Gente, há tempos ando falando aqui na Comunidade, e em comentários ao Blog-mãe, do que chamo de "anti-seleção" de professores, o fato de que, por causa dos salários, das péssimas condições de trabalho, e do desprestígio social, o ingresso na carreira, em vez de atrair jovens com maior experiência cultural e melhor bagagem escolar, tem atraído exatamente o inverso: jovens de pior escolaridade, e sem tradição cultural, que, mesmo com boa vontade, nao têm como incentivar o gosto pela leitura e pelo estudo nos alunos, já que eles próprios nao o desenvolveram.

As condições negativas para o exercício da profissao tb tem inclusive causado uma grande dose de abandono da profissao no meio daqueles cujas licenciaturas abrem outras possibilidades de trabalho, como as de Matemática, Ciências e Geografia, matérias para as quais já faltam professores.

Dada essa situação, o que o poder público está fazendo? Abrindo escolas de formação à distância para professores, com tutores generalistas, sem convívio acadêmico que permita a ampliação dos horizontes dos formados, etc. Ou seja, uma formação "barata", que pode atrair alunos ainda mais desfavorecidos (de pequenos centros, onde nao haja faculdades), e que receberão uma formação pior ainda do que os professores atuais receberam. Resolve-se o problema do poder público de encontrar "vítimas" para o exercício do magistério, e que aceitem os salários de miséria pagos; o decréscimo ainda maior da qualidade de ensino parece que nao importa.

Nos últimos dias saiu um documento da UNESCO fez um documento sobre a situação dos professores que tocou no assunto, parece (segundo o que diz o informe Andes que reproduzo abaixo; ainda nao tive tempo de ler o documento, com mais de 200 páginas; para quem se interessar o link é http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001846/184682POR.pdf).

Informe Andes a respeito:

No dia do mestre, o profissional da educação não teve muito o que comemorar. Relatório divulgado pela Unesco classificou a situação do professor no Brasil como crítica. No documento, os salários reduzidos foram apresentados como mais um ingrediente da degradação do magistério. Segundo a pesquisa, os estudantes que ingressam nos cursos de pedagogia e licenciatura recebem formação que pouco enfatiza a relação entre teoria e prática. A maioria se forma em instituições particulares, à noite, e um número reduzido passa por estágios bem coordenados antes de lecionar. A carreira não tem se mostrado atrativa para os jovens de maior nível socioeconômico, afirma o estudo.

Estudo brasileiro reitera necessidade de mudança

Pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas (FCC) verificaram que 50,6% dos alunos de pedagogia e licenciatura têm pais sem nenhuma escolaridade ou que chegaram até à 4º série. Percentual que despenca para 7,1% quando o alvo da pesquisa são os estudantes de Medicina, por exemplo. Os números são resultados de um questionário aplicado a alunos que prestaram o Enade.

O estudo concluiu que há necessidade de alterações na grade curricular dos que optam pelo magistério. “São jovens em ascensão social que buscam enriquecer sua bagagem sociocultural na universidade”, afirmou uma das pesquisadoras da FCC, Bernadette Gatti.

Fonte: Imprensa Andes

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Respostas a este tópico

Oi AnaLú, voce sabe que não costumo me meter muito nos tópicos de educação por absoluta falta de conhecimento para discussão de assuntos pertinentes à área. Mas copiei e colei essa notícia do Terra que achei que deve acrescentar algo.

Câmara aprova nível superior a professor da educação básica

O Plenário da Câmara dos Deputados aprovou o substitutivo da Comissão de Educação e Cultura para o projeto de lei da deputada Ângela Amin (PP-SC) que exige nível superior, com licenciatura, dos professores que atuarão na educação básica. A informação é da Agência Câmara.

O substitutivo do deputado Iran Barbosa (PT-SE) será enviado para votação no Senado. O projeto exige formação em nível superior para professores da educação infantil (creche e pré-escola) e das quatro séries iniciais do ensino fundamental. É permitida a contratação de professores com nível médio nos locais onde comprovadamente não houver profissionais com nível superior.

