O Contralto é a mais grave das vozes femininas, soando, em algumas circunstâncias, quase como uma voz masculina. É um timbre robusto, pesado e sombrio, com pequena extensão aguda, mas que alcança sua plenitude no registro grave (de forma equivalente aos barítonos e baixos na tessitura masculina). Raramente um contralto puro canta ópera, uma vez que são escassos os papéis escritos para essa tessitura. No mundo operístico, os papéis de registro vocal feminino mais grave, normalmente atribuídos a personagens idosos, cruéis, bruxas e vilãs, geralmente são entregues a mezzo-sopranos dramáticos.
É um tipo de voz extremamente rara, cujo principal atributo só é demonstrado na interpretação de peças folclóricas, ou em músicas cujo tom original é transcrito para um ou dois tons abaixo.

Como já falamos anteriormente, no quesito voz humana a coisa é meio complicada em termos de classificação. Assim como nas vozes masculinas, em que há tenores que cantam como barítonos, barítonos como baixos, dependendo das constituições vocais de cada um, há contraltos capazes de cantar peças escritas na tessitura dos mezzosopranos. E vice-versa, o que complica ainda mais a questão.

Nesse emaranhado de possibilidades, há casos, como a lendária Pauline Viardot (1821-1910) que, contam os historiadores, alcançava facilmente a tessitura do soprano. Mas temos exemplo mais próximo, a exótica peruana Yma Sumac (1922-2008) que em vários textos é apontada como contralto pelo fato de alcançar notas extremamente graves. Sumac, na realidade, tratava-se de um fenômeno vocal capaz de atingir notas acutíssimas, difíceis até para um soprano colatura. Por isso mesmo, dedicou-se à exibição de seus dotes em interpretações pirotécnicas de canções folclóricas e populares. Do ponto de vista taxonômico, na minha opinião, seria impossível classificar uma voz como a de Yma Sumac.

Vejâmo-la em uma de suas mais extravagantes apresentações, reproduzindo os sons da floresta peruana. Acredite, não são vozes de pássaros, são sons produzidos por um aparelho fonador fora de série.

YMA SUMAC: Chuncho



Se quiser conhecer um pouco mais de Yma Sumac, há vários registros seus no YouTube. Divirta-se.


Agora vamos a um contralto puro, Marian Anderson (1897-1993) artista que se firmou como uma das maiores intérpretes de concerto do século XX, a primeira estrela de ópera afro-americana, e que se destacou com um variadíssimo repertório que ia da canção ao spiritual.
Marian foi uma ativista contra a discriminação racial, tendo sido ela própria vítima dessa abominação. Em 1939), reuniu cerca de 75 mil pessoas para um protesto musical contra o racismo no Lincoln Memorial, em Washington, espaço cedido pelo Presidente Roosevelt, em desagravo à proibição de sua apresentação no Constitutional Hall devido à sua cor. Pode-se imaginar a repercussão do fato na época (70 anos antes de Barack Obama), principalmente quando a tradição do canto lírico era “loura e de olhos azuis”. ;-)

Veja o registro do evento no YouTube. Marian Anderson canta "My Country'Tis of thee" na tessitura de mezzo-soprano: http://www.youtube.com/watch?v=wQnzb0Jj074.
Infelizmente, a incorporação do vídeo foi desativada.


Marian Anderson "He's Got The Whole World in His Hands"



Agora uma contribuição do meu amigo Henrique Marques Porto. Marian Anderson cantando um "lied" de Schubert. No final, o autor do vídeo, nas palavras do Henrique, "colocou uma imagem mostrando a extensão do registro de Anderson, bem quando ela desce a uma nota gravíssima, já nos registros masculinos e abaixo dos tenores".


Der tod und das Mädchen-Marian Anderson




Outro grande destaque contemporâneo no registro dos contraltos, é a polonesa EWA PODLÉS(1952). Ewa, dotada de grande agilidade vocal, também é capaz de atingir notas agudas de soprano.


Ewa Podleś canta "Cruda sorte! Amor tiranno!", da ópera "L'Italiana in Algeri" de Rossini, em 1998.




Ewa Podleś interpreta "Voce di donna o d'angelo", de La Gioconda de A. Ponchielli (mais uma contribuição do meu consultor Henrique Marques Porto) :-)




KATHLEEN MARY FERRIER (1912-1953)

A ex-telefonista inglesa, em apenas 41 anos de vida, adquiriu a reputação de uma das maiores contraltos da história do canto lírico contemporâneo. Carreira infaustamente interrompida, na plenitude da sua maturidade física e vocal, por um câncer no seio. Ferrier teve uma vida curta porém intensa, com lances altamente dramáticos. Gravemente doente, fez questão de cantar até o fim. Em Fevereiro de 1953, subiu ao palco do Covent Garden para repetir o sucesso que tinha conseguido dias antes. Quando cantava, um osso de uma das pernas, afetado pela metástese, se partiu. Saiu em maca e a sua carreira ali havia terminado. A vida chegaria ao fim poucos meses mais tarde.


KATHLEEN FERRIER Canta "Blow the wind southerly", a capela.




Kathleen Ferrier, "Amici quel lamento...", de Orfeo Ed Euridice, de Gluck




No próximo capítulo, vamos abordar os mezzo-sopranos. Veremos se há muita diferença entre eles e os contraltos. Aguce os ouvidos.

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