por José Geraldo Couto

 

O documentário “Vou rifar meu coração, de Ana Rieper, abre com a câmera percorrendo uma estrada do nordeste brasileiro, ao crepúsculo. Na trilha, a voz de Nelson Ned parece se dirigir diretamente à plateia quando canta: “Quem é que não teve na vida um problema de amor, uma desilusão?” A câmera se detém então num posto de gasolina, onde um frentista conta seu drama amoroso: ao chegar em casa uma noite, não encontrou a mulher amada, que “foi embora com outro rapaz”.

 

 

 

 

É um começo magnífico de um filme idem. Daí para a frente, o documentário desenvolverá generosamente as linhas contidas em potência nessa abertura: imersão na paisagem física e humana; respeito e carinho pelos personagens e curiosidade por sua história; tentativa de encontrar o universal na experiência particular. E o veículo disso tudo é, evidentemente, a música. A música popular romântica, geralmente chamada de brega – e não sem razão.

 

 

Brega, no nordeste brasileiro, é o bordel, o puteiro, a “zona”. No filme de Ana Rieper, o ambiente é mostrado como origem e local de difusão de grande parte desse tipo de música, e também como um de seus temas recorrentes, sintetizado no clássico “Vou Tirar Você deste Lugar”, de Odair José. O próprio cantor e compositor aparece contando a dificuldade que teve para conseguir gravar a canção. “Muitos homens bem casados frequentam a zona, mas no domingo vão à missa, mantêm uma fachada respeitável, e não admitem que um cara diga numa música que casou com uma puta.”

 

 

O bordel, o bar de beira de estrada, o salão de barbeiro, o circo, o karaokê, mas também as casas de família e os locais de trabalho – esses são os cenários onde essa narrativa múltipla se desenrola.

 

 

 

O assunto central, como não poderia deixar de ser, é a “dor de corno”, com vários personagens narrando suas histórias de traição e abandono. A música não se limita a “ilustrar” esses pequenos dramas e comédias, mas ajuda a contá-los. Como dizem vários entrevistados ao longo do documentário: “Essa música é a história da minha vida”.

 

 

 

 

A identidade entre o que é cantado e o que é vivido acaba sendo o grande trunfo do filme, aquilo que o move do início ao fim. E isso vale tanto para os entrevistados anônimos como para os astros desse tipo de música: Amado Batista, Wando, Lindomar Castilho, Agnaldo Timóteo, além dos citados Nelson Ned e Odair José. Todos – até mesmo o egocêntrico e ressentido Timóteo (“Sou muito maior do que Roberto Carlos”) – dão depoimentos tocantes e esclarecedores, revelando o quanto estão próximos do universo sentimental de seus ouvintes.

 

 

Impossível ficar indiferente a uma fala como a de Nelson Ned: “Eu tinha tudo para dar errado. Feio, baixinho e pobre. Mas Deus me levantou do pó. Literalmente: do pó da cocaína e do pó da terra. Eu sou um milagre.”

 

 

O jogo entre os depoimentos tem uma argúcia, digamos, subterrânea. Lindomar Castilho fala sobre o “ciúme exacerbado” que leva um homem à loucura. O depoimento seguinte é o de Amado Batista. Este discorre sobre uma canção sua em que um homem explica, em primeira pessoa, por que matou a mulher. A canção ganha mais força e sentido quando sabemos que Lindomar passou sete anos na cadeia depois de matar a tiros a ex-mulher, a cantora Eliane de Gramond.

 

 

Sem folclore ou paternalismo

 

Na condução e na edição das entrevistas, seja dos anônimos, seja dos famosos, há um respeito igual. A diretora não folcloriza nem paternaliza ninguém. Simplesmente nos dá a ouvir e ver o que eles têm a dizer.

 

 

Outra virtude rara do filme é o equilíbrio entre humor e drama, que muitas vezes convivem na mesma cena. É o caso, por exemplo, da história de Osmar Farias, ex-prefeito de Monte Alegre (SE), que vive quatro dias da semana com uma esposa e três dias com outra. Com as duas tem um punhado de filhos chamados Osmarino, Osmarilda e por aí afora. “Quando eu comecei com isso, uns trinta anos atrás, não era comum um homem ter duas mulheres. Não é fácil, não. Elas nunca estão contentes. É um inferno em vida, visse?”, diz o homem. A câmera se desloca para o lado e enquadra sua esposa primeira e “oficial”, que diz para a diretora: “Se é ruim pra ele que é homem, imagina pra mim. Você é mulher, você sabe”. Uma cena singela que diz mais que qualquer discurso sobre nossa arraigada cultura patriarcal.

 

 

Vejo que me estendi, mas acredite: o filme merece. E praticamente só falei de seu “conteúdo”, descuidando de suas sutilezas propriamente cinematográficas. Um exemplo: enquanto alguém conta ou canta algum amor que acabou, a câmera, como quem não quer nada, aproxima-se de uma árvore e percorre um galho em cuja extensão estão entalhadas as palavras “Fabrício e Andressa”. Isso não é jornalismo, isso não é (só) registro documental. Isso é cinema.

 

 

 

 

 

 

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Fonte:

- Blog do IMS (Instituto Moreira Salles)

- As imagens que ilustram o post: cenas do filme “Vou rifar o meu coração”.

 

 

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