Sêo Américo e Dona Flora eram um casal simpático, benquisto e admirado em toda a redondeza. Já transitavam na senilidade, mas sem atingir a decrepitude, apesar das idades avançadas. Ele noventa e dois, ela oitenta e sete. Viviam saudavelmente, em uma relação amorosa e harmonica, há setenta anos, já fazendo planos para as bodas de diamante. Sêo Américo, era Américo Brasileiro e dona Flora era Flora de Minas. Não tiveram filhos. Se os tivessem, seriam Brasileiro de Minas. Viviam, os dois, em uma casa confortável, porém modesta, muito bem cuidada, com ampla varanda, onde sentavam-se todas as tardes para ver o por do sol, em um bairro pejado de vizinhos “oriundi”, mas os dois não eram de descendência itálica. Eram brasileiros da gema. Ele tinha sido professor de matemática, circunspeto, cordato e muito educado. Daqueles que tirava o chapéu cortesmente e fazia ligeira mesura ao cumprimentar os vizinhos. Ela, alem de excelente dona de casa, tinha sido fornecedora de marmitas. Não era mais, o que era motivo de saudades por muitas pessôas. “Eita comidinha gostosa”, lembram alguns.

Dona Flora cuidava da casa com carinho e esmero. Fazia a comida balanceada, seguindo as recomendações do geriatra e do nutricionista. Sempre a quantidade certa de vitaminas, sais minerais e proteinas em cada alimento. Pouco sal, para controlar a pressão e nada de gorduras trans. Os medicamentos vinham também religiosamente na hora certa. Alguns “chazinhos” naturais para manter os nervos no lugar. Lembrava sempre da hora da academia e da hidroginástica e com isso, a vida se espichava sem muitas emoções e sem ressaltos. Pela manhã, sêo Americo dava um giro pelas redondezas, tomando sol para sintetizar vitamina D e congraçar-se com os vizinhos. A italianada toda gostava dele e ele deles, menos a vizinha da direita, uma italianona gorda e boquirrota, de fala estridente. Dona Flora, havia se submetido a uma cirurgia de hemorroidas, fazia já pra lá de dez anos, mas toda vez que sêo Americo passava, a carcamana gorducha, que não saia do alpendre, gritava: “I Fiori, como va? Ela vá bene dil culo?” Aquilo deixava o ancião ansioso, com medo que algum vizinho ao escutar tal coisa, insinuasse ou tirasse conclusões sôbre práticas sexuais malsãs feitas pelo honorável casal.

Tudo ia bem, mas eis porém que de repente, resolveram viajar até Fortaleza para conhecer as mulheres rendeiras. Um antigo sonho que não se realizou. O avião caiu! Morreram os dois. Foi instantâneo. Nem conseguiam entender ainda que estavam mortos e já estavam sendo acolhidos no céu pelo eterno porteiro. Muito solícito São Pedro os recebeu e os encaminhou através das plagas da bemaventurança. Mostrou-lhes a futura residência. Uma casa ampla com um jardim plantado de girassóis e margaridas. Sêo Américo era fanático por girassóis e dona Flora adorava margaridas. Assim que São Pedro disse que iriam mora ali, sêo Américo ficou apreensivo. --Deve ser caro, quanto custará isso? perguntou. --Né nada não meu filho, estamos no céu. Aqui é tudo de graça. E São Pedro continuou ciceroneando-os. Levou-os ao restaurante divino. --Aqui vocês se alimentarão, não vai precisar fazer comida. Aqui tem de tudo, bouilabaise, feijoada, estrogonof, sarapatel. O churrasco é uma delícia. Ao ver a expressão espantada de sêo Américo, acrescentou: -- È tudo grátis e não faz mal, aqui no céu nada faz mal ou engorda. E continuou: --Aquele pianista ali é muito bom. Já está aqui há muito tempo. Chama-se Arturo. Estamos aguardando um outro, xará deste, mas creio que ele só virá depois que o Fluminense for campeão do mundo. Vai demorar. E o loquaz santo continuou: Aquela mesona larga ali ao fundo, é onde nós os apóstulos nos reunimos com Jesus para ceiarmos e debater sôbre as decisões a serem tomadas. -- Todos os doze? Perguntou sêo Américo, inclusive Judas? --Não, não. Judas reencarnou em 1942, lá na Mooca, um bairro de São Paulo.

Continuaram caminhando e dona Flora perguntou: -- Tem academia? --Tem. E hidromassagem também, mas só para quem quizer. Não é obrigatório. Planejamos um parque. O paisagista já veio, mas o arquiteto está meio atrasado. Neste momento, São Pedro disse: estão me avisando que houve um acidente no Rodoanel, tenho que ir receber alguém. Fiquem à Vontade! Foi quando sêo Américo pegou dona Flora pelo braço e disse: -- Tá vendo sua merda? Se não fosse aquelas comidinhas insossas, aqueles chazinhos idiotas, nós já podiamos estar aqui há uns dez anos!

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Comentário de João de Deus Netto em 9 maio 2011 às 13:33

Tem uns personagens deste gostoso texto que eu conheço não sei de onde! O arquiteto já está num arquivo meu parecido com os dos jornais (saudades do JB), e olha que já tem uns três anos. Estrutura sólida...! Deixa eu ir ali revisar uma montanha de rolos de fitas, antes de projetar no carvão do CinemaScope.

Té mais, Euripedes!

Moço, ia esquecendo: fui casado no Rio de Janeiro com uma filha de um Tupaciguarense. Sêo Cidalino (C mesmo) Silva foi operador de áudio da Rádio nacional, Rio, no Edifício da Noite, Pça Mauá, acho que desde antes do Marconi rsrs

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