Passou desapercebido, este artigo escrito por um colaborador do Blog do Noblat, ex - jornalista da Veja em Salvador nos anos 80. Ele foi publicado nessa semana.

Enviado por Vitor Hugo Soares - 14.3.2009 | 3h03m

Grampos: uma interrogação no ar


Pelo barulho da semana é fácil prever: vai longe e deixará vítimas (ainda que seja a credibilidade de pessoas e instituições), a polêmica nacional sobre a presumida máquina de espionar a vida dos outros em operação no País. Esta seria uma das poucas indústrias que atuam a plena carga nesta fase de crise, a deduzir pela reportagem de capa da revista VEJA na semana passada e subsequentes adendos irados ou irônicos do arco de opinião que vai da justiça à polícia e imprensa, capaz até de dar um sopro providencial de vida à praticamente moribunda "CPI dos Grampos" no Congresso.

No meio da onda é digna de atenção a tranqüilidade da esquentada ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff . Sábado passado, na Bahia, ao visitar o estúdio da TV Itapoan, ela afirmou não ter problemas com grampos telefônicos, embora considere a prática incorreta. Mais: disse que não acredita ter sido espionada pelo delegado da Polícia Federal, Protógenes Queiroz, condutor da Operação Satiagraha, e deu o motivo: é solteira e, ao contrário do afirmado pela revista, não mantém relacionamentos amorosos há bastante tempo.

Na última quarta-feira, a preferida do presidente Lula à sua sucessão em 2010, mesmo com a ressalva recorrente de que sua grande preocupação atual é o andamento das obras do PAC, não fugiu do tema das espionagens eletrônicas, tão incômodo para muita gente, jornalistas inclusive. Entrevistada depois de reunião com religiosos na sede da CNBB, em Brasília, Dilma Rousseff foi mais direta e específica ainda. Encarou os repórteres e deixou no ar uma surpreendente interrogação: "Vocês têm certeza que todo aquele relatório (base da reportagem de Veja) é fidedigno?".

Em Salvador, a pergunta deixou o jornalista meio encabulado. Fiquei sem saber o que responder, nos diálogos estranhos que costumo ter com a tela da TV, sempre que provocado por entrevistados que também fazem perguntas.

Em outros períodos não teria vacilado em manifestar convicção quanto à credibilidade do conteúdo da matéria exclusiva, intitulada "A Tenebrosa Máquina de Espionagem do Dr. Protógenes". Nos dias que correm, infelizmente, perdi algumas certezas de antes, e isso não se deve apenas ao aprendizado profissional de que a dúvida e o ceticismo são sempre os melhores conselheiros do jornalista.

Já trabalhei na Veja, em outro tempo complicado. Chefiava a sucursal da Bahia na campanha da primeira eleição direta para presidente da República depois da ditadura. Então convivi com a extrema e explosiva tensão nos fechamentos das edições, em geral nas elétricas e agitadas noites e madrugadas de sexta-feira para sábado. A chamada hora do "pente fino" inflexível, passado sobre cada informação do texto. Momento crucial em que toda dúvida, por menor que fosse, precisava ser checada e esclarecida antes da revista ir para as bancas do país inteiro, sob pena de todo um esforço ingente de dias, meses até, terminar na lata do lixo.

A eletricidade acumulada na redação da sede, em São Paulo, batia frequentemente na sucursal baiana, não raro quando maioria dos habitantes de Salvador já estava no "terceiro sono", como se diz por aqui. "Olha, este dado não confere, acorde o governador e esclareça com ele", pedia um editor. "Olha, este número não fecha, veja se o diretor do Pólo Petroquímico tem números exatos", cobrava outro. Mais tarde ainda: "Confira mais uma vez com Caetano Veloso este atentado contra a casa dele aí em Ondina". Ou o pedido mais temido de todos: "Olha, o ministro Antonio Carlos Magalhães está aí na Bahia. Tira ele da cama, e pede para esclarecer melhor esta informação".

É esta lembrança, principalmente, que me fez hesitar diante da pergunta de Dilma Rousseff. Releio outra vez a matéria, implacável com o delegado da PF, acusado de "bisbilhotar clandestinamente senadores, José Dirceu, Mangabeira Unger, FHC, José Serra, o presidente do Supremo (Gilma Mendes) - e até a vida amorosa da ministra Dilma Rousseff". O perfil do delegado ao longo da reportagem é quase a de um louco varrido, sem controle. Oito páginas de texto, transcrições de documentos e fotos, sem a palavra do personagem central. No último parágrafo, mais que uma explicação, uma desculpa: "O delegado Protógenes não foi encontrado". E ponto final.

Nos dias seguintes, o condutor da Operação Satiagraha, cujas provas e indícios recolhidos na investigação já resultaram em uma condenação do ator principal da trama - o banqueiro Daniel Dantas, dono do grupo Oportunity, sobre quem quase ninquem fala mais, como alertou ontem o atento senador Pedro Simon em entrevista ao Terra Magazinei - demonstrava que não anda tão inacessível assim, apesar do cerco e das ameaças que afirma estar sofrendo.

O delegado da PF falou em São Paulo e em Recife, para desautorizar informações da revista e dar opinião. Na quarta-feira, disse a universitários de Goiânia, que, livre das amarras do sigilo do processo judicial, dará "nomes aos bois" no novo depoimento à ressuscitada "CPI dos Grampos" e, finalmente, "o Brasil saberá o nome de cada pessoa envolvida".

Que venha então o toureiro Protógenes - mesmo que seja em um 1° de Abril como está previsto -, em favor da verdade inteira.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail: vitors.h@uol.com.br

Exibições: 53

Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 15 março 2009 às 15:20
Parabéns, Vitor! Acho muito importante o testemunho dos jornalistas que têm que sobreviver à engrenagem da notícia domesticada ou parcial. Abraço, Ivanisa
Comentário de Ivanisa Teitelroit Martins em 15 março 2009 às 15:21
Desculpe! Parabéns, Bernardo! Abraço.

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço