Usurpação do discurso e das práticas: a relação da ficus ciência da informação com a biblioteconomia

(Meu texto é panfletário. Não tenho intenção de não sê-lo. Uso e abuso das palavras de ordem e dos clichês. Porém, tudo o que está escrito aqui é verdade. Qualquer crítica ao discurso vigente em certa Escola de Ciência da Informação da UFMG não é mera coincidência. É intencional. E brado: morte ao discurso falacioso da ciência da informação).


Uma mentira repetida muitas vezes vira verdade; esta frase, atribuída à propaganda nazista, já virou clichê, de tanto ser repetida. Mas não me furto em usá-la mais uma vez. No meio científico é comum que uma área do conhecimento recorra a outras para explicar parte de seu objeto de pesquisa e de suas práticas. Chamam essa relação de interdisciplinaridade, multidisciplinaridade ou transdiciplinaridade (ou outro palavrão, no sentido de palavra grande, qualquer). As metodologias de pesquisa gestadas nas ciências sociais (sociologia e antropologia) formam a base da pesquisa em quase todas as áreas sociais e humanas. Da mesma forma termos oriundos de determinado campo do conhecimento são freqüentemente utilizados em outros, com a devida contextualização e adaptação. A transposição de discursos e teorias é algo comum e normal. No entanto, há aquelas áreas que se comportam como parasitas em relação a outras. Uma dessas áreas é a ciência da informação. Dita interdisciplinar, mantém uma relação de subserviência com algumas áreas (como administração, TI e ciência da computação) e de exploração com outras (como a biblioteconomia e a arquivologia, consideradas suas sub-áreas).


Em primeiro lugar vamos contextualizar. A ciência da informação é uma invenção de pessoas que não queriam ser chamadas de bibliotecários, documentalistas, e por questão de "status", eram cientistas, decidiram denominar-se "cientistas da informação". Essa é a história narrada: com a explosão informacional (surgimento de inúmeros artigos e livros das áreas científicas e tecnológicas) após a segunda guerra mundial, muitos cientistas saíram dos laboratórios e tornaram-se pesquisadores de informação para aqueles que continuaram lá com os experimentos. Para não perder o "status" de cientistas chamaram a si mesmos de cientistas da informação, ou seja, um cientista que organizava e disseminava a informação para seus colegas. Este trabalho já era feito pelos bibliotecários especialistas, mas como os cientistas eram formados em outras áreas, não queriam ser confundidos com estes. Um parêntese um tanto mais longo: nos Estados Unidos biblioteconomia é curso de pós-graduação. Há escolas de graduação em biblioteconomia, mas é mais comum uma pessoa graduar-se em uma área (sociologia, física, engenharia etc.) e depois especializar-se em biblioteconomia. Deste modo temos os bibliotecários especialistas, capazes de dialogar com os usuários dos serviços de informação em que atuam. Não é o caso dos cientistas da informação, que fazem o mesmo trabalho, mas se dizem diferentes, de uma área diferente. Resumindo a história: a ciência da informação surge para resolver um "problema" já trabalhado por outra área: a biblioteconomia e suas experiências teóricas e práticas. Se analisarmos historicamente, veremos que a ciência da informação é uma sub-área da documentação: aquela que se ocupa da informação científica e tecnológica. O que faz sentido se pensarmos que a ciência da informação é, segundo seus historiadores, uma área recente, mais recente que suas três "sub-áreas": a biblioteconomia, a arquivologia e a museologia.


Quando comparo a ciência da informação com uma planta parasita, penso na verdade que ela comportou-se como parasita no começo de sua história e agora é como um tipo de planta que envolve outra e a sufoca até a morte. Não é parasita, mas toma o lugar da outra planta. Trago um pequeno trecho sobre a ficus que exemplifica essa relação da ciência da informação com suas ditas sub-áreas:



Além dessas, encontramos ainda as estranguladoras, como o mata-pau (ficus), que germina nas forquilhas de outras árvores. Trazidas pelo vento, pássaros ou morcegos frugívoros, a pequena planta quando germina, desenvolve dois tipos de raízes. Um deles cresce envolvendo o ramo ou tronco, enquanto o outro tipo desce até o chão aereamente, ou rastejando pelo tronco. Com os resíduos de poeira e matéria orgânica, a plantinha obtém água e sais minerais de que necessita para crescer. As raízes que descem até o chão, agarram-se ao solo da floresta, enrijecem, tornam-se espessas e transformam-se em raízes adventícias. Elas garantirão a sustentação da nova figueira (fícus) que se forma com novos ramos e folhas, fortalecendo-se a tal ponto que passa a espremer a árvore hospedeira, sufocando-a até a morte. (Fonte: http://www.itograss.com.br/informativoverde/edicao62/pagina05.pdf. Acesso em: 23 mar. 2010).


