Gente, há tempos ando falando aqui na Comunidade, e em comentários ao Blog-mãe, do que chamo de "anti-seleção" de professores, o fato de que, por causa dos salários, das péssimas condições de trabalho, e do desprestígio social, o ingresso na carreira, em vez de atrair jovens com maior experiência cultural e melhor bagagem escolar, tem atraído exatamente o inverso: jovens de pior escolaridade, e sem tradição cultural, que, mesmo com boa vontade, nao têm como incentivar o gosto pela leitura e pelo estudo nos alunos, já que eles próprios nao o desenvolveram.

As condições negativas para o exercício da profissao tb tem inclusive causado uma grande dose de abandono da profissao no meio daqueles cujas licenciaturas abrem outras possibilidades de trabalho, como as de Matemática, Ciências e Geografia, matérias para as quais já faltam professores.

Dada essa situação, o que o poder público está fazendo? Abrindo escolas de formação à distância para professores, com tutores generalistas, sem convívio acadêmico que permita a ampliação dos horizontes dos formados, etc. Ou seja, uma formação "barata", que pode atrair alunos ainda mais desfavorecidos (de pequenos centros, onde nao haja faculdades), e que receberão uma formação pior ainda do que os professores atuais receberam. Resolve-se o problema do poder público de encontrar "vítimas" para o exercício do magistério, e que aceitem os salários de miséria pagos; o decréscimo ainda maior da qualidade de ensino parece que nao importa.

Nos últimos dias saiu um documento da UNESCO fez um documento sobre a situação dos professores que tocou no assunto, parece (segundo o que diz o informe Andes que reproduzo abaixo; ainda nao tive tempo de ler o documento, com mais de 200 páginas; para quem se interessar o link é http://unesdoc.unesco.org/images/0018/001846/184682POR.pdf).

Informe Andes a respeito:

No dia do mestre, o profissional da educação não teve muito o que comemorar. Relatório divulgado pela Unesco classificou a situação do professor no Brasil como crítica. No documento, os salários reduzidos foram apresentados como mais um ingrediente da degradação do magistério. Segundo a pesquisa, os estudantes que ingressam nos cursos de pedagogia e licenciatura recebem formação que pouco enfatiza a relação entre teoria e prática. A maioria se forma em instituições particulares, à noite, e um número reduzido passa por estágios bem coordenados antes de lecionar. A carreira não tem se mostrado atrativa para os jovens de maior nível socioeconômico, afirma o estudo.

Estudo brasileiro reitera necessidade de mudança

Pesquisadoras da Fundação Carlos Chagas (FCC) verificaram que 50,6% dos alunos de pedagogia e licenciatura têm pais sem nenhuma escolaridade ou que chegaram até à 4º série. Percentual que despenca para 7,1% quando o alvo da pesquisa são os estudantes de Medicina, por exemplo. Os números são resultados de um questionário aplicado a alunos que prestaram o Enade.

O estudo concluiu que há necessidade de alterações na grade curricular dos que optam pelo magistério. “São jovens em ascensão social que buscam enriquecer sua bagagem sociocultural na universidade”, afirmou uma das pesquisadoras da FCC, Bernadette Gatti.

Fonte: Imprensa Andes

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Respostas a este tópico

Anarquista
Não sei nada de Pedagogia, e não pretendo me envolver nestes meândros, mas aquela discussão sobre ''norma culta'' me pareceu meio indevida. Meu azedume é justamente com a (falta de) lógica dos textos redigidos, e não com firulas formais. Sou tolerante com erros na nossa (maldita) ortografia, mas já me incomodam os erros de concordância ou regência porque denotam problemas na articulação das idéias.
Agora... a lógica é uma senhora exigente, que merece ser cultivada desde a infância, e acho que se fazia isto no tempo em que a solução de um problema se dividia em ''raciocínio'' e ''operação''. Fiquei muito assustado quando você relatou (se entendi bem) que as crianças não aprendem mais a demonstrar teoremas. Tenho certeza que Euclides é responsável por várias das vigas mestras na minha capacidade de pensar e ser.
Então, desculpe, mas ''pretensa norma culta'' não é a questão principal; o problema é uma incapacidade generalizada de falar coisa com coisa.
Há alguns anos, a faxineira lá de casa me trouxe um comunicado mimeografado da escola da netinha dela, que ela não conseguia entender. Estava chorando por causa da vergonha de não entendê-lo. Atribuía a dificuldade à sua própria ignorância, pois não podia sequer cogitar na incompetência da professora. Era um texto de 12 linhas, onde encontrei três orações sem verbo.
Hermeneuta, "erros" de concordância e regência nao têm nada a ver com articulação das idéias (orações sem verbo sim...). Pense no Inglês, em que só existe um resíduo de concordância (só com verbo no presente e só na terceira pessoa; nao existe concordância nominal com o adjetivo nem com o artigo, só com os demonstrativos). Você diria que a escrita em Inglês nao permite a articulação das idéias? No Francês tb só há praticamente concordância atualmente na língua escrita, porque os marcadores de plural nao sao pronunciados (o que está acontecendo em Português é uma etapa anterior do que já ocorreu em Francês, e é uma tendência geral das línguas românicas).

Os "erros de regência" só revelam que os gramáticos exigem o uso de preposições que ninguém usa mais. A esse respeito, uma historinha. O Érico Veríssimo usava uma regência que ele nao via ninguém mais usando. Deduziu que ela deveria estar errada, e foi verificar no dicionário. Achou a tal regência... com um exemplo dele. Ele é considerado um grande escritor, as regências que ele usa o dicionarista registra... Mas se fosse o Joao das Couves...

Agora, isso que você está chamando de falta de lógica é o que chamo de falta de articulação textual. O uso de "portantos" que nao exprimem relação de causa/consequência, ou o de "mas" que nao exprime contraposição entre as idéias. Construir textos bem organizados e bem articulados nao é só questao de lógica, é de boa aprendizagem da escrita. Coisa que só se consegue se os próprios professores dominam a escrita bem, e têm tempo para corrigir as coisas escritas pelos alunos, nao do ponto de vista do sair "catando erros de Português", mas sim de verificar a clareza e a boa organização geral do texto (divisao em parágrafos, coesao e boa articulação entre as idéias de cada parágrafo e articulação entre as dos vários parágrafos, progressao do texto, etc). É disso que estou falando. Desse tipo de "incompetência" que a professora da neta de sua faxineira demonstrou, e que é o arroz-com-feijao dos textos dos meus alunos universitários, e até mestrandos...

Quanto aos teoremas, creio que ninguém mais os demonstra no ensino fundamental. Posso estar enganada, conheço menos sobre ensino de Matemática que sobre ensino de Português.
Luiza,

Vou lhe dizer com a autoridade de quem já esteve lá, os políticos na hora do discurso, estão falando a verdade, naquele instante se fosse possível fazer o que ele está dizendo, ele faria.

Mas, veja bem, é só naquele instante, passou, passou, o que ele disse já não é mais um preocupação e nem uma agenda mínima, foi apenas retórica.

Quando digo que o Estado ao invés de solução é o problema, muitos dos meus colegas me criticam, mas os que já participaram de algum modo da parte administrativa vai entender: quando se quer resolver um problema determina-se quem, quanto e em quanto tempo, quando ao contrário se quer levar as coisas em banho maria, cria-se uma comissão.

Falou...
Cristovam,

Concordo com vc, a bandeira da educação é sempre utilizada no discurso político, mas na hora da realização... babau...
A verdade é que não há interesse efetivo por parte da "inteligentzia" em uma escola pública, que hoje está destinada aos menos favorecidos, com a qualidade desejada.
E como disse a Anarquista Lúcida, nem mesmo os que têm boa formação pretendem se dedicar a isso.
Assim, ressalta como injusto responsabilizar professores e alunos pela qualidade da educação, quando a dificuldade está nas diretrizes preferenciais da sociedade: lucro, status, etc...
O processo para mudança desse quadro não é uma fórmula mágica... vai depender muito mais das demandas da sociedade que vai se modificando... se com a saída da classe média das escolas públicas o nível foi reduzido, a evolução natural de novos incluídos cobrará melhoras, até para poder competir socialmente...
Nem é exclusividade nossa, as escolas públicas de outros países, por exemplo, os EUA não podem ser citadas como referencial de excelência, podem?
Mas certamente nem lá, nem cá, teremos jamais uma sociedade de gênios... afe...

É isso...
Vou apresentar alguma impressões que tenho a partir de algumas evidências. É claro que seria necessário uma investigação mais apurada e cuidadosa, seguindo um método, para termos mais certeza. Todavia, vou relatar, aqui, uma hipótese de interpretação do tema levantado pela Anarquista.
Aquilo que está sendo chamado "anti-seleção" (eu tenho algumas reservas em relação a essa designação e voltarei para explicar mais tarde) dos professores é consequência (não exclusiva, mas fortemente marcada) das transformações que pelas quais passou a educação pública no Brasil especialmente após a redemocratização na década de 80 (se bem que o fenômeno já tenha começado na década de 70 com a extinção dos exames de admissão ao ginásio e unificação desse nível com o primário para formar o então primeiro grau). A escola pública - especialmente aquilo que foi o antigo ensino secundário: ginásio e colégio - deixou de ser lugar apenas das frações de classe mais favorecidas na divisão da riqueza. A escola pública foi abrindo as portas para as camadas empobrecidas da população.
Foi uma abertura que cobrou um alto preço desse segmento. Basta verificar as elevadíssimas taxas de reprovação nas décadas de 70 e 80 (e ainda hoje são altas). A escola abriu a porta mas enjeitou as crianças e adolescentes pobres porque essa não era a população que ela queria atender. Se alguns conseguiram nadar contra a correnteza e ascenderam socialmente por meio do sucesso nos estudos, a maioria amargou a exclusão da escola. Se olharmos para o indicador anos de estudo da população e tomarmos a faixa etária 40 a 50 anos vamos ver o resultado disso: homens e mulheres que viveram a infância numa país urbano que, na média, não cumpriram os anos de escolaridade obrigatória.
Mas, a abertura da escola, assim como a abertura política, foi se impondo. A configuração social das novas salas de aula foi tomando forma. Eu costumo fazer um exercício do pensamento: um professor que se apresentasse para as aulas num ginásio ou colégio estadual na década de 50 encontraria salas de aulas compostas por crianças que eram filhas de juízes, promotores, médico, advogados, empresários, dentistas, engenheiros, fazendeiros, professores, de prefeitos, vereadores, etc. Os pobres eram exceção nessas escolas.
Tenho dúvidas sobre o real poder de compra dos salários dos professores. A elevada inflação das décadas anteriores e as mudanças nos padrões de consumo não nos permite fazer comparações seguras sobre os salários dos professores do passado e do presente. Contudo, considero que não deveriam ser altos. Também não eram baixos.
Sem a possibilidade de comparar a remuneração, faço uma análise sobre aspectos relacionados aos valores e representações. Isto é, o que era e o que é ser professor no imaginário do próprio professor.
Ser professor no ginásio estadual na década de 50 significava estabelecer laços sociais com pessoas que pertenciam à segmentos privilegiados da sociedade. Ser o mestre de crianças de famílias distintas. Famílias de privilegiados que representavam, para o professor, um inestimável capital social. Numa sociedade em que as relações de compadrio são de grande valor e nos quais os direitos sociais não existiam, ser (ou ter sido) professor da filha do médico (e ser reconhecido positivamente por isso) poderia ser decisivo para resolver uma situação imprevista de um problema grave de saúde na família (do professor).
O orgulho de ser professor estava marcado, de uma lado, pelo fato de ser um profissional com formação em nível superior (lembremo-nos que pouquíssimos tinham tal condição - a própria formação ao nível do ginasial já era um privilégio de poucos; um técnico com o equivalente a hoje o ensino médio, era um profissional raro de se encontrar). De outro a identificação com a classe social dos próprios alunos conferia ao professor uma auto-imagem de profissional bem sucedido.
Num mundo pouco dinâmico, em que as informações eram restritas, um fino verniz enciclopédico era suficiente para se considerar um sábio (vejam os deliciosos textos do Lima Barreto caçoando do limitado saber - inversamente proporcional à arrogância - dos "doutores").
Vejamos a situação, agora, depois da abertura das portas das escolas públicas (e, antes de mais nada, ainda bem que elas foram abertas). As crianças das classes mais abastadas (ou pelo menos da classe média) ficaram em evidente minoria. Isto porque assim é na realidade da sociedade. Logo seus pais as transferiram para o lugar em que elas são maioria: a escola privada.
Hoje, o professor da escola pública recebe na sala de aulas o filho da empregada doméstica, do frentista, do pedreiro, da manicure, do flanelinha, do camelô e, até, eventualmente, do traficante ou da prostituta. Os núcleos familiares dessas crianças não são mais marcados pelo patriarcado e as referências de seus membros em relação à escola não são, muitas vezes, positivas.
Será que esse professor se identifica com sua turma de alunos? Qual a auto-imagem que ele constrói? Sua situação profissional lhe confere capital social?
Por isso eu coloco reservas em relação à expressão "anti-seleção". Não foi o salário e, talvez, nem foi a preparação para o trabalho docente que se degradaram. Os professores do passado eram adequados para aquela configuração sócio-cultural da escola e nela obtinham sucesso. Isso não queria dizer, contudo, que se tratava de bons professores. Temos de levantar dúvidas. O saudosismo e as recordações dos anos de juventude (usualmente anos felizes) de nossos antepassados não resistem à relatos de observadores externos como o físico Richard Feynmann (ganhador do Premio Nobel na década de 60) que ministrou aulas no Brasil na década de 50. Num livro que em português recebeu o nome "Está a brincar, sr. Feynmann (publicado pela editora Gradiva, de Portugal), apresenta uma dura crítica ao ensino de ciências no Brasil.
A idéia que me parece estar por dentro da "anti-seleção" é de que haveria uma "seleção" (que poderia ter existido no passado). Se ela existiu, no meu entendimento, foi de caráter social (e veja os termos do discurso do pequeno texto - grifado, aliás - dentro do enunciado deste tópico, que faz menção à característica de origem social dos estudantes dos cursos de licenciatura).
Tenho profundas dúvidas em relação a selecionarmos os "melhores alunos" que ingressam na universidade para serem professores da educação básica. Esses ditos "melhores alunos" ingressam, por exemplo, nos cursos de medicina. Isso faz a saúde pública melhor?
Mas, como disse no início, minha interpretação está apenas no nível de uma hipótese.
Paulo,

É um bom começo. Que o nível educacional no país é um dos piores, todos nós sabemos, mas que vamos fazer.

Quando entrei na universidade, os professores da área de exata, a +- 30 anos, já nos dizia, cada turma nova que chega tem menos base que a anterior.

Um colega meu no intervalo de uma aula de metodologia científica, chegou a subir numa cadeira e dizer: vai chegar o dia que o professor vai perguntar pro aluno, fulano, quanto é duas vez oito, o fulano responder dezeseis professor, e o professor responder, para um pouquinho, vou ver aqui na tabuada, se tiver errado vai tomar bomba.

Hoje ele é um dos proprietários de uma das melhores escola do Estado, foi a forma que ele encontrou para contribuir com uma instrução melhor.

Anarquista Lúcida está de parabés por levantar questão tão importante, e isto é assunto pra mestrado doutorado e algumas cositas mais.

Falou...
Prezado Cristovam,
O professor Antônio Joaquim Severino, da Faculdade de Educação da USP é autor de um livro livro muito conhecido nos cursos superiores de ciências humanas - "Metodologia do trabalho científico" (Editora Cortez). Trata-se de um interessante guia de estudos para aquele que ingressa no ensino superior e quer aprender a organizar os estudos. O livro possui muitas edições. O exemplar que tenho é da 11ª. No capítulo 1, o autor dialoga com o professor do ensino superior discutindo os possíveis encaminhamentos metodológicos para uma disciplina: utilizar textos genéricos, comentários e introduções ou partir para o estudo de textos especializados? O autor mostra que ficar apenas nos comentários e introduções é empobrecedor. Por outro lado, utilizar os textos especializados (mais densos) pode levar a um baixo rendimento visto que "(...) começar o curso superior única e exclusivamente com textos altamente especializados, sem nenhuma propedêutica teórica, dada a atual situação cultural da juventude brasileira que chega à universidade, será um empreendimento de resultados pouco convincentes" (p. 28).
Eu já disse que o livro possui inúmeras edições. Pois bem, o prefácio da primeira edição (na qual, aliás, o autor afirma: "É unâmime hoje o coro das vozes que chegam à solene conclusão de que o nível de nosso ensino superior está muito baixo e cai cada vez mais") é datado de 5 de junho de 1975.
E, veja, o professor Severino não estava falando do nível do aluno que ingressava numa "Uniesquina-qualquer". Ele estava falando do aluno que ingressava na USP e isso, em 1975.
Agora, um relato pessoal: eu fui aluno, na segunda metade da década de 1980 de um curso da área das ciências exatas numa universidade pública no estado de São Paulo. Tive aulas com um ótimo professor de matemática. Ele era um senhor que já contava com mais de 60 anos. Um dia, ele nos relatou que quando ele se formou em matemática, na década de 50, foi dar aula num colégio católico muito tradicional. Lá ele e outro professor, também jovem, resolveram fazer uma "brincadeira" com um velho professor de geografia. Esconderam o surrado caderno de notas que ele utilizava. Conclusão: o dito professor não conseguia dar aulas sem aquela "muleta" e alegou problemas de saúde para faltar às aulas. O padre diretor do colégio acabou descobrindo o que acontecera, chamou os dois professores brincalhões e aplicou-lhes uma advertência exigindo a devolução imediata do caderno.
A conclusão a que chego é que a qualidade da educação no Brasil nunca foi boa. E esse é o problema. Não foi boa para uma minoria, é pior ainda para a maioria. A formação de professores sempre foi deficiente e os bons professores acabam sendo o resultado muito mais do brilhantismo pessoal do que resultado de um programa de formação.
Paulo,

Quando acadêmico, lecionava física em um colégio religioso de reputação ilibada e matemática em um cursinho preparatório pra vestibulares. No colégio lecionava termologia para o terceiro ano colegial - ainda denominado cietífico - e cada turma que entrava os professores notavam certa baixa instrutiva.

Nas primeira aulas para uma turma de um semestre recém-começado notei que havia certa deficiência em matemática, e comecei uma revisão básica, pra abreviar coloquei no quadro uma equação do primeiro grau: X + 5 = 10, qual o valor de X? Numa sala de quarenta alunos uns doze alunos conseguiu responder corretamente. Resultado final vinte e dois alunos ficaram de recuperação e infelizmente mais da metade não conseguiu ser aprovado.

Abraço Paulo...
Prezada Simone,
Seu comentário trata de diversos e importantes aspectos da educação brasileira e, por isso, merece uma discussão por partes. Vou trata apenas de um aspecto. Trata-se do trecho: "Saberá ainda de todos os entraves políticos para impedir aos brasileiros o acesso a um ensino laico e gratuito, perpetrados contra o projeto da Lei de Diretrizes de Base ( projeto de 1946, retalhado com as alterações substanciais em 1961), sob a liderança do então deputado Carlos Lacerda".
Penso que a análise que se faz usualmente do tema restringe-se à disputa ideológica. Não que ela não seja importante. Contudo, o que não é evidenciado é que, naquele momento histórico, quando o Brasil passava por um processo de transformação importante, deixando de ser um país de população rural e passando a ser urbano, o Estado tenha gerado uma legislação tão elitista e com característicos de sociedade aristocrática e rural. Vejamos apenas um ponto: como um país que tinha um plano de desenvolvimento baseado na industrialização (vide o Plano de Metas do Jucelino) poderia limitar o seu ensino obrigatório em apenas 4 anos?
Daí, o problema não era apenas a disputa ideológica. Houve uma conjunção de fatores desfavoráveis para a transformação da educação no sentido de alinhá-la ao projeto de desenvolvimento do país. É claro que os mesquinhos interesses dos privatistas foram danosos. Por outro lado eles acabaram vencendo na medida em que colaram no grupo dos defensores da educação o selo escrito "são comunistas". No contexto de Guerra Fria e de golpismo isso acabou afastando a possibilidade de se pensar uma escola pública que atendesse as massas e fosse o sustento de um projeto vigoroso de desenvolvimento.
Mas, aí, entramos num outro ponto: qual era a projeto de desenvolvimento? Para além de pensarmos se ele era ou não excludente, penso que temos de questionar em que posição na divisão internacional do trabalho ele colocava o Brasil. É aí que as coisas ficam mais evidentes. Ser um montador de produtos é uma coisa. Ser o lançador de produtos é outra. Ou seja, quanto de tecnologia estaremos desenvolvendo e agregando ao que produzimos.
Sob uma organização taylorista do trabalho, montar coisas concebidas em outros cantos do mundo, em plantas industriais importadas, com máquinas obsoletas requer poucos técnicos (usualmente apenas para fiscalizar o trabalho) e muitos operários "bois" (utilizando aqui o termo que o próprio Taylor criou para designar o que ele considerava um operário padrão).
Para isso escola não era prioridade.
E, deu no que deu.
Paulo, como sempre suas contribuições sao ótimas. Nessa tb há vários pontos que merecem comentários. Vamos por partes, como diria Jack:

1) Concordo em gênero, número e grau com a sua descrição da origem dos problemas, a universalização do acesso -- que, repito, assim como você, considero algo positivo em si mesmo; só que a escola estava toda "formatada" para aquela clientela que recebia antes, e nao soube, nem quis, adaptar-se à nova clientela. O ensino, QUE JÁ FAZIA POUCO SENTIDO ANTES (vou voltar a isso mais tarde noutro post; e esse é um aspecto com que acho que todos aqui podem colaborar, descrevendo suas experiências escolares), passou a nao fazer sentido nenhum para os novos alunos que entraram nas escolas.

2) Que, como você tb fala, muitas vezes (nem sempre, isso tb é importante dizer) vêm de famílias que nao entendem os objetivos da escola, menos estruturadas, com menos autoridade sobre os filhos (por problemas que nao sao privativos de uma classe social, mas que incidem mais fortemente nos meios mais desfavorecidos), etc., e que portanto nao fazem, ou nao conseguem fazer, o tipo de pressao que as famílias de classe média fazem sobre os filhos para que obtenham resultados escolares, mesmo se nao vêem sentido nas tarefas escolares.

3) Posteriormente juntou-se a 2) o advento da dita Progressao Continuada, outra coisa POSITIVA EM SI MESMA (ou recairíamos na expulsao dos alunos da escola), mas que precisaria de ter sido realmente feita, com acompanhamento das dificuldades dos alunos; como isso nao foi feito, o que houve foi aprovação automática. Isso, junto com outro problema vindo de algo positivo em si mesmo mas com péssimas consequencias, que foi a mudança nos paradigmas da alfabetização (outra coisa que vou tratar separadamente, ou fica impossível ler este post) causou que vários alunos estejam chegando semi-analfabetos, ou mesmo completamente analfabetos, no segundo segmento do ensino fundamental. O que por sua vez causa a impossibilidade de compreensao das disciplinas escolares, gerando ainda mais desinteresse.

4) A progressao continuada ainda tirou dos professores uma "arma" que eles tinham para controle dos alunos, o efeito intimidatório da nota (que já tinha perdito grande parte do seu poder, por causa do dito em 2, e por causa do aumento generalizado da anomia social em meios de periferia, o que é outro fator que merece ser discutido no contexto dos seus efeitos sobre a escola).

5) Some-se o dito em 2, 3 e 4 e temos alguns dos fatores (há ainda outros...) para entender o clima de rebeliao das turmas, que já ultrapassou em muito o que podemos categorizar como "indisciplina", e o grau de tensao nas relações professores/alunos, e a impossibilidade de ensino num clima desses...

Bom, mas vejo que saí da resposta ao Paulo. Vou recomeçar.
Voltando a responder ao Paulo:

1) Recomeçarei da sua descrição de como seriam as turmas antes, e como passaram a ser: acho correta a descrição com referência à primeira fase da transformação, quando os professores ainda eram os mesmos, e os alunos tinham mudado. Contexto em que, diga-se de passagem, a origem de classe média dos professores era um fator que atrapalhava, em vez de ajudar, por causa do preconceito e da discriminação potenciais nessa situação. Mas, depois disso, a situação evoluiu, e houve outros fatores que passaram a interferir nela. Um foi o advento da progressao continuada, de que já falei; e outro foi o progressivo afastamento da classe média -- e portanto, na situação brasileira, de pessoas que tinham melhor escolaridade anterior -- em relação ao exercício do magistério.

2) Por que houve realmente uma mudança na origem de classe dos professores. E de nível salarial tb, Paulo, disso eu fui testemunha, seja por ser filha de professora primária, por ter testemunhado como eram os professores na minha época -- veja parte da resposta que dei à Simone-rj, que era para você tb -- e por ter sido professora posteriormente de ensino fundamental e médio, antes de ter migrado para o ensino universitário. O salário se degradou sim, Paulo, e muito.

O nível salarial de professoras primárias -- que já era bem menor que o dos professores secundários -- era suficiente para minha mae ter financiado com o salário dela todas as obras lá de casa que meu pai nao queria pagar (por problemas entre eles). Ser professora era sentido como algo tao desejável pelas famílias que, quando quis deixar o Instituto de Educação para fazer o clássico do Aplicação, meu pai me "comprou" com uma viagem à Europa para eu continuar no Normal... E nao éramos ricos nao, meu pai era médico, mas assalariado, pagar uma viagem à Europa era um grande sacrifício, mas ele viu como investimento...

Já no início dos anos 80 a coisa tinha degringolado muito. Participei de muitas discussoes de movimentos grevistas, e depois dos partidários do primeiro governo Brizola. Uma das motivações para a greve de que me lembro é que o salário (de professor com faculdade) tinha descido abaixo de 5 salários mínimos (hoje seriam cerca de R$2.200,00; e nao era para 40hs nao, era para uma matrícula: 16hs na escola, 12 em sala-de-aula). Tb presenciei discussoes em que os professores eram convencidos a desistir de suas férias maiores -- que era um direito histórico da categoria, e que nao era um privilégio, dado o stress que é lidar com turmas cheias de crianças e adolescentes -- em nome de que assim seriam mais bem pagos. Perderam as férias longas, e o salário continuou ladeira abaixo.

3) Se os professores em geral eram melhores? Para aqueles alunos que nao eram expulsos da escola, eram... (Isso nao vale como resposta, nao é?) Pessoalmente, tive grandes professoras no jardim e no primário, fui muito bem alfabetizada; e alguns professores ótimos no ginásio e no normal, outros péssimos, outros regulares; mas, nesses níveis escolares, já tinha capacidade de me virar sozinha em bom grau... O ensino oferecido tinha vários aspectos ruins, era elitista demais (peguei as célebres análises sintáticas de Camoes), muita decoreba boba, muito ditado de caderno. Mas tive uma boa formação em Matemática, e ótima em Português e em História. Escrevíamos muito, isso faz toda a diferença; eu pessoalmente lia muito, mas aí nao era tanto por influência da escola, sempre fui rata de livros; mas a escola tinha biblioteca.... Inclusive li Caio Prado Jr. na quarta série do ginásio (atual oitava série, nono ano), o que "mudou minha cabeça" para sempre, me inoculou o marxismo quando eu ainda nem sabia que o marxismo existia. Só nao tenho uma formação melhor porque fiz normal, que é um túmulo para o conhecimento (só tenho Matemática e História de ginásio, nada de Física ou Química...)

4) Agora, o aspecto de sua fala mais delicado de responder, que deu origem à interpretação do Cristovam das minhas falas anteriores, com a qual no entanto nao me identifico. Você menciona a comparação feita no corpus do tópico entre a origem social dos médicos e dos professores, e pergunta se a origem social mais alta dos médicos, e portanto na situação brasielria melhor escolarização anterior, tornou melhor a saúde pública. Mas é diferente, Paulo.

Quero deixar claro que nao acho que uns meios sociais tenham cultura, e outros nao, como o Cristovam parece ter entendido. O que disse (e nao sou eu quem disse isso, é Bourdieu, eu apenas concordo...) é que a escola valoriza a cultura de uns, mas nao a cultura de outros... E que, para passar os conteúdos que a escola quer transmitir, uns têm mais "cartas na manga" que outros. (Claro, uma das coisas que deveriam mudar sao os conteúdos escolares; muitos deles sao pura besteira mesmo; mas nem todos; afinal, queremos que os alunos tenham pelo menos hábito de leitura e boa capacidade de escrita, ou nao?).

Isso passa por várias coisas. A começar, pela língua usada em casa. Ninguém mais, de classe social nenhuma, fala o dito "Português Padrao", tal como codificado nas gramáticas, a língua que a escola decreta como a única certa e que quer ver usada. Mas há variantes sociais da língua mais próximas dela, e outras mais distantes. As consequências disso podem ser várias (depende muito do bom senso, e da ideologia do professor...). Se o professor quiser impor um uso artificial da língua, calará as crianças e provocará a rebeldia dos adolescentes. Além disso, a ortografia vigente é mais próxima das pronúncias das variedades de classe média que das variedades populares, o que causa maiores dificuldades para as crianças do povo na alfabetização (entre outras mil outras causas de dificuldades mais importantes; outra coisa que tem que ser tratada separadamente...). Mas isso diz mais respeito aos alunos que aos professores (se bem que, com a mudança da classe social dos professores, os próprios professores usam variedades da língua muito diferentes da padrao, e, sobretudo, nao a dominam nem na escrita; aí, nao só fica mais difícil de "transmiti-la" (isso poderia ser até bom, contribuir para a denúncia desse tipo de "objetivo"), mas, como eles próprios lutam muito para conseguir isso num certo grau, tendem a sobrevalorizar essa bendita língua culta, que vira um "emblema" da ascenção de classe deles, a assumi-la como um valor; piorando a coisa para os alunos...

Além da questao da língua, há a do dito nível de "letramento", o grau em que a pessoa está imersa em práticas significativas de leitura e escrita. Esse é um aspecto que depende muito do meio familiar: se a família lê ou nao (jornais e livros, especialmente); se tem o hábito de contar histórias para crianças, e se associa isso ou nao à presença de livros; se as crianças tem oportunidade de usar lápis e papel, e de manusear livros em casa. Tudo isso influi no nível do desejo das crianças pela alfabetização, no sentido que o ensino venha a fazer ou nao, e no sucesso escolar...

Do lado dos professores, importa muito se eles têm o hábito de ler, e, mais importante ainda, o gosto pela leitura. Se usam a escrita regularmente. Se os professores nao gostam de ler, nao conseguirão desenvolver esse gosto... Se nao usam regularmente a escrita, nao dominam de fato as regularidades próprias a esta, e nao têm como desenvolvê-las nos alunos.

Aí passam a oferecer um ensino de Português idiota e contra-producente, de que já falei... Nisso, a origem social dos professores e o nível escolar anterior deles interfere muito na qualidade do ensino oferecido (embora nao seja o único fator envolvido, nem se trate de algo indispensável; apenas é um fator entre outros). Nao há uma relação tao direta entre a classe de origem do médico e sua prática médica (acho eu; de ensino de Português entendo, de prática médica nao...)
Cursei o primário entre 1961 e 1964, numa boa escola pública do Estado de São Paulo. Minhas professoras foram D. Irene, D. Wilma, D. Ciloca e D. Guiomar. A diretora do Curso Primário era D. Adelaide, e eu fiz meu exame de leitura no colo dela. Percebi que ela usava o mesmo perfume de alfazema que a minha tia.
A Folha de São Paulo, no tempo em que ainda fazia jornalismo (há uns 15 anos), publicou um estudo bem feito recuperando/atualizando os salários que as professoras ganhavam naquela época: cerca de US$ 1.500 mensais por vinte e poucas horas de aula por semana.
Minhas professoras liam bons livros, iam ao teatro e ao cinema, geralmente estavam bem humoradas e certamente gostavam do que faziam.

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