Vamos prosseguir nossa jornada através do mundo mágico do bel canto, já agora não distinguindo modalidades vocais. Daqui em diante, as divas estarão em pé de igualdade não mais se diferenciando por timbres ou graus de dramaticidade. Estaremos mais ou menos de acordo com a vontade de Maria Callas que dizia não haver diferenças entre as tessituras vocais: o verdadeiro soprano deveria ser capaz de cantar tanto dramaticamente ou de forma ligeira, para isso bastando dominar a técnica vocal. Embora não concorde integralmente com a grande diva, por questões de praticidade e comodidade, passaremos a adotar esse critério.

Isto posto, recomecemos nossa viagem alternando antigos com contemporâneos, dramáticos com ligeiros, sempre buscando exemplificar, todavia, os vários tipos de vozes femininas que imprimem sua marca na história do canto lírico.

Vejamos uma das vozes mais marcantes da nossa época, soprano de personalidade exuberante, de enorme força interpretativa, voz poderosa e timbre inconfundível. Falo aqui da cantora negra Jessye Norman .



Jessye Norman (Estados Unidos, 1945), por quatro vezes ganhadora do “Grammy Award” (uma espécie de Oscar da música, patrocinado pela “National Academy of Recording Arts and Sciences” norte-americana), é uma das mais admiradas (e bem pagas) cantoras de ópera e recitalistas de música erudita. Norman é um verdadeiro soprano dramático com presença majestática no palco. Grande intérprete de papéis fortes, como Aída, Alceste e Leonora (Fidélio), é admirada por sua expressividade e seu fantástico entendimento intelectual do estilo de cada música. Como intérprete, é conhecida por sua magnética e dramática personalidade, bem como por sua imponente presença física.


Como várias cantoras líricas negras, Jessye Norman revelou seu talento, ainda criança, cantando música gospel em igrejas evangélicas. Aos nove anos, ouviu ópera pela primeira vez, pelo rádio, e logo se tornou fã do gênero. Suas fontes de inspiração foram as também cantoras negras Marian Anderson e Leontyne Price (que ainda apresentaremos aqui em em nossa página).


Jessye Norman - "Dove Sono" (As bodas de Fígaro - Mozart)




Jessye Norman - "Divinités du Styx" (Alceste - Gluck)




Jessye Norman - "Je te veux" (Satie)




Jessye Norman - "Ave Maria" (Bach)




Jessye Norman - "Tendrement" - (Satie)

Exibições: 1811

Comentário de Helô em 15 setembro 2009 às 0:57
Óscar
Ainda bem que o Henrique ainda não chegou aqui, senão fico com vergonha de comentar :))
Quem me incentivou a escutar Jessye Norman foi a Esther, amiga dos tempos de blog e agora aqui da comunidade. Ela me deu de presente um lindo CD com Jessye cantando Haydn, Mahler, Verdi, Strauss, Wagner, Schumann e outros mais. Agora ouço "Je te Veux", essa valsa leve que ficou ainda mais bonita na interpretação da cantora. Obrigada por mais esse belo post.
Beijo.
Comentário de Henrique Marques Porto em 15 setembro 2009 às 19:25
Oscar,
Essa é fera. Mas um boboca, cujo nome esqueci, já colocou defeitos e falou de "técnica insegura" e "problemas de emissão". Tudo bobagem. O cara estava delirando ou ouvindo outra cantora quando escreveu.
Normam chama a atenção pelo grande poderio vocal. É o tipo de voz que ocupa todos os espaços de uma sala, teatro ou teatrão. Mas não porque o volume da voz seja muito alto, como acontece com alguns cantores. A voz de Jessye Norman é plástica. A emissão é favorecida pelo seu tipo físico, sobretudo pelos pulmões poderosos, pelo rosto largo, que ampara e projeta o som, e pela bocarra que ela abre como uma trompa. A voz ganha o espaço sem obstáculos, sem sons destorcidos, anasalados ou guturais.
A plasticidade de sua voz é capaz também de emitir pianíssimos absolutamente limpos e de construir fraseados quase perfeitos. Um bom exemplo está nesta magnífica interpretação de Deep River, acompanhada apenas por órgão, no famoso concerto de 1990 no Carnegie Hall. É, talvez, a mais bela versão desse Spiritual. Repare que, em determinada passagem, a voz de Norman se integra, se funde com o som do órgão.
abraço
Henrique Marques Porto

