Portal Luis Nassif

Na floresta espessa a que me referi no último post, a selva dos tenores, um pássaro sobressai em beleza sobre os demais (só sendo ofuscado, em alguns casos, pelas aves-sopranos): o tenor lírico. Nessa fauna de plumagem gloriosa exaltam-se as excelências e aqui se inscreve grande parte da história do bel canto.

O Tenor Lírico, como o adjetivo já deixa entrever, é uma voz adequada à expressão apaixonada, de timbre sensual, aveludado e redondo, mais doce que o timbre do tenor dramático, geralmente mais forte e metálico. Via de regra, sua extensão é mais aguda do que a do dramático, atingindo com mais facilidade o temível Dó4 (popularmente conhecido como “dó de peito”) da sua tessitura e, em alguns casos execepcionais, chegando até ao dó sustenido e mesmo ao ré natural (como no Otello de Rossini, pouquíssimo executado por exigir, em um belo dueto, que dois tenores atinjam a nota ré, fantástica para uma voz masculina).

O tenor lírico não é muito propenso a fazer coloraturas (ornamentos vocais em alta velocidade), embora deva possuir agilidade e estar apto a papéis tanto românticos como cômicos e possuir expressividade em passagens de declamação.

Note-se que, embora os cantores líricos sejam endeusados e venerados, só o são pelos que de alguma forma se tornaram apreciadores do bel canto – o que, em termos da população de consumidores musicais, é uma ínfima minoria.

Entretanto, por ocasião da abertura da Copa do Mundo de 1990, sob a regência do maestro indiano Zubin Metha, foi realizado um concerto em Roma, com os tenores Plácido Domingo, Jose Carreras e Luciano Pavarotti, cuja finalidade principal era arrecadar recursos para uma fundação dedicada à luta contra a leucemia, mas que foi também uma forma simbólica de Pavarotti e Domingo recepcionarem o amigo Carreras por seu retorno à cena lírica, depois que este consegiu recuperar-se da terrível doença.

O estrondoso sucesso comercial do primeiro concerto fez com que a máquina da indústria fonográfica se concentrasse na promoção desses três grandes artistas promovendo novas apresentações, por ocasião das Copas de 1994, em Los Angeles, e de 1998, em Paris. Segundo o Livro Guinness dos Recordes, o CD de música clássica mais vendido até hoje foi justamente “Os Três Tenores em Concerto”.

Se por um lado o fenômeno de divulgação dos Três Tenores impulsionou o interesse do grande público pelo canto lírico, por outro ofuscou, para esse mesmo público, inúmeras estrelas de primeira grandeza, algumas até consideradas, por aficionados, como melhores do que aqueles três grandes astros. Obviamente, esbarramos, mais uma vez, numa questão de gosto pessoal.

Vamos agora agora apreciar algumas vozes de tenores líricos que fizeram história na cena lírica internacional.

Comecemos com o italiano Salvatore Fisichella (1943), reconhecido por seu brilho vocal e por ter cantado mais papéis principais de óperas de Bellini do que qualquer outro tenor do século vinte. Fisichella, canta a ária “Di quella pira”, do Trovador, de Verdi, cujo final é justamente com o tal “dó de peito”. O detalhe é que Fisichella – o que não é comum entre os tenores – escande as sílabas da expressão “All'armi!” de seu incitamento às armas, o que significa dar a nota aguda duas vezes seguidas.

SALVATORE FISICHELLA



Agora, meu tenor lírico predileto (por favor, amigos, gosto não se discute), Alfredo Kraus (1927-1999), espanhol (Ilhas Canárias), grande mestre do bel canto, intérprete magnífico de Massenet. Vejâmo-lo primeiro, aos 43 anos, na ária de “O Pescador de Pérolas” de Bizet, “Je crois entendre encore”.

ALFREDO KRAUS



Permitam-me um bis, quase uma homenagem. Kraus, 28 anos depois, já doente, um ano antes de seu falecimento, na ária “Pourquoi me réveiller”, do Werther, de Massenet., ópera em que foi um dos maiores intérpretes da história do Metropolitan.



Agora vejamos o mexicano Francisco Araiza (1950), interpretando a bela canção de César Franck, “Panis Angelicus”, em 1992.

FRANCISCO ARAIZA



Outro tenor lírico marcante, Roberto Alagna (1963), francês, em 1992, cantando « Source Délicieuse » da ópera « Polyeucte », de Gounod, baseada em um drama de Corneille.

ROBERTO ALAGNA



Vejamos agora o tenor lírico mexicano Ramon Vargas (1960), interpretando a conhecida ária da ópera Rigoletto, de Verdi, “La donna è mobile

RAMON VARGAS



A quantidade de tenores líricos de primeira grandeza é muito grande. Procuramos mostrar alguns cuja qualidade dos vídeos no YouTube permite passar uma boa ideia desse belíssimo timbre vocal.

Encerraremos a mostra com Jose Carreras e Luciano Pavarotti. Não incluímos aqui Plácido Domingo pelo fato desse magnífico artista cantar principalmente como tenor dramático (o que foi mostrado no post anterior).

Vejamos o catalão José Carreras (1946), aos 38 anos, interpretando a belíssima ária da ópera L’Arlesiana, de Cilèa, conhecida como “Il lamento de Federico”.

JOSÉ CARRERAS



Finalmente, “in memorian”, o mais divulgado tenor lírico de nossa época, o italiano Luciano Pavarotti (1935 – 2007), em recital aos 43 anos, em pleno apogeu de sua carreira. Oferecemos uma dose dupla: de Giodarni, ele interpreta a canção “Caro mio ben”, e de Gluck, da ópera Orfeo ed Euridice, a bela ária “Che farò senza Euridice


LUCIANO PAVAROTTI

Exibições: 1684

Comentário de Helô em 26 janeiro 2009 às 18:41
Oscar querido
Deu saudades de ouvir você cantar "Il lamento de Federico". A interpretação do Carreras é divinamente linda. Que pianíssimo fantástico! Sabe que eu achei o timbre de voz do Kraus muito parecido com o seu? É interessante você nos apresentar vozes diversas e desconhecidas (para simples mortais como eu, haha), senão a gente só ouve os 3 tenores. Bem, o Alagna eu já conhecia e apesar do últimos chiliques sua voz é maravilhosa.
Beijos.
Comentário de Jonas Alves Corrêa em 26 janeiro 2009 às 19:05
Caro Oscar,
Mais um capítulo brilhante do "Jóias do Bel Canto", desta vez sobre os tenores líricos. Gostei muito do espanhol Alfredo Krauss. Você tem toda razão: é uma voz magnífica! O jovem José Carreras, ainda sem a doença maligna, interpretando a ária "Il lamento di Federico", é um tenor maravilhoso. Finalmente, o meu ídolo maior, o saudoso Luciano Pavarotti, o qual considero o lídimo representante do canto lírico, onde a pujança de sua voz se transforma em suavidade e emoção, na interpretação de árias de óperas famosas e de belas canções napolitanas. Ele era um cantor estático, por força da sua compleição física e do ventre volumoso, sem a coreografia, nem pensar, às vezes utilizada pelos tenores dramáticos. Ele cantava sem demonstrar qualquer esforço, com pleno domínio vocal, sempre com o seu inconfundível lenço branco, que era a sua marca registrada. A sua voz privilegiada, magnífica e poderosa, o coloca, sem dúvida, entre os maiores tenores de todos os tempos, ao lado de Enrico Caruso, Beniamino Gigli e Mário Lanza. Um grande abraço.
Comentário de Joel do naNascimentoscimento em 2 abril 2012 às 20:45
Meu caro João Alves, Gosto não se discute.

Eu nunca incluiria O Mario Lanza e Gigli no mesmo patamar de Pavaroti. Gigli foi bem melhor que Mario Lanza que fica atraz de muitos outros. O Carreras tem uma voz linda mais nunca cantou Lamento de Frederico melhor que Pavaroti. ´Você é músico ? Se é , procure observar a diferença da linha melódica e a colocação de voz do Pavaroti para o parreiras e outros. Os Barítonos que estrudam para cantar peça de tenores nunca alcançarão uma perfeição do Lírico. Plácido tem uma voz linda e só fica no romântico barítono.
O problema do Pavaroti é que ele se metia a cantar com qualquer um dentro de gêneros diferentes que comprometia, por vezes, a sua interpretação.
Como se diz no meio musical. O Pavaroti cantava e além do tenor puramente italiano, tinha uma colocação interpretativa perfeita.
Você já ouviu Maria Callas cantando Norma de Vecenzo Bellini ?( Casta diva ) A melhor interpretação está no yutube onde aparece só o seu rosto e a palavra "Best" São mais
de dois milhões de ouvintes.
Me desculpe " contestar" o seu parecer.
Um abraço
Joel Nascimento

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2017   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço