Palestra de Fernando Portela nesta quinta-feira, 31.01, às 20h. Na Mundo Mundano: rua Mourato Coelho, 25, Pinheiros, São Paulo

“O impulso de se expressar por meio da escrita é uma condição atávica do ser. Está no DNA da humanidade, vem dos desenhos nas cavernas e, após, da impressão dos papiros. É ancestral a produção humana de diários, relatos, pensamentos, poemas, cartas de amor. Ou contos, romances, enciclopédias. Escrever é do homem; é hereditário, genético; fado, destino”, diz Fernando Portela. Híbrido de escritor e jornalista, com mais de 40 anos de produção textual em ficção e reportagem, ele propõe uma reflexão a respeito da escrita, tomando por gancho a ascensão das oficinas literárias.

Nos Estados Unidos, os cursos de escrita se tornaram uma realidade desde a Segunda Guerra Mundial, esparramando-se por países da Europa e de outros continentes e, há cerca de quatro décadas, no Brasil. São inúmeras as oficinas oferecidas hoje no país e a prática – que já foi muito questionada e mesmo atacada – está consolidada. Milhares de pessoas passaram a expressar suas ideias e pensamentos, depois de frequentar a sala de aula de escritores que se dedicam a compartilhar seu conhecimento. Existe também uma enorme bibliografia do assunto, que auxilia no aprendizado.

Se o termo oficina literária é relativamente recente, a prática é tão antiga quanto a literatura. Desde sempre, mesmo escritores consagrados submetem textos à análise de seus pares. Os iniciantes precisavam trilhar caminho pedregoso na tentativa de ter seus originais avaliados por quem entende do riscado. As oficinas vieram a contribuir decisivamente, institucionalizando essas leituras e organizando as tarefas de quem quer se expressar através dos mais diversos gêneros literários, como a crônica, o jornalismo literário, o conto, a novela, a poesia, etc.

Para Fernando Portela, a expressão, o potencial para escrever é pessoal e intransferível, assim como para pintar ou esculpir, “está dentro de cada um”, e comenta: “as oficinas são o melhor começo para que se chegue ao êxtase pessoal em que pode se transformar a arte de construir e divulgar pensamentos”. Logicamente, estamos nos referindo, em especial, ao contingente de pessoas alfabetizadas e que já nutrem um desejo pela escrita. Mas mesmo entre a população desfavorecida e carente, esse desejo muitas vezes também se manifesta. Basta observar as pessoas sem instrução que recorrem a serviços assistenciais para transmitir seus sentimentos a outrem de forma clara, como jamais conseguiriam sozinhas – em São Paulo, o programa “Escreve Cartas” já auxiliou milhares de pessoas nessa tarefa aparentemente tão singela.  

Tarefa racional e mensurável 

Portela ministra uma Oficina de Jornalismo Literário e foi em muitos anos de seu trabalho como editor e formador de repórteres que constatou como a escrita pode, sim, ser ensinada, orientada, e aprendida. “Em redação de jornal chegam jovens repórteres já com alguma tarimba e outros absolutamente despreparados. Não tem saída: é preciso que todos escrevam, ou se cai numa grande crise de produção. Eu, como editor, mandava o candidato pra rua com uma pauta: ouvir fulano, ver o que acontece em determinado evento, relatar um episódio de rua, etc. Na volta, trabalhava em cima do que escreviam. E ia moldando. Ou seja: eu possuía uma referência, algo mensurável com que trabalhar o texto, que é a reportagem, ou a captação da realidade visível, objetiva, com direito a uma ou outra digressão subjetiva. Com essa referência, é possível, sem a menor dúvida, preparar alguém que escreva. Repito: alguém que escreva. Não estou dizendo que é possível criar um escritor renomado, mas fazer sim com que alguém, dentro de uma regra mensurável, consiga produzir algo legível por escrito”, avalia. Daí pra frente cabe a cada um investir o seu tempo no ofício, que, como dizem mesmo os escritores com invejáveis obras, é feito muito mais de transpiração do que de inspiração. Portela conta que, esta semana, um dos seus ‘coordenados’ (a expressão ‘aluno’ o assusta um pouco), acaba de lançar um livro na praça: “Acho que fiquei tão feliz como ele”, diz.

O jornalista e escritor vai mais longe e propõe a visão de uma oficina do gênero, inclusive, como passo decisivo para a reversão de expectativas no setor cada vez mais sensível da educação brasileira. “A exigência geral de boa redação, com notas de corte cada vez mais altas, transformou-se em rotina nos meios educacionais e empresariais brasileiros, nos últimos tempos. É compreensível: nosso ensino deixa muito a desejar, todos sabemos, a ponto de nos constrangermos quando comparados a outros países da América do Sul – quanto mais os da Europa. As pessoas, em geral, não sabem escrever corretamente. Nem ortografia nem raciocínio. Podem ser até criativas, algumas delas, mas, ainda assim, não conseguem organizar sujeitos, verbos e predicados. Para piorar essa situação, as tecnologias do mundo virtual, na última década, fizeram com que a leitura aconselhável e o esforço de redação virassem colagens de Google, transformando em regra um axioma bem-humorado das redações dos jornais de antigamente: ‘nada se cria; tudo se copia’. Escrevia-se pouco, no Brasil; agora não se escreve quase nada. No entanto, nossos jovens precisam passar no Enem e outros testes de avaliação; precisam avançar com segurança nos seus cursos universitários; ou subir na profissão, ascendendo a novas condições de trabalho; ou, ainda mais difícil, têm de competir no mundo globalizado – no qual os estrangeiros, do trainee ao executivo, sabem escrever – todos eles – mais do que o mínimo. Alguns, em várias línguas. Escrever, portanto, hoje em dia, é fundamental para o progresso individual e coletivo – e, diríamos até, para o progresso do nosso País.”

O livro digital como novo formato para o gênero

São duas as origens do jornalismo literário no Brasil: revista Realidade e Jornal da Tarde, do qual Portela foi um dos fundadores e autor de grandes reportagens da época gloriosa do diário, como “Guerra de Guerrilhas no Brasil, a Saga do Araguaia”, várias que migraram para os livros. “A Realidade era uma revista de formato tradicional – o literário estava no texto. Já o JT incorporou a filosofia e a psicologia Gestalt na comunicação. O layout e o texto eram harmônicos, incorporados. O editor desenhava as próprias páginas para adequá-las aos conteúdos. Os conteúdos, por sua vez, passaram a usar a técnica literária pela facilidade de atingir a maioria dos leitores, afinal leitores de ficção, boa parte culta. Textos e páginas surgiam a partir de uma concepção fenomenológica do mundo. Não havia regras rígidas. Era a liberdade total de criação, dirigida a um ser subjetivo chamado leitor, um ente que – imaginávamos – estava sedento de informação, porém interpretada; de uma boa diagramação, ou apresentação do produto jornal, mas desde que fosse artística. O meio, o jornal, era, de fato, a mensagem. Tudo isso redundou em um elenco infindável de soluções inteligentes forma-conteúdo, integradas, diretas, lembrando, em certos casos, criações publicitárias”, explica.

Mundo afora, o gênero encontrou formato receptivo também nos livros, com histórias reais contadas em enredos tão fantásticos que poderiam ter se originado de pura imaginação. Desde Truman Capote, com seu famosíssimo “A sangue frio”, passando por Gay Talese, até Nelson Rodrigues e João do Rio, e tantos outros escritores, de diversas nacionalidades, que consolidaram o jornalismo literário. Nos dias ainda mais atuais, com a realidade virtual, um novo formato promete abrigar o gênero: o livro digital. Já consolidado nos Estados Unidos, começou a abrir verdadeiro espaço desde o final do ano passado no Brasil. Roberto Feith, diretor-geral da Editora Objetiva e presidente do conselho da DLD (Distribuidora de Livros Digitais, que representa Objetiva, L&PM, Record, Sextante, Rocco, Planeta, Novo Conceito e a canadense Harlequin), declarou ao jornal Valor Econômico (SP/28.11.2012) que a expectativa é de mudanças não só no mercado como também no perfil de leitor e, consequentemente, no padrão de consumo. “Teremos a ascensão de gêneros como ficção científica e mistério e uma maior oferta de textos como ensaios e grandes reportagens. São textos que precisam de mais espaço do que o disponível em jornais e revistas e de uma publicação mais ágil do que as editoras conseguem. Problemas superados com o livro eletrônico (...). No formato digital, é possível levar esse tipo de obra para o público em um intervalo de algumas semanas ou um mês." 

 

De ficção e de realidade

Fernando Portela é autor de textos que são uma espécie de modelo de jornalismo literário, como a reportagem do translado dos ossos de D. Pedro I ao Brasil, em 1972. “Fiquei em um navio de luxo, o Funchal, durante 12 dias de luto e escrevi literalmente sobre o nada.  Ou melhor, joguei o ‘veneno’ que pude em textos aparentemente fúteis sobre uma viagem ridícula, entre duas ditaduras, que poderia ter sido feita em nove horas de avião”, comenta.

O interesse maior do escritor/jornalista sempre foi o uso das diferenças de linguagem, “das possibilidades de cambiar, de experimentar, de misturá-las, ou de usar atributos de umas para aperfeiçoar pontualmente outras, essas coisas”, diz. Sempre experimentando, procurando  inovar, Portela fez reportagens que são contos, sem que, em momento algum, tenha mudado uma frase de um entrevistado para “melhorar” o texto. “O fim do cinema no interior de São Paulo, matéria que escrevi para o JT, é um conto”, comenta. No caso, em Vera Cruz (o repórter escolheu a cidade a dedo). É linguagem literária, construção típica de ficção, e todos os personagens reais. “Claro que meu jeito de ver o mundo dava o tom. Lembro-me que, ao descrever o prédio estropiado do velho cinema ‘morto’, eu usava a expressão ‘cimento-ectoplasma’. Os leitores gostavam muito desse jeito de fazer jornal. Escreviam cartas apoiando, ou o trabalho em si ou o atrevimento de fazê-lo”.

Da reportagem policial, Portela também extraiu muita ficção e em vários contos abordou a violência, até depurar a linguagem. “Os meus primeiros livros, segundo algumas opiniões, eram quase insuportáveis, de tão violentos, pingavam sangue. Ou seja, o narrador estava chocado. Com o tempo, acredito, essa visão foi-se depurando e talvez eu tenha começado a associar criminalidade com o cotidiano do Brasil, a entendê-la como ‘cultura’. O criminoso passou a ter, primeiro, cara, depois, sentimentos. Minhas histórias, hoje, mostram não exatamente uma visão tragicômica da violência, mas uma visão mais humana (que inclui a tragicomédia) de uma sociedade onde a violência se enraizou”. 

Para ler mais:

Blog de Fernando Portela

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