Jessye Norman - Deep River
Comentário de Henrique Marques Porto em 15 setembro 2009 às 20:21
Oscar,
E tem ainda esse Lamento de Dido, do Dido e Enéas de Purcell. A música é linda e a interpretação de Jessye Norman é de comover até o asfalto. Se o público não a tivesse interrompido com os aplausos acho que ela jamais teria saído do interior da música onde mergulhou fundo, muito fundo.
abraço,
Henrique Marques Porto

Jessye Norman -Lamento de Dido - Purcell
Comentário de Gilberto Cruvinel em 18 outubro 2009 às 0:09
Olá Oscar,

A música de Mozart por si já nos dá a impressão do divino.
Na voz de Jessye Norman então, deixa de ser impressão e o
divino se concretiza em frente a nos olhos e ouvidos, nos mostra
que a realidade é mais do que vemos e do que ouvimos.
A beleza chega a ser pertubadora.
Obrigado pelo belíssimo presente.
Comentário de Servio Tulio em 27 outubro 2009 às 15:24
Eu amo a Jessye norman Oscar! Lembro-me que dei uma de cachorro viralata quando ela cantou aqui no Municipal do Rio, o ingresso muito caro, e eu, fã ardoroso de carteirinha parado na porta, músico duro, sem um tostão implorando ao porteiro que me deixasse entrar prá ver só um pouquinho. E ele irredutível, não deixava de jeito nenhum. Mas eu me mantive ali firme e forte. No final, quando terminou o recital ele me deixou entrar para ver o bis. E eu entrei correndo nervoso e numa felicidade enorme, dei de cara com "aquela Jessye Norman toda" no palco sorridente e cantando "Zueignung", uma belíssima canção do Richard Strauss que eu adoro! Corri para frente do palco e fiquei lá vidrado. Depois ela cantou a Habanera de Carmen abanando um leque que pegou de uma moça na platéia. Foi um dos momentos mais mágicos pelo qual passei. Quanta felicidade este ser humano já me trouxe. Suas interpretações de Wagner, Schubert e Richard Strauss me enchem de orgulho da raça humana! Abração
Comentário de Oscar Peixoto em 27 outubro 2009 às 17:01
Experiência única a sua, Servio. Muito melhor do que se tivesse comprado entrada e assistido ao concerto sentadinho na primeira fila. Concordo com você que a Norman é grande intérprete dos alemães. Sua potência vocal supera a massa orquestral de Wagner, por exemplo. Mas ela é tão refinada que canta até cançonetas, como as de Satie. Seus "spirituals" são insuperáveis.
Gostaria de voltar a trocar impressões com você. Vamos nos tornar amigos "comunitários"?
Abraços
Comentário de Servio Tulio em 28 outubro 2009 às 1:23
Já somos! Tenho muita coisa dela aqui tanto em vídeo quanto em cd. Aquele cd dos franceses (Satie, Duparc, Ravel, Poulenc) é realmente uma jóia. Adoro quanto ela entra pelo universo dos Lieder e das chansons. A discografia extraordinária é extensa... Os Wesendonk-Lieder do Wagner com o Colin Davis, as Canções orquestrais do Strauss com o Kurt Masur, As Noites de Verão do Berlioz, Sheherazade do Ravel... nossa....... Adoro também os recitais de voz e piano com Schubert, Brahms... Ah! Tenho um de Brahms que é simplesmente magnífico, no qual ela é acompanhada pelo Geoffrey Parsons, e canta as "Duas canções para contralto, viola e piano": Geistille Sehnsucht + Geistliches Wiegenlie, que parece que a gente está no céu. Isso sem falar das óperas... Nossa, é tanta coisa. Adoro a versão da "Ariadne em Naxos" do Strauss com ela e a Kathleen Battle em vídeo. Aliás, sou tarado em "Ariadne em Naxos". Tenho a versao também em cd do Kurt Mazur, com a Norman e a Edita Gruberova fazendo a Zerbinetta. Um diamante! Meu Deus... tanta coisa prá se falar! Heeheheeh! Bom estar por aqui! Abraço!
Comentário de Servio Tulio em 28 outubro 2009 às 1:29
Ah, e só para lembrar! É claro que você deve saber, mas tem um cd dela cantando os "Brettl-Lieder", ou seja, as canções de cabaret escritas por Arnold Schoenberg na época em que ele foi diretor musical do cabaret Überbrettl na Alemanha. O Cd se divide em duas sessões: na primeira parte ela canta o monólogo "Erwartung", e na segunda, as canções de cabaret. Regência e piano: James Levine. Abraço!

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