A Mensagem sobre aprovação automática gerou uma avalanche riquíssima de comentários, abordando vários ângulos.

Pretendo levar para a Comunidade do Blog, para tornar permanente a discussão sobre modelos pedagógicos e melhoria do ensino.

Para tanto, será necessário uma síntese isenta dos principais argumentos levados - a favor e contra. E estou em uma pauleira de dar gosto por esses dias. Se alguma boa alma se dispuser a fazer essa síntese, ajudaria bastante.

Pelo que entendi lendo os comentários e os trabalhos sugeridos (inclusive o do IPEA):

1. Não se deve confundir progressão continuada com aprovação automática.

2. A repetência é um fator desestimulador do aluno. Mas, por outro lado, a não repetência pode ser um álibi para a aprovação de alunos sem condições.

3. Por isso mesmo, a progressão continuada pressupõe uma estrutura eficiente, para apoiar o aluno no decorrer do curso, corrigindo suas vulnerabilidades. Sem essa estrutura, progressão continuada não funciona.

4. O estudo do IPEA demonstra que, na média, países que adotaram a progressão continuada tiveram melhor desempenho que os demais. Mas demonstra também que muitos países que não adotaram a progressão continuada, conseguiram também bons desempenhos. O que realça o ponto central: com ou sem progressão continuada, há que se ter um arcabouço institucional e operacional.

5. Continuo um defensor de metas e remuneração por desempenho. Meta é fundamental para qualquer professor e escola saberem onde estão e para onde pretendem ir. A questão é a metodologia das metas. Por isso, é importante um bom apanhado da defesa e das ressalvas apresentadas às metas utilizadas pela Secretaria de Educação de São Paulo.

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Respostas a este tópico

Paulo, Luiz Carlos, Edson, AnaLú,
acho que temos que ter claro que não existe modelito de educação que resista a uma escola nestas condições apontadas, em alguns de seus problemas, pelo Luiz Carlos.

Ou dito de outro modo: uma escola razoável ( e não precisamos fazer pesquisa para isto, nem implantar bônus, nem introduzir promoção automática) se faz com um prédio decente ( e todo mundo sabe o que isto significa), com boas instalações, com professores bem remunerados ( com plano de cargos e salários), qualificados e com tempo para preparar suas aulas, com alunos bem alimentados e saudáveis, com equipe de apoio.

Se uma destas condições não estiver funcionando adequadamente, é por ela que temos que começar. Enquanto isto, nossa atitude será a de contemplação? Não.

Mas então se trataria de propor alguma "reforma" que promova educação de qualidade, nem que seja para os mais bem dotados... ou então alguns bônus, com este desastre já sendo anunciado (alunos sendo rejeitados... quer dizer, uma política de exclusão)... ou então a tal da progressão continuada sem qualquer mudança nas condições de atendimento ao aluno, ou seja, na prática, promoção automática.

Educação de qualidade se faz com conteúdo e arte e, dependendo dos apelos, com incursões pelo mundo do trabalho.

Eu não vejo outro jeito em se mudar a escola se não houver uma aliança estreita entre o educador, o gestor escolar e a comunidade, com um olhar para o mundo da produção. Dá trabalho, mas é com esta parceria que as coisas podem anunciar mudanças e, vejo movimentos importantes, inclusive alterando o quadro de violência do entorno escolar.

Dados da realidade? Basta clicar que se acha tudo, o problema é que a realidade é rebelde e nem sempre o que temos na cabeça corresponde às necessidades de uma dada comunidade. Trazer a comunidade para a escola é fundamental. É com ela que o caminho tem que ser escrito. Sem ela, só somaremos fracasso.
Concordo plenamente com você, Luzete. Só acho que, pelo menos nas grandes metrópoles (penso no Rio em especial) esse "contrato" com as comunidades está muito difícil. E nao é só por causa de tráfico e milícia nao. É em parte porque os jovens dessas comunidades, como reação à discriminação que sofrem, estao escolhendo uma "identidade bandida", nao necessariamente no sentido de entrarem na bandidagem, mas de se identificarem com ela. Há muito ódio de classe -- mas sem ser acompanhado de consciência política -- , o que acaba gerando uma atitude de revolta geral diante de todas as instituições da sociedade.
Ando meio desanimada, eu sei, mas... acho que a coisa está feia mesmo.
Abraços a todos
AnaLú
Oi, todos
Essa matéria abaixo da Carta Capital nao é sobre Educação, mas o que ela revela é o que jaz por trás das coisas que discutimos, em especial a resistência dos alunos à escola -- sobretudo em certas áreas da Sociedade.
Aconselho a leitura.
Um abraço para todos
AnaLú
http://www.cartacapital.com.br/app/coluna.jsp?a=2&a2=5&i=2092
Nossa, tô viajando de madrugada... mas a mala está pronta, tudo encaminhado, pensei: vou dar uma olhadinha no blog, na comunidade...
e aí te achei aqui, com uma excelente intervenção.

AnaLú, esta questão da violência é assustadora... e havia visto a matéria na revista... a sociedade parece estar se mobilizando... se este tópico aqui evoluir para se pensar a educação fora de modelitos, mas em cima da realidade concreta, nossa, vai ser um ganho... contribuir na mobilização, contribuir com idéias e pressão, vai ser um grande ganho. e pode ser mais do que isto.

parabéns pela retomada. em breve retomo.
Luiz Carlos,
não leio teus comentários como depoimentos de um educador, mas como gritos de desespero da escola e da sociedade. Será que vão ouvir? Elas estão dizendo o que querem, o que precisam. E o governo vai continuar ignorando-as?

Ps. viajo daqui a pouco, enquanto aguardo, li vcs.
Oi, Luiz Carlos
Vou pedir ao Nassif que poste isso. Você nao gostaria de reforçar esse pedido?
AnaLú
Pus o pedido na página dele.
AnaLú
Oi, todos
O email que transcrevo abaixo foi enviado para um professor da Uerj que tinha feito uma manifestação anterior, e encaminhado por ele a várias pessoas. É impressionante o que o depoimento dessa professora confirma sobre nossas análises aqui. E, inclusive, aponta para um triste fato: o de que os melhores professores acabam por deixar o magistério, nao aguentando mais nao só os péssimos salários mas tb as condições de trabalho piores ainda.

Caro Colega,
Eu sou solidária à luta dos professores não só da UERJ, como aos das instituições públicas de ensino do nível médio e fundamental. Sou uma regente destes níveis - pela Secretaria de Educação do Estado do Rio de Janeiro -, e como escritora, crítica, antes mesmo de lecionar, sou das pessoas que não se conformam com os absurdos saláriais, muito menos com a realidade surreal que nós, professores do ensino médio e fundamental, enfrentamos na atualidade dentro de sala de aula.
Como profissional que sou faço o melhor, não apenas me atualizando em pós-graduações lato-sensu, entre outros cursos, como, naturalmente, desenvolvendo a paciência - qualidade desenvolvida nesta mais que em qualquer outra atividade - para dar conta de tantas realidades convivendo num mesmo ambiente ( 35, 40 alunos). Em cada uma destas turmas ao menos 10 adolescentes são de
trato dificílimo, contaminando os outros em igual fase de transformações, e dificultando a vida daqueles poucos que não se deixam contaminar e se
esforçam claramente nos estudos.
É lamentável ver quantos andam calados, tristes, sem atitude, e adoecendo com o que vem ocorrendo.
Não somente salários indígnos, mas um sistema que protege de forma absurda aqueles mais indisciplinados, de modo que o professor ao abrir a boca em sala de aula para contestar, dar os limites, enfim, reger sua turma, é punido por conselhos tutelares que nada sabem da realidade do educar, da realidade atual das salas de aula, da impossibilidade de produzir um ambiente saudável e profícuo para o processo ensino-aprendizagem.
Todos sabemos que somente uma grande e contínua mobilização da classe poderia vir a fazer um efeito positivo quanto aos salários e quanto a leis que protegem o inaceitável dentro de sala de aula. É preciso mais profissionais como inspetores, psicopedagogos, algo muito bem gerenciado em cada unidade escolar. Hoje, são os professores, mal pagos, desvalidos, e considerados pelos que não têm a vivência de docência nestes ambientes como maus profissionais que fazem os vários papeis: psicólogos, inspetores, apartador de brigas, e tudo isso na hora que deveria estar ministrando sua aula. Digo sempre aos meus colegas e mesmo alunos: isto é uma ilusão, não é educação. Estão comentendo o maior crime lesa-pátria com a nossa população, e ninguém quer saber. Nem políticos, nem pesquisadores, nem pais, e óbvio que os mais novos, os alunos, refletem o que mostra o entorno.
Eu não posso compactuar com este estado de coisas. Infelizmente, como muitos que não percebem nem mesmo uma unidade de luta pela causa, estou migrando para novas áreas, que além de muito melhor remuneradas, não nos trazem o stresse e a depressão. Digo depressão, sim. Quem de fato se importa com o social, o humano, ao ponto de se dedicar à educação, certamente não passa pela realidade que aí está sem se desolar pelo que vê, pelo que pode inferir disso tudo no que diz respeito ao futuro do nosso país.
Cumpre, mais que nunca, mobilizar todos os profissionais, e estes, unidos, mobilizarem a sociedade. Nada é mais fundamental que a questão da educação em nosso país, mas como uma mudança estrutural, não apenas com campanhas
enfadonhas do tipo "leia mais", ou coisa parecida.
Bom saber que há ainda algumas pessoas dispostas a apontar onde está o problema maior, e com elas poder fazer um coro.
Ótimo texto, por tudo. Parabéns, e força.

" Fica difícil imaginar o êxito de uma nação que pague tanto a um promotor de
justiça, cuja tarefa (nem de longe aqui depreciada) é acusar os indivíduos, e tão
pouco àqueles que poderiam evitar que mais e mais indivíduos fossem, dia a dia,
acusados, por terem tido necessidade de enveredar por caminhos (ou
descaminhos?) obscuros de criminalidade por não terem tido formação ética e
profissional, que somente os professores, mas não isoladamente, é claro, podem
fornecer. "
Abraço,
Tânia B.
Termina aqui o email transcrito. Abraços meus a todos
Anarquista Lúcida
À época em que foi implantada em MG, sob o nome de escola plural, tínhamos: Azeredo - governador e Walfrido dos Mares Guia - secretário de educação. Por coincidência o Mares Guia é, também, proprietário (alguns dizem que não é mais) da rede Pitágoras de ensino, com escolas (do jardim de infância ao superior) por todo o Brasil e no exterior; tais escolas são das maiores e mais caras de BHZ, colocando, anualmente um grande número de alunos na UFMG e nas melhores universidades do país.

Perguntinha ingênua: pq a progressão continuada não foi implantada na rede Pitágoras de ensino, e nem em outras grandes e caras escolas que atendem nossa elite endinheirada?

Um dos argumentos mais utilizados para a implantação deste modelo "pedagógico" é o caráter desestimulante de uma reprovação.
Bem, por este argumento apenas os alunos das escolas públicas estão sujeitos ao desestímulo? Tirando toda ênfase ideológica que emprestei ao texto até aqui, tal idéia - mesmo quando pensada honestamente, visando de fato melhorar a relação da escola com os alunos, mantendo-os por mais tempo - faz parte de um aspecto de nossa sociedade que precisa ser pensada, inclusive, para além dos muros da escola.
Trata-se da idéia amplamente entronizada da recusa à decepção, à frustração; é a chamada sociedade do prozac, onde ninguém mais fica triste - mas sim deprimido... então, toma uma pilulazinha e voilà: feliz da vida, incondicionalmente.

