O Werther de Massenet (1842 - 1912) é baseado na novela popular de Johann Wolfgang von Goethe, “Os Sofrimentos do Jovem Werther” (Die Leiden des jungen Werthers), escrita em 1774. Goethe escreveu a novela em quatro semanas, durante um arrebatamento repentino de inspiração, quando tinha apenas 24 anos. Embora Goethe já possuísse o reconhecimento público por seus versos líricos, ensaios e peças teatrais, foi “Os Sofrimentos do Jovem Werther” a obra que o impulsionou à fama internacional. Com sua novela, Goethe solidificou sua posição como líder do movimento romântico alemão conhecido como 'Sturm und Drang' ou “Tormenta e Paixão”.


A novela de Goethe é, em grande parte, autobiográfica, baseada em suas próprias experiências com o amor não correspondido. Goethe chegou a Wetzlar (lugar não mencionado onde é ambientada a novela), como um advogado de 22 anos. Mas o jovem escritor passava mais tempo lendo Homero e filosofando com amigos que trabalhando. Poucas semanas depois, conheceria Charlotte Buff, de apelido “Lotte”, em um baile em uma pequena aldeia vizinha. Ela se parecia muito com a Charlote retratada na novela e na ópera: uma moça tranquila e alegre que se havia encarregado de cuidar de seus nove irmãos e irmãs menores depois da morte trágica de sua mãe. Ele não sabia que Charlotte estava comprometida para casar com Johann Christian Kestner, um jovem admirável e bem sucedido. Apesar do duro golpe e da decepção, Goethe tornou-se amigo de Lotte y Kestner, passando um verão idílico –embora patético - com o casal. Mas apesar da dor que lhe causara o compromisso de Lotte, nunca teve mais do que palavras de admiração para com Kestner. Finalmente, quase ao fim do verão, Lotte disse a Goethe que não devia esperar nada dela, exceto sua amizade. O jovem escritor deixou o povoado em setembro, mas continuou correspondendo-se com o casal. Charlotte e Kestner casaram-se em abril do ano seguinte.

O suicídio de Werther foi inspirado pelo suicídio verídico de Karl Wilheim Jerusalem, um conhecido tanto de Goethe como de Kestner. Tal como o Werther do livro, Jerusalem era um pintor taciturno que apreciava grandes caminhadas solitárias. Era Jerusalem quem exibia o vestuário “ao estilo britânico” de Werther – casaco azul até os joelhos, colete de couro amarelo, calças de montaria e botas altas.

Diziam as más línguas do povoado que ele amava uma mulher casada que o havia rejeitado. Jerusalem havia enviado uma nota a Kestner, informando-o de que faria uma longa viagem e que necessitava suas pistolas emprestadas. Kestner, alheio ao fato de que Jerusalem planejava cometer suicídio, emprestou-lhe as pistolas. O criado de Jerusalem o encontrou morto na manhã seguinte. A notícia de sua morte causou forte impacto em Goethe; o escritor se identificava intensamente com o amor não correspondido e com o consequente desespero de Jerusalem.

“Os Sofrimentos do Jovem Werther” foi escrito como uma série de cartas de Werther a seu amigo Wilheim. Tais cartas descrevem, em sequência , os dezoito meses de amor enlouquecido e não correspondido de Werther por Lotte. Quando Werther se torna tão insensato, a ponto de não poder seguir trocando correspondência, Goethe assume o papel de editor e descreve os sentimentos íntimos do personagem à medida em que este se aprofunda num abismo em direção ao suicídio.

O livro influenciou grandemente o público. Por toda a Alemanha jovens começaram a imitar o estilo de vestir de Werther. Os românticos escreviam poemas inspirados na história; pinturas e litografias de Charlotte chorando na tumba de Werther tornaram-se comuns. Wetzlar começou a aparecer em guias turísticos que mostravam o túmulo de Jerusalem e outros pontos de referência mencionados no livro. Napoleão afirmava ter lido Werther sete vezes.

Apesar de não existir evidência, a lenda romântica conta que “Os Sofrimentos do Jovem Werther suscitou uma onda de suicídios através da Europa. A novela certamente era vista como perigosa pela censura em Leipzig ou na Dinamarca, onde foi proibida. Ainda que Goethe não se considerasse responsável pelo suposto aumento de suicídios, em uma edição posterior acrescentou um poema ao final do relato, no qual o fantasma de Werther sugeria ao leitor que não seguisse seu exemplo.
Massenet amava o livro de Goethe e afirmava que escrever “Werther” havia sido uma das experiências mais fascinantes de sua carreira. Chegou a declarar: “Em ‘Werther’ coloquei toda minha alma”. O compositor triunfou verdadeiramente ao captar a essência da obra prima da literatura alemã em uma ópera francesa – uma façanha excepcional.

Ainda assim, a ópera inclui algumas diferenças relevantes em relação à novela de Goethe. Por exemplo: na novela não está claro se Charlotte também ama Werther; na versão de Massenet, Charlotte sofre tanto quanto Werther. Na novela, Werther morre só, sem a oportunidade de voltar a ver sua amada; a ópera de Massenet contém um ato completo em que os amantes declaram seu amor recíproco momentos antes da morte de Werther. Massenet também desenvolveu o papel de Sophie, a radiante irmã de Charlotte.

