O Henrique Marques Porto já me havia advertido que, ao tratar dos sopranos, eu botaria minha frágil embarcação para navegar no mais revolto dos tempestuosos mares do canto lírico. Aqui adentramos o mundo das grandes divas, das estrelas fulgurantes, dos egos gigantescos. Nos posts anteriores (embora selecionar vozes seja sempre difícil, escolher estas em detrimento daquelas), ainda consegui driblar algumas dificuldades, já que meu intuito é muito mais de exemplificar timbres e tessituras do que de exibir cantores. Agora, porém, a tarefa torna-se quase impossível. Fazer uma seleção de sopranos é muito mais complicado do que escalar a melhor seleção brasileira de futebol de todos os tempos.

Entro nesse Mar Tenebroso de forma cautelosa, com poucas velas desfraldadas, agarrando-me firmemente ao leme para não perder o rumo. Prossigamos aos poucos, gradativamente, piano, piano si va lontano.
Por isso, iniciamos enfrentando talvez a figura mais forte desse universo. Uma diva cuja presença ofusca praticamente as demais na categoria dos sopranos. Trata-se de Maria Callas, uma personalidade ímpar, cantora que marcou de forma indelével a história da cena lírica, e cuja vida teve um enredo ainda mais dramático do que o de seus grandes personagens na cena lírica.

Na pesquisa de dados sobre esse fenômeno, deparei-me com um artigo que me pareceu muito bom como esboço de um retrato dessa grande artista. Infelizmente, não consegui descobrir seu autor, apenas o link da matéria que, curiosamente, estava inserida em um site que já saiu do ar.
Para não reinventar a roda, transcrevo o artigo, dando o devido crédito ao link que o contém e torcendo para que seu autor ainda venha a aparecer e se identificar.


MARIA CALLAS

Se você ama a música a ponto de servi-la humildemente, o sucesso acontecerá automaticamente – Maria Callas


"Uma voz cortante, poderosa, capaz de levar o ouvinte a abismos de paixão ou de dor lancinante. Maria Callas é a emoção superlativa. Uma diva única, quase força da natureza. Quem viu seus olhos expressivos, a visceral interpretação de suas Violetas, Rosinas, Turandots, Lucias e Normas jamais voltará a se conformar somente com uma bela voz de soprano. A indomável Callas, geniosa, intempestiva, era regida pelos sentimentos. Em sua pele, nenhum personagem de ópera era ficcional. O sangue fervia, a dramaticidade explodia, puro êxtase. Butterfly era um lamento nunca ouvido, Magdalena a voz da emoção, e Violeta morria de olhos abertos, encarando uma platéia atônita e chocada.

Ela encantou Pasolini, Zeffirelli e Visconti, emudeceu poderosos e seduziu milhões. Era a Grande Callas, La Divina Callas, sobrenome que nem era seu e que criou fazendo um anagrama com o nome do maior templo da ópera: o teatro Scala, de Milão. Paradoxalmente, essa mulher que fazia de seu canto a expressão máxima de todos os sentimentos humanos, foi desprezada pelo único homem que amou. A crueldade do armador grego Aristóteles Onassis pode ser medida por uma frase proferida quando a voz de Maria já declinava, em que comparava sua poderosa voz a “um apito que você traz na garganta”.
Boa parte da atração que Maria Callas exerce sobre o grande público tem raízes fincadas exatamente em sua biografia, permeada por espetaculares feitos e por escândalos alimentados pela mídia. Veja-se o caso do milionário Onassis.

No auge da fama, Maria sofreu tremendo assédio por parte do armador grego, que era casado com Tina. Presentes luxuosos e toda sorte de mimos foram usados por Onassis para convencê-la. Ela capitulou e mergulhou em uma relação atormentada, onde foi submetida a humilhações, como o desprezo de Christina, a filha de Onassis, ou o momento em que teve de depor em um tribunal americano sobre sua participação na separação do casal Onassis. Seu divórcio de Giovanni Battista Meneghini foi explorado à exaustão pelos jornais, suas explosões de fúria ficaram registradas pelos fotógrafos, sua intimidade foi devassada.

