Qualquer pesquisador que focalize a história da MPB, a partir da metade do século XX, não pode deixar passar em brancas nuvens ZICARTOLA, considerada a primeira casa de samba do Rio de Janeiro.

O parto oficial ocorreu em 5 de setembro de 1963, na rua da Carioca, nº 53, num velho sobradão que abrigava o sonho de dona Zica de fornecer marmitas. O Zicartola tinha como atrações principais a comida caseira preparada por ela e as exibições musicais nas quais brilhavam, entre outros bambas, Zé Keti, Nelson Cavaquinho, Elton Medeiros, Ismael Silva, Clementina de Jesus, Ciro Monteiro, Elizeth Cardoso, Aracy de Almeida, Hermínio Bello de Carvalho, João do Vale e o principiante Paulinho da Viola.

Heitor dos Prazeres foi convidado para desenhar o cardápio, como mostra a foto abaixo, assinada por ele, pelos proprietários Cartola e Zica e por Ismael Silva, Aracy de Almeida, Clementina de Jesus, Nelson Cavaquinho, Zé keti e Elton Medeiros.

O Zicartola foi também o primeiro ponto de encontro regular entre o samba tradicional e a bossa nova, que estava em formatação, ou seja, quando a zona sul carioca liderada por Carlinhos Lyra e Nara Leão descobriu o Zicartola e seus sambistas, o sobrado da rua Carioca virou febre na cidade e no país. Outros que apareciam por lá eram Ferreira Gullar, Sérgio Porto, Tom Jobim, Vinícius, Sylvia Telles... Até delegações chegavam de São Paulo, nos fins de semana, para participar dessa retomada do samba,que a partir das mesas do restaurante de Zica e Cartola iria contagiar o Brasil.

Hermínio Bello de Carvalho e Albino Pinheiro agitavam a casa com promoções. Uma delas era a "Ordem da Cartola Dourada", que homenageava notáveis personalidades do samba. Paulinho da Viola, que iniciou sua vida profissional de música no Zicartola, conta, até hoje, que os primeiros agraciados com tal ordem foram Ciro Monteiro e a viúva de Noel Rosa, Lindauva, e que ele, orgulhosamente, foi quem fez a entrega.

Alguns sambas de Cartola tornaram-se conhecidos nessa época, especialmente "O sol nascerá", em parceria com Elton Medeiros. Com toda essa badalação do restaurante, Cartola obteve mais projeção e algum - pouco - dinheiro. Mas por incrível que pareça só conseguiu gravar o primeiro LP individual em 1974, aos 65 anos de idade, pelo selo Marcus Pereira. Caminho aberto, o Brasil ficou conhecendo clássicos como "As rosas não falam", "Acontece", "O mundo é um moinho", "Alvorada"...

O Zicartola foi imenso sucesso até 1965. Cartola, em depoimento ao Programa Ensaio da TV Cultura, em 1973, disse: "aquilo era trabalho demais: a gente trabalhava dia e noite. Começava 10 horas mas às oito já tinha gente... só saiam as 5, 6 horas da manhã. Eu tinha que andar com palito nos olhos para não fechar". No mesmo depoimento Zica complementa: "o negócio do Cartola é violão e samba... contabilidade e essas coisas assim não é com ele. Então daí foi morrendo, né?" Aliado a tudo isso muitas pessoas abusavam da inocência de Cartola, consumiam, penduravam a conta e sumiam.

Zica compondo a feijoada mais famosa do Rio de Janeiro, Cartola temperando o violão, criando sambas antológicos. O somatório de ambos resultou no histórico ZICARTOLA, onde a música era servida com sabor. Foi lá que o Brasil reaprendeu a curtir o samba.

Fonte: - HISTÓRIA DO SAMBA. Rio de Janeiro: Globo, 1997-1998. Quinzenal. 40 fasc. 40 CDs.

Exibições: 971

Comentário de Helô em 21 setembro 2008 às 23:00
Laura
Recentemente estive na Rua da Carioca, mas nunca me lembro de verificar se ainda existe o sobrado. Também, nunca sei o número e agora ficarei atenta. Ainda existem belos sobrados na Carioca, uns conservados, outros não. Veja um deles, onde funcionou o tradicional Bar Flora. Hoje é uma mercearia.

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