Veríssimo "recomenda" à Serra: Leia livro de memória de meu pai, "Solo de Clarinete"

crônica

Foster Dulles

Não pude ir à sabatina dos candidatos à Presidência feita por colunistas e leitores do GLOBO na semana passada, mas mandei perguntas por e-mail. Respondendo à minha pergunta sobre se, caso ele fosse eleito, a política externa brasileira voltaria a ser a que era antes do governo Lula, mais alinhada com os Estados Unidos, Serra disse que teria uma política própria, presumivelmente diferente da política do Fernando Henrique também.

Mas antes fez um preâmbulo, lembrando o livro "O senhor embaixador", em que, segundo Serra, meu pai se revela um admirador de John Foster Dulles, secretário de Estado americano que foi o grande estrategista da Guerra Fria com a União Soviética, famoso pela sua doutrina do brinkmanship, ou a arte de levar as confrontações até a beira de uma guerra quente, sem dar o passo fatal.

"No caso da família Verissimo houve uma alternância", disse Serra, pois o filho, eu, "passou para o lado contrário em matéria de questão externa". Não entendi: o lado contrário do que, da Guerra Fria? Posso garantir que não sou pelo alinhamento da nossa política externa com a União Soviética contra o Foster Dulles, mesmo se conseguíssemos encontrar os dois ainda vivos, e mesmo que meu desejo valesse alguma coisa.

Como eu, o Serra deve ter lido "O senhor embaixador" há algum tempo. Não surpreende que não se lembre bem do que leu. Foster Dulles foi, sim, uma figura admirável, do ponto de vista puramente literário. Incorporava um certo tipo de aristocracia americana que durante algum tempo fez do Departamento de Estado o seu feudo fechado e do anticomunismo sua principal faina intelectual.

Depois este patriciado estanque foi substituído por tecnocratas tipo McNamara, que deram o passo fatal além da beira e empurram o país para o abismo do Vietnã. Nenhum tinha aquela empáfia de nascença que caracterizava Dulles e seus pares e mal camuflava sua arrogância. Meu pai não admirava a política de Dulles, Serra. Um personagem do livro expressa sua opinião sobre Dulles como a fascinante figura literária que foi.

"O senhor embaixador" foi baseado, em boa parte, na experiência do meu pai como diretor de assuntos culturais da União Pan-Americana, ligada à Organização dos Estados Americanos, em Washington, de 1953 a 1956. A personalidade que, este sim, ele mais admirou no período foi Alberto Lleras Camargo, ex-presidente da Colômbia pelo Partido Liberal, que dirigiu a OEA até 54 e saiu do cargo fazendo um famoso discurso em que desancava a intromissão americana em assuntos internos da América Latina e propunha um novo relacionamento, não submisso, dos latinos com os Estados Unidos. Lleras Camargo foi o primeiro estadista latino-americano da sua estatura e com suas credenciais a dizer coisa parecida. Recomendo ao Serra que, quando tiver tempo, leia "Solo de clarinete, vol. 1", livro de memórias do meu pai, para saber com que figuras ele realmente simpatizou, na época, e com quem concordava.

Exibições: 64

Comentário de José Emílio Gomes em 16 setembro 2010 às 14:43
Antes de dizer que "No caso da família Veríssimo houve uma alternância", o candidato Serra deveria ler o artigo que transcrevo abaixo, de autoria de Mauro Santayana:

As dificuldades do pragmatismo
09/09/2010 - 08:02 | Enviado por: Mauro Santayana
Por Mauro Santayana

Não se neguem ao candidato José Serra ideias e atos que fazem os homens públicos. Muito cedo, ao dedicar-se à política estudantil, anunciou seu compromisso com a defesa da soberania do país, revelou capacidade de trabalho e espírito de liderança. A conduta discreta que manteve no exílio, sobretudo depois da segunda tragédia que viveu, durante o golpe contra Allende, no Chile, não impediu que mantivesse seus contatos e a ação política contra o regime militar. Com a anistia, tornou-se empenhado na busca de solução negociada para a redemocratização, ao lado de Franco Montoro, de quem foi secretário. Na articulação do movimento das diretas e da candidatura de Tancredo, seu papel foi importante. Faltou-lhe, logo depois, a persistência no projeto de transformar o PMDB em partido ideologicamente afinado com a social-democracia europeia, conforme o desejo de sua ala acadêmica. Sendo assim, e sob discutível razão moralizadora, ele e seu grupo, com apoio de alguns mineiros, fundou o PSDB.

Com o passar do tempo e sua presença no governo de Fernando Henrique, José Serra tornou-se um pragmático. Esse pragmatismo o levou a participar do processo de privatizações, que constituem o momento mais estranho da vida brasileira, depois da restauração do poder civil. A nação, em sua alma histórica, jamais aceitará a entrega de seus ativos estratégicos a alguns privilegiados, entre eles estrangeiros, e a preços simbólicos. Trata-se de patrimônio construído com o trabalho de todas as gerações de brasileiros. Apesar de tudo isso, Serra podia ser considerado, naquele governo, um patinho feio. Sua nomeação para o Ministério da Saúde foi casca de banana colocada em seu caminho pela equipe econômica do governo, empenhada, até as orelhas, com o Consenso de Washington.

Pouco a pouco, passou a distanciar-se, muito mais do que o tempo transcorrido, do jovem dirigente da UNE. Cometendo erros políticos elementares, entre eles o de superestimar a própria força eleitoral, confiado na tração da locomotiva paulista, impôs-se como candidato ao partido, desdenhando os líderes estaduais. E se tornou, malgré lui même, um liderado do ultradireitista Indio da Costa, sob suspeita de desvio de merendas escolares, que está ditando os rumos finais da campanha.

Se conseguisse uma pausa de solidão, na agenda de sua campanha, Serra na certa entenderia que de nada lhe serve imputar aos adversários o grotesco expediente de mandar alguém levantar os registros fiscais de seus familiares na Receita Federal.

Faltou a Serra e a seus conselheiros encontrar o ponto correto de diferença entre as duas candidaturas, sem que fosse necessário o ocioso apelo à direita. Essa guinada de Serra à ala mais reacionária da oligarquia conservadora, que troca de nomes mas não de odor (a irada UDN de Lacerda, a submissa e famigerada Arena dos militares), é inequívoca prova de desinteligência política.

Melhor seria admitir a hipótese de uma derrota honrosa, se não houver tempo para reencaminhar a campanha. Para isso, no entanto, será necessário que ele volte a ser o José Serra da UNE. E por falar na juventude dos candidatos, convinha a Serra desvincular-se publicamente dos odiosos ataques que têm sido feitos a Dilma Rousseff, pelo fato de ela ter combatido a ditadura militar.
Comentário de José Eduardo de Oliveira e Cruz em 16 setembro 2010 às 14:51
Nada como um dia depois de outro. Passar para o lado contrário do pai não é errado, talvez seja até uma evolução. Eu por exemplo, que aos 20 anos de idade, votei em Janio Quadros, Lacerda e Milton Campos e seguia os ensinamentos de minha família, acho que evolui e aprendi, pois no Collor já não votei. Tem gente que com o passar dos anos INVOLUI. Ao Veríssimo, que para ser sincero, as vezes tenho restrições as crônicas, mas não posso deixar de parabeniza-lo.

Comentar

Você precisa ser um membro de Portal Luis Nassif para adicionar comentários!

Entrar em Portal Luis Nassif

Publicidade

© 2019   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço