Por João Vergílio Gallerani Cuter

Algumas idéias simples para, com o dinheiro que temos, levar a educação básica para um outro patamar:

1. Acabar com a farra do livro didático. Adotar um conjunto unificado de livros didáticos para todo o território nacional. Além de economizar (muito!), isso racionaliza o processo de avaliação e reciclagem de professores. Imaginem o quanto seria mais simples, prático e eficiente um sistema de reciclagem à distância, caso todos os professores tivessem que lidar com o mesmo material em sala de aula. A orientação poderia ser pontual, específica: NESTA aula, a maneira mais eficiente de transmitir o conteúdo é ESTA. Imaginem como a troca de experiências entre professores ficaria facilitada. E como o material didático poderia ir sendo melhorado a partir do retorno dado pelos professores da rede.

2. Criação de um sistema duplo de ensino. Um, voltado para os alunos mais talentosos, com escolas-modelo de altíssimo nível, aproveitando a experiência exitosa das escolas militares. Uma escola dessas para cada grupo de 2 milhões de habitantes representaria um gasto relativamente modesto. Regime de internato, com bolsa de estudos, e educação no mesmo nível oferecido nas escolas particulares de elite. Um ingresso anual de cem alunos em cada escola modelo poria milhares de alunos carentes nos mais concorridos cursos das melhores universidades do país todos os anos. Sem quotas. Por mérito.

3. Para o restante, boas escolas técnicas antenadas com o mercado e as características regionais. Ou seja: centralização absoluta no núcleo de disciplinas básicas, com um currículo objetivo e simplificado, e descentralização no núcleo de disciplinas técnicas, aproveitando aí a experiência e até mesmo a estrutura das escolas do sistema S.

4. Três módulos anuais de três meses cada um, com um mês de férias entre os módulos. Quem não tirasse nota mínima, perderia as férias, sendo obrigado a fazer um curso de recuperação intensivo nas matérias em que foi reprovado. Se, ao final do ano, o aluno não obtiver aprovação, repete.

5. Sistema de bônus associado a um conjunto de metas adequado a cada escola. Exatamente nos moldes que a secretária está tentando implementar em São Paulo.

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Respostas a este tópico

Oi, Joao Virgílio e Pedro. Se os alunos tivessem um ensino decente de PORTUGUÊS, essas sugestões de vocês poderiam fazer parte dele. Um bom ensino de Português nao deve ser sinônimo de ensino de Gramática (nao apenas, nem principalmente). O aluno deveria ter oportunidades de desenvolver a leitura, e, se esse desenvolvimento tiver ocorrido bem até o nível do secundário, ele poderia ter um ou dois textos de Filosofia, ou outra disciplina, como leitura. Mas, concordo com o João sobre o arroz com feijao: o principal problema agora é que as crianças nao estao conseguindo SE ALFABETIZAR direito, e daí nao conseguem ler bem, nem escrever, e portanto tb nao podem aprender as outras disciplinas. Acho que se a questao é de priorizar algumas coisas, o maior nível de recursos nao deveria ser posto em escolas do sexto ano em diante, mas sim nos primeiros 3 anos de escolaridade (o antigo ano de alfabetização mais as 2 primeiras séries): se é para atingir com mais qualidade uma parte apenas da rede, isso seria o mais inteligente, porque estaríamos fazendo algo simultaneamente pelo presente e pelo futuro. Só que alfabetizar nao é aprender va-ve-vi-vo-vu, é ter contato com textos, perceber o que é a escrita, e para o que serve, começar a poder se interessar por ler (embora aprender a decodificar tb seja importante, e mesmo indispensável -- sem no entanto se tornar a única ênfase do ensino). É a fase que precisaria de professores mais bem preparados, o que infelizmente nao acontece.
Pedro Salazar said:
João Virgílio.
Concordo com o "arroz com feijão", mas o gosto e o hábito da leitura pode advir das emoções geradas na referida "pecinha"

Pedro Salazar said:
Uma pecinha de teatro com o 'mito' do oráculo de apolo proclamando quem era o mais sábio da grécia; o raciocínio de Socrates decorrente da honestidade intelectual em conflito com a crença no oráculo; sua decisão "Sei que nada sei" e uns diálogos encenados tendo a estrutura da maiêutica embutida.
O problema: a idade ideal para o ingresso na disciplina.

