Clarice Brovko Spoladore

Sinto que com este texto encerro a minha participação no compartilhamento das nossas memórias... Em outras ocasiões, ao longo dos anos, escrevi várias coisas de que me lembro, algumas até com fotos, e enviei a vocês.

Contarei aqui algumas coisas que acho que você não sabe e penso que seria interessante conhecer... Sei também que enfrentarei resistências, nem todo mundo gosta de ler mais de meia página, mas é assim mesmo, tudo bem...

Desta vez, cheguei a Londrina no final da tarde de um sábado, dia 25 de janeiro. À noite, depois do lanche, mamãe e eu conversávamos no sofá sobre a antiga parentela. Ela, com as pernas esticadas num banquinho com almofadas; eu, com as pernas encolhidas sobre o sofá, papel apoiado nos joelhos e caneta na mão, decidida a registrar algumas coisas ali. Perguntava-lhe sobre tal parente, o outro, a outra, completando as lembranças.

É empolgante perguntar de pessoas que povoaram sua infância e que você, pelo rumo da vida, nunca mais viu... Dona Iusta, tia Paracha, tia Eudócia, Gricha, Vássia, tio Tomás, Nádia, Waldomiro pra cá, Waldomiro pra lá, os Germanovich, os Storrodumof (que pronunciávamos “Stardum”) e tantos outros...

Dona Iusta grudou nas minhas lembranças... Parecia alta (quando a gente é criança, todo mundo é alto), e era bem magra, face encovada destacando a dentadura mal ajustada, lenço na cabeça, agarrada com uma bolsinha debaixo do braço, saia meio longa, roupas escuras quase sempre... Muitas vezes ela passou por mim na rua Duque de Caxias: eu quase sempre debruçada no portão (subia no portão e ficava meio pendurada nele, com a cabeça pra fora, pés apoiados na grade, acompanhando o movimento), e ela vinha sempre rapidinha, mas parava quando me via e, cheia de sotaque, perguntava da mamãe e logo seguia seu caminho.

Ela, como a maioria dessas lembranças, morava na Vila Zelina e ia e voltava a pé de suas idas ao centro da cidade... Com o tempo, entendi que o nome dela era Justa, dona Justa, mas em várias línguas esse nome se lê Iusta.

Sentadas à vontade no sofá, a mãe contava, e a filha anotava alguns pontos. Contou que, quando chegaram ao Brasil, tinha um ano e tanto. Tudo o que sabe foi guardado dos relatos de seu pai. Ele dizia que, quando o navio chegou ao porto de Santos, pareciam animais sendo escolhidos. Que os russos magros, aparentando ser fracos, eram deixados de lado. Que ele, dieduchka, foi escolhido porque sempre foi trabalhador braçal, robusto. No grupo dele estavam o irmão, Teodoro, e outro parente, Tomás. Que todo mundo falava do navio como sendo “navio russo”, mas havia poloneses, ucranianos... Que eram separados por lotes de língua e de família. E os grandes fazendeiros de São Paulo estavam lá, escolhendo seus “parceiros” para a lavoura de café (desde a abolição dos escravos, os fazendeiros tinham problema com mão de obra, por isso buscavam os imigrantes). E que ela, até hoje, se lembrava do nome do grande fazendeiro que os levou para sua grande fazenda em Cambará: Bráulio Barbosa. Anotei. Lembrei que ela, ano passado, quando começamos essa conversa no mesmo sofá, tinha dito esse nome. Desta vez anotei para pesquisar em casa.

Tornou a contar o que disse ano passado: esse senhor não era fazendeiro em São Paulo. Era muito rico, morava em São Paulo, mas suas terras ficavam no Paraná. Ela falava sem precisar parar a fim de lembrar: bastava eu fazer a pergunta, lá vinha a resposta, cheia de entusiasmo, voz firme, alta e gestos largos acompanhando, porque ela era pequena, morou ali até os 7 anos de idade, e lá era tudo muito grande, muito amplo, por isso precisava agora dos dois braços, estendendo para lá, para cá, para acompanhar o fluxo rápido da memória.

bastava eu fazer a pergunta, lá vinha a resposta, cheia de entusiasmo, voz firme, alta e gestos largos acompanhando

Quando morava em Cuiabá, Ronaldo e eu fomos várias vezes a uma cidade chamada Jangada, a 70 quilômetros da capital. É cidade pobrinha, um entroncamento rodoviário cortado por grandes e muito mal cuidadas rodovias do estado. Lá quase só há postos de combustíveis, caminhoneiros e lanchonetes vendendo pastel e água de coco. Na verdade, Jangada nasceu bem antes, quando muita gente e muita riqueza eram transportadas pelo rio Cuiabá, que passa na região.

Em Jangada conhecemos dona Quiteta. Não lembro o verdadeiro nome dela. Dona Quiteta já tinha mais de 90 anos, havia sido professora primária por muito tempo; seu pai foi amigo de importantes homens da história da região, quase todos se tornaram nomes de ruas em Cuiabá. Quando a gente ia à casa dela, onde morava com a filha e netos, eu lhe fazia muitas perguntas, porque ela sabia todas as histórias daquela região, onde havia cidades centenárias... Gostava muito de ouvir seus relatos, por isso perguntava e perguntava... Naquele tempo eu estava lendo e aprendendo sobre Mato Grosso, e as histórias dela pareciam saídas dos livros. Mas ela ou era testemunha dos fatos ou tinha ouvido os relatos dos contemporâneos. Nem um ano depois, o mal de Parkinson a tomou com força, e suas lembranças genuínas foram se misturando e pouco tempo depois ela se foi... Tenho certeza de que sua família não percebeu toda a história que ela carregava...

Em 2006 li um artigo na revista História Viva com o título "História oral, alimento da memória". A autora é doutora em Ciências Humanas pela USP. Ela aborda o valor e a validade da história oral para se formar o conhecimento histórico de um fato, de uma época, de uma região. A história oral possibilita o registro de versões e testemunhos sobre acontecimentos vindo de pessoas que contam suas lembranças, suas memórias.

Os fatos históricos precisam de documentos bem investigados para que façam parte da História. Mas cada vez mais estão sendo aceitos os depoimentos recolhidos também das lembranças das pessoas comuns que vivenciaram tais fatos.

Um estudioso desse assunto disse que as lembranças são frutos de uma atividade de reconstruir o que se viveu. É um trabalho apenas da memória, porém vem carregado de imagens, valores, afetos, que mostram que a pessoa que está lembrando está também experimentando algum sentimento de que pertence a um grupo social, a uma família, a uma raiz. E esse sentimento de pertencer a um grupo nem precisa da presença dos membros do grupo – pode ser que todos já estejam mortos, e o único vivo é o que está lembrando, contando.


 

Pensei naquele coletivo de pessoas que cercaram a mamãe por aqueles quase sete anos na grande fazenda de café em Cambará. Praticamente todos estrangeiros, outros costumes, mas de alguma maneira um grupo que conservava tradições e histórias do passado e também algumas expectativas sobre o futuro.

Ao se aprofundar neste tema, uma escritora disse que é inútil voltar as costas ao passado para só pensar no futuro. Ela diz que o futuro não nos traz nada, não nos dá nada; nós é que, para construí-lo, devemos dar-lhe tudo, dar-lhe nossa própria vida. Mas para dar é preciso ter, e não temos outra vida, outra seiva a não ser os tesouros herdados do passado, que são digeridos, assimilados, recriados por nós. De todas as necessidades da alma humana não há outra mais vital que o passado.

Ela se chamava Simone Weil, uma filósofa e professora francesa que sempre se interessou pelo cotidiano das pessoas comuns, pelo sofrimento dos outros. Morreu de tuberculose na época da Segunda Guerra – malnutrida, recusava-se a comer mais do que considerava ser a ração de um soldado na guerra.

Disse algo muito interessante: por meio das lembranças narradas, a pessoa que conta aparece aos demais, deixa de ser anônima. E que a arte de narrar envolve a coordenação da alma, da voz, do olhar e das mãos. Contar o passado envolve também certa organização das ideias.

Pensei na mamãe, contando e gesticulando, aparecendo na história. Pensei naquela criancinha no navio, depois nos braços da babuchka indo para a fazenda em Cambará, onde aprendeu a andar, a falar (em russo e em português), no meio de outras crianças e adultos... Quem tomou nota da sua existência lá? Se a gente olhar isso um pouco mais de longe, nem enxerga nada, nem percebe que existia...

Pesquisando sobre o assunto da memória oral, aprendi que o passado lembrado não vem numa linha reta: a narração vai e vem sobre a linha do tempo, porque as lembranças abrem portas para o que veio antes e depois, porque uma lembrança chama outra... Se um tio da mamãe fosse contar essas lembranças, seria diferente, mesmo que os fatos básicos tenham sido os mesmos...

O cineasta Eduardo Coutinho, assassinado pelo próprio filho num domingo, dia 2 de fevereiro deste ano, disse numa entrevista que não é possível fazer um documentário que só conte a verdade. Para ele, não existe uma verdade única sobre um acontecimento, mas sim várias verdades ou várias experiências vividas que juntas contam uma história.

Na pesquisa, li que, quando alguém tem um ouvinte para suas lembranças, é como se pudesse desfazer o mal-estar de uma existência desperdiçada. Os antigos companheiros já se foram para outros lugares ou já morreram, e as paisagens daquelas lembranças também estão desfeitas. Portanto só se houver um ouvinte, uma escuta, é que o narrador convoca o passado para vir ao presente. Quando esse narrador entrega suas vivências a um ouvinte, ele está, de algum modo, se libertando do fardo solitário do testemunho, e assim ele pode ouvir a si próprio e suturar suas lembranças ao momento atual. A resistência da memória oral está na necessidade de atribuir algum sentido de permanência para a existência dos homens no mundo.

Fui ao Google pesquisar sobre a imigração russa no Brasil. Não há muita coisa oficial. Em casa, desde pequenos, conhecemos a Rússia já comunista, dentro da União Soviética (esta só passou a existir em 1917). Mas olhando para trás, a história mostra que, desde mais ou menos 1895, a Rússia fervia e se agitava por causa de questões salariais, econômicas, falta de produtos materiais e, a partir daí, uma onda de greves e manifestações de trabalhadores e universitários se espalhou pelas maiores cidades nos anos seguintes. Essa Rússia ainda tinha imperador e sua vasta nobreza, que vinham se sucedendo desde 1547.

Havia os camponeses, mas, como as cidades foram crescendo, a população urbana foi aumentando e as dificuldades também. O país tinha indústrias, linhas férreas cruzavam os maiores centros, mas o número de camponeses empobrecidos era grande, e praticamente metade da população era agrícola.

Fica difícil a gente ver com olhos de hoje e entender os problemas gerados por métodos antigos, falta de boas safras e presença de clima rigoroso diante de populações com fome e sem garantias mínimas. Havia muita exploração pelos patrões e um excesso de obrigações, limitações e poucos direitos.

Em 1901, a safra foi pequena, a colheita não cumpriu o que prometia... Os camponeses começaram a ameaçar os nobres, que eram os donos das terras e dos meios de produção. Famintos, sem nada a perder, decidiram invadir propriedades e incendiaram casas e mesmo mataram os donos. O governo, para reprimir, acionava o exército. Fora isso internamente, havia ainda problemas de disputas e guerras externas.

Em 1905 houve uma revolução lá, praticamente sem sucesso, e o governo brasileiro deu asilo político a alguns revolucionários.

Também em 1906 vieram para cá russos descontentes com as renovações promovidas pela Igreja Ortodoxa Russa; descendentes deles estão até hoje em Mato Grosso, perto de Rondonópolis.

Já fazia tempo que russos deixavam a Rússia. Quem viu o filme Doutor Jivago, pode se lembrar de alguns personagens falando amenidades em francês nas festas, porque isso era moda, era chique e, nas primeiras décadas do século 20, Paris era a cidade mais russa das capitais europeias, de tanto russo que foi embora para lá. Muitos nobres iam aos poucos deixando a Rússia, porque os tempos estavam ficando difíceis para a nobreza (o povo começou a questionar os infindáveis privilégios); na sequência, foram saindo os burgueses, os intelectuais...