O substitutivo de Iran Barbosa mesclou ambos os textos, mantendo a redação do Poder Executivo para a exceção à exigência de diploma de nível superior. Será admitida a formação mínima de nível médio do professor, na modalidade Normal, para o exercício do magistério na educação infantil. O texto da deputada Ângela Amin estendia essa possibilidade para o ensino das séries iniciais do ensino fundamental.

Pela Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania, o deputado Maurício Quintella Lessa (PR-AL) apresentou emendas de redação e opinou pela constitucionalidade e juridicidade dos projetos
Sérgio, Educação é uma coisa que afeta a todos, e é séria demais para ficar entregue apenas a especialistas... (rs, rs), que aliás eu nao sou propriamente; sou "apenas" professora há mais de 40 anos... Mas todos têm o seu ângulo de visao sobre essa questao, seja como educadores, professores, políticos, pais de alunos e inclusive alunos e ex-alunos...

Na verdade essa exigência é antiga, mas "vai e volta": exigem, dizem que nao há profissionais suficientes, abrem exceções e a coisa volta. Mas tb nao considero que isso seja o essencial, até porque há mil faculdades de Pedagogia de fundo de quintal (para cursos de Pedagogia basta cuspe e giz, sao "baratos"...); as professoras antigas tinham só Normal. A questao é que elas mesmas tinham tido uma educação de qualidade, e vinham de famílias com maior nível cultural, que tinham hábito de leitura, etc.

Nao pense que estou sendo elitista, a questao é de "capital cultural e escolar": quem nao tem, nao tem como dar... (Há uma revista da Editora Duetto sobre Bourdieu, que estava nas bancas até pouco tempo, que dá uma boa introdução a esse conceito de capital escolar).

O fato dos professores virem de meios populares poderia ter um efeito positivo, no sentido de os aproximar dos alunos, só que questoes de identidade de classe nao sao tao simples assim: muitas vezes quem conseguiu uma "subida" relativa de classe quer mais é se afastar subjetivamente de onde veio. Origem de classe nao garante posição de classe...

E, mesmo independentemente desse desejo de afastamento do meio de origem, há a questao de pessoas nessas condições tenderem a valorizar o que, para elas, passou a ser "emblema" dessa subida, como a bendita questao da "língua culta" (que na verdade as pessoas nao adquiriram realmente, mas aprenderam a valorizar); e daí, às vezes até com a melhor das intenções, mas equivocadamente, tendem a querer "consertar" a linguagem dos alunos, com efeitos catastróficos, tanto por "calar" os alunos, quanto por indispô-los contra a escola e os professores. (Você viu o filme "Entre os Muros da Escola"? Pense naquela aula sobre o mais-que-perfeito, tempo que no Francês está associado a uma linguagem extremamente afetada e formal).
Anarquista Lúcida,

A tempos não lia verdades tão simples e tão bem colocadas, parabéns, sinceramente parabéns.

Talvez, e digo talvez, porque na evolução dos tempos poder ser que suja algo mais importante do que a educação, (Pessoalmente entendo que o que se dá na escola é instrução: Linguas, matemática, ciências...), mas como você disse se não trouxer a educação do berço, vai encontrar dificuldade para levar educação aos alunos.
O afastamento da classe, isto é algo corretamente colocado, você deve realmente ser educadora, porque é necessário ser phd, mas não é suficiente, também tem que ter a propedêutica e o propedêutico no sangue.

Mais uma vez, meus parabéns pelo poste.

Falou...
Me desculpem membros do Portal por ocupar toda a primeira página com tópicos, mas é que um admirador que eu nao suspeitava que tinha anda solicitando meus tópicos sobre Educaçao, e resolvi fazer a vontade dele refrescando alguns criados por mim (fora todos os outros em que tive muita participaçao, mas nao criados por mim).
Pois é, Maria Dirce, eles querem atrair jovens tao desfavorecidos que ainda possam ver o magistério como uma solução para ter curso superior. Sao exatamente os que precisariam mais do convívio universitário, incentivo à cultura, etc. Mas para eles sao destinados cursos de faz-de-conta. O Joao Vergílio (que aliás sumiu, acho que saiu da Comunidade) se insurgia muito contra a farra do livro didático. Falta alguém denunciar a farra desses cursinhos de aperfeiçoamento que nao servem para nada a nao ser para dar dinheiro para quem os fornece.
Claro que o problema está na destruição da escola pública. Mas como essa destruição foi feita? Principalmente por 2 fatores, um deles positivo em si mesmo.

Este fator positivo, mas que contribuiu para a destruição, foi a universalização do acesso, o que era minimamente indispensável. Mas se para os garotos de classe média, que fala(va)m uma língua mais parecida com a que a escola quer ver usada, e sofriam pressao em casa por resultados escolares, o ensino que a escola fornece já nao fazia sentido, e já havia bastante indisciplina antigamente, embora "velada" (jogo de batalha naval baixinho, leitura de romances... você nao se lembra disso? eu lembro... e era uma escola só feminina...), eleve isso ao cubo no que toca aos outros...

Ensino que nao faz sentido, inexistência de cobrança e/ou autoridade familiar (o que é algo complexo, estou simplificando), progressao continuada que virou aprovação automática, retirando o fator de pressao sobre a obtenção de resultados escolares (outra coisa complexa, nao estou assumindo posição contra a progressao continuada, que é indispensável, ou voltamos à situação de antes; só que precisa ser real, e nao de faz-de-conta), turmas imensas, falta de condições físicas, etc., e temos o resultado: turmas rebeladas, que nao assistem às aulas (veja nos primeiros tópicos sobre Educação os testemunhos do Luiz Carlos, que de turmas de 45 alunos apenas 5 ou 6 assistem às aulas, embora dentro das salas, postos à força pelos inspetores...), tornando as condições de trabalho dos professores extremamente penosas.

O segundo fator da destruição se deu exatamente pelo abaixamento dos salários dos professores, obrigando-os a trabalharem em vários empregos, ficando sem tempo para corrigir coisas escritas (daí a universalização das provas de múltipla escolha...), etc. E isso, somado às condições penosas do exercício da profissao, causou a anti-seleção de que falo: pessoas com boa escolaridade nao escolhem mais essa profissao, nao sao masoquistas.

Nao estou dizendo que nao possam existir bons professores, abnegados, até mártires. Mas a qualidade de um sistema escolar nao pode depender da abnegação e do espírito de sacrifício dos profissionais.
Simone, seu percurso escolar é muito parecido com o meu: escola primária pública, Instituto de Educação no antigo Ginásio e no Normal, UERJ, pós na PUC (mas nao sei a época em que você estudou em cada tipo de escola que citou: faz uma diferença imensa o Pedro II dos anos 50-60 e depois... trabalhei no colégio nos anos 80, sai de baixo...).

Mas: nao havia pessoas de vários extratos econômicos nas escolas públicas a partir do ginásio; os ginásios públicos eram pouquíssimos, e havia exame de admissao para o ingresso. Como por acaso, só entravam alunos de classe média, sobretudo nas ditas "escolas de excelência": Pedro II, Instituto, CAP da UFRJ, Colégio Militar. No ano do meu ingresso no Instituto (1960), eram mais de 4.000 candidatos para 70 vagas, uma relação candidatos/vaga pior que a dos vestibulares de Medicina hoje. Resultado: todas as 37 alunas da minha turma tinham sido primeiras alunas durante todo o primário; você pode imaginar isso, uma turma formada só de primeiros alunos? A "excelência" já era posta na cartola antes; ser excelente assim nao vale, né? E das 37 alunas, 35 eram de classe média, com só 2 exceções.

Na verdade, já na escola primária havia segregação dos alunos de classe média dos outros. Fazia -se o teste ABC (depois o Metropolitano) para verificar o "grau de prontidao" dos alunos. Já comentei em outros tópicos como eram esses testes. Outra vez, como por acaso, todos os alunos de classe média já tinham prontidao para a alfabetização, e ficavam numa turma; os outros ficavam na turma dos "sem prontidao". As professoras mais antigas na escola, mais experientes, podiam escolher a turma primeiro. Qual vocês acham que elas escolhiam?

