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Comece ouvindo isto:


O que você acabou de ouvir foi o mezzo-soprano italiano Cecilia Bartoli (1966) cantando All’arme si acessi Guerrieri, de Domenico Scarlatti (1685-1757). Esta peça, do séc. XVIII, foi escrita (na tessitura de mezzo-soprano) para ser cantada por um castrato, provavelmente Farinelli (nome artístico do famoso castrato italiano Carlo Broschi (1705-1782), já que este foi um grande amigo de Scarlatti que lhe dedicou inúmeras de suas composições.

Farinelli

A justificativa histórica para a castração de meninos pré-adolescentes, na maioria crianças órfãs, provenientes de famílias pobres ou abandonadas pelos pais, era a necessidade de prover vozes na tessitura feminina para os coros eclesiásticos, já que a Igreja Católica Apostólica Romana proibia mulheres em seus corais. Se essa foi toda a verdade, não sabemos. O silêncio da História sobre o assunto não nos permite afirmações complementares, muito menos contrárias. Mas, a julgar pelo que hoje se sabe sobre o comportamento de parte significativa do clero, pode-se inferir que talvez a história da pedofilia tenha caminhado paripasso com a da igreja católica.

A castração, que teve início no século XVI e atingiu seu auge nos séculos XVII e XVIII, tornou-se prática comum no meio artístico, de tal forma que, nas óperas do compositor barroco alemão Händel, geralmente o papel de herói era escrito para castrato. Os rapazes castrados recebiam instrução em conservatórios da própria Igreja, onde lecionavam músicos de renome. A prática da castração era tão comum e banal que barbearias napolitanas tinham, à entrada, um dístico com a indicação Qui si castrano ragazzi (Aqui castram-se rapazes).

Foi só em 1870, entretanto, que a castração destinada a este fim foi terminantemente proibida na Itália (o último país onde ainda era praticada). Em 1902 (já no século XX, portanto), o papa Leão XIII proibiu definitivamente a utilização de castrati nos coros das igrejas.

Hoje em dia, para que surgisse um jovem cantante castrato, certamente ele teria que ter sofrido algum acidente fisiológico que lhe causou a ablação dos testículos e, ainda por cima, o infeliz teria que se interessar por canto lírico - o que seria muito pouco provável que acontecesse.

Mas isso não significa que desapareceram os artistas masculinos com emissão vocal feminina. Estão aí os contratenores que, a partir do início do séc.XX, se apresentam como detentores da voz e da técnica necessárias para cantar peças barrocas e renascentistas, escritas, na maioria das vezes para castrati.

São vozes pouco conhecidas pelo grande público, até mesmo por aficionados do canto lírico. Como nos dias atuais o repertório para essas vozes é cantado por sopranos e mezzo-sopranos, há uma resistência natural para a plena aceitação desses artistas, não deixando de haver também um certo preconceito do ponto de vista estético. Entretanto, muitos deles dominam à perfeição a técnica necessária para a interpretação das peças para seu registro vocal.

A maioria dos contratenores utiliza a técnica do falsete para chegar ao registro agudo, pelo que, em vozes masculinas destreinadas, o timbre tende a soar harmonicamente débil. No entanto, trabalhada com a técnica adequada, a voz de contratenor pode alcançar grande ressonância e volume.


ALFRED DELLER (1912-1979)

No século XX, um dos maiores responsáveis pela divulgação da voz do contratenor na execução de peças da música barroca e renascentista, foi o inglês Alfred Deller. Benjamin Britten escreveu o papel de Oberon em sua ópera "Sonhos de uma Noite de Verão" para ele. Deller foi o primeiro contratenor da era moderna a conseguir prestígio, abrindo as portas para outros representantes dessa arte.


Alfred Deller em Greensleeves - canção folclórica inglesa


Só áudio



ANDREAS SCHOLL (1967)

Um bom exemplo de contratenor contemporâneo é o alemão Andreas Scholl. Scholl especializou-ze na música barroca e apresenta-se em recitais nas principais salas de música internacionais. Já depois de ser mundialmente reconhecido como o grande contratenor da sua geração, pela sua discografia e por suas atuações em concerto, Andreas Scholl dedicou-se à ópera, interpretando papéis escritos para castrati no Festival de Ópera de Glyndebourne, no Metropolitan Opera House, na Ópera Real Dinamarquesa e no Teatro dos Campos Elísios.


Andreas Scholl - Vivaldi - Alleluia


Só áudio


Andreas Scholl - Che Faro Senza Euridice


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DAVID DANIELS(1966)


David Daniels é um contratenor americano.. Começou a cantar como menino soprano, passando para tenor quando sua voz amadureceu . Insatisfeito com suas realizações como tenor, Daniels passou a treinar sua voz para cantar como contratenor, durante seu curso de graduação na Universidade de Michigan.


David Daniels canta Oh Patria!... Tu che accendi questo core... Di tanti palpiti da ópera Tancredi de Rossini. Julius Rudel é o maestro, no Richard Tucker Foundation Gala, Avery Fisher Hall, New York, 1997.


Somente áudio


David Daniels em Furibundo, spira il vento de Händel


Somente áudio




EDSON CORDEIRO (1967)


Nós também temos um contratenor com alguma reputação internacional. O paulista Edson Cordeiro chega a atingir 4 oitavas na escala musical. Começou como imitador de Elis Regina, apresentando-se no programa Boa Noite Brasil, de Flávio Cavalcanti, na Rede Bandeirantes, no início dos anos 80. Teve grande êxito comercial e de crítica nos anos 90. Eclético, gravou desde sambas de Noel Rosa como Tipo Zero, à árias de ópera, como Ombra Mai Fu (Xerxes, de Handel) e La Séguedille da Carmen de Bizet. Seu carro-chefe era a famosa Ária da Rainha da Noite da Flauta Mágica de Mozart (que só encontrei em um vídeo muito ruim da TV Manchete, em que ele "duela", de forma estranhíssima e de mau gosto, com Cássia Eller). Infelizmente, talvez devido ao sucesso fácil, Cordeiro não se dedicou ao aprimoramento da técnica vocal, limitando-se ao papel de show-man em programas de auditório.


Edson Cordeiro canta Cold Song , um clássico de Purcell, no Teddy Awards de 2008, em um tributo à memória do contratenor alemão (meio doidão, por sinal) Klaus Nomi (1944 – 1983).


Somente áudio:




DEREK LEE RAGIN (1958)


Dereck Lee Ragin é um contratenor estadunidense. Notabilizou-se com a dublagem do filme Farinelli, para o que contou com a colaboração, na execução das notas um pouco mais agudas, do soprano Ewa Mallas-Godlewska.

Derek Lee Ragin em Handel: Tamerlano, "A Dispetto.."


Somente áudio




JAVIER MEDINA (1970)


Finalmente um castrato contemporâneo! Javier Medina é um soprano-masculino mexicano. Medina, devido a uma leucemia que o acometeu por volta dos 8 anos de idade, teve sua laringe afetada de forma que tornou-se o que poderíamos chamar de um “castrato endócrino”. A voz de Medina se diferencia da do contratenor porque não precisa utilizar-se do falsete para simular o registro de um soprano puro, o que o torna único na categoria. Durante 10 anos Medina não sabia o que fazer com sua tessitura vocal até que, quando já desanimava, a partir de 1994, com os professores adequados que o orientaram e treinaram, conseguiu desenvolver sua técnica como intérprete de obras escritas para castrati.

Medina canta Ombra fedele anch'io, de Riccardo Broschi, que a compôs para seu irmão Farinelli.

Somente áudio



Aqui encerramos a parte dedicada às vozes masculinas, embora este final não tenha sido lá tão másculo assim. Mas serve de ponte para a parte vindoura, as vozes femininas. As Divas vêm aí!