Depois da Revolução de 1917, que implantou o regime comunista e a União Soviética lá, houve uma leva grande de imigrantes russos que quiseram fugir do novo regime: muitos oficiais, estudantes de academia, literatos, religiosos... E com o passar dos anos, outros menos famosos também vieram: uma massa de camponeses empobrecidos ou sem terra, artesãos e trabalhadores sem qualificação foram saindo em grupos.

Quando a gente fala de imigração russa, isso inclui russos, poloneses, ucranianos, judeus russos e outros povos eslavos, porque era difícil determinar a etnia naqueles tempos em que muitos acabaram habitando a mesma região. E a mamãe, que nasceu em 1928, chega nesse contingente mais anônimo em torno de 1930.

Pesquisando o nome do fazendeiro, está lá, oficialmente, em todos os dados sobre a colonização do Norte Pioneiro do Paraná: Bráulio Barbosa Ferraz. Ele faz parte da história de Cambará e de outros incontáveis investimentos de sucesso...

Para chegar ao fazendeiro, vamos dar uma passeada:

Um coronel, pioneiro naquela região, havia ido para o norte do Paraná em busca de terras desabitadas que estavam sendo doadas pelo governo daquele estado. Conseguiu uma gleba de terras de aproximadamente 42.000 alqueires, delimitadas pelos rios Paranapanema, Cinzas e Laranjinhas, sendo a documentação de posse datada de 1885. Desse lote vai nascer um povoado que crescerá muito, com terras férteis e muitas árvores – a mais abundante ali era a árvore cambará, boa para a construção civil e para fazer barcos. Com o tempo, Cambará se torna distrito de Jacarezinho e, depois, passou a ser município, em setembro de 1924. Por causa da fertilidade e da exuberância das terras das imediações, numerosas fazendas agrícolas encontravam-se em promissora formação, sobretudo as de café.

Em 1922, um grande investidor fazendeiro de São Paulo e seu sócio constituem uma firma, Barbosa Ferraz Jr. & Filho, e iniciam o plantio de café. Com a compra de novas áreas de terra no interior do norte do Paraná, tiveram que abrir picadas, estradas e construir balsas (rio das Cinzas e Laranjinha).

Havia a questão do café nas grandes fazendas e a construção da ferrovia, que Bráulio acabou empurrando até Cambará, para escoar sua produção. Ele acabou se mudando para a grande fazenda em Cambará, a “das Antas”. Na época, foi ele, esposa, filhas, uma professora inglesa e uma governanta suíça. A sede é muito visitada ainda hoje... Ronaldo e eu ficamos com vontade de, um dia, ir lá conhecer...

Ah, esses russos...

 Uma descendente de Bráulio Barbosa Ferraz, ao escrever sobre ele, contou que se levantava às quatro horas da manhã, e o expediente de trabalho era das seis às dezoito horas. Além de suas atividades, teve de aprender russo para lidar com uma leva de imigrantes. Estes vieram iludidos pelo seu próprio governo. Venderam suas propriedades e trouxeram dinheiro para comprar novas terras, mas não sabiam que, pelo contrato, teriam antes que trabalhar dois anos em uma propriedade de café. No início, recusavam-se a trabalhar, tendo que ser acionada a milícia para que a ordem pudesse ser mantida.

Ah, esses russos encrenqueiros...

É o de sempre: a história dos vencedores está por todo lado, com nome, sobrenome, números... Mas quem conhece a história dos anônimos que ajudaram a fazer a história dos vencedores?

Prosseguindo em suas lembranças, mamãe conta que, anos depois, chegou uma notícia na fazenda: estavam vendendo lotes de terras numa região que estava sendo aberta mais ao norte do estado, onde estrangeiros podiam comprar até 5 alqueires. Então o nosso dieda juntou seu dinheiro ao do irmão e ao do sobrinho e compraram um lote. Assim a história muda para Londrina.