Quando um aluno desiste da escola em razão de uma reprovação ou de uma dependência, há, neste fato, outras responsabilidades que não apenas aquelas da escola, mas também da família e da sociedade como um todo... o que este sujeito fará com todas as reprovações e frustrações a que somos submetidos cotidianamente? Vai desistir de tudo? Educação é bem mais que uma série de conteúdos ensinados ao longo do ano letivo - e este argumento pode ser utilizado por todos os lados da questão.

Acontece que o que se tem verificado após muitos anos neste sistema é sua total incapacidade de fazer melhorar a educação no Brasil, sobretudo nas camadas mais pobres da sociedade. E aí é uma decepção bem maior que aquela primeira que se pensava combater: é a decepção do aluno (agora já adulto e analfabeto), dos pais, dos professores, da escola, do país, enfim, que deve responder pela incompetência de seus des-governantes.
Oi, Luiz Diogo
Nao acho que a justificativa correta para a progressao continuada seja a questao de evitar a frustração. Embora eu ache que, como está a situação, a progressao continuada seja uma armadilha, que está fazendo com que alunos cheguem à oitava série semianalfabetos, a alternativa que existia antes era a reprovação continuada, que levava os alunos a abandonarem a escola (fora a questao de alunos de 12, 13 anos convivendo com outros de 7, 8... e cheios de violência e frustração... pobres outros... e pobres deles, afinal...).
A solução para isso é que seja implantada a verdadeira progressao continuada, com acompanhamento individual se necessário dos alunos, e nao "aprovação automática". Para isso precisa de uma equipe na escola (a coisa nao pode ser transformada em exigência suplementar para os professores...), donde recursos, donde vontade política de propiciar educação (e nao apenas vagas em escolas) para a população...
Um abraço, e benvindo ao tópico
AnaLú, a Anarquista Lúcida
Oi Anarquista,

Bem, sem o argumento de combate à frustração (como causa dos altos índices de abandono dos alunos) creio ser ainda mais difícil defender a progressão continuada; uma vez que se decidir pela realização de investimentos sérios em educação (e o primeiro passo, sem a mínima sombra de dúvidas, é uma remuneração decente, condizente com a importância da profissão) não será necessária a "reprovação continuada".

O acompanhamento dos alunos por bons professores, melhor preparados, mais interessados, cientes de sua função e de sua responsabilidade, resultará numa educação pública conforme nossas necessidades, dos alunos e do pais, com progressão continuada ou não.

Estes professores devem ter, em contrapartida, turmas com poucos alunos, bons salários, boa estrutura física das escolas, garantia de hora atividade (geralmente se esquece, no pais, que boa parte das atividades docentes são realizadas fora da sala de aula). E veja, nada disso se contrapõe a outros dispositivos que visem uma melhoria constante e continuada do sistema. Não se contrapõe, por exemplo, a um sistemas de metas, desde que elas sejam bem definidas e que os prêmios sejam isso: prêmios. Acontece que com o que hoje se pensa como os prêmios é o que já deveria ser o piso mínimo dos salários dos professores no pais.

bem, é isso... por enquanto

um abraço,

LDiogo
Oi, Luiz Diogo
Desculpe a demora na resposta, nao vi o link. Olha, progressao continuada, se nao for de "faz-de-conta", é isso que você está dizendo: acompanhamento dos alunos com dificuldade de modo a garantir que eles possam progredir, e nao simplesmente aprovar. Agora, nos problemas da escola atual, há outros tipos de fatores. Sei que ler todos os comentários desse tópico virou uma senhora tarefa, porque o tópico está enorme, e nao trata de uma coisa só. Mas te convido a lê-los, já que você está interessado no assunto. Você lerá coisas que te farão ver outros aspectos da situação atual.
Um abraço
Anarquista Lúcida

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