Werther (tenor) é um jovem poeta, sensível e impressionável, de natureza fogosa. Na famosa ária 'Pourquoi me reveiller', recita un poema de Ossian (um poeta fictício), em um solilóquio próprio de uma alma atormentada e incompreendida a caminho da destruição.
(Audición y Apreciación Musical)



Marcelo Alvarez - "Pourquoi me reveiller?"



Dueto de Werther e Charlotte (Alvarez/Garanca)
Vienna, Fevereiro 2005; Jordan (cond.)




Vejamos agora mais três emocionantes interpretações da famosa ária de Werther. Cada um no seu estilo, mas todos com grande vigor e sensibilidade artística. Compare e escolha o que mais lhe agrada.


Nicolai Gedda - Pourquoi me reveiller
(Interpretação clássica, elegante, de um dos maiores intérpretes de Werther na história da ópera)



Pavarotti- Pourquoi Me Reveiller (1986)
(Pavarotti não domina o francês com perfeição, mas a emoção como se entrega à interpretação da ária é impressionante)



Rolando Villazon - Pourquoi me reveiller (Nice, 2006).
(show de arrebatamento e potência vocal)

Exibições: 800

Comentário de Henrique Marques Porto em 23 setembro 2009 às 20:17
Oscar,
Grande lembrança! E a matéria ficou ótima! Tão boa que pouco tenho a acrescentar. Quem ainda não leu Goethe ou não conhece a ópera de Massenet vai com certeza se interessar pelo Wherther.
Li o livro numa edição em que o título era "As tristezas do jovem Wherther". Não sou nenhum Napoleão, mas li o "Wherher" umas quatro vezes. Ao final da primeira leitura já emendei direto na página inicial para entender bem a coisa.
Com este livro Goethe fundou a forma romance como a conhecemos hoje. É, portanto, um livro histórico. A narrativa através da troca de correspondência funciona extremamente bem e deve ter facilitado o trabalho de Massenet e dos libretistas Edouard Blau, Paul Milliet e George Hartmann. Leituras aliás -de cartas, poemas e bilhetes- não faltam na ópera.
Já li em mais de uma fonte que o romance realmente teria provocado uma onda de suicídios entre os jovens europeus. O país mais afetado teria sido a Bélgica, onde curiosamente a ópera de Massenet caiu no gosto do público. O nosso Benito Maresca fez muito sucesso naquele país cantando o "Wherther" nos anos 70 e 80.
O romance de Goethe e a ópera de Massenet é um dos poucos casos de integração plena entre a literatura e a música. Semelhante talvez só o entendimento entre Shakespeare e Verdi, no "Otello" e no "Falstaff" ("As Alegres Comadres de Windsor"). Quando li o "Wherther" já conhecia bem a ópera. A música veio antes. Pois, a leitura do livro acrescentou pouco aos sentimentos que já havia encontrado na música de Massenet. Como você lembrou, os libretistas não foram fiéis ao texto original quanto à Charlotte. Compreensível. Afinal, Massenet precisava, digamos, de um efeito mais teatral para o final da ópera. No entanto, o clima do romance é o mesmíssimo da ópera!
Jules Massenet era um mestre na arte do contraste. Para acentuar o tormento apaixonado de Wherther -que na ópera evolui para a tristeza, o desespero e a morte- Massenet usa a leveza quase trêfega de Sophie e a inocência das crianças. Sophie interfere nos momentos de maior angústia de Wherther e Charlotte. "Va! Laisse couler mes larmes", cantado por Charlotte, é a meu juízo uma das mais belas páginas dessa ópera. Wherther, por sua vez, morre ao som de cantos festivos de Natal das crianças. A vida, alheia à tragédia, continua. É como se Massenet tivesse colocado um fundo branco para destacar as tonalidades escuras do drama.
"E não há história mais triste que a de Julieta e seu Romeu" -escreveu Shakespeare. Houve outra, a do também jovem Wherther e sua Charlotte.
abraço
Henrique Marques Porto
Comentário de Henrique Marques Porto em 24 setembro 2009 às 1:58
Oscar,
Uma curiosidade sobre o Wherther. A ópera estreeou em 1892 e a premiére foi cantada em alemão. Mas em 1902 Massenet escreveu uma versão da ópera para barítono no papel principal. Não sei o que o motivou -se foi pelo gosto que tinha pelas vozes graves ou se atendeu ao pedido de algum barítono. O resultado é bastante interessante. Confira esse Wherther para barítono com o ótimo Thomas Hampson. A igualmente ótima Susan Graham é a Charlotte. A versão em concerto foi realizada no Théâtre du Châtelet em 2004. Michel Plasson rege a Orchestre Nationnal du Capitole de Toulouse. Boa oportunidade para ver a ação da orquestra, que é importantíssima nessa ópera, ainda mais com Plasson regendo.
abraço
Henrique Marques Porto

Werther - versão para barítono - "Pourquoi me réveiller" e dueto

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