O mundo acompanhou a grã sacerdotisa do canto quando ela descobriu amor e sexo aos 36 anos e então desejou deixar de ser deusa e assumir uma vida mais pacata e caseira: “Só desejo um marido, filhos e um cachorro”, declarou.
Aristo - a forma carinhosa com que Maria tratava Onassis na intimidade – coroou sua passagem pela vida de Callas trocando-a por Jacqueline Kennedy quando esta enviuvou do presidente americano. Repetiu com Jacqueline o assédio que havia feito a Maria. O trauma emocional de Callas foi proporcional ao impacto causado pelo novo casal Onassis

Outra façanha de Maria refere-se à silhueta. Da soprano gordinha, em poucos meses ela se transformou em uma sílfide e abriu um debate acalorado sobre o impacto do emagrecimento sobre sua voz. Esse episódio é apontado como uma das maiores provas de sua quase legendária persistência, uma força de vontade assombrosa que a atraía como ímã para todos os desafios, tanto na carreira artística como na vida íntima.

Mas, além da curiosidade que despertava e dos escândalos que protagonizava, Maria era uma artista fulgurante. Nada em sua biografia se compara ao poder encantatório de sua voz. A gravação da sua mais famosa apresentação da Norma, de Vincenzo Bellini (1801-1835), com a orquestra do Scala, regida pelo maestro Tullio Serafin, é um ícone da história da ópera pela emoção e dramaticidade que emergem da voz de Maria. Norma foi o papel que Callas mais representou: 92 vezes. A ópera toda – mas principalmente a ária Casta Diva – consolidaram sua reputação e sua fama. Curiosamente, a seu amor pelo canto deve-se o resgate de Norma, que habitava um certo limbo, bem como algumas óperas de Rossini, a quem emprestou um sopro de graça e leveza.

Inspirada pela condução segura de Serafin, Maria fez mais: subverteu as regras até então aceitas no canto lírico e ousou desconstruir a exagerada especialização que se instalara. Os sopranos, em sua época, estavam subdivididos em dramático, mezzo, coloratura, ligeiro e spinto. Ninguém ousava romper a barreira. Maria fez isso, e logo na estréia em Verona, em 1947, aos 24 anos. Contrariando tudo o que até se acreditava, cantou na mesma semana Tristão e Isolda, de Richard Wagner, Turandot, de Giaccomo Puccini, e voltou a Wagner no papel de Brunnhilde. Um verdadeiro feito o de cantar – e simultaneamente - o repertório de vários tipos de soprano.

Décadas depois, em uma das famosas master classes que Callas deu na Juilliard School of Music em Nova York, em 1971-72, ela sentenciou: "Hoje só se fala em baixo profundo, baixo cantante, barítono-baixo ou soprano ligeiro, soprano spinto, soprano disso, soprano daquilo. A cantora é soprano, e basta! Um instrumentista faz os baixos e agudos. Do mesmo modo, um cantor deve cantar em todas as tessituras".

Sua interpretação da Tosca, de Giacomo Puccini (1858-1924), também entrou para a história do bel-canto, principalmente na apresentação que fez no Scala sob a regência de Victor de Sabata. Floria Tosca foi representada 39 vezes por Callas, mas nada se compara com a majestosa apresentação de 1953, em que Maria contracena com dois outros cantores respeitáveis: o tenor Di Stefano e o baixo Tito Gobbi.
Curiosamente, a Tosca ocupou especial lugar em sua vida. Maria - nascida em Manhattan, filha de gregos - estreou na Ópera Nacional de Atenas em 1942 exatamente com a Tosca. E foi com ela que encerrou sua carreira em 1965, em Londres.