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Comentário de Henrique Marques Porto em 5 março 2009 às 17:01
Caro Oscar,
Que venham as "divas"! Pobre de você, bom Oscar...
Vou contribuir com dois arquivos nesse post. Um é para cobrir uma omissão involuntária sua. O cearense Paulo Abel do Nascimento. Paulo Abel é o nosso maior contratenor e ficou mundialmente famoso cantando "Ombra mai fu" no filme "Ligações Perigosas", de 1988. Mesmo aqui no Brasil poucos o conheciam até aparecer no filme. Faleceu em 1992, aos 35 anos, quando a carreira já havia deslanchado no exterior. Chama a atenção que existam tão poucas postagens no YouTube sobre esse grande artista. A melhor que encontrei foi a sequência do filme que o tornou famoso. Nas demais som e imagem estão prejudicados.
Paulo Abel do Nascimento, "Ombra mai fu"
A outra contribuição achei por acaso. Pesquisando sobre o Paulo Abel achei uma gravação rara. O único registro em disco de um castrado verdadeiro, e daquele que é considerado o último da espécie. Quer dizer, cortaram mesmo as mimosidades do cara na tentativa vã de eternizar sua voz de menino. Aqueles bispos eram tarados. Alessandro Moreschi é o seu nome. Nasceu em 1858. A gravação é de 1902. Não consegui identificar a ária.
Alessandro Moreschi, o último "castrado"
Abraços,
Henrique Marques Porto
Comentário de Henrique Marques Porto em 5 março 2009 às 17:41
Respondo a mim mesmo. A ária cantada por Alessandro Moreschi está indicada nos créditos finais do vídeo.
Comentário de Oscar Peixoto em 5 março 2009 às 17:55
Obrigado, Henrique, por mimosear ainda mais o post. Mais um pouco e me torno símbolo do movimento allegro (ma non troppo).
Comentário de Jonas Alves Corrêa em 9 março 2009 às 21:46
Amigo Oscar,
Fiquei impressionado com o relato dos castrati, uma mancha de barbárie que a Igreja Católica carrega nas costas, sem falar nos terríveis tempos da Inquisição quando, a pretexto de se combater a heresia e a bruxaria, eram usados métodos brutais de estermínio, como a fogueira, a decapitação e o esquartejamento, além dos notórios crimes de pedofilia praticados pela aberração do comportamento sexual de grande parte do clero. Bem lembrado o Farinelli, o mais famoso castrato, personagem de um antigo filme. Agradeço a oportunidade que tive de ouvir a velha canção inglesa "Greensleeves" (estava no arquivo morto da minha memória), na voz do contratenor inglês Alfred Deller. Muito bom o alemão Andreas Scholl. Achei surpreendente os americanos David Daniels e Derek Lee Ragin, pois eles têm vozes femininas perfeitas. Parabéns por lembrar o nosso Édson Cordeiro. Incrível mesmo foi vc nos ter apresentado o mexicano Javier Medina, um falso castrato, classificado como soprano-masculino. Ainda registro, como oportuno e importante, o comentário do seu amigo Henrique Marques Porto, que abrilhantou ainda mais a sua página. Que viengam los toros, ou melhor, que viengam ahora las divas! Um grande abraço.
Comentário de Helô em 10 março 2009 às 0:43
Rapaz!
Você tem idéia da contribuição que vem dando ao mundo da ópera?
Mais uma vez, limito-me a deixar um bilhetinho, visto que já conversamos sobre este super caprichado post. Parabéns pelo belo trabalho de pesquisa e parabéns também ao Henrique pelas ótimas contribuições. Eu não sabia do contratenor brasileiro em Ligações Perigosas. Deu até vontade de assistir ao filme novamente.
Ah! O bispo vai te excomungar! hahaha
Beijos, Óskar.
Comentário de peter baard em 13 março 2009 às 16:03
In 1996 I saw Derek Lee Ragin in Brussels in the contemporary opera of Klaas de Weert "A king, riding". il a un beau timbre.
Javier Medina is a discovery for me. Thank you Oscar!
Have a nice weekend,
Peter
Comentário de julio campos em 11 maio 2009 às 22:10
E´uma pena que vozes como a Edson Cordeiro sejam perdidas em favor,
do dinheiro facil, isto já aconteceu com muitos bons cantores, como
exemplo maior Mario Lanza
julio
Comentário de Pedro Ismael de Oliveira Neto em 19 outubro 2009 às 2:01
Oi, Oscar, tudo bem? Você esqueceu de mencionar o contratenor mais premiado do momento: Philippe Jaroussky. Foi escolhido como o melhor cantor lírico da União Europeia, em 2008, derrotando cantores famosos, tais como Roberto Alagna, tenor francês; Angela Gheorghiu, soprano romeno, entre outros. Seus vídeos estão no Youtube e, ano passado, ele deu um recital na Sala Cecília Meireles, com lotação esgotada, tendo sido patrocinado pelo governo francês.
Comentário de Oscar Peixoto em 19 outubro 2009 às 12:40
Pedro, é muito difícil, quase impossível, esquecer alguém ou alguma coisa num trabalho desses. Por isso, é importantíssimo o comentário de alguém, como você, que conhece a fundo a questão. Muitas vezes o comentário é uma contribuição que aprimora o post. Conto sempre com isso.
Abraços

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