OBS: Todas as minhas considerações são voltadas para o ensino médio. Deixo a outros mais capacitados a discussão do nível superior.

João Vergílio Gallerani Cuter said:
Tudo bem, Salazar... Mas não vamos nos esquecer do principal: o feijão com arroz. Sem desenvolver habilidades básicas de leitura, pôr um aluno diante de um texto de Platão seria tão contraproducente quanto pôr um iniciante diante de uma partitura que esteja acima de suas capacidades e dizer - "Não importa que pareça difícil. Vá tentando, que você consegue." É um método que só funciona com gênios. Com pessoas normais, como eu e você, é um desastre. Melhor fazer o aluno treinar algumas escalas antes.
Oi, João
Em primeiro lugar, mesmo sem sonhos, seria preciso ter a decisao política de aumentar esses recursos. Li nalgum lugar, infelizmente nao lembro onde, que 44% -- quase metade -- dos professores de S. Paulo estao afastados ou por depressão, ou por stress, ou por problemas nas cordas vocais. Nada se poderá fazer com professores deprimidos e estropiados. Nao estou reduzindo a questao a aumento de salários, embora isso seja indispensável. Mas é preciso ao menos que os professores vejam a possibilidade do seu esforço fazer alguma diferença, do jeito que a coisa está (e que o Luiz Carlos já descreveu tao bem noutro post) o desânimo deles é inevitável.
Então, como primeiras medidas: 1) limites no número de alunos por turma (que nao sejam 25 por turma em todas as séries; mas pelo menos nas 3 primeiras, aumentando para 30 nas três subseqüentes e para 35 no máximo daí para a frente); 2) professores com 40 hs, 25 em sala e 15 de estudo e preparação -- ganhando ao menos o que equivaleria a 2 matrículas, mas com obrigação de dedicação exclusiva; acho isso plenamente viável em estados do Sudeste; nos em que nao seja, que isso seja adotado ao menos para os 3 primeiros anos de escolaridade; 3) uso de parte dessas 15 hs para supervisão pedagógica -- local, nao "nacional", de preferência feita na própria escola, senao no distrito escolar, ou numa faculdade pública razoavelmente próxima e conveniada para isso (mesmo com recurso a meios informacionais e de ensino à distância, contato e transmissão mais pessoalizada sao indispensáveis, com abertura de espaços para discussão e troca de idéias, e nao apenas transmissão unilateral de conhecimentos e técnicas passando "por cima" das necessidades e experiência dos professores); 4) discussão coletiva a respeito da organização do ensino na escola e das atividades a serem executadas, deixando os professores sentirem que sua colaboração é desejada, importante e reconhecida.
Além disso, a nível da direção das escolas e/ou distritos escolares, seria preciso uma aproximação maior com as comunidades servidas pela escola, um convite ao engajamento delas na resolução dos problemas -- o que tb nao será possível sem que elas sejam OUVIDAS em relação ao tipo de escola que lhes é oferecida (entre outras coisas, é preciso uma escuta para as causas do aumento da "resistência" dos alunos à escola, que tem resultado inclusive em violência, e isso nao é possível sem que se tente ver as coisas tb do lado deles).
Concordo com o Pedro (e com o Lacyr, noutro post) que é preciso levar em conta as emoções e subjetividades; nao se pode "enfiar educação pela goela das pessoas a dentro", é preciso que faça sentido para elas.

João Vergílio Gallerani Cuter said:
Salinas,

O problema de fundo permanece: como induzir mudanças significativas no curto prazo, utilizando os escassos recursos de que dispomos? O bônus me pareceu uma boa idéia. Sozinha, é claro que não resolve nada.
Lacyr, acho que você está pondo o dedo num ponto nevrálgico. Assim como nao dá para tratar os professores como robôs, tb nao dá para nao levar em conta as reações dos alunos diante do ensino que recebem, que, ao que parece, nao está fazendo sentido nenhum para eles. Só que acho que, nos níveis inferiores de ensino, o buraco é mais em baixo do que no nível médio, onde só chegam alunos de algum modo já "sobreviventes".
Aqui no Rio, e creio que em outras metrópoles tb, há partes da sociedade em guerra civil nao declarada (explicitamente...) contra a sociedade civil "oficial", da qual a Escola é um dos representantes. Uma boa parte dos problemas vêm daí, dos alunos nao reconhecerem a autoridade dos diretores e professores, nem acreditarem que o ensino que lhes é dado possa vir a ajudá-los em alguma coisa. E há uma boa dose de resistência a priori com qualquer professor, sobretudo se branco de classe média... Daí a indisciplina, na melhor das hipóteses, e até a violência, que tem grassado nas escolas. Sem levar isso em conta nada se poderá fazer. Mesmo levando em conta, é difícil atuar nisso...
É preciso conquistar o apoio da comunidade dos alunos, e deles mesmos. Seria preciso ter atividades extraclasse, esporte, música, clubes de inglês (que ensinassem letras das músicas que eles cantam, e nao os conteúdos "escolares", seduzir é preciso), teatro, coisas que fossem capazes de "portar" os conteúdos tradicionais, mas com roupagens mais atraentes. Nao é possível fazer tudo logo, mas pelo menos uma mudança de atitude da escola para com os alunos é indispensável.

Lacyr said:
Anarquista, sua visão do assunto é muito semelhante à minha. Devo dizer que é muito bom ver alguém com posições parecidas.
Levamos para as salas de aulas muito daquilo que somos, muito de nossa formação básica.
Posso estar muito enganado em minhas convicções mas penso uma educação mais humana e menos técnica. Penso na valorização do indivíduo, respeitando suas fragilidades e enaltecendo suas qualidades. Professores com humildade suficiente para entender que aquele aluno com deficiências merece toda atenção para que ele venha a se integrar com os mais avançados.
Tenho 15 anos de sala de aula no ensino técnico e nunca recebí uma avaliação negativa de meus alunos.
Motivos?
1- Humildade para entender que devo ajudar os alunos a superarem suas deficiências mediante uma escalada rumo ao alto de sua auto-estima.
2-Empatia para ver nesse aluno aquele que fui um dia e que teve suas deficiência também.
3- "Seduzir" o aluno com as práticas referentes aos conteúdos teóricos.
4- Capacidade de mostrar ao aluno as aplicações do aprendizado em seu dia-a-dia.
Não sou dono fluência textual da maioria dos comentaristas, principalmente devido à minha principal característica que é a simplicidade ao me expressar. Tenho idéias para aplicação em educação. Talvez não as saiba expressar de forma erudita o suficiente para agradar pessoas que destinam verbas, mas continuo achando que a integração de tecnologias multimídia, professores e alunos poderia gerar um crescimento pessoal e institucional muito grande.
Mas, ja tentei aprovar meu humilde projeto em várias instituições e nunca consegui.
Para encerrar eu acredito que o professor deve ser valorizado em todos os sentidos para que o aluno possa ser igualmente valorizado.
Há 15 anos vejo os alunos receberem melhores salários que seus professores com poucos anos de trabalho.
Em minha opinião bônus é um band-aid para curar fratura exposta. E é um bônus, jamais será um salário ou fará parte do mesmo. Suas futuras aposentadorias que o digam.
Nao, João, nao é esse o tamanho da encrenca. Esse é um dos "sintomas" da encrenca, e, embora gravíssimo, nem mesmo o pior deles. Volte a ler o post do Luiz Carlos, nao sei se neste fórum ou se no da progressao continuada. A casa está em chamas, e a ausência de aprendizagem é apenas uma das conseqüências do fogo.

João Vergílio Gallerani Cuter said:
A comparação com o halterofilismo não é de maneira alguma exagerada, Salazar. Se há um BOM uso que poderíamos fazer da filosofia na escola é exatamente esse: halterofilismo mental. A idéia que dei da leitura de Platão (um diálogo relativamente simples - o Fédon, por exemplo) não era uma brincadeira. Com um roteiro inteligente de perguntas e respostas que induzam a compreensão dos pontos principais, é perfeitamente factível fazer a leitura de todo o diálogo numa classe de aluno de 16 anos que tenham recebido uma formação básica próxima do razoável. Que sejam capazes de ler, entendendo, o editorial de um grande jornal, por exemplo. (Estamos longe disso, concorda?) Para uma criança assim, a leitura de um diálogo de Platão ao longo de um semestre sob supervisão semanal não é uma missão impossível. E servirá, mesmo, para ela desenvolver ainda mais sua capacidade de leitura.
Mas, vamos devagar. Agora, temos que pensar em como conseguir que as crianças tirem notas superiores a cinco num exame muito simples de português ou matemática. É esse o tamanho da encrenca, não é? Abraço. João.
Oi Vergílio,
É sim. Desculpe a demora em responder. Cheguei ontem de viagem.
Realmente é bom pensarmos e fazermos propostas. Estas, dadas condições reais de serem concretizadas devem ser confrontadas e, se possíveis, postas em um plano que as façam complementares.
Parabéns pela iniciativa.

João Vergílio Gallerani Cuter said:
Gesil,
É naquela universidade que fica no meio da estrada que liga Ilhéus a Itabuna, não é? Santa Cruz, se não me engano. Já estive por lá - lugar lindo, gente boa. É de propostas assim que a educação brasileira precisa. Coisas relativamente simples e factíveis, que introduzam mudanças no curtíssimo prazo.
Prezada Anarquista,
Eu sempre fui contra esta estória de não haver Matemática, Química e Física para o curso "Normal". Nunca achei uma justificativa convincente para isso. Acho que fica tudo desequilibrado.
Por outro lado, sou professor de Física e Matemática e percebo que, na grande maioria das vezes, os problemas que meus alunos sempre tiveram nestas matérias começam sempre com a dificuldade de interpretar os textos das questões. Falta leitura e autoconfiança a nossos jovens.

Anarquista Lúcida said:
Acho que você devia apresentar seu projeto aqui. Pelo menos você está imerso na prática, tem resultados. Se eu fosse você nao me preocuparia muito com a falta de "grandes discursos" e de erudição teórica. Aliás, quer saber? Cultura humanista é importante. Mas cultura científico-matemática tb é, mesmo para a formação do raciocínio crítico, cidadania, etc. Sou lingüista e, no desenvolvimento dos meus estudos, sofro com a grande dificuldade de ter feito Normal, onde nao se aprendia quase nada de Matemática e Ciências. Hoje me interesso por Neurociência, e nao tenho base para entender certos assuntos. Sou obrigada às vezes a fazer como fazia em criança, em que lia certos livros, como o Viagem ao Céu de Lobato, e pulava todos os trechos em que ele queria ensinar demais no meio da história. Agora pulo as equações, sou obrigada a acreditar que os autores estao fazendo bom uso delas.


Lacyr said:
Anarquista, sua visão do assunto é muito semelhante à minha. Devo dizer que é muito bom ver alguém com posições parecidas.
Levamos para as salas de aulas muito daquilo que somos, muito de nossa formação básica.
Posso estar muito enganado em minhas convicções mas penso uma educação mais humana e menos técnica. Penso na valorização do indivíduo, respeitando suas fragilidades e enaltecendo suas qualidades. Professores com humildade suficiente para entender que aquele aluno com deficiências merece toda atenção para que ele venha a se integrar com os mais avançados.
Tenho 15 anos de sala de aula no ensino técnico e nunca recebí uma avaliação negativa de meus alunos.
Motivos?
1- Humildade para entender que devo ajudar os alunos a superarem suas deficiências mediante uma escalada rumo ao alto de sua auto-estima.
2-Empatia para ver nesse aluno aquele que fui um dia e que teve suas deficiência também.
3- "Seduzir" o aluno com as práticas referentes aos conteúdos teóricos.
4- Capacidade de mostrar ao aluno as aplicações do aprendizado em seu dia-a-dia.
Não sou dono fluência textual da maioria dos comentaristas, principalmente devido à minha principal característica que é a simplicidade ao me expressar. Tenho idéias para aplicação em educação. Talvez não as saiba expressar de forma erudita o suficiente para agradar pessoas que destinam verbas, mas continuo achando que a integração de tecnologias multimídia, professores e alunos poderia gerar um crescimento pessoal e institucional muito grande.
Mas, ja tentei aprovar meu humilde projeto em várias instituições e nunca consegui.
Para encerrar eu acredito que o professor deve ser valorizado em todos os sentidos para que o aluno possa ser igualmente valorizado.
Há 15 anos vejo os alunos receberem melhores salários que seus professores com poucos anos de trabalho.
Em minha opinião bônus é um band-aid para curar fratura exposta. E é um bônus, jamais será um salário ou fará parte do mesmo. Suas futuras aposentadorias que o digam.
O fato é que precisamos primeiro contar com a vontade política dos governantes em relação à melhoria do ensino. O que é difícil.

Algumas considerações:

1) Uniformizar livros pode não ser uma boa solução para um Brasil que são vários Brasis;

2) temos que contar com o material humano que temos (professores, funcionários) e não com um profissional de ensino idealizado, imaginário;

3) o que é uma criança talentosa? Milton Nascimento foi adotado e, se não o fosse, talvez nunca tivéssemos ouvido falar nele. Afinal, negro e pobre é relegado aos guetos. Einstein e Freud foram considerados incapazes pelos seus professores quando crianças.

4) sem um salário decente não há vocação que resista.

O recente aumento de salário dos professores, que enfrentou discordâncias dos governos estaduais (São Paulo e Rio Grande do Sul, por exemplo), já é um passo.

O fato do Ministério da Educação ter um plano nacional de educação já é um outro passo importante.

As políticas sociais do atual governo, em que pesem seus defeitos, têm reduzido a pobreza e ampliado a classe C. Isso é fundamental, pois criança desnutrida tende a ter suas chances de crescimento intelectual reduzidas.

Citei essas políticas sociais pois acho que não podemos ver a educação apartada das demais ações do governo e da sociedade.
Caros amigos...o debate é de bom nível e primordial para a melhoria da educação nacional...Porém, acredito que seja, neste momento, de fundamental importância, que o debate se dirija às críticas que a lei "do piso nacional" vem sofrendo, sobretudo, pelos partidos de Direita, (PSDB, principalmente), nas figuras dos secretários de educação.
A lei trouxe consigo uma série de emendas que, postas em prática pelos governos estaduais, trarão um avanço significativo à condição de trabalho dos professores. Cito, por exemplo, a mudança no tempo de trabalho extraclasse – sem este trabalho, como o professor pode dar continuidade a sua formação? – de 20% em média para 33%. Dessa forma, o professor poderá, além de preparar melhor seu trabalho e coletivamente, descansar da sua jornada tão desgastante.
Acredito, ainda, que se os maiores interessados nessa lei – que são os professores – não tomarem ciência dos ataques que a lei vem sofrendo e se manifestarem, ficarão sem as “migalhas necessárias” oferecidas pela governo federal, em forma de lei de Estado.
Oi, Joao

Olha, acho que é fácil dizer "deixemos a questao salarial de lado". Até porque ela é um fator que influencia no recrutamento de pessoas para a profissão (ninguém é masoquista de querer trabalhar com esses salários, e pior ainda com essas condições de trabalho...). Mas, Ok, ponhamos isso em segundo plano como um exercício ficcional. Para melhorar as relações acadêmicas dentro de sala, seria preciso agir sobre os 2 lados dessas relações, ou seja, sobre os professores e sobre os alunos.
Em relação aos professores, além do salário que nao é um fator "descartável", seria preciso ao menos dar-lhes condições de trabalho que permitissem que eles pudessem acreditar que o esforço deles pode fazer diferença. Se eles trabalham em várias escolas para sobreviver, e enfrentam turmas de mais de 40 alunos em ambientes horrorosos, e lhes sao impostos pela goela abaixo métodos e ideologias educacionais às vezes até bons, mas que nao correspondem ao que eles mesmos acreditam -- e que além do mais mudam a cada fracasso do pacote anterior -- o desânimo e a exaustão física impedem qualquer resultado. Entao como sugestoes, o MÍNIMO seria:
-- horário integral numa escola só, da qual pudessem "vestir a camisa"; mas, claro, com salário correspondente no mínimo a 2 matrículas, para poderem estar realmente na escola em tempo integral, com tempo para planejamento, estudo, reflexao sobre os problemas, atividades no contra-turno (nao só "de recuperação", no sentido banal, mas de "sedução/aprofundamento" pela/da disciplina: atividades complementares, clube de ciências ou de línguas, teatro, oficinas diversas, etc.); que pudessem trabalhar menos exaustos e com mais interesse e satisfação;
-- o que tb exigiria RESPEITO: que fizessem parte das decisões pedagógicas da escola, nao fossem tratados como robôs que só devem executar coisas; que fosse OUVIDOS REALMENTE sobre as dificuldades que encontram, pedagócias ou relacionais; que suas sugestoes fossem levadas em conta;
Com relação aos alunos, o problema é ainda mais sério. Nao em todas as escolas e em todas as comunidades, mas, na periferia das grandes metrópoles, ao menos, eles simplesmente nao vêem sentido nenhum na escola e no que ela tem para oferecer. Acho que em alguns casos a solução seria a escola procurar se aliar com a comunidade, e procurar tb algumas atividades que pudessem interessar aos alunos. Agora, quando a própria comunidade está numa situação de anomia geral, entregue ao império do tráfico ou das milícias etc., sendo que muitas vezes os próprios alunos fazem parte do "contra-poder" local, nao vejo o que possa ser feito.
Quanto a essa história de "metas de desempenho", gratificações diferenciadas, etc., acho que só servem para os governantes jogarem a responsabilidade dos problemas sobre os ombros dos professores e fazerem figuração (além de economizar com as aposentadorias, nao é?). Se derem boas condições de trabalho para os professores eles farão bem o seu trabalho sem necessidade de "pirulitos". Esse tipo de coisa só vai levar a conflitos dentro da escola, transformação de todo o ensino em "pré-vestibulinhos" e outras deformações. Se você trata as pessoas na base da cenoura e do bastao, nao pode esperar muito delas.
João Vergílio Gallerani Cuter said:
Anarquista,

Concordo plenamente que o prédio está em chamas. Mas acho que temos que pensar em maneiras práticas e factíveis de apagar o fogo no curtíssimo prazo. Proponho deixar de lado, por um momento, a questão salarial. Não que não seja uma questão relevante. É claro que é. Mas recomposição salarial é necessariamente política de médio e longo prazo. Além disso, faz com que toda a discussão fique contaminada por um viés "sindical". O salário é esse que está aí, e continuará sendo mais ou menos esse nos próximos dez anos. Nesse meio tempo
O livro didático deve ser discutido sob o ponto de vista da economia de recursos. Já houve menção no próprio blog do texto do IPEA sobre a eficiência do governo na aquisição dos livros didáticos (IPEA texto para discussão 1307). O referido estudo sugere que a eficiência será maior se, ao invés de comprar o livro, o Estado passe a comprar o conteúdo (direito autoral) e fazer uma licitação para a produção dos mesmos. Trata-se de um problema muito sério, que requer uma ação cuidadosa do governo. Há aspectos muito positivos no atual programa do livro didático que não podem ser abandonados (certificação do conteúdo, a logística para distribuição, entre outros).
Uma unificação será sempre objeto de desconfiança. Basta pensar: quem serão os “iluminados” que escolherão a coleção de livros a ser usada? Penso que seria perigoso demais encaminhar uma política como essa.
A economia de recursos, por outro lado, deveria ser acompanhada da proposição de um programa para equipar com outros recursos as escolas. Em resumo, gastar menos na aquisição de livros didáticos para ter recursos para cultura, laboratórios, equipamentos esportivos, etc.
A proposta de capacitação dos professores centrada nos conteúdos dos livros didáticos (sem considerar o que já apontei acima) está ancorada no princípio de que a educação melhora se o professor, individualmente, ensina bem. Não estou dizendo que isso não seja importante, é e muito. Contudo, o trabalho na escola é coletivo. Como contemplar esse aspecto sempre esquecido (até e, principalmente, pelos professores)? Como enfrentar problemas como a rebeldia (que alguns chamam de indisciplina)? Como chegar a resultados tão valorizados em termos de formação, como os de trabalho em equipe, se os professores agem isoladamente, centrados em seus materiais didáticos?
Além disso, cada escola é um mundo, com suas características próprias. Como criar um programa de formação que conseguisse cobrir a multiplicidade?
Quanto a um sistema duplo de ensino, já deixei registrada a minha posição noutro tópico de discussão deste fórum (A progressão continuada). Penso que não é conveniente voltarmos a uma organização que existiu no passado e deu mostras de inadequação (existiu na Europa e, lá, foi abandonada nos anos que sucederam a 1ª Guerra).
Contudo, considero que seria muito interessante que, para além da escola (que deve ser aberta a todos, sem exceção, e não apenas o ensino fundamental, mas o ensino médio também), fossem oferecidas oportunidades, em outras instituições que não apenas a escola, para todas as crianças que apresentassem talento e disposição para aprender mais.
Quanto à proposta que faz referência às escolas técnicas, gostaria de lembrar que o ensino profissional não deve ser reservado aos que (perdoem-me a expressão) “fracassam na escola”. Se for assim, como poderemos confiar nos profissionais formados por essas escolas? Ensino profissional deve se procurado por aqueles que tem interesse e, especialmente, talento para serem bons técnicos.
A organização por períodos trimestrais não precisa ser imposta por medida normativa. Hoje, da forma como está colocado na legislação, os sistemas de ensino podem organizar o calendário da forma que for mais conveniente (artigo 23, parágrafo 2°, da LDB). A única restrição são a carga horária mínima (800 horas anuis) e número de dias de aula (200 dias).
O sistema de bonus é razoável. Contudo, não podemos criar armadilhas, como, por exemplo, práticas imediatistas que não resolvem os problemas das escolas e, eventualmente, os agrava. Penso que é necessário cautela.
É, Gesil, a falta de capacidade de leitura é, do ponto de vista estrito da aprendizagem (fora os outros graves problemas da escola que nao se resumem a questoes de aprendizagem ou nao), o pior resultado do ensino, pois impossibilita a aprendizagem de qualquer matéria. Se queremos ajudar as crianças atualmente, e ao mesmo tempo ir construindo um futuro melhor, o maior investimento deveria ser nas séries iniciais de alfabetização. Pelo menos nelas deveria haver poucos alunos por sala, e a possibilidade até de atendimento individual para aqueles que nao estivessem acompanhando. Mesmo do ponto de vista estritamente financeiro, seria uma economia. A escola nao está conseguindo ensinar a ler.

