmas, ou na carga horária docente, ou no corpo docente.
pareço reacionário? buenas, estes pontos não foram tocados.

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