Maria morreu sozinha, em seu apartamento de Paris, em 16 de setembro de 1977, vítima de um infarto. Enquanto o enterro percorria a rua Georges Bizet, centenas de parisienses que choravam saudaram a passagem do esquife com a saudação que emocionava Maria na saída dos teatros: “Brava Callas!, Brava Maria!”. Na primavera de 1979, suas cinzas foram lançadas no Mar Egeu.”



Tosca, Second Act, Vissi d´arte at Covent Garden (com Tito Gobbi)





Maria Callas is Maddalena "La Mamma Morta"

Andrea Chenier - Umberto Giordano - Gravado em setembro de 1954 no Watford Town Hall,
Philharmonia Orchestra sob a regência de Tullio Serafin




MARIA CALLAS - "Suicidio!" from "La Gioconda" by Amilcare Ponchielli.





Casta Diva Vincenzo Bellini NORMA





Maria Callas - Puccini - Madama Butterfly - Un bel di, vedremo




Maria Callas: Senza Mamma (Puccini) Suor Angelica - Puccini



Maria Callas Adriana Lecouvreur: Io Son L'Umile Ancella




Maria Callas, O Mio Babbino Caro T no Royal Festival Hall, London, 26 Novembro 1973

Exibições: 1028

Comentário de Henrique Marques Porto em 20 junho 2009 às 1:13
Oscar,
Pedi licença às nossas queridas vedetes do Teatro de Revista para tratar desse outro palco fascinante que é a ópera. Anteontem, com atraso, já tinha preparado a minha contribuição para o capítulo das mezzos quando o computador congelou na hora em que estava copiando um vídeo da Giulietta Simionato cantando o dueto da Cavaleria Rusticana com o tenor Angelo Lo Forese -vídeo de 1961 com bons som e imagem. Angelo é um bom tenor que aos 89 anos ainda canta muitíssimo bem. Veja no YouTube. Perdi todo o post. Fiquei na bronca, mas tudo bem.
Perfeito você ter começado o capítulo das sopranos dramáticos por Maria Callas. É uma voz isolada, absolutamente diferenciada. Um fenômeno vocal que escapa às classificações e não comporta comparações de qualquer tipo. Depois dela, aí sim dá para continuar com mais facilidade a navegar por esse mar de Divas.
Maria foi quase uma cantora total, mas acima de tudo foi uma voz dramática. Dramática como poucas vezes ouvimos e dificilmente tornaremos a ouvir. Não apenas a voz. A personalidade era dramática. Não foi por acaso que ela praticamente se apropriou de alguns personagens. Não há Tosca como a de Maria! Como não há Norma igual a dela. Ou Gioconda, Medea e algumas heroínas verdianas, como Lady Macbeth ou a Leonora da Força do Destino. Para citar apenas estes. É claro que existiram e ainda existem cantoras sensacionais que brilharam e brilham nestes e em outros papéis -de Rosa Ponselle (o "Caruso de saias") a Anna Netrebko- e que nos comovem com suas interpretações. Mas, Maria Callas é um caso único na já longa história do canto e da ópera. A sua Lucia -papel para soprano coloratura- é dramática! Ela fez com essa ópera algo semelhante ao que Caruso fez com o Elixir do Amor. Caruso cantava "Una Furtiva Lagrima" a plenos pulmões com aquela voz quase de barítono. Os outros tenores o seguiram. Conta-se que Maria Callas ria ao ouvir sopranos como Amelita Galli-Curcci, por exemplo, e se perguntava: "-Como é possível cantar a "Lucia", a "Sonnambula" ou "I Puritani" com uma voz de ratinha?". A ser verdade, foi cruel no comentário. Mas eu sou um que concordo com ela. "Ah, non credea mirarte" é ária para uma voz como a da Callas. Apenas uma coloratura legítima me convence nessa belíssima ária, e duvido que Maria risse dela: Toti Dal Monte.