No dia 20 de agosto de 1929, George Craig Smith, paulista, descendente de ingleses, partiu de Ourinhos-SP chefiando uma caravana de mais ou menos doze pessoas com destino às terras roxas do norte do Paraná. Essa caravana iniciaria o desbravamento das matas, reconhecimento e loteamento da maior empresa colonizadora da América do Sul, dona de 500.000 alqueires de terras cobertas com matas virgens, a Companhia de Terras Norte do Paraná, que fundou 63 cidades e patrimônios, vendeu lotes e chácaras de área variável entre 5 e 30 alqueires, e cerca de 70.000 lotes urbanos com média de 500 m2. Em 1944 a companhia passou a chamar-se Companhia Melhoramentos Norte do Paraná.

Londrina foi batizada em 1924 como Patrimônio Três Bocas, em homenagem ao rio divisor das terras da CTNP, e em 1932 passou a denominar-se Londrina.

Mamãe contou que, assim que se instalaram na pequena propriedade em Londrina, o dieda conseguiu um “bico”: trabalhar na ferrovia, que, naquela época, já estava por Ibiporã. Contava como seu pai era forte e bom no corte com machado. A função dele nesse trabalho era lavrar duas faces dos troncos das árvores, para facilitar o assentamento dos dormentes para os trilhos. Disse que ele saía de madrugada, no escuro, e voltava pra casa perto das nove horas da noite, a pé. Ia até a região de Ibiporã, saindo do sítio, que hoje é a região do Clube Alemão, em Londrina. Precisamos lembrar também que a ferrovia era praticamente um investimento de ingleses... não era uma obra do governo, com o jeitão de hoje...

Pesquisando sobre este assunto, li que a documentação mostra uma presença significativa de imigrantes entre esses trabalhadores na ferrovia. Muitos deles trabalhavam na construção apenas de forma sazonal, ou seja, nos períodos de entressafra nas colônias, migravam para a região da construção da ferrovia a fim de obter ganhos extras.

Quando voltei de Londrina para São Paulo, ao ver ao longe uma estrada de ferro, pensava no dieda e no som e na força de suas machadadas...

Das mudanças que a vida nos impõe

Acabamos por aceitar, não sem sofrimento, não sem alguma resistência, quando a vida nos impõe uma mudança radical, dessas que abalam o cotidiano e mudam nossa própria subjetividade. Com o tempo, acaba-se conformando diante da força descomunal da mais singela explicação: "É a vida, né?", que traz em si uma veloz conexão com "Deus permitiu". Mas não há consolo quando somos atingidos por forças externas que nos impõem mudanças que exigem desapropriar toda uma vida: O capitalismo avançado [...] não é capaz de inserir o passado no presente e muito menos de resguardar sonhos para o futuro, [...] ele esvazia o sentido das lembranças e aspirações*.


Num retrato da formação do contorno urbano da cidade de São Paulo, a professora Ecléa Bosi coletou relatos de antigos moradores. Esse retrato foi um flash, porque a cidade não parou, continua avançando, até sobre si mesma, compactando camadas ao construir e derrubar. A memória rema contra a maré; o meio urbano afasta as pessoas que já não se visitam, faltam os companheiros que sustentavam as lembranças e já se dispersaram. Daí a importância da coletividade no suporte da memória. Quando as vozes das testemunhas se dispersam, se apagam, nós ficamos sem guia para percorrer os caminhos da nossa história mais recente: quem nos conduzirá em suas bifurcações e atalhos? Fica-nos a história oficial: em vez da envolvente trama tecida à nossa frente, só nos resta virar a página de um livro, unívoco testemunho do passado.**


* Ecléa Bosi. O tempo da memória: ensaios de psicologia social. São Paulo: Ateliê Editorial, 2003, p. 187.
** ibidem, p. 70.

Se alguém se interessar em aprofundar esse caminho, deixo as indicações por onde andei lendo. O que deixei no texto em negrito são trechos que copiei dos originais.

São Caetano do Sul, fevereiro de 2014

Clarice. [nosso pai estaria completando 90 anos]

Já não há lembrança das coisas que precederam; e das coisas posteriores também não haverá memória entre os que hão de vir depois delas.

Eclesiastes 1:11

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