Gesil Amarante said:
Prezada Anarquista,
Eu sempre fui contra esta estória de não haver Matemática, Química e Física para o curso "Normal". Nunca achei uma justificativa convincente para isso. Acho que fica tudo desequilibrado.
Por outro lado, sou professor de Física e Matemática e percebo que, na grande maioria das vezes, os problemas que meus alunos sempre tiveram nestas matérias começam sempre com a dificuldade de interpretar os textos das questões. Falta leitura e autoconfiança a nossos jovens.

Anarquista Lúcida said:
Acho que você devia apresentar seu projeto aqui. Pelo menos você está imerso na prática, tem resultados. Se eu fosse você nao me preocuparia muito com a falta de "grandes discursos" e de erudição teórica. Aliás, quer saber? Cultura humanista é importante. Mas cultura científico-matemática tb é, mesmo para a formação do raciocínio crítico, cidadania, etc. Sou lingüista e, no desenvolvimento dos meus estudos, sofro com a grande dificuldade de ter feito Normal, onde nao se aprendia quase nada de Matemática e Ciências. Hoje me interesso por Neurociência, e nao tenho base para entender certos assuntos. Sou obrigada às vezes a fazer como fazia em criança, em que lia certos livros, como o Viagem ao Céu de Lobato, e pulava todos os trechos em que ele queria ensinar demais no meio da história. Agora pulo as equações, sou obrigada a acreditar que os autores estao fazendo bom uso delas.


Lacyr said:
Anarquista, sua visão do assunto é muito semelhante à minha. Devo dizer que é muito bom ver alguém com posições parecidas.
Levamos para as salas de aulas muito daquilo que somos, muito de nossa formação básica.
Posso estar muito enganado em minhas convicções mas penso uma educação mais humana e menos técnica. Penso na valorização do indivíduo, respeitando suas fragilidades e enaltecendo suas qualidades. Professores com humildade suficiente para entender que aquele aluno com deficiências merece toda atenção para que ele venha a se integrar com os mais avançados.
Tenho 15 anos de sala de aula no ensino técnico e nunca recebí uma avaliação negativa de meus alunos.
Motivos?
1- Humildade para entender que devo ajudar os alunos a superarem suas deficiências mediante uma escalada rumo ao alto de sua auto-estima.
2-Empatia para ver nesse aluno aquele que fui um dia e que teve suas deficiência também.
3- "Seduzir" o aluno com as práticas referentes aos conteúdos teóricos.
4- Capacidade de mostrar ao aluno as aplicações do aprendizado em seu dia-a-dia.
Não sou dono fluência textual da maioria dos comentaristas, principalmente devido à minha principal característica que é a simplicidade ao me expressar. Tenho idéias para aplicação em educação. Talvez não as saiba expressar de forma erudita o suficiente para agradar pessoas que destinam verbas, mas continuo achando que a integração de tecnologias multimídia, professores e alunos poderia gerar um crescimento pessoal e institucional muito grande.
Mas, ja tentei aprovar meu humilde projeto em várias instituições e nunca consegui.
Para encerrar eu acredito que o professor deve ser valorizado em todos os sentidos para que o aluno possa ser igualmente valorizado.
Há 15 anos vejo os alunos receberem melhores salários que seus professores com poucos anos de trabalho.
Em minha opinião bônus é um band-aid para curar fratura exposta. E é um bônus, jamais será um salário ou fará parte do mesmo. Suas futuras aposentadorias que o digam.
Oi, todos interessados no tema

Abaixo está um link para um bom artigo a respeito. Vejam.
http://www.cartanaescola.com.br/edicoes/28/consenso-superficial/

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