Fonte: http://abknet.de

A crise, o Oriente e o engano próprio (18/01/2009)
Por Toni Bulhões*

Fins de 2007 o Abknet alertava (News dez. 2007) sobre os perigos de uma crise mundial que estaria armando o seu bote. Nestes artigos que, lidos hoje, soam proféticos, o site foi um dos primeiros meios a prever os perigos do terremoto econômico que se aproximava. Mais de um ano depois, a crise, como prevista, não apenas chegou com todo ímpeto, a partir de março de 2008, como tomou conta do noticiário e provavelmente não vai deixar de ser notícia tão cedo.
O drama financeiro, logo atingindo a economia, vem derrubando anões e gigantes, persistirá nos próximos tempos. Pior que isso, qualquer previsão de seu fim não passará, por enquanto, de especulação, mesmo para analistas otimistas.
Para ficar apenas no setor financeiro, origem da crise, a grande maioria dos bancos que lutam contra o afundamento no mar bravo, continua com pepinos escondidos em seus balanços. E os pepinos são tão grandes, maquiados em operações confusas, que ninguém pode dizer com certeza suas dimensões.
O efeito dominó continuará sua marcha de forma irreversível, também porque governos de todo o mundo subestimaram o poder do veneno mortal que rondava seus países. As propostas de solução e medidas que vêm sendo tomadas, entretanto, deixariam felizes até mesmo dirigentes dos países do bloco leste, nos tempos da cortina de ferro. As estatizações de bancos e empresas dariam inveja à antiga URSS e reforça a piada corrente de que, se o socialismo estatizava para, após isso, destruir a economia, o capitalismo, ao contrário, primeiro a destrói, para depois estatizá-la.

Seria um bom motivo para a esquerda que continua, mais de 20 anos após a queda do muro, atordoada e sem rumo. É o que prova outra grande crise, a do Oriente Médio, que há três semanas divide com a economia o espaço nos jornais.

Ombro a ombro com a TFP

Caracterizando a cegueira política dos tempos pós-muro, os apoios dados às organizações Hamas e Hizbollah espantam não apenas por chegarem de onde menos se esperava, como também pela contradição ideológica que desnudam.

Sequer a transmissão de notícias e imagens vindas do conflito é questionada, mesmo se sabendo das manipulações típicas e até compreensíveis destas situações, para todos os lados envolvidos. As imagens transmitidas da faixa de Gaza são, por exemplo, sem exceção, geradas ou liberadas pela TV Al-Aksa, pertencente ao Hamas. Os repórteres e jornalistas que lá se encontram não podem fazer entrevistas sem a presença de um militante ou tradutor da organização fundamentalista, sob o perigo de suspeita de colaboracionismo, cujo preço pode ser a própria vida. Este perigo não ocorre com os profissionais que trabalham no lado de Israel, mas eles são da mesma forma impedidos de se locomover livremente na área do conflito. Motivos suficientes para se analisar de forma crítica o noticiário.

O pior, contudo, é ignorar o fundo político desta guerra e com um vigor nunca visto em situações recentes e semelhantes, usar gratuitamente termos como genocídio e Holocausto, sem o mínimo respeito às reais vítimas destas tragédias. A exterminação industrial, sistemática e racista de milhares e milhões de seres humanos, como ocorreu com os judeus na Segunda Guerra Mundial, mais recentemente na África e na península Balcânica, pode mesmo, com seriedade, ser comparada com o que vem ocorrendo nas últimas semanas no Oriente Médio?

Intimidando qualquer voz de prudência, até mesmo facções e grupos, inclusive partidos historicamente de esquerda, aliam-se ao Hamas, Hizbollah e suas reinvindicações, que contém entre elas o fim do Estado de Israel, ao invés de reunir os esforços para uma solução pacífica e definitiva na região. Esta aliança contraditória e suicida poderia ser comparada, em uma circunstância hipotética, com as organizações brasileiras de oposição à ditadura militar, nos anos 70, marchando ombro a ombro com a TFP, a ultraconservadora organização “Tradição, Familia e Propriedade”.


Lembrar velhas lições

Grave igualmente, deixando de lado os mais básicos princípios, a esquerda abraçou a causa política mais dogmática, fundamentalista e reacionária dos tempos atuais, sem apurar o sentido crítico ou analisar que a comunidade internacional praticamente ignorou e deu as costas aos problemas da região e, onde não ignorou, só contribuiu para agravar a situação, vide Iraque e Afeganistão.

Israel vem há anos pedindo socorro e lutando contra a avalanche radical que tem ódio a tudo que cheire a Ocidente, negando qualquer direito que não esteja baseado nas sharias ou no corão. O azar de Israel é justamente ser o vizinho geográfico mais próximo, senão as bombas e mísseis destes últimos sete anos poderiam estar caindo diante de nossas portas. Esqueceu-se ainda que o direito de existir do Estado israelense é soberano e foi uma decisão desta mesma comunidade internacional que há anos faz vista grossa para os problemas. E se continua esquecendo que, sem reconhecer o direito de existir de Israel, não haverá paz jamais.

Parece que uma parte do mundo vive uma fase de fazer questão de ser enganada, possivelmente por ser mais cômodo. A esquerda, especialmente, parece ter mesmo é esquecido de si própria. Quem, entre bombas e tiros, der uma caminhada pelas ruas de Israel ou faixa de Gaza, irá entender que as velhas bandeiras políticas não mudaram e continuam válidas. A esquerda sem-muro poderia combater sua crise de identidade dando uma relida nas mais elementares lições de suas cartilhas. Assim saberia lidar com as atuais crises politica e econômica. Com relação ao Oriente Médio, a cartilha ensina a mais básica lição do aprendizado. Simples e categórica: Paz, Pão e Trabalho.

*Toni Bulhões é editor do site Abknet

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