A Mensagem sobre aprovação automática gerou uma avalanche riquíssima de comentários, abordando vários ângulos.

Pretendo levar para a Comunidade do Blog, para tornar permanente a discussão sobre modelos pedagógicos e melhoria do ensino.

Para tanto, será necessário uma síntese isenta dos principais argumentos levados - a favor e contra. E estou em uma pauleira de dar gosto por esses dias. Se alguma boa alma se dispuser a fazer essa síntese, ajudaria bastante.

Pelo que entendi lendo os comentários e os trabalhos sugeridos (inclusive o do IPEA):

1. Não se deve confundir progressão continuada com aprovação automática.

2. A repetência é um fator desestimulador do aluno. Mas, por outro lado, a não repetência pode ser um álibi para a aprovação de alunos sem condições.

3. Por isso mesmo, a progressão continuada pressupõe uma estrutura eficiente, para apoiar o aluno no decorrer do curso, corrigindo suas vulnerabilidades. Sem essa estrutura, progressão continuada não funciona.

4. O estudo do IPEA demonstra que, na média, países que adotaram a progressão continuada tiveram melhor desempenho que os demais. Mas demonstra também que muitos países que não adotaram a progressão continuada, conseguiram também bons desempenhos. O que realça o ponto central: com ou sem progressão continuada, há que se ter um arcabouço institucional e operacional.

5. Continuo um defensor de metas e remuneração por desempenho. Meta é fundamental para qualquer professor e escola saberem onde estão e para onde pretendem ir. A questão é a metodologia das metas. Por isso, é importante um bom apanhado da defesa e das ressalvas apresentadas às metas utilizadas pela Secretaria de Educação de São Paulo.

Exibições: 1662

Anexos

Responder esta

Respostas a este tópico

Luiz Carlos, pois vamos contribuir com o debate para que outras idéias sejam compartilhadas. Lá vão as minhas.

Vou pegar algumas das últimas propostas/idéias apresentadas pelo João Vergílio.

João, veja como é difícil discutir: analise o que vc diz sobre as idéias daqueles que discordam das suas. Estas outras idéias, segundo vc, sobrevivem no vácuo e que as "coisas ficam fáceis demais para a direita babante, no estilo da revista Veja. Basta instrumentalizar o óbvio. Do outro lado, o que você tem (se referinco a AnaLú) é sempre o mesmo discursinho pronto, ideológico no pior sentido, descreditado, imune aos fatos, recusando-se a pensar a dimensão política, perdido em abstrações..."

Vamos ver então como é o seu discurso, o qual seria desprovido daquelas vícios que vc enxerga nos outros.

Você alega que as "coisas começarão a mudar quando tivermos a oferecer algo consistente, factível, palpável."

Cito algumas destas coisas consistentes, palpáveis, factíveis, segundo você:
- pensar maneiras de reinstalar um mínimo de autoridade do professor sobre o aluno, ou vamos continuar patinando...
-hierarquia e mérito. Sem isso, o jogo pedagógico não tem condições sequer de começar. Não quer dizer autoritarismo, não quer dizer estigmatização...

Você pensa em "reinstalar" a autoridade e entre suas propostas está o estabelecimento de hierarquia e mérito e fala da criação de uma escola diferenciada para algo em torno de 5% das crianças mais talentosas...

Olha o que VOCÊ argumenta: "para entrar nas melhores universidades públicas do país, o aluno pobre precisa concorrer com jovens de classe média que estudaram em escolas particulares. Minha idéia é fazer uma seleção precoce, lá pelos dez anos, e encaminhar os 5% mais talentosos para escolas que lhes dêem condições efetivas de competir. Aí, o dilema. Ou criamos uma rede paralela, ou damos bolsas de estudo." E diz mais ainda: que "para a discussão não embolar no formalismo, basta imaginar formas de driblar o sistema. Para quem veio do sistema público, e pode comprovar necessidade, de graça (formalmente, uma bolsa de estudos). Para quem veio de escola privada, R$1.500,00 por mês.

Advertido de que esta proposta era inconstitucional, depois de duvidar que o fosse, alegasse questão de interpretação, exigisse prova e, finalmente, reconhecesse o equívoco, você diz a AnaLú: "Suponhamos que NÃO FOSSE inconstitucional. Devo concluir que, nesse caso, você estaria de acordo comigo?"

Não João. A AnaLú está dizendo a você faz tempo que esta SUA escola representa tudo contra o qual se vem lutando estes anos todos. Ela é inconstitucional como resultado de uma luta que se fez a favor de uma escola de inclusão, democrática, de qualidade PARA TODOS. TODOS João. Resolver isto, ser factível não é reintalar a exclusão, por mais sedutora que seja a proposta. Desta eu tenho certeza que a turma da VEJA babaria....

Se esta a cobrança, para a classe média, da escola, se a presença de uma escola diferenciada para os 5% seja aquilo que você considera consistente, factível, palpável, realmente a coisa é muito séria.

A questão da violência envolve estudos adicionais mas, de qualquer modo, uma escola de qualidade para todos, com bons salários, com música, esporte, boas instalações, junto com a comunidade, com gestão democrática e comprometida, integrando a família e combinada com um projeto nacional (de nação mesmo), seria o caminho. É nesta perspetiva que as pequenas mudanças devem ser feitas.

Por conta de algo "factível... pragmático... palpável..." colocar tudo a perder é um risco que eu particularmente não estou disposta a correr.

À propósito João, você sabia que os governos tucanos e do pfl estão recorrendo do piso salarial nacional dos professores?
João,

O que considero inconstitucional é a proposta de criação de uma rede paralela destinada exclusivamente ao atendimento destes 5% de alunos talentosos oriundos da escola pública. No entanto, percebo que a insistência neste tópico está fazendo o debate patinar.

Luzete,

“...uma escola de qualidade para todos, com bons salários, com música, esporte, boas instalações, junto com a comunidade, com gestão democrática e comprometida, integrando a família e combinada com um projeto nacional (de nação mesmo), seria o caminho. É nesta perspetiva que as pequenas mudanças devem ser feitas.”

Em relação a esses desejos creio não haver discordantes. O problema é como viabilizar.

Embora não seja nenhuma novidade, vejamos:

“O artigo cita um estudo da Confederação Nacional da Indústria (CNI), segundo o qual mais da metade de 1.715 empresas pesquisadas em setembro não conseguia contratar os trabalhadores qualificados de que necessitava.

As soluções de curto prazo têm sido dadas pelas próprias empresas - gigantes como Vale, Petrobras, Ultrapar e Embraer mantêm programas internos de treinamento, diz o NYT. Mas no longo prazo "o prognóstico é mais problemático".

"O sistema educacional do Brasil está em desarranjo. Nos testes de desempenho acadêmico realizados a cada três anos pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) com jovens de 15 anos de 57 países, os estudantes brasileiros ficaram na quarta pior colocação em ciências e na terceira pior em matemática", afirma a reportagem.” (http://www.estadao.com.br/economia/not_eco199217,0.htm)

Olha que este quadro ainda não reflete a geração da Progressão Continuada!

Ao que tudo indica, o Brasil precisa pressa.
Já me manifestei sobre a proposta de um sistema de ensino público que separasse os alunos em grupos distintos, sendo um considerado de alto rendimento e outro com os demais: é retroceder a uma situação que foi abandonada no Brasil e em muitos outros países. A referência ao sistema de ensino alemão também já apontei, recebe críticas.
Mas, o tema volta ao centro do debate. Como não comentar?
Em primeiro lugar, poderíamos nos perguntar: por que 5% dos alunos que demonstrassem mais talento, nas escolas públicas, seriam selecionados?
Por que não 10%?
A resposta poderia ser: "não temos lugar para todos porque os recursos são escassos".
Ótimo! Então, por que não 2%?
Selecionaríamos verdadeiros gênios (e com um custo bem menor). Não é verdade?
Mas, será que atingimos o principal problema?
O Edson trouxe um elemento muito importante ao citar reportagem do jornal Estado de S. Paulo: o problema da educação é social ou, de modo ainda mais preciso: é um problema de massa.
De que adianta "salvar" 5% dos alunos das escolas públicas? Para eles, individualmente, pode ser muito bom. Mas e para o conjunto da sociedade? Na média, continuaremos a ter jovens com 15 anos de idade com baixa proficiência em matemática ou língua portuguesa. Os 5% não farão grande diferença.
Eu penso que o grande problema está justamente ai: a referência ao individual continua sendo mais forte do que ao social. A própria referência ao fato de que, adotando tal sistema teremos "metade dos aprovados no vestibular para medicina na USP" entre os alunos desse sistema, já dá mostras do profundo elitismo que a idéia carrega.
Mantem-se a idéia presente desde o tempo do império (se não antes) de que os homens que carregam anel de formatura no dedo possuem uma distinção inegável e que, portanto, são os melhores.
O desafio não está em tirar "doutores" da favela mas fazer com que todos os alunos aprendam coisas que sejas significativas.
Se isso vai permitir que ele busque a formação de médico na USP, ótimo. Se, por outro lado, os saberes, que a escola deve oferecer a todos, lhe permitirem ser um competente operário, que o seja.
A idéia de formar elites condutoras é a mola de nosso sistema de ensino (mesmo que isso não esteja declarado). O resultado disso, nós conhecemos. Permitir que 5% dos mais empobrecidos componha essa elite não refresca nosso problema social.
Precisamos, ao contrário, de um sistema que leve os saberes para a massa.
João,
sou absolutamente favorável a "reinterpretação" da lei, sempre que ela ferir direitos fundamentais do homem, sempre que ela se ditanciar do direito à igualdade.

se vc ler bem direitinho minha questão verá que não se trata do formalismo da lei, mas ao modo como vc contrói o raciocínio a ponto de derivar dos meus argumentos, inclusive, um ataque a sua honestidade intelectual.

O mesmo artíficio lógico que permitu a você deduzir um ataque a sua pessoa, permitiu a você deduzir que se estava sendo contra a proposta de cobrança do ensino ou de uma escola destinada aos 5%, ou 10%, ou 1% mais talentosos, porque ela seria inconstitucional. Não se trata disto. Eu particularmente acho a proposta um atraso, foi exatamente isto o que eu quis dizer. E acho que é isto que a AnaLú também dizia.

Os tempos são de inclusão. INCLUSÃO.

Aliás, sobre isto, repito o que o Paulo disse:

"O desafio não está em tirar "doutores" da favela mas fazer com que todos os alunos aprendam coisas que sejam significativas.
Se isso vai permitir que ele busque a formação de médico na USP, ótimo. Se, por outro lado, os saberes, que a escola deve oferecer a todos, lhe permitirem ser um competente operário, que o seja.
A idéia de formar elites condutoras é a mola de nosso sistema de ensino (mesmo que isso não esteja declarado). O resultado disso, nós conhecemos. Permitir que 5% dos mais empobrecidos componha essa elite não refresca nosso problema social.
Precisamos, ao contrário, de um sistema que leve os saberes para a massa."

Não se trata de ir contra a medidas de curto prazo. Mas que estas medidas sejam pensadas tendo como referência o que queremos lá no final. Não adianta recorrer a medidas impactantes se elas apenas reafirmam desigualdades e são velhas conhecidas... em qualquer lugar... na Alemanha, na Espanha, no Reino Unido, na França. E no Brasil.
Muito bem Luzete. Mas reafirmo minha indagação: Como viabilizar avanços ?
João,

