Zona da Mata rondoniense tem rica reserva de terra preta

MONTEZUMA CRUZ
Amazônias


ROLIM DE MOURA, Zona da Mata de Rondônia – Meio século depois da chegada dos colonizadores e da invasão das terras indígenas, o homem começa a medir as extensões dos milenares sítios de terra preta com 80 centímetros de profundidade, nesta região a 402 quilômetros de Porto Velho.

Em geral, a terra preta arqueológica, (ou “de índio”), rica em fragmentos cerâmicos, guarda uma fertilidade capaz de levar estudiosos ao encontro de modos de vida ancestrais. Matéria de grande concentração de fósforo, cálcio e outros nutrientes encontrados, tanto em espinhas de peixe quanto em cascos de tartaruga e ossos de outros animais, ela é estudada há mais de um século.

Há 20 anos José Pereira da Silva e sua mulher Ivone adquiriram uma área de 43 alqueires, dos quais, dez com faixas de terra preta, onde plantaram milho, mandioca e feijão. Nunca precisaram colocar adubo para colher boas safras. Segundo eles, na vegetação de Cerrado no entorno dessa área a lavoura branca não prospera.

Ao mesmo tempo preocupa, porque a frenética ocupação da região, desde meados da década de 1970, põe em risco o patrimônio arqueológico. Da sua origem, há controvérsias entre pesquisadores.

Esse valioso recurso ainda exige estudos minuciosos, por isso nem foi ainda anunciado pelo governo, a exemplo do Pré-Sal e dos biocombustíveis de diversas fontes.

“Nada temos contra o capitalismo, somente com sua forma descontrolada e inaceitável a qualquer país que queira enfrentar de forma racional o dilema da escassez de recursos básicos” – explica o professor de Engenharia Florestal e Agronomia da Unir, José Rodolfo Dantas de Oliveira Granha. Esses recursos são água, solo, energia, alimentos e biodiversidade.

A Zona da Mata é o “novo” nessa história. Até o momento os depósitos de terra preta escavados na região do Alto Madeira são datados de 4,5 mil anos, conforme o pesquisador Eurico Miller. Ele já encontrou muitos vestígios de lâminas de machado de pedra polida. Coincidentemente, os mesmos encontrados em Rolim de Moura e adjacências.

Há mais de 30 anos trabalhando na região, o gaúcho Miller lembra que a presença das lâminas é o indicador da derrubada da floresta e da abertura de clareiras. A associação dessas lâminas com a formação de terras pretas mostra o processo de sedentarização espalhada por diversas áreas amazônicas.


Consciência Inca


Os estudos de Miller se somam às ricas conclusões do pesquisador Luiz Joaquim Castelo Branco Carvalho, da Embrapa Biotecnologia. Ou seja, a bacia do Alto Madeira domesticou plantas economicamente importantes, entre as quais a pupunha e a mandioca. O DNA da planta-mãe da mandioca, por exemplo, indica idade acima de dez mil anos, explica Carvalho.

 “Temos que evitar a destruição não só do futuro dessa imensurável riqueza, mas também o seu passado” – opina o farmacêutico, bioquímico e especialista em georreferenciamento Joaquim Cunha da Silva.

De tudo, uma hipótese cada vez provável: povos antigos, quem sabe, os próprios Incas, afugentados pelos espanhóis no Peru e na Bolívia (que se chamava Alto Peru) tinham consciência da alta fertilidade dos solos de terra preta, que também foram usados em construções.


Dez anos para se formar um centímetro


Pesquisadores do Museu Paraense Emílio Goeldi estimam que um centímetro de terra preta leve pelo menos dez anos para se formar, entretanto, não existem pesquisas que comprovem as datas de sua formação.

Em Caxiuanã, apenas um sítio arqueológico foi datado, estimando-se que tenha de 300 a 700 anos de existência. Há dúvidas também a respeito da formação dessa terra. Até meados do século passado, alguns estudiosos entendiam que ela teria se originado de eventos geológicos, cinzas vulcânicas, decomposição de rochas vulcânicas ou a partir de sedimentos depositados nos fundos de lagos extintos.

Outros acreditam ser provavelmente oriunda da decomposição de animais e outros
materiais orgânicos existentes na região há centenas de anos. Ao ser
carbonizado, esse material teria se unido e formado sítios de elevados teores
de nutrientes, protegendo o solo da lixiviação, tão comum na região amazônica.


  QUEM ESTUDA OS SÍTIOS 

 A terra preta estudada fica na Estância Quatro Corações (Granja do Tenente), de propriedade de José Pereira da Silva, o Tenente, e de sua mulher, dona Ivone. Também é encontrada no Km 4,5, sentido norte, da Linha 196. Trabalham atualmente nos levantamentos iniciais desse solo:

 

Adilson Andrade, professor de Ciências na Escola Pró-Campo, em Rolim de Moura.
Maria Coimbra de Oliveira, diretora do Museu de Arqueologia de Presidente Médici.
José Rodolfo Dantas Granha, doutor em Engenharia Florestal e Agronomia da UNIR.
Joaquim Cunha da Silva, especialista em georreferenciamento.
José Garcia, mestre em Arqueologia regional e professor de História em Médici.
Osni Ortiz, secretário municipal de Agricultura em Rolim de Moura.


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QUEM ESTUDA OS SÍTIOS 

 A terra preta estudada fica na Estância Quatro Corações (Granja do Tenente), de propriedade de José Pereira da Silva,
o Tenente, e de sua mulher, dona
Ivone. Também é encontrada no Km 4,5, sentido norte, da Linha 196. Trabalham
atualmente nos levantamentos iniciais desse solo:

 

Adilson Andrade, professor de Ciências na
Escola Pró-Campo, em Rolim de Moura.

Maria Coimbra de Oliveira, diretora do Museu de Arqueologia de Presidente
Médici.

José Rodolfo Dantas Granha, doutor em Engenharia Florestal e Agronomia da UNIR.
Joaquim Cunha da Silva, especialista em georreferenciamento.
José Garcia, do
Museu de Médici. Mestre em Arqueologia regional e professor de História.
Osni Ortiz, secretário municipal de Agricultura em Rolim de
Moura.
 

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