Na época, ou até pouco antes (meados dos anos 50) só cerca de 50% da população tinha acesso à escola, mesmo primária; e desses 50%, a metade era reprovada na primeira série, e a grande maioria deles acabava abandonando a escola. Por isso, devemos ter muito cuidado antes de idealizar a escola de antigamente... Claro que era mais fácil para os professores dar aula: os que sobravam na escola eram os que se adequavam às "regras do jogo" da escola; mas era algo criminoso.

Agora, respondendo ao Paulo junto com você: o nível social e cultural dos professores daquela época nao era baixo nao, nem o nível salarial. Como aqueles colégios ditos de excelência eram praticamente as instituições de ensino mais reputadas depois das faculdades públicas, entrava-se lá por concurso de tese... Fui aluna de professores renomados (Rocha Lima e D. Laíla Thomaz, em Português; Ismael Lima, autor de uma Gramática Histórica célebre, em Latim; Bahiense e Segadas Vianna em Geografia, autores dos 2 livros mais usados na época; D. Dirce Riedel nao foi minha professora, mas ensinava no Normal; etc.) -- o que nao quer dizer que fossem necessariamente bons professores; Rocha Lima era excelente, Segadas Vianna era um fracasso, o Ismael estava velhinho, já nao era mais capaz de lidar com turmas de adolescentes. Os professores homens da época viviam bem, com nível de classe média alta (da época... ), com duas matrículas; as professoras mulheres normalmente tinham um emprego só, e podiam se dedicar bastante às aulas e correções.

Ah, porque escrevíamos muito, na época, e nao só em Português, em todas as matérias, até em Matemática (demonstrávamos teoremas). Esse era um dos fatores da excelência do ensino... Porque escrever se aprende escrevendo, e tendo os escritos lidos e comentados pelos professores...

Outra coisa que aprendíamos indiretamente eram as características do gênero de textos expositivos, que constituem a base do ensino acadêmico. Essa aprendizagem, inclusive, se dava por meio de algo péssimo em si mesmo, o enorme uso de "ditados de caderno": os professores muitas vezes, em vez de usar livros, ditavam as aulas. Coisa péssima do ponto de vista didático, mas que tinha alguns "resultados secundários" bons: rapidez na escrita manual; interiorização de tipos de escrita e atos de fala próprios à escrita, como definições, classificações, históricos, etc. Nao lembro uma daquelas definições e classificações a que fui exposta; mas aprendi para a vida toda a definir, classificar, começar um texto pelo mais genérico, anunciar as partes depois, ir desenvolvendo parte por parte, etc., princípios de organização de textos dissertativos e argumentativos.

Bom, vou parar por aqui, porque quero responder tb a outros, e pq devo retomar alguns desses pontos.
Bom dia, Anarquista Lúcida,

Desculpe, mas tal qual o Sérgio, não me sinto capacitada a debater questões educacionais a esse nível.
Apenas gostaria de pontuar duas coisas que me instigam:
1 - A contradição entre sua sempre admirável defesa da evolução natural da língua, liberada das exigências das "normas cultas" e a exigência de um saber tão normatizado para educadores...
2 - A responsabilização dos "menos cultos" pelos males de nossa sociedade que se encontra embutida na questão educacional como vem sendo colocada nos debates em geral...

Quanto à minha experiência pessoal, foi muito gratificante ver pessoas que por 40 a 60 anos jamais aprenderam a ler possuirem um conhecimento empírico da vida que poderia facilmente transformar-se em conhecimento científico, que aprenderam a ler e escrever (pelo método Paulo Freire) em menos de 1 mês por puro desejo e foram até capazes de nos presentear com poemas feitos por eles... num projeto que foi desqualificado pelas instituições formais justamente com a alegação de que não possuíamos a formação e os requisitos legais exigidos para tanto... algo semelheante, guardadas as devidas proporções, às escolas do MST...

Enfim, tenho muito mais dúvidas a esclarecer do que contribuições a oferecer nesse aspecto...

Abs
Luiza, nao se trata de "saber normatizado", seria uma incoerência. Mas exatamente de saber escolar, que é o que a escola tem que transmitir, o outro tem outras vias de transmissao. Nao responsabilizei os "menos cultos" pelos males da nossa sociedade em geral; aliás, nem mesmo disse que sao os únicos nem os principais responsáveis pelos educacionais. Apenas digo que professores que eles próprios nao têm hábito de leitura e que nao conhecem certos gêneros de textos nao serao capazes de incentivar esse hábito nos alunos nem de familiarizá-los com esses gêneros. Aí, no caso dos professores de Português, se prendem em regras de gramática inúteis, interpretações de texto na base da múltipla escolha, "redações" em condições totalmente artificiais e corrigidas apenas no que toca a "erros", e nao quanto à adequação textual (que os próprios professores nao dominam), e em exercícios de análise sintática de faz-de-conta (sempre com períodos de 2 orações, que nao exigem análise real nenhuma, só decoreba de nomes). Nao estou tao familiarizada com os problemas dos professores em outras disciplinas, mas, se eles nao têm hábito de ler textos expositivos, tb terao dificuldade de se atualizar em suas áreas; e conhecimento matemático tb exige uma boa formação de base.

Sou professora de futuros professores; se você visse a dificuldade que eles têm de compreender textos acadêmicos, e a escrita sem coesao que eles fazem... Claro que isso nao impossibilita um professor motivado, e que se identifique com seus alunos, de procurar superar suas dificuldades e de fazer um bom trabalho. Mas, em primeiro lugar, seria preciso poder fazer esse "diagnóstico", que, além de penoso para o narcisismo natural de cada um, exige um modelo de comparação, que é exatamente o que eles nao têm.

Tb nao entenda o que estou dizendo de forma absoluta demais. Pessoas altamente motivadas -- e politizadas, como acredito ser o caso dos professores das escolas do MST -- podem superar suas dificuldades. Mas repito o que disse para a Simone: um sistema educacional inteiro nao pode depender da dedicação excepcional de alguns. Tem que poder funcionar com os professores médios.

Tb nao estou dizendo que pessoas de meios populares nao possam nem devam ser professores. Mas precisam de receber boa formação, e ter mais acesso à cultura em geral. E exatamente para eles estao sendo propostos cursos à distância, que os privam até do convívio universitário, que poderia ajudá-los a ampliar os seus horizontes.

Enfim, nao me interprete como uma dondoca elitista, te juro que nao sou isso. Apenas uma pessoa realista. Outra vez: o fato de nao gostarmos de certas coisas, nao as impede de existir...
Anarquista Lúcida,

Gostaria de esclarecer que não atribui a vc a responsabilização dos "menos cultos" pelos nossos males, disse que esse é tom geral do debate da educação, principalmente quando Cristovam Buarque afirma que a solução para tudo está na Educação... não está, como vc mesma afirma, professores graduados de ótimas universidades que não conseguem compreender textos acadêmicos... e isso não é de hoje...
Concordo com vc que o ensino à distância priva do convívio universitário, que, para mim, por exemplo, foi até muito mais enriquecedor do que a formação acadêmica em si...
Convivo diariamente com 70 pessoas com formação acadêmica de alto nível: USP, FAAP, PUC, etc... e é incrível o total desinteresse em CONHECIMENTO... já o RP funciona à perfeição...rs... o trabalho, o "saber o que fazer" de fato fica por conta da plebe... tem alguma coisa errada aí... então a gente só pode entender que a questão é mesmo ideológica...
Porém, retornamos à questão do desejo... o que estimularia os professores a ser bons facilitadores do aprendizado, a estudar para além da academia? Será que não está sendo jogada muita responsabilidade nas costas dos professores, enquanto detona-se sua representação de classe? Será que não está sendo menosprezada a capacidade dos alunos em obter informação, conhecimento, se isso implicar em benefício para suas vidas?
Acho que estamos em uma fase de muitas mudanças, muitas indefinições, e que precisamos realmente sonhar e lutar para que deixem de existir certas coisas que não gostamos... mas leva tempo...
Perfeito, todo mundo concorda que a educação mínima básica é imprescindível, e?
Quando a gente vê muitos formados para muito além da educação mínima básica falarem, interpretarem, analisarem tudo sem qualquer projeto mínimo básico, fica complicado deixar de entender que não passa de discurso político...
E aí a gente fica pensando como esses senhores responsáveis pela direção do Estado fizeram o que fizeram com esse país... nunca souberam o que fazer, mesmo achando que a educação é importante, ainda que não determinante?
Mas são apenas considerações de uma leiga nessa área... mas que gostaria muito de ver certas questões respondidas, não meramente constatadas...
Luiza, você está tocando em vários pontos MUITO importantes. Pretendo preparar uma resposta mais "pensada" para você. Mas, por agora, vou só responder de leve.

O desinteresse pelo conhecimento desde que nao reverta em dinheiro ou status, como você diz, tem causas "extra-muros" da escola, e nao é privativo de pessoas do meio tal ou qual. (Mas quem nao foi nem mesmo exposto ao prazer da leitura, e nunca teve grandes professores, etc., mesmo se dotado, tem menos chances ainda de desenvolver esse interesse... Na minha escola primária, por ex. -- zona sul do Rio... havia uma bibliotecária que nos introduziu à poesia, ela era professora de declamação privada, e fazia o mesmo trabalho com alunos da escola pública; isso nao há dinheiro que pague)

A possibilidade de obter conhecimento por fora da escola existe, e já foi e é muito usada pelos chamados "intelectuais populares". Uma das coisas que me faz julgar tao importante a obra de M. Lobato é a abertura que ela dava para os auto-didatas, tendo uma linguagem relativamente fácil, porque dirigida a crianças, mas nao táti-bi-táti, e incluindo conhecimentos de várias áreas e discutindo seriamente assuntos os mais diversos. Sou capaz de apostar que foi muito lida por adultos de meios populares interessados no conhecimento (do que aliás a existência do samba-enredo e de vários folhetos de cordel sobre ela sao indícios). Cartola passava horas em bibliotecas públicas, lendo. Usa um vocabulário incrível, com influência inclusive de Camoes. Mas, outra vez, sao situações mais ou menos excepcionais; nao podemos esperar que isso ocorra com os alunos em geral...

E aliás a questao central aí é a do desejo. Alunos altamente motivados arrumam jeito de aprender. Mas esse desejo nao está abundando por aí... Ao contrário, estamos vendo turmas com alto grau de resistência -- MOTIVADA -- à escola. Esse é outro lado da questao, que precisa ser abordado. Agora estou só pontuando...

Ah, mais uma coisa, só para esclarecimento: eu nao disse que formandos de ótimas universidades nao eram capazes de compreender textos, e sim que meus alunos (normalmente de primeiro e segundo períodos, ou seja, que estao entrando na Universidade) entram sem saber ler e escrever adequadamente. Mas o problema persiste, até em alunos de Mestrado... É impressionante como as pessoas andam escrevendo, e nao estou falando em "erros", e sim em falta de "fio textual", organização de idéias, uso de conectivos que marquem as relações entre as coisas ditas, coisas assim. Tem gente que liga duas frases com "portanto", mas o dito na segunda nao é consequência do dito na primeira... Usam "mas" sem que haja qualquer contraposição entre as idéias; os textos ficam duros de ler, e nao "encaminham" nada, nao propõem nada, só jogam conteúdos dispersos na página. Nao há pensamentos por trás dos textos, é grave. Mas já é consequência da escola básica ruim. Meus alunos sao bastante desfavorecidos no que toca à escolarização anterior, sao exatamente os que ainda escolhem o magistério como profissao... porque sao os vestibulares mais fáceis de se entrar...

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