Sua proposta se baseia, no meu entendimento, na idéia de solapar o edifício da desigualdade social brasileira utilizando a escola e os resultados que ela pode proporcionar como mecanismo para isso. Até esse ponto não se distingue dos princípios gerais do liberalismo. A essência é o individualismo: aquele que possui talento, o mais esforçado, legitimamente, pode alcançar posições mais vantajosas na sociedade. Numa escola, concorrendo igualmente, sobressaem-se os melhores. É a concorrência.
O elemento supostamente novo é o mecanismo de diferenciação: a escola pública dará atenção especial aos alunos de baixo poder aquisitivo que demonstrarem alto rendimento. Estamos diatante, neste caso, de um mecanismo de focalização de uma política pública. Escolhe-se um segmento da sociedade e toma-o como objeto privilegiado (se não exclusivo) da referida política pública.
Nesse caso, não se afasta, contudo, do pensamento liberal. Se o primeiro elemento de sua proposta era herdeiro do liberalismo clássico, o último é do liberalismo contemporâneo.
Se pensarmos em termos do modelo do ensino brasileiro, sua proposta preserva o essencial, vale dizer, o caráter elitista representado por uma frase síntese que, se eu não me engano, estava nas declarações de intenções do decreto-lei que regulamentou o ensino secundário no tempo do ministro Capanema: "forma elites condutoras".
Ou seja, o sistema de ensino está configurado de tal maneira que o acesso aos saberes é restrito. Essa restrição se dá, por sua vez, de modo perverso para as camadas mais empobrecidas.
É nesse ponto que critico sua proposta. Ela não rompe com essa orientação. Ao fazer uso de uma política focalizada ela mantém a restrição do acesso ao saber. Dá acesso apenas a um pequeno grupo.
Não vejo problema algum e concordo que seria muito salutar se um menino ou menina que vem de uma família pobre formasse-se num curso concorrido de uma boa universidade. É ótimo.
Mas, será que isso altera o quadro social?
Melhoremos a distribuição de renda?
Os selecionados, com grande probabilidade, irão melhorar sua condição social. Mas e a grande massa?
Melhoremos a qualificação da população economicamente ativa?
Os selecionados, provavelmente, ocuparão cargos de liderança. Mas e o grosso da população? Continuará a ter dificuldade para se inserir no mercado formal de trabalho e a viver com baixos salários?
Todos nós reconhecemos que universidade não é para todos (aliás, é demagógico o bordão daquele programa de bolsas de estudo promovido pelo MEC - "universidade para todos", demagógico de um lado e uma grande oportunidade de negócios de outra). Mas, saber escolar básico (aquele que permite o sujeito viver dignamente) é direito de todos.
Este é o desafio. Aliás, o grande desafio. Se não há recursos suficientes, que façamos o maior esforço do mundo para obtê-los.
Enquanto isso, aquém da Terra no Nunca ...

“Houve um tempo em que o maior desafio do Brasil era acabar com a inflação. Quando ela finalmente foi derrotada, o desafio seguinte tornou-se reencontrar a via do crescimento econômico, único meio para começar o resgate da dívida social do país. Agora que o Brasil está crescendo, a questão crucial é garantir que seja um crescimento de longo prazo. ... nenhum problema é mais premente que o apagão da mão-de-obra. Tome-se o exemplo da Petrobras, a maior empresa do país. O maior gargalo para seu crescimento não é falta de matéria-prima nem de investimentos. “O principal obstáculo para nosso desenvolvimento é a falta de jovens talentos”, afirma José Sérgio Gabrielli, presidente da empresa. Segundo Gabrielli, a Petrobras e seus fornecedores terão dificuldade para preencher 73 mil postos até o ano que vem. São vagas em 722 especialidades, entre nível técnico e de formação superior. “O apagão de mão-de-obra é evidente”, diz Francisco Ramirez, diretor da empresa de recrutamento de executivos ARC e professor do Ibmec-SP. 'Tenho dificuldades de contratar profissionais para vagas em engenharia, tecnologia da informação, agroindústria, em várias áreas cruciais para o desenvolvimento do país.'
Os números do Ministério da Educação explicam essa dificuldade. Cerca de 35 milhões de crianças e adolescentes passaram pelo ensino elementar na última década. Entre os que cursam o ensino médio, o número cai para 9 milhões. Os 25 milhões que ficaram para trás são muitas vezes analfabetos funcionais. ...” ALEXANDRE MANSUR E PETER MOON
http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EMI5090-15273,00.html

Pensar a educação sob uma perspectiva da sua importância para a formação da mão-de-obra necessária ao desenvolvimento do país é:

a) Abordagem liberal clássica
b) Abordagem neo-liberal
c) Abordagem incompatível com o pensamento de esquerda
d) Nenhuma das anteriores
e) Todas as anteriores
Edson, você está vendo que esta questão não se colocava quando a economia estava patinando? Antes se dizia que sobrava mão de obra, que não adiantava estudar, que isto que aquilo. Agora, os mesmos que antes alegavam que educação é despesa e não investimento, que ameaçavam abandonar o país, agora querem mais mão de obra, e qualificada?
O Luiz Carlos lançou umas propostas de debate em um post anterior. Passamos por cima delas exercitando a nossa capacidade de argumentar.
Gostaria de retomar uma delas:
"O que seriam das escolas particulares sem o horror que encontramos na escola pública?"
É uma pergunta interessante.
Se pensarmos em termos do que acontece em outros lugares do mundo, sobreviveriam apenas aquelas escolas que oferecessem algo que fosse do interesse de segmentos muito específicos da sociedade. Por exemplo, uma família que considera essencial uma formação religiosa mais rigorosa matricularia o filho numa escola confessional.
A pergunta também é relevante porque nos faz lembrar que a maioria das escolas privadas não oferece muito mais do que o trivial. Só um pequeno grupo delas faz algo que se pode classificar como pedagogicamente interessante. Na maioria delas, o equilíbrio financeiro determina o barateamento do trabalho educativo.
Por isso, penso que o padrão da escola privada média (aquela mais comum, cuja "eficiência" no entanto, não é questionada) não pode ser o modelo para uma escola pública de qualidade.
Aliás, uma outra pergunta que eu considero importante é a seguinte: o que seria uma escola pública de qualidade?
A escola particular é igual à escola pública. Os professores são os mesmos. Não há, no ensino fundamental ou médio, professores que tenham dedicação exclusiva em particulares. Tem que jogar nos dois times. Portanto, deve-se analisar dois aspectos: primeiro, a escola pública foi sucateada a partir dos anos 60, quando os governos abriram as portas para o excelente negócio da educação; com as exceções de sempre, o ensino particular era ruim, porque não havia qualificação docente e os professores, à época, eram arrebanhados de acordo com a necessidade; desqualificou-se a escola pública, ao mesmo tempo em que a particular foi apresentada como a salvadora da pátria: se não houve muito sucesso em relação às universidades, porque as públicas eram e são melhores, de modo geral, o intento foi conseguido quanto ao ensino fundamental e médio. De uma hora para outra, os pais classe-média descobriram que seus filhos só fariam sucesso por meio de uma escola particular. O segundo aspecto a considerar é que a educação mudou, tanto quanto o mundo. A escola tradicional é a transposição do modelo industrial para a sala de aula, com um feitor e os "operários" organizados num linha de montagem, cada qual no seu lugar. O que fez sucesso durante o século XX já não está fazendo sucesso agora, quando todos os padrões de educação, de valores e de informação mudaram. Só que a escola, por falta de opção, ainda não mudou. No máximo, voltou aos tempos do Colégio Caraça, que ensinava as elites por imersão, ou seja, ensino e cobrança 24 horas por dia. É o que os melhores colégios fazem hoje, preparando para o vestibular e para a vida de competição no trabalho. A escola pública, mais que a particular, sofre todo esse processo e não tem como reagir, pois depende de uma estrutura democrática que tem mil instâncias: de alunos e pais à secretaria de educação e ao Mec. Como foi desqualificada, tem que recuperar seu amor próprio para, depois, propor alguma mudança. Capacidade e condições para isso ela tem. Mas precisa entrar em campo e jogar para vencer.
João,
A seguir o seu raciocínio fico com duas dúvidas:
1ª) Se qualidade é a preparação para o vestibular e para a competição, então essas empresas que de cursinho pré-vestibular transformaram-se em escolas regulares bem como aquelas que, funcionando pelo sistema de franquia adotam os materiais e métodos das primeiras são escolas cujo padrão deve ser a referência (inclusive para o ensino público)?
2ª) Esses modelos de organização escolar e, principalmente, de encaminhamento do trabalho pedagógico que me referi na 1ª questão não são modelos, vamos dizer, taylorizados de ensino?
João e demais participantes,