Parafraseando o texto e substituindo ficus por ciência da informação teríamos:


Além dessas, encontramos ainda as falaciosas e usurpadoras, como a ciência da informação, que se desenvolve sobre o campo prático de outras áreas. Trazidas por pesquisadores oriundos de outros campos do conhecimento, as idéias sobre a ciência da informação, quando germinam, desenvolvem raízes que sorrateiramente vão obnubilando o discurso e as práticas das áreas hospedeiras. As idéias crescem envolvendo a outra área, sugam-lhe o conhecimento construído nas práticas cotidianas, e tornam-se espessas, garantindo a sustentação da ciência da informação e destruindo a área hospedeira, sufocando-a até a morte.


A ciência da informação foi parasita no princípio, instalou-se sobre o campo da biblioteconomia, sugou-lhe os conhecimentos desenvolvidos, e agora, como a ficus, mata-lhe lentamente. Já vive, ou pensa viver, sozinha, com suas raízes fincadas no solo.


Muitas vezes, a lenta e dolorosa morte da área hospedeira é encorajada por sua comunidade de prática. O discurso melodioso da ciência da informação seduz muitos estudantes e profissionais. Dizem, no discurso, que ela é moderna e representa a novidade, enquanto a biblioteconomia é o símbolo do atraso e da obsolescência. Dizem que o mercado quer um novo profissional, pomposamente chamado de gestor de informação, e que chamar-se bibliotecário é restringir as possibilidades de atuação profissional. Falácias, mentiras sem qualquer embasamento. A máscara da ciência da informação é bonita e seu discurso é sedutor, mas por traz das cortinas está o vazio de quem não tem nada a dizer: sua “comunidade de prática” agrega alguns refugos de outras áreas: administradores, cientistas da computação, tecnólogos, jornalistas, filósofos e engenheiros que na maioria das vezes não conseguiram trilhar seu caminho na área de origem e vieram tentar destruir uma área legítima como a biblioteconomia construindo e disseminando um discurso mentiroso e cruel: de que a ciência da informação é uma ciência nova, pós-moderna, que surgiu para resolver os problemas da organização da informação. A ciência da informação, tal como é proposta no Brasil, não é outra coisa, senão a velha e milenar biblioteconomia, que assim como outras áreas, incorpora os avanços de seus objetos de estudo. Da biblioteconomia sempre foi o livro e a biblioteca: desde as tabuletas de argila até os modernos e-books; desde a biblioteca de Alexandria às bibliotecas digitais.


Embevecidos pelo discurso da CI, os bibliotecários esquecemos de repensar nossa atuação. Pensamos assim: somos cientistas da informação, não somos mais bibliotecários, então somos diferentes. Mas nossas ações, nossas atuações práticas ainda são as mesmas de antes. Melhor que pensar na ciência da informação, é repensar a biblioteconomia. Muitas advogam sua morte iminente, pelo fato de ter perdido o trem da história. Por mim, penso que essa possibilidade de morte, seja por sufocamento ou por inércia, é um impulso para o recomeço. Já fizemos tantas mudanças interessantes, incorporamos novas formas de trabalhar, de desenvolver nossa prática. O passo para trás, dado por bibliotecários, mas, também, induzido por outros profissionais "cientistas da informação", que representa a "filiação" da biblioteconomia como sub-área da ciência da informação, tem que ser revisto. Reconhecer a ciência da informação como legítima substituta da biblioteconomia é como comprar de volta o que nos foi roubado. Totalmente tolo e sem sentido. O recomeço passa longe do discurso pretensioso da gestão da informação. Passa, especialmente, pela reflexão sobre o objeto físico com o qual trabalhamos: o livro. E com uma reflexão mais profunda: se apegar-se ao livro, é prender-se tolamente à materialidade, apeguemos à ação provocada pelo objeto, reflitamos sobre a leitura e sobre a importância da organização e da sistematização de conteúdos, como forma de auxiliar leitores.


Resta ainda um sopro de vida nos bibliotecários que não se deixam enganar pela falácia do discurso da falsa mudança. Urge cortar as raízes da ficus ciência da informação que começa a sufocar a biblioteconomia. Roubar práticas e discursos não legitima ninguém, e nem representa modernidade. O que temos são apenas charlatães; e o lugar deles é no limbo da história.

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Comentário de Eduardo da Silva Alentejo em 21 junho 2010 às 2:31
Resposta ao texto "Usurpação do discurso e das práticas: a relação da ficus Ciência da Informação com a Biblioteconomia", por Eduardo Alentejo.

Disponível no 4Shared.com

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