Muitos biógrafos afirmam que ela se identificava particularmente com as heroínas fatais, traídas ou sofridas por amores frustrados. E dizem que essa identificação tinha a ver com o relacionamento que teve com o canalha do Onassis. Segundo eles, cantando a Tosca, não era a Floria Tosca quem matava Scarpia no segundo ato da ópera de Puccini. Era a própria Maria matando Onassis! Um evidente exagero, já que ela se destacou nesses papéis muito antes de conhecer o milionário grego, para quem a Callas foi apenas um brinquedo e um cartão de visitas para penetrar as altas rodas mundanas que não convidavam o nouveaux riche do mediterrâneo para os seus regabofes.
A verdade é que Maria vivia intensamente seus personagens. Deixava de ser ela própria para se tornar Tosca, Aída, Leonora ou Madalena. Muitas outras foram grandes, mas eram sempre elas próprias cantando. No palco, Maria assumia uma segunda ou terceira natureza.
No caso de Maria Callas há ainda um detalhe curioso que os que analisaram sua vida e suas interpretações chamam a atenção. Maria sofria de uma grave miopia! No palco a visão que ela tinha da platéia não passava de um grande borrão sombreado! Sequer o maestro e a orquestra no fosso ela enchergava. Seu poder de concentração era, também por essa razão, muito maior e mais apurado do que podia conseguir qualquer outra. Existiram muitas cantoras míopes, é claro, mas não com a mesma voz. Callas precisava conhecer as partituras das óperas tanto quanto o regente, porque em cena não poderia se socorrer dele. Além disso, era uma "caxias" que estudava até a exaustão -e sozinha, acompanhando-se ao piano- cada detalhe da cada papel!
Sou suspeito para falar de Maria Callas. Escrevo cercado por três grandes posters de Maria, que estão aqui de olho em mim, cada um me olhando de um jeito. Suas gravações quero sempre por perto. Se ouço alguma interpertração equivocada ou desastrada, corrijo e limpo os ouvidos com as dela.
A voz de Maria Callas me arrebatou bem cedo. Já contei essa história para você a repito aqui para os demais. Eu tinha seis anos e já ouvia muita ópera há muito tempo, desde o útero provavelmente. E já tinha feito uma figuração em ópera no Teatro Municipal -o filho de Madamme Buterfly, numa montagem de 1956 com Clara Marise, Alfredo Colósimo, Sílvio Vieira e Carmem Pimentel. Certa noite ouvia um programa com árias de ópera pelo rádio. Lá pelas tantas o locutor anunciou "Tu, tu, picollo iddio!" com Maria Meneghini Callas. Fiquei atento, porque conhecia a ópera e já tinha participado da cena. Meu ouvido musical ainda em formação estava acostumado, nessa ária, com o veludo da voz de Renata Tebaldi e a delicadeza de Licia Albanese. Oscar, quando a Callas iniciou, com voz tremenda e repleta de inflexões trágicas, a frase "di tua madre la faccia/Que vedresti una traccia/Guarda ben..." etc eu já chorava tanto e tão alto que minha mãe veio correndo da cozinha ver o que estava acontecendo comigo! Era a Maria, que eu ouvia pela primeira vez. Era só música, pô...Pergunta se já parei de chorar?
Maria Callas é um capítulo à parte na História do Canto, na História da Ópera e na classificação das vozes femininas.
abração
Henrique Marques Porto
Comentário de Teatro de Revista em 22 junho 2009 às 22:38
Oscar,
Aqui, Maria Callas na Carmem, de George Bizet, uma ópera que ela cantava extremamente bem, gravou na íntegra mas nunca interpretou no palco. O vídeo é do famoso recital de 1962 em Hamburgo. No mesmo ano, no Covent Garden, de Londres, ela se apresentou também com muito sucesso, num recital em que repete em parte o repertório cantado em Hamburgo. Callas não vivia bons momentos nessa época mas está descontraída e especialmente bonita nessa Habannera. Vale a pena prestar atenção também na Abertura sob a regência vibrante de George Prêtre. Callas aproveita e vai se concentrando, mergulhando aos poucos na partitura.
abraços
Henrique Marques Porto

Maria Callas - Habanera, da Carmem de George Bizet.

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