Em relação à sua argumentação de que “há uma pessoa que manda, e outras que obedecem. Isso ainda é muito tosco, pois temos que levar em conta o modo de exercício dessa hierarquia, que é muito diferente num caso e no outro. Em todo caso, a questão da hierarquia é importante. Ela é (deve ser) parte das relações acadêmicas, ou não? Eu acho que é (e deve ser), mas acho também que isso diz muito pouco. O problema é saber como essa hierarquia se instala, se exerce e se mantém.”

Peço desculpas por não dispor de tempo para resgatar fundamentação teórica e por isso mantenho-me no senso comum: o processo de alfabetização (e creio que seja possível ampliar para todo o processo de letramento que envolve o ensino fundamental) exige um nível mínimo de maturidade da criança e, para atingir este nível de maturidade, faz-se necessário um ambiente com um mínimo de harmonia (para não utilizar o termo ordem), em que a família, a princípio, é a responsável por prover.

Ocorre que, sem querer generalizar, a realidade da estrutura familiar de boa parte dos alunos da rede pública, a exemplo do caso que já citei aqui, é bastante deteriorada. Há casos em que a escola tende a ser, quando não a única, a melhor experiência de harmonia para a criança. Já observei situações em que a criança precisava das segundas até as quartas-feiras para estabelecer certo equilíbrio emocional, visível em seu comportamento e desempenho escolar nas quintas e sextas-feiras. Sábados e domingos: a exploração nos semáforos dos cruzamentos, humilhações, frio, violência doméstica etc. Ou seja, contestar a hierarquia e o “poder disciplinador” na didática do ensino superior e mesmo no ensino médio é uma coisa, no ensino fundamental, me parece outra. Inegavelmente na relação entre professor e aluno do ensino fundamental há uma “hierarquia” intrínseca; é uma relação entre adulto e crianças e o papel deste adulto no estabelecimento de um ambiente favorável à aprendizagem é complicadíssimo, me parecendo a analogia com modelos tayloristas, produção industrial do século XIX, pós-modernidade, realidade virtual etc., argumentações fora de contexto.

Em relação à qualidade do ensino na escola particular, como gosto de contar causos, aqui vai mais um:

Certa vez uma amiga, toda satisfeita, veio nos dizer que havia tirado o seu filho da escola pública e o matriculado em uma escola particular do bairro. Como eu e minha esposa estávamos vinculados profissionalmente à educação, ela praticamente nos reivindicava um parecer de aprovação da sua decisão. Conhecíamos a escola particular em questão e, com um certo cuidado para não ferir o orgulho explícito de nossa amiga, fizemos algumas observações. A escola era de um preço acessível, mas sabíamos que significava certo sacrifício econômico para ela. Após uma determinada observação fomos prontamente contra-argumentados com as seguintes afirmações: “Mas lá todos os alunos são obrigados a usar uniforme, o Tinho (fictício) não vai ter que conviver com aqueles meninos que saem da Febem, e se ele não aprender não tem esse negócio de empurrar não. Eles reprovam mesmos!”. Tudo bem, o papo enveredou por um caminho qualquer e, após alguns dias (não me recordo se mês) ela nos procura indignada para mostrar um bilhete que havia recebido da professora. Não me recordo exatamente do texto, mas era algo mais ou menos assim:

“Mãe, você preciza me procurar na escola. O Tinho não está fazendo as lição de casa. Bjs. Prô.”

RSS

Publicidade

© 2022   Criado por Luis Nassif.   Ativado por

Badges  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço